
Chamou-me a atenção
uma reportagem [1] sobre a chamada
"Síndrome de Cotard" (délire de Cotard)
que tem sintomas bem estranhos: o paciente se sente morto e tem
delírios com partes de seu corpo em decomposição
ou ausentes. É um tipo de doença mental com sintomas
bem peculiares e ligados à morte.
O psiquiatra francês Jules Cotard (1840–1889) foi o
pioneiro na descrição dessa condição
[2] a partir de um diagnóstico
que, na época, estava associado à chamada "melancolia"
(mais tarde rebatizado como "depressão"). Na época,
ele descreveu um caso, o da "Senhorita X", que negava
a existência de partes de seu corpo - um sintoma posteriormente
denominado somatoparafrenia. Além disso, não via razão
para se alimentar porque estava morta. Essa paciente acabou falecendo
de inanição ao se submeter a uma dieta de restrição
severa de alimentação.
A reportagem [1] retransmite uma opinião
sobre a origem dessa doença que, essencialmente, teria causa
meramente orgânica:
Lesões causadas por acidente
vascular cerebral (AVC), traumatismo craniano, infecções
como meningoencefalites e doenças neurodegenerativas, como
Alzheimer, estão comumente relacionadas ao desencadeamento
da síndrome, explica o neurologista Sergio Jordy, membro
da American Academy of Neurology (AAN) e da European Academy of
Neurology (EAN).
O que me chamou a atenção
foi a rapidez com que condições físicas foram
associadas à doença nessa reportagem. Isso leva o
leitor a concluir que as causas já foram identificadas.
Por outro lado, quem já participou
de sessões de desobsessão sabe que muitos médiuns
descrevem sintomas semelhantes, frutos da presença de Espíritos
que se identificam como tendo falecido, sem noção
de tempo, de consciência, como não mais tendo certas
partes do corpo etc.
Assim, empreendi uma busca mais
detalhada na literatura sobre essa síndrome e encontrei informações
que apontam para a complexidade desse estado psíquico e sua
possível origem obsessiva.
Uma pequena busca na literatura especializada
Por "achados neurológicos"
se entende um conjunto de evidências, encontradas em exames
(p. ex., em EEG - eletroencefalogramas, IRM - Imageamento por ressonância
magnética, TC - Tomografia computadorizada), que apontam
para alterações perceptíveis na estrutura neurológica
de um indivíduo. Esses achados podem ou não estar
"associados" a uma doença, talvez a constituir
uma causa provável para uma patologia mental.
No trabalho de Cipriani et al 2019 [3],
os autores revisam alguns trabalhos anteriores sobre a síndrome
e fazem uma associação com a demência. Pontos
importantes: ela está associada a várias desordens
(ver "Associated disorders"): estados psicóticos,
depressão, esquizofrenia, desordens de personalidade, AVC
(acidente vascular cerebral), demência etc. A incidência
da síndrome entre pacientes psiquiátricos não
é maior que 1% (ver Seção "Epidemiology").
Com relação à neurobiologia da síndrome
(ver "Neurobiology of Cotard syndrome") os autores
iniciam a seção declarando:
A neurobiologia da Síndrome
de Cotard é controversa. Os achados não são
consistentes e não têm utilidade diagnóstica
ou prognóstica clara.
Essa seção também
descreve as principais lesões observadas em alguns pacientes
que apresentaram os sintomas.
Swamy et al (2007) [4] negam que se possa interpretar
a suposta síndrome (não há consenso na literatura
de que se trate de uma síndrome de fato) como oriunda univocamente
de causas orgânicas. Para esses autores, existem diversas
limitações nas abordagens que foram feitas: viés
de linguagem, de publicação e de tamanho de amostra
de casos que seria muito pequeno. Na minha opinião, a mais
grave limitação é, certamente, o viés
de publicação: a maioria dos casos reportados
são de pacientes que tiveram exames demonstrando alterações
neurológicas "físicas". Porém, segundo
[4]:
É importante notar que
nem todos os casos de síndrome de Cotard observados por
psiquiatras em sua prática diária têm probabilidade
de serem descritos e publicados. É mais provável
que casos de síndrome de Cotard com achados neurológicos
positivos sejam publicados. Portanto, as inferências e generalizações
que podem ser extraídas de uma amostra amplamente distorcida
(apenas os casos com achados neurológicos anormais) em
relação aos correlatos neurológicos subjacentes
da síndrome de Cotard em geral são limitadas. (grifo
meu)
Esse é um problema sério, pois ele
pode se aplicar não só à Síndrome de
Cotard, mas a outras doenças psiquiátricas. Ao se
publicar apenas casos que têm correlatos neurológicos
demonstrados por exames, cria-se a impressão de que esses
casos são naturalmente causados por tais alterações.
Porém, a Tabela II de [4] demonstra
uma grande quantidade de casos de Síndrome de Cotard em que
não há nenhuma evidência de dano neuronal
(exames de eletroencefalograma e CT normais, etc).
O trabalho [5] apresenta um estudo
feito com 100 pacientes, que é considerado limitado por [6]
por causa do viés de publicação. S. Dieges
(2018) [6] indica a presença da síndrome em relatos
de médicos antigos no Século 19 (antes de Cotard),
como na obra de Etienne Esquirol (1772-1840) "Des maladies
mentales: considérées sous les rapports médical,
hygiénique et médico-legal" [7]. Ver, em
especial, o capítulo sobre "Demonomania" (uma alteração
mental que era atribuída aos "demônios" pelos
próprios pacientes).
Esses casos vazios de alterações neurológicas
são um desafio enorme para a psiquiatria e toda neurociência.
Pois, como é possível haver pacientes sem nenhum tipo
de alteração física e, ainda assim, com a presença
de sintomas? Há duas possibilidades de explicação
apenas: i) a ciência presente não consegue ainda identificar
uma causa física por falha nos métodos de detecção
ou ii) a causa profunda da sintomatologia da Síndrome de
Cotard (e de outras doenças psiquiátricas) não
é fisica. A existência de casos com achados neurológicos
apenas estabelece uma correlação, mas não uma
relação causal inequívoca.
Contribuição espírita
De acordo com o paradigma materialista,
a consciência é um produto do cérebro. Logo,
não há como escapar da conclusão de que deve
existir ao menos uma alteração neurológica
(neuroquímica, neuromórfica etc) como causa profunda
para todas as doenças mentais. Assim, a existência
de casos sintomáticos sem evidências de alteração
física constitui uma anomalia para esse paradigma.
Do ponto de vista espírita, porém, é provável
que os sintomas da Síndrome de Cotard sejam causados por
uma "infestação psíquica": trata-se
da afinidade entre o paciente e um Espírito desencarnado
que faz com que o primeiro passe a experimentar as sensações
mórbidas do segundo. Há uma sintonia, como no processo
mediúnico, porém, o paciente "comunica"
os sintomas típicos da entidade perturbada. Porém,
é preciso reconhecer que o que faz com que o paciente seja
atraído por esse tipo de consciência desencarnada pode
ser ainda outra causa.
Sim, ela pode ter origem orgânica, o que explicaria
os casos em que foi possível identificar correlatos neurológicos.
Esses afetam o Espírito do paciente que se desequilibra e
sintoniza com algum Espírito em condições de
morbidez. Nesse sentido, as alterações não
geram diretamente os sintomas. Aliás, sobre isso, nada impede
que um indivíduo com uma doença mental fisicamente
estabelecida não sofra de uma obsessão, que é
responsável por alguns de seus sintomas conforme o estágio
da doença.
Porém, esses sintomas podem surgir de um desequilíbrio
intrínseco da alma do paciente, com origem claramente espiritual,
inclusive por causa de outra obsessão. Esse desequilíbrio
conduz ao mesmo estado de sintonia espiritual que faz manifestar
os mesmos sintomas. Dessa forma, podemos prever que o afastamento
do Espírito obsessor apenas aliviará ou eliminará
os efeitos associados à morbidez típica da Síndrome
de Cotard, o que também explica o seu caráter transitório,
como descrito na literatura [6].
[4] SWAMY, N. C.; SANJU, George; MATHEW JAIMON, M.
S. An overview of the neurological correlates of Cotard syndrome.
The European journal of psychiatry, 2007, 21.2: 99-116. Link: https://scielo.isciii.es/pdf/ejpen/v21n2/original2.pdf
(acesso em 2025)
[5] BERRIOS, German E.; LUQUE, Rogelio. Cotard's syndrome: analysis
of 100 cases. Acta Psychiatrica Scandinavica, 1995, 91.3: 185-188.
Link: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/pdf/10.1111/j.1600-0447.1995.tb09764.x
(acesso em 2025)
[6] DIEGUEZ, Sebastian. Cotard syndrome. Neurologic-Psychiatric
Syndromes in Focus Part II-From Psychiatry to Neurology, 2018, 42:
23-34.
[7] A versão original e traduzida para o inglês
dessa obra de 1838 pode ser encontrada em Internet
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