
"...Conspiração
de sociedades secretas que trabalham na sombra para aniquilar
o Catolicismo, se elas pudessem; conspiração
do Protestantismo que, por uma propaganda ativa, busca insinuar-se
por toda parte; conspiração dos filósofos
racionalistas e anticristãos, que rejeitam, sem razão
e contra toda razão, o sobrenatural e a religião
revelada, e que se esforçam por fazer prevalecer
no mundo letrado sua falsa e funesta doutrina; conspiração
das sociedades espíritas que, pela superstição
prática da evocação dos Espíritos,
entregam-se e incitam os outros a entregar-se à pérfida
maldade do espírito de mentira e de erro..."
Discurso do Bispo de Langres, Haute-Marne, publicado
na Revue Spirite, Junho de 1864. Leiam comentários
de Kardec sobre o trecho.
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O
movimento espiritualista de forma geral sempre teve que se defender
de alguma forma de seus próprios "teóricos de conspiração".
Críticos ferrenhos dos primeiros tempos, desde as irmãs
Fox, acusavam de forma indiscriminada médiuns e instituições
que se reuniam no movimento nascente. Segundo essas teses conspiracionistas,
médiuns teriam como objetivo apenas enganar pessoas e fazer
prevalecer seus interesses. Instituições dariam endosso
a médiuns de forma a facilitar sua aceitação.
Haveria assim uma vasta rede de interesses ocultos tentando ludibriar
mentes inocentes e descuidadas.
Segundo a Wikipedia (1),
uma teoria de conspiração é definida como:
Uma proposição
explicativa que acusa duas ou mais pessoas, um grupo ou uma organização
de ter causado ou estar acobertando, através de planejamento
secreto e ação deliberada, eventos ou situações
danosas ou ilegais.
Qual seria a principal força
a alimentar o conspiracionismo? Ainda segundo essa referência
(2):
Alguns acadêmicos
sugerem que pessoas formulam teorias de conspiração
para explicar, por exemplo, relações de poder em grupos
sociais e a percepção de forças do mal. Outros
sugerem que teorias de conspiração têm origem
principalmente psicológica e sócio-política.
Origens psicológicas propostas incluem a projeção:
o indivíduo sente a necessidade de explicar "um evento
significativo com uma causa igualmente significativa", ou o
produto de vários estágios de desordem mental, tal
como disposições paranoicas que chegam ao extremo
de doenças mentais diagnosticáveis. Há pesquisadores
que preferem explicações sócio-políticas
como a insegurança de se lidar com eventos aleatórios,
imprevisíveis ou, de outra forma, inexplicáveis.
Visto dessa forma, o ceticismo sistemático
contra médiuns seria uma espécie de paranoia conspiracionista
que explicaria "racionalmente" fatos e fenômenos inexplicáveis,
restabelecendo o controle. É através da Wikipedia (1)
que vamos encontrar outra definição de conspiracionismo,
dessa vez do acadêmico C. Berlet (3):
Conspiracionismo
é uma forma narrativa particular de criação
de bodes expiatórios que assume a existência de inimigos
demonizados como parte de uma vasta e insidiosa conspiração
contra o bem comum, enquanto considera como herói quem chama
a atenção para a conspiração.
Portanto, segundo Berlet, o conspiracionismo
é primariamente um esforço pessoal ou de grupos que
se acham investidos de uma missão de salvação.
Esses grupos ou indivíduos sentem grande prazer em serem identificados
como salvadores cuja tarefa é livrar a sociedade ou um grupo
maior da influência maléfica do grupo dominante. Isso
se inicia e, frequentemente se limita, a atividades de denúncia
sistemática da conspiração.
Não que conspirações jamais tivessem sido descobertas
na história. Elas o foram, mas envolveram grupos pequenos,
com objetivos bem particulares e não permaneceram ocultas por
muito tempo. Evidências de conspirações limitadas
inflam ainda mais a paranoia de supostas conspirações
em andamento, envolvendo milhares de pessoas, que parecem nunca ter
fim e que alimentam ainda mais a necessidade de salvação.
Teóricos de conspiração no movimento espírita
Dizer
que a fé ortodoxa está ameaçada é confessar
a fraqueza de seus argumentos. Se ela é fundada na verdade
absoluta, ela não pode temer nenhum argumento contrário.
Dar alarme em tal caso é falta de habilidade.
A. Kardec, Revista Espírita,
Junho de 1864
Ora, isso é o que se
vê entre grupos dogmáticos ou "reformistas",
que se consideram espíritas melhores dos que outros e que se
veem investidos da missão de livrar o Espiritismo de deturpações
e de desvios do que para eles é a "ortodoxia". Investem-se
como propõe Berlet no papel de "salvadores" ou "heróis"
ao soar o alarme da existência de uma conspiração
dentro do movimento espírita.
Segundo eles o movimento espírita estaria
irremediavelmente perdido nas mãos de manipuladores de federações
e de interesses de editoras ávidas por lucros e que veem nesse
movimento apenas um mercado. É uma explicação
que racionaliza de forma aparente um fenômeno incontrolável
provendo um sentido e uma sensação de ganho de controle
(4):
Segundo
professor Stephan Lewandowsky, cientista cognitivo da Universidade
da Austrália Ocidental, grandes proponentes de teorias de
conspiração usualmente experimental um sentimento
de falta de controle. Uma teoria [de conspiração]
ajuda o crente a readquirir senso de ordem por explicar eventos
extraordinários. Conhecer alguns fatos pode até trazer
sentimento de poder. Lewandowsky declara que a crença em
conspirações pode servir como mecanismo de proteção
ao horror a desastres possíveis.
Com base
nessa conspiração oculta, seria necessário livrar
o Espiritismo de seu envolvimento com ideias e manias que não
são reconhecidas como "genuinamente espíritas".
É claramente uma tarefa impossível
e inútil fazer com que um povo inteiro, de um momento para
outro deixe de se ater a comportamentos atávicos adquiridos
ao longo de séculos de cultura e crenças religiosas
herdadas. É portanto um fenômeno facilmente compreensível
que o movimento espírita sofra influência de outras religiões
e de, principalmente, movimentos espiritualistas. A presença
de elementos considerados estranhos por tais grupos é tomado
como evidência de uma conspiração em curso, ainda
mais como, aparentemente, sociedades e instituições
"oficiais" parecem "nada fazer" para deter o comportamento.
Em parte
isso acontece porque é mais consolador acreditar que as dificuldades
e conflitos nas coisas humanas se devem aos seres humanos do que
a fatores fora de controle. A crença na existência
de um grupo conspirador é um dispositivo a reafirmar que
certos acontecimentos não são aleatórios, mas
ordenados pela inteligência humana. Isso faz com que esses
fatos sejam compreensíveis e potencialmente controláveis.
Se uma quadrilha de conspiradores pode ser identificada em uma sequência
de eventos, há sempre a chance, embora pequena, de acabar
com seu poder - ou juntar-se a eles na esperança de ter parte
desse poder (5).
Ideal de
"pureza doutrinária": a verdade estaria nas interpretações
que apenas esses grupos podem dar. Para
limitar o que se acredita, barreiras são erguidas com base
em critérios supostamente bem estabelecidos. Um deles seria
o "critério
da concordância universal". Dentro desses grupos,
repete-se à exaustão que esse critério foi usado
amplamente em cada detalhe ou informação contida em
"O Livro dos Espíritos". Com isso, conspiracionistas
pretendem censurar qualquer tipo de informação mediúnica
em divergência com o que pensam. Em termos práticos,
a mera repetição da necessidade da aplicação
desse critério funciona como arma retórica e barricada
psicológica que frequentemente leve ao ceticismo.
Comportamento extravagante: dizem seguir Kardec
e Jesus mas, na maior parte do tempo, estimam fazer prosélitos
e discursos que beira o ódio contra instituições
e médiuns respeitáveis. O
comportamento é justificado como parte da missão salvacionista
de livrar o movimento espírita do que consideram como o núcleo
da conspiração, ainda que os atos praticados, linguagem
e termos usados estejam em desacordo com os ideais de fraternidade,
respeito e liberdade pregados pelos fundadores do Espiritismo. Infelizmente,
"os fins não justificam os meios" e nenhum ideal
de reforço das bases, chamadas para o "estudo do verdadeiro
Espiritismo", de "fidelidade a Kardec", feito sem fraternidade
e respeito, poderá servir de justificativa para esses ataques.
Pregam um ideal de cientificidade. O movimento
espírita nos últimos 100 anos erroneamente se envolveu
com religião e não fez "ciência".
O ideal de pureza e coerência pregado
pelos salvadores reformistas acredita que a ciência é
um movimento organizado e coerente. É natural que nela se inspirem.
É dessa ciência que alguns deles pretendem instaurar
um método automático de geração de conhecimento,
de proibição a determinadas crenças e teses,
desconhecendo amplamente tanto a história da ciência
como ela realmente funciona. A verdade é que a imensa maioria
dos líderes dos movimentos reformistas, com exceções
ainda a serem registradas, jamais participou de qualquer atividade
genuinamente científica. Mesmo assim, pretendem fazer ciência
no Espiritismo. Talvez um dia façam, mas terão primeiro
que arranjar bastante tempo extra além de se ocupar em atacar
o movimento que os abrigam.
Infelizmente, o remédio prescrito pelo reformistas é
muito pior do que a doença: não será com ataques
sistemáticos e reforço do ceticismo que se corrigirá
desvios doutrinários e falta de apreço ao estudo de
nosso povo. Há que se ter espírito de compreensão
e fraternidade. Reformistas de plantão devem entender que muito
mais importante do que instalar os objetivos que pregam é fazer
com que as palavras estejam de acordo com os atos, o que, infelizmente,
ainda está longe de ser o caso.