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VIII - Alfred Wegener e a fraude dos continentes flutuantes
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Ademir
L. Xavier Jr. > Crenças Céticas
VIII - Alfred Wegener e a fraude dos continentes flutuantes
Alfred Wegener
O "impossível" é
geralmente fixado por nossas teorias, não definido
pela Natureza. Teorias revolucionárias habitam no inesperado.
(...) À medida
que a ortodoxia Darwinista varria a Europa, seu mais brilhante
oponente, o embriologista já velhinho Karl Ernst von
Baer disse com amarga ironia que toda teoria triunfante passa
por três estágios: primeiro ela é descartada
como uma inverdade, então é rejeitada como contrária
à Religião e, finalmente, é aceita como
dogma e todos os cientistas dizem que sempre lhe apreciaram
a verdade. Stephen J. Gould ("Ever since Darwin",
Penguin books, 1991)
Continentes que flutuam como barcos no oceano?
Então, o solo que pisamos não se mostra firme, robusto,
desde a criação da Terra? Talvez a imensa maioria
das pessoas não saiba, mas o chão que nós pisamos
todos os dias, sobre o qual dirigimos nossos carros ou praticamos
esportes está em movimento. Quando criança, me diverti
ao constatar, olhando os mapas das aulas de geografia, que a costa
oriental da América do Sul encaixava-se, como se fosse um
quebra-cabeça, com a costa ocidental da África. Na
minha falta de compreensão, achava que isso seria mera coincidência,
mas ignorava totalmente como isso poder ter acontecido.
Essa observação infantil talvez não tenha passado
em vão aos primeiros cartógrafos que, da mesma forma
que eu, não conseguiram imaginar uma causa simples para semelhante
'coincidência'.
De qualquer maneira, a ideia de
que os continentes flutuam sempre foi considerada uma heresia científica
ou, usando termo mais moderno dos céticos, uma 'pseudociência'.
Evidências alinhadas por seu grande proponente, Alfred Wegener
(1880-1930), foram completamente desprezadas e ridicularizadas como
erros, incongruências de alguém que, não sendo
geólogo, jamais poderia se aventurar em tal campo. Avaliar
e estudar a saga de Wegener na defesa da teoria dos continentes
flutuantes oferece ao estudioso uma oportunidade para compreender
a maneira como a ciência é fabricada e as consequências
do ceticismo no seu desenvolvimento.
Diz-se que o ceticismo é importante nas ciências. Ele
teve um impacto relativamente profundo na história de nosso
herói: Alfred Wegener. Ninguém melhor que o paleontólogo
e biólogo evolucionista S. J. Gould (1941-2002) para nos
contar essa história, que fala tanto das certezas como das
dúvidas no processo de fabricação do conhecimento.
O texto abaixo (em destaque abaixo)
é uma tradução nossa de trechos do Cap. 10,
Continental Drift, de 'Even Since Darwin' (Penguin books,
1991):
Por que tal profunda mudança
(no pensamento científico) teria ocorrido em tão
curto espaço de tempo como em uma década? (Referindo-se à mudança no
opinião dos cientistas sobre a teoria de Wegener)
Muitos cientistas sustentam -
ou ao menos argumentam opinião para o público -
que sua profissão marcha para a verdade sob a orientação
de um procedimento infalível chamado 'método científico'.
Se isso fosse verdade, minha questão teria fácil
resposta. Os fatos, tais como se apresentavam 10 anos atrás,
falavam contra o deslocamento dos continentes; desde então,
aprendemos mais e revisamos nossa opinião de acordo com
tal aprendizado. Argumentarei que tal cenário não
pode ser aplicado de forma geral e é profundamente impreciso
nesse caso. (...)
Considero essa estória como típica do progresso
científico. Novos fatos, colecionados de forma antiga sob
a orientação de velhas teorias raramente resultam
em qualquer revisão substancial do pensamento. Fatos "não
falam por si mesmos"; são interpretados à luz
da teoria. O pensamento criativo, tanto nas ciências como
nas artes, é o motor da mudança de opinião.
A Ciência é uma atividade quintessencialmente humana,
não é algo mecânico, uma acumulação
robótica de informação objetiva, guiada por
leis de lógica para uma interpretação inescapável.
Duas são as fortes evidências
a respeito da deriva dos continentes, que eram 'varridas para baixo
do tapete' quando a teoria de Wegener era herética:
1. A glaciação
no Paleozóico tardio. Cerca de 240 milhões de anos
atrás, geleiras cobriam partes do que é agora a
América do Sul, Antártida, Índia, África
e Austrália. Se os continentes fossem fixos, tal ocorrência
torna difícil explicar certos fatos. (...). Todas essas
dificuldades evaporavam se os continentes austrais (incluindo
a Índia) estivessem unidos durante o grande período
de glaciação, e localizados mais abaixo, cobrindo
o polo sul; as geleiras sul americanas moveram-se da África,
não de um oceano aberto; a África 'tropical' e a
Índia 'Semitropical' estavam próximas do polo sul;
o pólo Norte localizava-se no meio de um grande oceano,
de forma que geleiras não poderiam ter se produzido no
polo norte;
2. A distribuição
de trilobitas cambrianos (artrópodes fósseis que
viviam entre 500 a 600 milhões de anos atrás). Os
trilobitas cambrianos da Europa e da América do Norte dividiam-se
em duas faunas diferentes com uma distribuição bem
peculiar nos mapas modernos. Trilobitas da província 'Atlântica'
viviam por toda a Europa e em algumas áreas da costa mais
oriental da América do Norte - (oriental e não ocidental).
Newfoundland e o sudoeste de Massachusetts, por exemplo. Trilobitas
da província 'Pacífica' viviam por toda a América
e em alguns locais da costa ocidental da Europa - norte da Escócia
e o noroeste da Noruega, por exemplo. É muito difícil
dar conta dessa distribuição se os dois continentes
estivessem distantes 3000 milhas um do outro.
Mas a deriva dos continentes
sugere uma estranha solução. Em épocas Cambrianas,
a Europa e a América do Norte estavam separadas: trilobitas
atlânticos viviam em águas pela Europa; trilobitas
pacíficos em águas na América. Os continentes
(agora incluindo sedimentos com trilobitas encrustados) moveram-se
um na direção do outro até se juntarem. Mais
tarde, se separaram novamente, mas não exatamente ao longo
da linha de onde haviam se juntado. Restos espalhados da Europa
antiga, contendo trilobitas atlânticos permaneceram na parte
mais oriental da América do Norte, enquanto que algumas
restos da velha América do Norte ficaram grudados na parte
mais ocidental da Europa.
Em apenas alguns segundos, assista milhões
de anos de deslocamentos nunca antes imaginados pelas gerações
anteriores.
Tais exemplos são citados como "provas"
da deriva hoje, mas eram sumariamente rejeitados nos anos anteriores,
não porque os dados fossem menos completos do que hoje,
mas porque ninguém imaginava um mecanismo que fizesse mover
os continentes.
(...) Na verdade, a superfície da Terra parece estar dividida
em menos de uma dezena de "placas" maiores, limitadas
em ambos os lados por zonas de criação e destruição.
Os continentes estão congelados entre tais placas movendo-se
com elas à medida que o solo oceânico se afasta de
zonas de criação. A deriva dos continentes não
é mais orgulhosa de si, ela se tornou conseqüência
passiva de nossa nova ortodoxia - a tectônica de placas.
Entretanto, até ganhar o status de ortodoxia, a teoria de
Wegener sofreu o escárnio e a desconsideração.
Ela hoje nos apresenta como um exemplo vivo que se contrapõe
a qualquer tentativa de estabelecer métodos rígidos
na pesquisa científica e de que a Natureza não revela
tão facilmente seus mais profundos segredos. Considerado
como uma fraude, seu proponente não viu em vida sua aceitação
pela comunidade científica, mas morreu acreditando nela e
que, dentro em breve, todos haveriam de considerá-la seriamente.