Em algum lugar da Europa, antes do
final do primeiro quartel do Século 17, um cético
empedernido escreve uma carta a um amigo distante...
"Ouvi
dizer que em Roma, certo professor de nome Galileu Galilei afronta
a verdade ao pretender mostrar que não é o Sol que
gira em torno da Terra, mas o contrário, defendendo a ideia
de Copérnico, o idiota que quer reformar toda a astronomia
(1).
Galileu Galilei utilizou um tubo 'mágico'
(só Deus sabe por quais artimanhas do demônio...)
feito por arte trazida de um holandês, que é capaz
de amplificar, diz ele, imagens de marinheiros em mastros de navios
distantes. Comenta-se que as imagens são por demais toscas
para não criar a impressão de que o o tubo introduz
ilusões aos órgãos da vista (2),
ao ponto de não serem críveis as descrições
que esse professor fez de suas observações do céu.
Além disso, é fato provado
que Galileu fez pequena fortuna com tal tubo (3)
vendendo a vários mercadores venezianos
e de outras regiões e, agora mesmo, pretende que o exército
o compre para suas campanhas militares, uma prova de sua astúcia
e falta de decoro.
Numa noite, resolveu apontar o tal tubo para a lua e descreve
supostas crateras, como se a Lua não fosse uma esfera perfeita,
mas quer convencer a todos que ela é como a Terra, cheia
de planícies, mares e montanhas
(4).
Ao apontar
seu instrumento mágico para Júpiter, disse e quer
que todos acreditem ter visto esse planeta não como uma
estrela andarilha, como toda Humanidade sempre o viu (5),
mas como uma pequena esfera rodeada de pontos brilhantes que ele
afirma tratar-se de satélites. Esse professor chegou ao
ponto de sugerir que o tal astro é um mini sistema solar
que tem Júpiter como o maior corpo e que, portanto, o Sol
seria por comparação o centro de nosso Universo
e não a Terra. Esse professor afirma que isso não
prova ser o Sol o centro mas é uma forte evidência
a favor disso (6).
Pela feitiçaria de seu tubo mágico afirmou que Vênus
passa por fases e que seu tamanho varia junto com essas fases,
a ponto de acreditar ter provado que Vênus gira em torno
do Sol. Fez isso mesmo agora, quando todos os astrônomos
da Europa (7)
sabem que o sistema de Tycho Brahe resolve maravilhosamente o
problema, ao propor que os planetas internos - e externos - girem
ao redor do Sol que, por sua vez, gira em torno da Terra como
todos sabemos ser fato comprovado.
Ao observar Saturno, o planeta mais lento do céu, foi enganado
por sua própria artimanha, ao constatar que esse planeta
tem orelhas, e quer que todos acreditem nisso! (8)
Para o bem de todos, Galileu já começou a ser punido
por sua presunção posto que esse homem, já
meio velho, está ficando cego depois de ter apontado seu
tubo para o Sol. Mesmo diante da punição, descreve
que a superfície do Sol é repleta de manchas escuras
que se movem em sua superfície, outra farsa que ele inventou
para nos provocar (9).
Não existem evidências nem pelas santas escrituras
(que lhe é totalmente contrária), nem na comunidade
dos sábios que a Terra gire em torno do Sol (10).
Essa é questão já resolvida para todos, que
diariamente vêem o Sol se levantar a Leste e se por a Oeste
e que ficam a imaginar o que seria dos continentes e mares se
a Terra (11),
nem que fosse por alguns milésimos de palmo, se movesse
- haja vista os acontecimentos recentes de Terremotos no oriente
e no ocidente.
Sendo assim, Galileu Galilei trata-se da maior farsa já
perpetrada entre a comunidade dos astrônomos (12)
a suportar as idéias perigosas
de Copérnico. Ele é uma fraude que merece encarceramento
e processo inquisitorial, conforme o tribunal eclesiástico
já começou a estabelecer."
Analisando com cuidado os documentos da época e colocando-se
no papel daqueles que participaram da trama que levou ao julgamento
de Galileo bem como sua abjuração daquilo que havia
professado, vemos que se tratou de mais um caso onde as 'evidências'
não foram aceitos, antes renegados e considerados 'inconclusivos'
ou 'insuficientes' para mover o dedo das opiniões a favor
da mobilidade da Terra...
Na verdade, os críticos de Galileu na época estavam
em uma posição muito mais confortável do que
os pseudocéticos das anomalias que hoje se aquartelam exigindo
evidências. Mas, mesmo assim, eles estavam errados. Se não
vejamos:
(1)
Essa frase é atribuída a Martinho Lutero. O reformista
alemão obviamente sabia que a tese do movimento da Terra
contrariava a Bíblia. Para o pensamento medieval, tudo
estava muito bem do jeito que estava: a Bíblia (Velho Testamento)
concordava maravilhosamente bem com o pensamento cristão
dominante do homem no centro do Universo, feito 'a imagem e semelhança
de Deus' e tendo o céu como enfeite de suas noites. Copérnico
surge e diz o contrário. Portanto, Copérnico só
poderia ser um idiota ou estar a serviço de Satanás;
(2)
Aqui nosso crítico de Galileu tenta desqualificar a evidência.
'Não passa de uma ilusão dos sentidos'. Evidências
extraordinárias sempre foram tomadas como alucinações
ou fraudes, quando não se ajustam ao pensamento pseudocético.
Temos que salvar nosso crítico pseudocético aqui,
já que, na época de Galileu, a óptica sequer
conhecia as leis de refração da luz. Logo, não
é tão sem fundamento assim nos colocarmos na posição
do crítico de Galileu como acreditando que o telescópio
se tratava de um 'tubo mágico'.
(3)
Aqui nosso personagem desvia o objetivo de sua crítica
e sugere uma possível razão financeira por conta
dos atos de Galileu. Isso é bastante comum no ceticismo
dogmático, encontrar evidências ilícitas subjacentes
aos atos ou comportamento de pessoas ligadas aos fenômenos.
(4)
Nosso crítico simplesmente não aceita a evidência
do telescópio. A Lua, para ele, é uma esfera perfeita,
tal como a vista nos apresenta. Dizer que ela tem crateras e montanhas
- ou seja, sugerir que é um mundo como a Terra, é
querer contrariar a Bíblia também, afinal não
foi a lua uma luminária colocada por Deus no céu
para enfeitar a noite dos homens?
(5)
Nosso crítico recorre aqui à evidência dos
sentidos. Júpiter é uma estrela e não um
planeta!
(6) O
argumento de Galileu foi desqualificado totalmente por nosso crítico.
De fato, que adianta querer dizer que Júpiter, sendo o
astro maior no grupo formado por ele e seus satélites,
guarda a mesma posição do Sol em relação
à Terra? Argumento muito sofisticado para a mente do cético
dogmático.
(7)
O crítico tenta aqui recorrer à autoridade da Ciência
de sua época. Como vimos, a autoridade da Ciência
está baseada em outros pressupostos e não o da autoridade.
Mas, nessa época tanto quanto hoje, isso raramente é
compreendido;
(8) O
que Galileu viu apontando o telescópio para Saturno? A
figura abaixo é uma reprodução do desenho
original de Galileu:

Um 'planeta com orelhas'...
Por causa da baixa resolução
óptica de seu telescópio, Galileu não conseguiu
divisar os anéis tão conhecidos desse planeta hoje
em dia. Ao invés disso, essa 'evidência extraordinária'
corroborava a ideia de que, o que Galileu reportava não
passava, na verdade, de produto de uma ilusão produzida
por seu tubo mágico. As evidências eram assim altamente
suspeitas...
(9) Galileu desconhecia os danos
à visão causados pela exposição da
retina ao fulgor solar amplificado por seu telescópio.
Na cabeça de seu crítico isso é uma punição
as suas provocações.
(10) De novo, aqui recorrência
à autoridade, tanto da Bíblia com da comunidade
científica.
(11) Aqui temos o ponto mais difícil
de Galileu e uma razão peremptória para duvidarmos
ainda mais do ceticismo dogmático! Por mais que se esforce
em fornecer evidências, nada pode sensibilizar os críticos
de Galileu de que a Terra se move, afinal, o contrário
é o que sentimos e vivemos todos os dias... Entretanto,
ela se move!
(12) Por tudo isso foi condenado
Galileu, por se tratar de uma farsa colocada no rio da História
como fronteira entre o conhecimento da Verdade e o ceticismo dogmático
em nome da Religião e de Deus.
Também essa é a razão porque muitos consideram
que a Igreja não errou no processo de Galileu. Ainda hoje
podemos duvidar do movimento da Terra se adotarmos a mesma visão
do cético. De fato, quais são as evidências
de que a Terra se move? Não adianta dizer que 'a Ciência
já aceita isso, ou já resolveu aquilo'. Há
que se provar, com o mesmo tipo de exigência cética,
a tese do movimento.
Tentem fazê-lo por si mesmo, assumindo a mesma força
de dúvida e descrença dos mais combativos céticos
dos fenômenos espíritas e verão que ainda restam
dúvidas quanto ao movimento da Terra...