
Representação
do Cão Maior superimposta ao mapa Stellarium. Sírius
é a estrela mais brilhante do céu.
(...) Pouco depois, ei-la que aporta
em portentosa esfera, inconfundível em magnificência
e grandeza. O espetáculo maravilhoso de suas perspectivas
excedia a tudo que pudesse caracterizar a beleza no sentido humano.
A sagrada visão do conjunto permanecia muito além
da famosa cidade dos santos, idealizada pelos pensadores do Cristianismo.
Três sóis rutilantes despejavam no solo arminhoso
oceanos de luz mirífica, em cambiâncias inéditas,
como lampadários celestes acesos para edênico festim
de gênios imortais. (...) Ao crepúsculo, quando se
despediam no espaço os raios dos três sóis
diferentes, em deslumbramento de cores, Alcione reuniu-se a numeroso
grupo de amigos e orou com fervor, suplicando as bênçãos
do Pai misericordioso. O firmamento enchia-se de claridades policrômicas
e deslumbrantes. Satélites de prodigiosa beleza começavam
a surgir na imensidade, envolvendo a paisagem divina num oceano
de luz.
Emmanuel, "Renúncia",
ver 1
É comum encontrar descrições
de sistemas astronômicos em mensagens mediúnicas. Camille
Flammarion, por exemplo, descreve um relato de A. Aksakof de que
um médium teria feito revelações em 1859 sobre
a existência de dois satélites em Marte [2],
18 anos antes da descoberta. Outros exemplos de descrições
já foram abordadas neste blog [3].
Diante das dificuldades em se confirmar tais previsões, ressaltamos
a cautela que devemos ter na sua interpretação. Isso
porque o contexto ou ambiente não é aquele dos olhos
terrenos, mas a impressão dos Espíritos. Muitas vezes,
a descrição é embelezada pelo lirismo que o
autor espiritual, pelo filtro mediúnico, pretende conferir
às palavras, o que pode não corresponder exatamente
à intenção do autor. De qualquer forma, teoricamente,
os Espíritos (superiores) podem produzir descrições
de objetos ainda inacessíveis a observatórios terrestres.
Tal é o caso da descrição que abre este post.
Foi colhida do livro Renúncia e
antecede o Capítulo II, que, como narrativa, tem seu início
no ano de 1662. O autor espiritual, Emmanuel, conhecido guia de
F. C. Xavier descreve o sistema estelar de Sírius ou a "estrela
do cão" (ou a Canis Majoris) como é
conhecida na Terra. Os personagens principais de Renúncia
são Pólux e Alcíone. Alcíone, um Espírito
superior habitante do sistema de Sírius, visita alguma região
inferior do Plano Espiritual para consolar e advertir um outro espírito
(Pólux) a quem ela está ligada por laços afetivos.
Uma vez que Pólux estava em um plano de vida inferior, não
percebe a aproximação de Alcíone. Pólux,
com intensas saudades dela, começa a orar e pede que seja
concedida a oportunidade de se encontrar e ouvir Alcíone.
Depois de confortar e orientar Pólux, Alcíone retorna
ao sistema de Sírius. Tal como no caso relatado em [3],
trata-se de uma descrição do Mundo Espiritual.
A evolução de nosso conhecimento
sobre Sírius
Até 1846, o nosso Sistema
Solar somente ia até Urano. Nesse ano (1846), foi descoberto
Netuno [4]. Plutão não era conhecido até 1930.
Em 1992, um corpo foi o primeiro objeto
transnetuniano descoberto depois de Plutão.
Sem falar de novidades da sonda espacial New Horizons,
em 2015. Então, usando de uma expressão coloquial,
“se dentro do nosso quintal" ainda estamos detectando
novos corpos, imaginemos no Sistema de Sírius, distante 8
anos-luz da Terra?
Novidades, de fato, vieram com o desenvolvimento de inúmeras
técnicas mais recentes de detecção de planetas
em outros sistemas estelares, a partir de uma primeira descoberta
de um planeta a orbitar uma estrela da sequência principal,
feita em 1995 [5]. Essa técnica
tornou-se quase que uma área independente na Astronomia [6].
Hoje contamos com uma coleção de muitos exoplanetas
conhecidos[7].
Há diversos trabalhos acadêmicos que propõem
o caráter triplo de Sírius [8,9]. A estrela principal
(chamada Sírius A) foi descrita como contendo uma companheira
- claramente visível em telescópios, mesmo que amadores
- chamada 'Sírius B'. A descoberta de Sírius
B ocorreu em 1862 e foi realizada pelo fabricante de telescópios
Alvan Clark e seu filho. Essa companheira é uma estrela muito
pequena (do tipo 'anã branca') e orbita a principal com período
de aproximadamente 50 anos. De fato, Sírius B é descrita
como a mais brilhante anã-branca visivel. Ao longo do tempo
reportaram-se irregularidades no movimento de Sírius B que
foram creditados à existência de um terceiro corpo.
Parece que tal corpo, em alguma época anterior foi observado,
mas não conclusivamente descoberto.

Concepção artística moderna
de um planeta em um sistema estelar triplo
Em artigo recente [9],
os autores discutem a possibilidade de observação
desse terceiro corpo com base em medidas tomadas com o telescópio
espacial Hubble. Uma conclusão preliminar (não
inteiramente absoluta) descarta tal corpo dentro de um intervalo
de massa específico. Esse descarte, é importante ressaltar,
é feito para um intervalo de massa, o que implica que, corpos
com pequena massa (ainda que emitindo luz, tal como as 'anãs
marrons') poderiam existir. É importante lembrar que, dado
o brilho intenso de Sírius A, a observação
do sistema inteiro, inclusive um terceiro corpo, é bastante
difícil.
Uma 'anã marrom' é uma estrela de pequena massa que
emite pouca luz visível e uma quantidade muito grande de
infravermelho. Aos olhos humanos, uma anã marrom, se existir
no sistema de Sírius, seria observada como uma estrela de
cor magenta, desde que o observador estivesse bem próximo
do sistema. O céu de um planeta que orbitasse uma das estrelas
do sistema de Sírius, seria composto de três sois:
Sírius A (o principal que dominaria o brilho do céu),
Sírius B (a anã branca, menos luminosa e branca) e
o ainda-a-ser-descoberto Sírius C de cor rosa-avermelhada,
consideravelmente menos brilhante. O brilho relativo dessas
estrela como visto desde o planeta dependeria da sua posição
nesse no sistema triplo.
É interessante considerar que apenas recentemente as anãs-marrons
foram propostas e descobertas como objetos que preenchem a lacuna
entre as estrelas e os grandes planetas como Júpiter. Uma
anã-marrom pode produzir luz por fusão de Deutério
[16]. Entretanto, o pico de sua emissão
de energia está no infravermelho que, como radiação
eletromagnética, pode ser aparente aos Espíritos como
luz.
Entretanto, a observação de um corpo desse tipo, desde
a Terra, seria muito difícil, dada a distância e sua
pequena luminosidade. A linha de investigação de um
terceiro corpo ao redor de Sirius B é promissora, no sentido
de que se prevê que o excesso de infravermelho observado com
estrelas anãs-brancas seja explicável [10,11]
como produzido por uma companheira muito mais débil como
uma anã-marrom ou por um disco de poeira. Um trabalho científico
de 2008 (ver [12]) parece ter detectado
um excesso de infravermelho ao redor de Sírius B que pode
ser interpretado como evidência da existência de uma
companheira no limite inferior de estrelas do tipo 'anãs-marrons'.
Em [9] é discutido, no limite
de erro do Hubble, que uma estrela desse tipo poderia existir de
forma estável tanto ao redor de Sírius A como de Sírius
B. Não se esgotam em [9] outras
possibilidades de órbitas estáveis, já que
esse trabalho seguiu uma linha particular de investigação
no sistema restrito de três corpos.
A narrativa dos Dogons
Ainda sobre Sírius, é preciso citar
ao menos de passagem o trabalho feito pelo africanista Marcel Griaule
(1893-1956) junto ao grupo étnico dos Dogons e publicado
em 1950 [12b] em parceria com G. Diertelen. Segundo Griaule, esse
povo teria cultuado Sírius e conhecido seu caráter
triplo, mesmo sem contar com telescópios. O conhecimento
avançado dos Dogons sobre Sírius seria um importante
ingrediente da religão desse povo. A referência [12b]
é uma descrição pormenorizada da crença
Dogon sobre Sírius feita por esses pesquisadores.
O trabalho de Griaule alimentou especulações mais
recentes, como as do livro de R. Temple "O Mistério
de Sírius" [13], que
creditou o conhecimento dos Dogons a avançadas raças
alienígenas provenientes de Sírius (consoante a tese
dos 'deuses astronautas' de von Däniken). Toda essa história
serviu para fomentar um intenso debate entre ufologistas e céticos
(inclusive com contribuições por Carl Sagan) que,
no afã de desqualificar a tese ufológica, lançaram
dúvidas sobre todo o trabalho de Griaule.
De acordo com recentes reinterpretações [14,15],
Griaule teria na verdade tomado de forma exagerada descrições
passadas aos Dogons por meio de europeus ainda no Século
XIX ou depois, dado o conhecimento do pesquisador em astronomia.
De fato, edições posteriores do livro de Temple afirmam
que Sírius C teria sido descoberta em 1995 e citam o trabalho
de Benest e Duvent [8] que é,
na verdade, um estudo teórico. Entretanto, a descrição
cética do trabalho de Griaule-Diertelen pode ser uma 'conspiração'
para desqualificar esses pesquisadores. Infelizmente para nós
não é possível lançar dúvidas
no trabalho do africanista Griaule (e Diertelen). Apenas registramos
que invenção de fatos pode existir em ambos os lados
do debate.
Conclusão
É possível que a busca
por uma terceira componente em Sírius tenha sido sugerida
aos astrônomos pelos estudos de Griaule e a controvérsia
com os céticos. Por outro lado, hoje (em 2020) ainda não
é possível afirmar que um terceiro corpo com luz própria
orbite o sistema duplo Sirius A-B. Com o avanço das técnicas
de medida, a situação pode mudar radicalmente. Esse
mesmo avanço na técnica permitiu concluir que uma
provável Sírius C como previsto por Benest e Duvent
[8] (que orbitaria Sírius A a cada 6 anos) não deve
existir, deixando abertas outras possibilidades.
A narrativa de Emmanuel oferece uma segunda opção
de informação que pode gerar futuras buscas. Seria
possível refinar estudos em astrodinâmica e propor
novas possíveis órbitas que estão fora dos
limites de massa deduzidos por estudos recentes? Seria possível
confirmar que o excesso de infravermelho na luz de Sírius
B se deve a uma companheira minúscula? Quais são as
regiões do sistema Sírius A-B em que um terceiro corpo
inacessível à óptica do Hubble pudesse ser
encontrado?
Este post sugere que uma possível Sírius C seria uma
"anã-marrom" como são conhecidas estrelas
de massa reduzida. Foi uma descoberta relativamente recente que
tais objetos podem produzir luz própria pela fusão
de Deutério [16].
Colaboração
Texto escrito em colaboração com Maurício
Brito que sugeriu o tema e chamou a atenção para a controvérsia
dos Dogons.
Mauricio Brito: Jornalista - Bacharel em Comunicações
Sociais, espírita atuante na Comunhão Espírita
de Brasília e Centro Espírita da Fraternidade Cícero
Pereira-CECIPE, ambos em Brasília/DF. Aposentado do Instituto
de Pesquisa Econômica e Aplicada/IPEA - Brasília/DF.
email: mauriciobrit@gmail.com
Referências
[1] F. C. Xavier. Renúncia - História
real. Século de Luís XIV. Em França, Espanha,
Irlanda e Américas. Heroísmo e Martírio de Alcíone.
Cap. I, "Sacrifícios do Amor", p. 25, Ed. FEB. 27a
Ed. (1944)
[2] C. Flammarion. Mysterious Psychic Forces: An Account of the
Author's Investigations in Psychical Research, Together with Those
of Other European Savants. Small, Maynard and Company (1907).
[3] Paisagem
de Marte (sobre a visita a Marte em "Cartas de uma Morta")
[4] Smart, W. M. (1947). John Couch Adams and the
discovery of Neptune. Popular Astronomy, 55, 301. http://adsabs.harvard.edu/full/1947PA.....55..301S
[5] Discovery of Exoplanets. Wikipedia. Acesso em
Fevereiro de 2020.
[6] Perryman, M. (2012). The history of exoplanet
detection. Astrobiology, 12(10), 928-939.
[7] A
questão da encarnação em diferentes mundos: um
novo tipo de matéria?
[8] Benest, D., & Duvent, J. L. (1995). Is Sirius
a triple star?. Astronomy and astrophysics, 299, 621. Ver http://articles.adsabs.harvard.edu//full/1995A%26A...299..621B/0000621.000.html
[9] Bond, H. E., Schaefer, G. H., Gilliland, R. L.,
Holberg, J. B., Mason, B. D., Lindenblad, I. W., ... & Young,
P. A. (2017). The Sirius system and its astrophysical puzzles: Hubble
Space Telescope and ground-based astrometry. The Astrophysical Journal,
840(2), 70. Ver: https://iopscience.iop.org/article/10.3847/1538-4357/aa6af8/pdf
[10] Zuckerman, B., & Becklin, E. E. (1992).
Companions to white dwarfs: very low-mass stars and the brown dwarf
candidate GD 165B. The Astrophysical Journal, 386, 260-264. Ver: http://adsabs.harvard.edu/full/1992ApJ...386..260Z
[11] Farihi, J., Becklin, E. E., & Zuckerman,
B. (2005). Low-luminosity companions to white dwarfs. The Astrophysical
Journal Supplement Series, 161(2), 394. Ver: https://iopscience.iop.org/article/10.1086/444362/pdf
[12] Bonnet-Bidaud, J. M., & Pantin, E. (2008).
ADONIS high contrast infrared imaging of Sirius-B. Astronomy &
Astrophysics, 489(2), 651-655.Bonnet-Bidaud, J. M., & Pantin,
E. (2008). ADONIS high contrast infrared imaging of Sirius-B. Astronomy
& Astrophysics, 489(2), 651-655. Ver: https://www.aanda.org/articles/aa/abs/2008/38/aa8937-07/aa8937-07.html
[12b] Griaule, M. and G. Dieterlen (1950). "Un
systeme soudanais de Sirius," Journal de la Societe des Africanistes
20: 273-294. Ver: https://www.persee.fr/doc/jafr_0037-9166_1950_num_20_2_2611
Sobre o 'Enigma de Sírius', um vídeo
recente pode ser acessado aqui: https://www.youtube.com/watch?v=nTDSt9niRfI
(Acesso em fevereiro de 2020).
[13] Temple, R. (1976). O mistério de Sirius.
Madras, 2005. Trad. S. Maria Spada.
[14] Coppens, P. (2020). Dogon shame. Ver: https://www.eyeofthepsychic.com/dogonshame/
[15] de Montellano, B. R. O . The Dogons Revisited.
http://www.ramtops.co.uk/dogon.html
[16] LeBlanc, F. (2010). An Introduction to Stellar
Astrophysics. United Kingdom: John Wiley & Sons.