Aula 2: O Método Científico
e um pouco mais sobre Ciência
1. MÉTODO CIENTÍFICO
Todas as atividades na vida requerem
métodos para a sua execução. Desde o simples
ato de respirar aos mais complexos mecanismos de produção
em uma indústria, utilizam métodos de execução.
Como não poderia deixar de ser, a prática científica
requer a definição de métodos específicos
tanto para o estudo básico de uma disciplina científica
(métodos pedagógicos) quanto para o desenvolvimento,
propriamente dito, do conhecimento científico. É sobre
este último tipo de método que vamos discutir nesta
aula.
A expressão “método
científico” se refere, portanto, ao conjunto
de orientações e passos pelos quais uma pesquisa científica
deve passar para que seus resultados sejam válidos. O método
científico envolve o uso de ferramentas especiais que, muitas
vezes, só servem para as pesquisas em uma única disciplina
científica ou em uma única área específica
dentro dela. Essas ferramentas que compõem o método
científico de cada ciência são definidas pelo
paradigma ou núcleo teórico central (ver aula anterior)
da mesma. Por exemplo, em Física, os desenvolvimentos teóricos
devem seguir com muita fidelidade as propriedades e leis matemáticas.
Em Biologia, eles devem seguir os conceitos e funções
biológicas já estudados anteriormente. As experiências
devem ser criadas e preparadas de modo a garantir que os efeitos
observados só dependam das causas mais relevantes que estão
sendo estudadas. Enfatizamos que são os paradigmas que determinarão
as causas mais relevantes para cada fenômeno. Desta forma,
percebemos que não existe uma receita de bolo para o método
científico. Não existe um único método
que seja válido e aplicável a todo e qualquer fenômeno
ou todo e qualquer problema teórico de qualquer ciência.
Mas o que é comum a todos os casos é a necessidade
de seguir-se um método que garanta, qualifique e/ou quantifique
a validade do resultado do trabalho de pesquisa. Atribui-se ao método
científico a função de fornecer o nível
de exatidão ou de imprecisão (dependendo do caso)
dos resultados das pesquisas. É essa informação
que torna o resultado da pesquisa válido, aplicável
ou útil dentro de determinados limites (também em
acordo com o paradigma da ciência).
A diferença entre a mera
especulação intelectual e um resultado verdadeiramente
científico é que o segundo foi obtido aplicando-se
um método científico na sua análise e desenvolvimento.
Como dito na aula anterior, a criatividade gera idéias que
são, então, especulações intelectuais.
Quando se usam as ferramentas do método científico
da respectiva área do conhecimento para estudar e desenvolver
essas especulações, os resultados da pesquisa se tornam
científicos. O que não pode acontecer é considerar
idéias iniciais como verdades científicas mesmo que
elas se refiram a temas científicos.
Allan Kardec definiu um
método que claramente merece o adjetivo científico,
para análise das mensagens provindas do plano superior. Elas
visam garantir que o conteúdo das mesmas tenha validade e
utilidade. Primeiramente, devemos aplicar o bom senso
para ver se o conteúdo fere princípios básicos
conhecidos sobre a moral, os costumes, a ciência e a natureza.
Em seguida, nos casos onde o conteúdo não pode ser
avaliado por nossos conhecimentos, deve-se aplicar o consenso universal
dos espíritos que diz que “Uma só garantia
séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância
que haja entre as revelações que eles façam
espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns
estranhos uns aos outros e em vários lugares.”
(Item II da Introdução do Evangelho
Segundo o Espiritismo [1].
Fonte em itálico original).
Toda a codificação
espírita teve base na aplicação destes dois
métodos.
Já dissemos que uma função
do método científico é atribuir valores
aos resultados. Existe um consenso de que toda teoria deve ser verificada
através dos fatos, mesmo que essa verificação
se dê em acordo com os princípios do núcleo
teórico central ou paradigma da disciplina científica.
Nesse aspecto, Kardec foi claro (ítem VII da Introdução
de O Livro dos Espíritos [2]):
“Desde que a Ciência sai da observação
material dos fatos, em se tratando de os apreciar e explicar,
o campo está aberto às conjeturas.
Cada um arquiteta o seu sistemazinho, disposto a sustentá-lo
com fervor, para fazê-lo prevalecer. Não vemos todos
os dias as mais opostas opiniões serem alternativamente preconizadas
e rejeitadas, ora repelidas como erros absurdos, para logo depois
aparecerem proclamadas como verdades incontestáveis? Os
fatos, eis o verdadeiro critério dos nossos juízos,
o argumento sem réplica. Na ausência dos fatos, a dúvida
se justifica no homem ponderado.” (grifos
nossos)
Portanto, a verificação
das teorias através dos fatos, sejam eles provocados através
de experimentos controlados ou, simplesmente, observados na natureza,
faz parte daquilo que chamamos de método científico.
Abaixo discutiremos alguns outros
aspectos sobre ciência e sobre como se define o método
científico no caso de uma pesquisa dita interdisciplinar,
isto é, que envolve objetos de estudo que pertencem, ao mesmo
tempo, a mais de uma disciplina científica.
2. UM POUCO MAIS SOBRE CIÊNCIA
A estrutura de uma disciplina científica,
apresentada na aula passada, composta por um núcleo
teórico central, um conjunto de hipóteses
auxiliares que fazem a ponte entre o núcleo
central e os fatos e um conjunto de regras negativas e positivas
que mantém o processo em desenvolvimento, constitui aquilo
que Imre Lakatos (filósofo da ciência)
designou como sendo um programa científico de pesquisa [3].
Segundo Chibeni a exigência fundamental de um programa científico
de pesquisa é que a sua estrutura teórica forneça
previsões corretas para novos e diferentes fatos. Que diríamos
de um serviço de meteorologia que não acertasse uma
de suas previsões ou se as pontes caíssem na passagem
do primeiro automóvel? No mínimo diríamos que
a Meteorologia e a Engenharia não são ciências!
Ainda bem que ambas são, de fato, nobres ciências cujo
desenvolvimento tem oferecido mais conforto em nossas vidas.
Uma boa teoria científica
deve possuir, portanto, as seguintes características [3]:
i) consistência – a teoria não
pode conter contradições; ii) coerência
– a teoria deve possuir princípios que se apoiam mutuamente;
e iii) abrangência – a teoria deve
explicar o maior número de fenômenos possíveis
dentro do conjunto de objetos estudados pela disciplina científica.
A função do método científico,
portanto, é assegurar que essas três condições
são satisfeitas em qualquer trabalho de pesquisa científico.
O nível de desenvolvimento
atingido pelas disciplinas científicas aliado à descoberta
ou percepção de que muitos fenômenos da natureza
possuem características e propriedades pertencentes a mais
de uma disciplina, estão incentivando o desenvolvimento de
projetos de pesquisa interdisciplinares ou multidisciplinares,
isto é, que envolvem mais do que uma disciplina científica.
Pesquisas sobre a vida, sobre novos materiais e sobre questões
de ordem social e econômica, por exemplo, são exemplos
de temas multidisciplinares. Nesses casos o método
científico que trará informação sobre
a validade dessas pesquisas incluirá métodos específicos
de todas as disciplinas científicas envolvidas. O aspecto
coerência deve ser satisfeito. Se, por exemplo,
em uma pesquisa sobre a estrutura da molécula do DNA que
envolve, ao mesmo tempo, Física, Química, Matemática
e Biologia, culminar com um resultado que contradiz os princípios
biológicos, por exemplo, esse resultado não terá
valor pois estará incoerente com o núcleo
central de uma das disciplinas científicas básicas.
Desta forma, os rigores dos métodos de pesquisa de todas
as disciplinas envolvidas devem ser aplicados de modo a obter-se
resultados que sejam válidos em todas as
áreas envolvidas.
Qualquer projeto de pesquisa espírita,
ou de interesse espírita, teórico ou prático,
que envolva conceitos e idéias provenientes de outras disciplinas
científicas (como a Física que, ultimamente, está
na moda) tem, por definição do conceito de ciência,
que satisfazer aos paradigmas ou núcleos centrais de cada
uma delas, incluindo os da ciência espírita. É
imprescindível aplicar-se os rigores dos métodos de
pesquisa, ou métodos científicos, de cada disciplina
científica e do Espiritismo, de forma coerente e
consistente de modo a produzir-se um resultado que tenha
validade ou utilidade. Isso distingue
a mera especulação de um verdadeiro resultado científico.
É importante lembrar que o trabalho de Kardec seguiu todos
esses rigores. Kardec, diante dos fenômenos das mesas girantes,
primeiro analisou o problema sob a luz dos conhecimentos científicos
de sua época, aplicando os rigores pertinentes ao fenômeno.
Somente depois de verificar que o fenômeno apresentava uma
realidade espiritual por detrás, é que Kardec mudou
o rumo de suas pesquisas. Além disso, Kardec, de forma muito
sábia e científica, não propôs,
com base na ciência de sua época, teorias para determinados
tópicos espíritas como, por exemplo, a constituição
íntima da substância que compõe o perispírito.
Neste caso, é importante mencionar que Kardec não
teria como verificar nenhuma proposta desse tipo experimentalmente
ou através da observaçao de fatos. O máximo
que Kardec fez foi “emprestar” dos conhecimentos científicos
de sua época alguma terminologia ao usar, por exemplo, a
palavra “fluidos” em analogia àquilo que se acreditava
existir para a eletricidade e o magnetismo.