Aula 9 : Física
e Espiritismo IV : Fenômenos espíritas: Clássicos
ou quânticos?
1. FÍSICA E ESPIRITISMO
IV:
FENÔMENOS ESPÍRITAS: CLÁSSICOS OU QUÂNTICOS
?
Na aula anterior (Boletim 490),
apresentamos algumas características dos fenômenos
espíritas, especialmente, os fenômenos mediúnicos
inteligentes e de efeitos físicos. Apresentamos, também,
algumas propriedades dos fenômenos quânticos que caracterizam
o mundo microscópico. Chamamos de C1, C2 e C3 as características
relacionadas com a quantização da troca de energia,
dualidade onda-partícula e não-localidade, respectivamente.
Pedimos aos leitores que leiam novamente a aula anterior antes de
prosseguir de modo a perceberem mais claramente os argumentos que
serão apresentados a seguir.
Tanto a mediunidade de efeitos
inteligentes quanto a de efeitos físicos não podem
ser analisadas sob os aspectos relacionados às características
C1 e C2. Primeiramente porque eles são macroscópicos,
isto é, os volumes de informação nos efeitos
inteligentes, e do objeto utilizado nos efeitos físicos são
macroscópicos. Todos esses fenômenos envolvem processos
de trocas e interações fluídicas em quantidades
macroscópicas. Portanto, a característica C1 é
impossível de ser medida ou inferida pois não temos
como avaliar se as trocas fluídicas ocorrem de forma quantizada
ou em pacotes múltiplos de alguma quantidade pequena (um
quantum) nos fenômenos mediúnicos.
A característica
C2 também não pode ser avaliada pois é impossível
testar se esses fenômenos possuem características duais
com relação a alguma propriedade ou característica
qualquer. No caso da matéria, os efeitos do tipo
“onda” para objetos macroscópicos são
muitas ordens de grandeza menores do que os efeitos do tipo “partícula”
e, por isso, não são percebidos. Mesmo que os fluidos
em sua estrutura íntima possuam a característica C2
jamais poderemos sentí-la nos fenômenos mediúnicos
porque eles são macroscópicos.
A característica
C3 (não-localidade) é aquela que gera mais confusão
entre nós. O aspecto “sutil” relacionado
com a C3, apresentado por alguns fenômenos quânticos,
tem chamado a atenção do Movimento Espírita.
Porém, como veremos adiante, os fenômenos espíritas,
de acordo com a Doutrina Espírita, não são
não-locais.
Primeiramente, vamos analisar a
questão 282 do Livro dos Espíritos
[1]. Segundo os espíritos, é através
do Fluido Universal que os espíritos se comunicam,
ou seja, ele é o veículo da transmissão do
pensamento. Se existe um veículo de transmissão para
a informação, então esse fenômeno é
local e, portanto, ocorre dentro de um intervalo de tempo e espaço.
Por mais rápido que seja o fluxo de idéias de um espírito
para o médium, ele não ocorre de forma instantânea.
Por mais sutil que seja o processo de comunicação
através do pensamento, ele se utiliza do fluido universal
como meio de propagação, “como, para vós,
o ar o é do som”(questão 282), que é
uma característica de fenômeno clássico local.
O fenômeno não-local é caracterizado por ocorrer
sem o intermédio de nenhum meio ou fluido.
Além disso, o fenômeno
de não-localidade que pode ocorrer entre duas ou mais partes
de um sistema quântico, jamais poderá ser usado como
meio de transmissão de informação, como as
ondas eletromagnéticas são o meio de transmissão
de informação no telefone celular, por exemplo. Desde
que no fenômeno mediúnico inteligente ou de efeitos
físicos, alguma informação é transmitida
do desencarnado para um ou mais encarnados, então esse fenômeno
não ocorre por intermédio de um processo não-local.
Ainda a título de demonstração
de que a não-localidade realmente não faz
parte das explicações dadas pelos espíritos,
vejamos a seguinte questão do Livro dos Espíritos
[1]:
89. Os Espíritos gastam algum tempo para percorrer
o espaço?
“Sim, mas fazem-no com a rapidez do pensamento.”
Essa questão diz que por
mais rápido sejam os espíritos, eles possuem velocidade
finita, isto é, eles gastam algum tempo para percorrer o
espaço. Isso, portanto, é uma característica
de fenômeno local. O movimento dos espíritos é
um fenômeno local. Para ser um fenômeno não-local
é necessário que o deslocamento ocorra de forma instantânea.
Agora, vamos analisar a explicação
dada pelo espírito de Erasto para a mediunidade de
transporte (ver aula anterior). Se nenhum espírito
pode trazer uma flor de um outro planeta por causa da diferença
de ambiente fluídico, então isso significa que o espírito,
nesse tipo de fenômeno, precisa se deslocar até o local
onde o objeto está presente. Ele deve combinar seus fluidos
com os fluidos materializados e atuar sobre o objeto para então
trazê-lo. Isso é uma característica de fenômeno
local. A forma ou os mecanismos físicos pelos quais o fenômeno
ocorre são desconhecidos no momento. Talvez, esses mecanismos
envolvam propriedades quânticas da matéria física
densa e/ou da matéria fluídica, mas somos incapazes
de verificar isso com base somente na Doutrina Espírita ou
mesmo nos fenômenos em si. Em aulas futuras, falaremos sobre
como definir um projeto de pesquisa espírita apropriado para
investigar um problema como esse.
Nossa conclusão,
com base na Doutrina Espírita, é que os fenômenos
espíritas não são quânticos e não
podemos inferir se suas propriedades decorrem de aspectos quânticos
seja dos fluidos, seja da matéria. Esses fenômenos
são, simplesmente, clássicos. Isso, nem de longe,
compromete o valor do Espiritismo tanto como doutrina quanto como
disciplina científica. A título de informação,
a Mecânica Clássica ainda é muito utilizada
no estudo de diversos fenômenos naturais como, por exemplo,
a vida. Sistemas físicos cujas dimensões são
macroscópicas, como os seres vivos, não podem ser
estudados diretamente com a teoria quântica pois ela é
intratável computacionalmente, nesses casos. Portanto, não
existe nada de vergonhoso em reconhecer que os fenômenos espíritas
são explicados a partir de conceitos clássicos. Isso
tem muito mais valor científico do que a proposição
e repetição, sem compreensão, de afirmativas
que envolvam terminologias e/ou conceitos oriundos de teorias quânticas
modernas. Se por um lado as pessoas em geral são incapazes
de avaliar essas afirmativas, as pessoas que possuem formação
científica facilmente percebem os equívocos das mesmas
e podem se desinteressar do Espiritismo por causa de um engano.
É importante frisar que assim
como alguns fenômenos macroscópicos da matéria
decorrem das propriedades quânticas da estrutura microscópica
da mesma, é perfeitamente possível que algumas propriedades
dos fluidos espirituais decorram de propriedades de sua estrutura
íntima. Isso é bem diferente do que expomos aqui!
Uma coisa é a formulação de uma teoria que
explique o comportamento de um determinado tipo de objeto em uma
escala de tamanho macroscópica. Outra coisa, é buscar
explicar as propriedades macroscópicas de um sistema em termos
das propriedades microscópicas das diversas partes que compõem
o mesmo. Segundo a história da ciência, as
teorias para a estrutura da matéria só vieram depois
das teorias clássicas. Portanto, é preciso
que trabalhemos primeiro em descortinar todas as propriedades macroscópicas
dos fluidos espirituais para então buscarmos desenvolver
alguma teoria para a estrutura microscópica que explique
essas propriedades. Foi dessa forma que a ciência chegou até
a teoria quântica da matéria e justamente o fato de
explicar algumas propriedades macroscópicas é que
conferiu o valor sólido que a teoria quântica apresenta.
André Luiz,
em Mecanismos da Mediunidade, tenta fazer uma analogia
entre a estrutura da matéria fluídica e os mecanismos
dos fenômenos mediúnicos. Mas, como veremos em aula
futura, as analogias de André Luiz não incluem a consideração
de que os fenômenos mediúnicos são não-locais.
Na próxima aula, analisaremos
a idéia de que Deus ou o Espírito seria uma “função
de onda”.
2. PESQUISA SOBRE OS CRISTAIS DA ÁGUA:
SEM VALOR CIENTÍFICO (POR ENQUANTO)
Na aula anterior comentamos sobre
algumas pesquisas cujo valor científico se revela pela forma
de análise do assunto e da qualidade da bibliografia utilizada.
Aqui, vamos comentar um exemplo
de trabalho espiritualista que ainda não possui respaldo
científico. Se trata das pesquisas realizadas pelo Dr. Massaru
Emoto sobre a cristalização da água
[3].
Segundo Emoto [3],
as vibrações absorvidas por uma amostra de água
podem ser verificadas através da forma de cristalização
das moléculas dessa amostra. Pensamentos, sentimentos, músicas,
cores, palavras, etc. atuariam sobre a água, de acordo com
o Dr. Emoto.
Através de uma busca simples
na internet podemos verificar que o nome do Dr. Emoto é bastante
conhecido junto a muitos grupos espiritualistas (incluindo o Movimento
Espírita) de todo o mundo. Porém, o trabalho do Dr.
Emoto ainda não é conhecido, formalmente, pela comunidade
científica. Já explicamos em aulas anteriores a questão
sobre a comprovação científica e a necessidade
de divulgar a pesquisa científica através de artigos
publicados em periódicos científicos que possuem o
método de análise por pares. Infelizmente, por enquanto,
nenhuma parte do trabalho do Dr. Emoto foi publicada em alguma revista
científica. Ele apenas divulga seu trabalho em homepages
particulares e através de livros de divulgação.
Como vimos na aula 6 (Boletim 488), livros de divulgação
tem pouco valor como referência científica. Por essas
razões, o trabalho do Dr. Emoto não pode ser considerado,
ainda, como cientificamente comprovado.
Podemos acrescentar uma discussão
realizada por nós sobre essa pesquisa com a água [5].
A afirmativa do Dr. Emoto de que uma palavra escrita no rótulo
de um frasco com uma amostra de água, influencia a forma
de cristalização da mesma, é ilógica
e contrária à Doutrina Espírita pois sabemos
que são os espíritos os agentes que agem sobre os
fluidos direcionando-os para atuarem sobre a matéria. Sabemos
que a água é suscetível de impregnar-se de
fluidos presentes no ambiente ou direcionados a ela por algum encarnado
ou desencarnado. Mas dizer que basta escrever uma palavra infeliz
para que a água absorva fluidos negativos, é confundir
o efeito com a causa [5].
Esse é um exemplo de pesquisa que ainda não
possui respaldo científico e que apresenta conclusões
doutrinárias equivocadas.
A questão sobre a necessidade de qualquer trabalho de pesquisa
ser publicado em revista científica de circulação
nacional ou internacional, como passo inicial necessário
para uma comprovação ou aceitação científica,
é uma idéia que precisa ser melhor esclarecida no
meio espírita. Isso pode ser facilmente confundido com a
idéia de préconceito, por parte da comunidade acadêmica,
com relação a determinados assuntos. Na aula 11, discutiremos
essa questão sob um ponto de vista filosófico e prático.
Veremos como separar a idéia de ‘comprovação
científica’ válida para a sociedade
como um todo, da idéia de ‘característica
científica’ válida para a Doutrina
Espírita. Isso é de suma importância para que
nós saibamos nos colocar perante o Movimento Espírita,
a sociedade e a comunidade científica.