Um tema que passa muitas vezes despercebido
nas discussões céticas versa sobre as consequências
de longo prazo da postura cética em relação
aos fenômenos psíquicos e, porque não, com outras
ocorrências anômalas que sabemos existir no mundo. De
forma mais geral, quais são as consequências práticas
do ceticismo, se principalmente dogmático, para o avanço
do conhecimento humano? Será que ele é capaz de produzir
algo útil, além de mais adeptos a sua escola?
Se tivéssemos que investir tempo e recursos para a pesquisa
de novos fenômenos, de novas realidades além do que
conhecemos de forma ordinária, no que investiríamos:
numa postura que aceita a realidade deles ou que os nega de forma
peremptória? Qual dessas posturas será capaz de fazer
nosso conhecimento avançar com relação a esses
fenômenos? Podemos também encarar essa última
questão como a proposta para uma competição:
daqui para frente veremos quem consegue, seguindo cada qual sua
maneira de encarar as coisas, realmente produzir algo útil.
Porque conhecimento só tem valor se for útil
Não há nenhuma dúvida
de que a ciência moderna só conseguiu chegar no ponto
de desenvolvimento presente porque ela se constituiu em um método
capaz de gerar conhecimento útil. Hoje, o desenvolvimento
científico só acontece a partir de uma decisão
de investimento. Depois de uma descoberta científica, qualquer
que seja ela, a pergunta crucial é: ok, o que podemos fazer
de bom com isso? Qualquer fundo privado, por exemplo, somente irá
investir em ideias que se possam mensurar em termos de retorno financeiro,
desde que produzam algo que tem valor para alguém, algo que
pode ser "comercializado". Isso se torna ainda mais forte
em períodos de crise econômica e aversão ao
risco.
Alguns analistas erroneamente consideram que a tecnologia moderna
é fruto de uma ciência cética e materialista.
Isso está longe de ser verdade. O desenvolvimento tecnológico
é fruto da ciência aplicada e de decisões de
investimento calcadas em análises de mercado onde o objetivo
é certamente o lucro financeiro. Empresas organizam suas
atividades de "P&D" (pesquisa e desenvolvimento) de
forma a maximizar o retorno de capital em projetos de pesquisa que
tragam claramente vantagens de crescimento para a empresa. Portanto,
aquilo que se oferta em tecnologia depende da existência de
claras oportunidades de mercado. A existência de mercados
para determinados produtos tecnológicos, impulsiona o desenvolvimento
da ciência aplicada em um ciclo virtuoso, mas que eventualmente
tem o seu fim com a descoberta ou desenvolvimento de novas tecnologias.
Desta forma, grande parte do avanço tecnológico moderno
está sendo feito a partir de pesquisas aplicadas dentro de
corporações privadas, onde o conhecimento gerado dificilmente
se torna público. Assim, há uma grande quantidade
de conhecimento genuíno e útil fora do ambiente acadêmico,
o que torna difícil defender o ponto de vista limitado de
que avanços tecnológicos foram frutos de pesquisas
acadêmicas tão somente. Esta última é,
majoritariamente, apoiada por recursos estatais, onde as decisões
de investimento são tomadas a partir de outros critérios
(por exemplo, acadêmicos) que não o da utilidade pública
ou do mercado.

Por que essa discussão é importante? Em um sentido
mais amplo, nossa postura sobre o mundo também pode ser vista
como uma decisão de investimento. Essa é, por si só,
uma maneira pragmática de se decidir no que acreditar. Trata-se
de se escolher aquela postura que fará o conhecimento não
somente crescer, mas produzir algo prático à sociedade.
Por 'conhecimento útil' entendemos assim o conhecimento que
seja capaz de:
- Gerar mais conhecimento que, por sua vez, também deve
ser útil a alguém;
- Gerar métodos ou procedimentos capazes de melhorar a
vida das pessoas.
Historicamente, céticos (um exemplo é Carl
Sagan) tem se colocado contra o estudo da fenomenologia psíquica
por entenderem que ele deriva de uma maneira arcaica de ver o mundo.
Muitos céticos extremados acreditam-se investidos da função
de críticos contrários a essa visão arcaica
e irracional que estaria ameaçando nossa sociedade. Criaram
um duelo fictício entre uma sociedade tecnologicamente avançada
e outra que se torna marginalizada por conta na crença na
existência de fatos e coisas que eles consideram sem fundamento.
A utilidade, assim, desse ceticismo, seria livrar a sociedade moderna
do 'perigo de se retornar à idade das trevas', que se constitui,
claramente, numa crença sem fundamento e até mesmo
ingênua. Outros céticos temem, na verdade, que recursos
financeiros sejam desviados de seus temas preferidos de pesquisa
e conhecimento.
Uma busca minuciosa por uma aplicação prática
desse tipo de ceticismo dificilmente resultará em algo além
da proposição 'livrar as pessoas da ignorância,
evitar com que a sociedade caia de novo nas trevas, evitar que sejamos
enganados' e coisas desse tipo. O medo maior de todo cético
extremado é 'ser enganado', esquecendo-se que ele se engana
a si mesmo.
O ceticismo exagerado é, pois, uma postura infértil,
incapaz de gerar conhecimento útil e que só serve
para cumprir determinados propósitos fechados em si mesmo.
Do que a história do ceticismo
está cheia.
Alfred R. Wallace (1) descreve num
relato breve o maior papel desempenhado pelo ceticismo na história
do desenvolvimento tecnológico e científico moderno.
É possível assim traçar, na história
da Ciência, o verdadeiro papel desempenhado por essa maneira
peculiar de ver o mundo.
"Não é necessário
mais do que referir-se aos nomes universalmente conhecidos de
Copérnico, Galileu e Harvey. As grandes descobertas que
fizeram, como sabemos, foram violentamente combatidas por todos
os seus contemporâneos do meio científico, para quem
elas pareceram absurdas e inacreditáveis; mas nós
temos exemplos igualmente contundentes muito mais próximos
aos nossos dias. Quando Benjamin Franklin trouxe o assunto dos
condutores de raios ante a Sociedade Real, ele foi ridicularizado
como se fosse um sonhador, e seu artigo não foi aceito
para a revista Philosophical Transactions. Quando Young propôs
suas provas maravilhosas da teoria ondulatória da luz,
ele foi igualmente vaiado como absurdo pelos populares escritores
científicos de sua época [1]. A
revista Edimburg Review exortou o público a colocar Thomas
Gray “em saia justa” por sustentar a praticabilidade
das estradas de ferro. Sir Humphrey Davy riu da ideia de Londres
ser sempre iluminada com gás. Quando Stephenson propôs
empregar locomotivas nas estradas de ferro de Liverpool e Manchester,
os homens instruídos colocaram em evidência a impossibilidade
de se locomover a doze milhas por hora. Outra grande autoridade
científica declarou ser igualmente impossível navios
a vapor oceânicos cruzarem o Atlântico. A Academia
Francesa de Ciências ridicularizou o grande astrônomo
Arago quando ele desejou discutir sobre o assunto do telégrafo
elétrico. Médicos ridicularizaram o estetoscópio
quando ele foi descoberto. Operações sem dor durante
o transe mesmérico foram consideradas impossíveis,
e depois imposturas.
Mas um dos mais formidáveis, por se tratar de um dos mais
recentes casos de oposição, ou pelo menos descrença
em fatos que se opunham à crença corrente de sua
época, entre homens que estão geralmente encarregados
de ir mais distante na outra direção, é o
da doutrina da “Antiguidade do Homem”. Boué,
um experiente geólogo francês, em 1823 descobriu
um esqueleto humano a oitenta pés de profundidade no loess
ou lodo endurecido do rio Reno. Foi enviado para o grande anatomista
Cuvier, que desacreditou completamente do fato. Ele considerou
este fóssil como sem valor, como se fosse inútil,
e o perdeu. Sir C. Lyell, a partir de uma pesquisa pessoal no
local, agora acredita que as afirmações do observador
original eram bastante precisas. Nos idos de 1715, armas de pedra
foram encontradas com o esqueleto de um elefante em uma escavação
em Inn Lane, na região de Gray, na presença do Sr.
Conyers, que as colocou no Museu Britânico, onde elas permaneceram
completamente sem notícia até muito recentemente.
Em 1800, o Sr. Frere encontrou armas de pedra juntamente com os
restos de animais extintos em Hoxne, Suffolk. De 1841 a 1846,
o célebre geólogo francês Boucher de Perthes
descobriu grandes quantidades de armas de pedra nos aluviões
de cascalho do norte da França; mas por muitos anos ele
não conseguiu convencer nenhum de seus colegas, homens
de ciência, que se tratava de trabalhos de arte, nem mereceu
a mais leve atenção. Por fim, contudo, em 1853 ele
começou a fazer adeptos. Em 1859-60 alguns de nossos mais
eminentes geólogos visitaram o local, e confirmaram totalmente
a veracidade de suas observações e deduções.
Outro ponto neste assunto foi tratado de forma ainda pior, se
for possível. Em 1825, o Sr. Mc Enery, de Torquay, descobriu
pedras trabalhadas junto aos restos de animais extintos na célebre
caverna King's Hole; mas o relato de suas descobertas foi simplesmente
ironizado. Em 1840, um de nossos primeiros geólogos, o
falecido Sr. Godwin Austen, trouxe este assunto à Sociedade
Geológica, e o Sr. Vivian, de Torquay, enviou um artigo
confirmando completamente as descobertas do Sr. McEnery; mas ele
foi considerado muito improvável para ser publicado. Quatorze
anos depois, a Sociedade de História Natural de Torquay
fez observações posteriores, confirmando inteiramente
as anteriores, e enviou um relato delas para a Sociedade Geológica
de Londres; mas o artigo também foi rejeitado, considerado
muito improvável para publicação. Agora,
contudo, a caverna foi sistematicamente explorada sob a superintendência
de um comitê da Associação Britânica,
e todos os relatórios anteriores enviados durante quarenta
anos foram confirmados, e foi mostrado serem ainda menos maravilhosos
que a realidade. Deve ser dito que “este era um cuidado
próprio da ciência”. Talvez fosse; mas todos
esses eventos provam este importante fato: que neste, assim como
em todos os outros casos, os humildes e frequentemente desconhecidos
observadores estavam certos; os homens de ciência que rejeitaram
suas observações estavam errados.
Agora, são os observadores modernos de alguns fenômenos,
usualmente denominados sobrenaturais e inacreditáveis,
menos dignos de atenção que os outros já
citados?"
Os que tem interesse em procurar a verdade, devem se perguntar sempre
sobre o melhor caminho a seguir quando se trata de gerar conhecimento
genuíno a respeito de fenômenos e ocorrências
naturais. Devem também se questionar sobre a utilidade do
que acreditam. A insistência em permanecer na defesa de ideias
e posturas inférteis pode representar uma perda de tempo
inestimável.