
Isso parece simples: já não
cantamos nosso amor por e como obrigação para com
a terra dos livres e a morada dos bravos? Sim, mas exatamente o
que e quem amamos? Certamente não o solo, que sem qualquer
ordenamento despachamos rio abaixo. Certamente não as águas,
que assumimos não ter qualquer função a não
ser para girar turbinas, flutuar barcaças e transportar esgoto.
Certamente não as plantas, das quais exterminamos comunidades
inteiras sem pestanejar. Certamente não os animais, cujas
maiores e mais belas espécies extirpamos. Uma ética
da terra, é claro, não pode impedir a alteração,
gestão e uso desses "recursos", mas afirma seu
direito à existência continuada, e, pelo menos em alguns
pontos, sua existência continuada em seu estado natural.
A. Leopold, “A ética da terra”
Pode-se considerar
a interação do indivíduo - espírito encarnado,
no estágio de desenvolvimento moral do ser humano - como um
conjunto de relações que ele tem consigo mesmo, com
Deus e com o que está fora dele. Em termos mais específicos:
- A relação do indivíduo
com ele mesmo: o que sei sobre mim, quem penso que sou
e como devo regular minhas ações para me beneficiar
em inúmeros sentidos, por exemplo, moralmente. É a
ética do "conhece-te a ti mesmo".
- A relação do indivíduo
com outrem: com o meu próximo; como devo me portar
diante dos outros e quais são meus direitos e deveres. É
a ética da "lei áurea" e do "Sermão
das Bem-aventuranças" [2], que governa minhas ações
para com o próximo, e de onde se origina a verdadeira felicidade,
ainda que não reconhecida pela jurisprudência humana
da atualidade.
- A relação do indivíduo
com a sociedade: qual o meu papel em minha comunidade e
país? Quais são meus direitos e deveres do ponto de
vista social? Democracia, direito à vida, ao trabalho e as
diferentes obrigações (pagamento de impostos etc)
refletem essa relação.
- A relação do indivíduo
com Deus: Como minha crença em um poder superior
(qualquer que ele seja), regula minhas expectativas em relação
ao futuro e diferem em intensidade e teor daqueles que não
creem nesse poder? É o domínio da ética da
espiritualidade e da Religião.
- E a relação do indivíduo
com o ambiente que o cerca.
À medida que progride moralmente, modifica-se a maneira como
essas relações ocorrem. O indivíduo se sente
cada vez menos dono do que tem a sua volta. Evoluimos com relação
à como nos entendemos, a como tratamos nossos semelhantes,
a como vivemos em sociedade e sobre como entedemos e nos relacionamos
com Deus. Porém, como temos evoluído em relação
ao meio ambiente? Falta ainda, no dizer de Aldo Leopold, uma "Ética
da terra" [1], que regularia nossa
relação com o meio natural.
Isso porque o ambiente que cerca o homem sempre foi visto como sua
propriedade. Mesmo há pouco tempo, como propriedades também
foram consideradas vidas de agrupamentos humanos inteiros escravizados
por uma minoria dominante.
Ora, é evidente que a evolução espiritual deve
levar a uma mudança radical na maneira como consideramos esse
ambiente. Passaremos a considerar a Natureza e suas vastas reservas
de energia, matéria e vida, como entidades a serem respeitadas.
Os animais, vegetais e todos os recursos abióticos não
são apenas "propriedades" a serem exploradas e exauridas,
mas recursos que devem ser aproveitados com a menor interferência
e com o maior respeito possíveis. Essa não interferência
leva a duas obrigações: utilizar-se da Natureza apenas
naquilo que é necessário e repor o que for retirado.
Essas obrigações se vinculam em torno dos conceito de
sustentabilidade:
- é qualquer sistema capaz de subsistir indefinidamente
a partir de seus próprios recuros ou, pelo menos, por um
longo período de tempo.
- Ser sustentável significa abastecer-se
conforme a medida do necessário - porque necessário
é minimizar o impacto da interferência no ambiente
natural - sem subprodutos que levem à deteriorização
desse ambiente.
Qualquer coisa que exceda ao necessário
é consequência da ignorância e do egoísmo.
E o egoísmo é marca de Espíritos ainda inferiores.
Assim, ascender espiritualmente é desvencilhar-se do apego
que leva à tentativa de dominação de tudo que
é externo a nós.
Apenas muito recentemente a necessidade de preservação
começou a ser valorizada pelas sociedades mais desenvolvidas.
Na esteira dos impactos negativos sobre o clima e das ameaças
evidentes ao equilíbrio econômico, setores mais esclarecidos
passaram a considerar a necessidade de coordenação global
para se preservar o meio-ambiente.
Apenas muito recentemente a necessidade de preservação
começou a ser valorizada pelas sociedades mais desenvolvidas.
Na esteira dos impactos negativos sobre o clima e das ameaças
evidentes ao equilíbrio econômico, setores mais esclarecidos
passaram a considerar a necessidade de coordenação global
para se preservar o meio-ambiente.
Assim, para os espíritas, ações de preservação
ambiental não podem ter por base apenas a constação
de degradação e ameaças ao clima. Elas são
o resultado de:
- Uma concepção mais dilatada que
vê o homem como uma parte ínfima da Natureza e não
seu senhor.
- Logo, o mesmo respeito que devemos aos semelhantes,
devemos ao ambiente que nos cerca. É uma extensão
da lei do amor ao próximo.