Uma das questões
de maior interesse no movimento espírita diz respeito à
evocação direta de Espíritos em reuniões
mediúnicas. Kardec abre o capítulo XXV, “Das
Evocações”, de O Livro dos Médiuns
(LM)(1),
dizendo que:
“Os Espíritos
podem comunicar-se espontaneamente, ou acudir ao nosso chamado,
isto é, vir por evocação. Pensam
algumas pessoas que todos devem abster-se de evocar tal ou tal
Espírito e ser preferível que se espere
aquele que queira comunicar-se. Fundam-se em que, chamando determinado
Espírito, não podemos ter a certeza de ser ele quem
se apresente, ao passo que aquele que vem espontaneamente, (...),
melhor prova a sua identidade,(...). Em nossa opinião,
isso é um erro: primeiramente, porque há
sempre em torno de nós Espíritos, as mais
das vezes de condição inferior, que outra
coisa não querem senão comunicar-se; em segundo
lugar e mesmo por esta última razão, não
chamar a nenhum em particular é abrir a porta a todos os
que queiram entrar. (...) A chamada direta de determinado
Espírito constitui um laço entre ele e nós;
chamamo-lo pelo nosso desejo e opomos assim uma espécie
de barreira aos intrusos. Sem uma chamada direta, um
Espírito nenhum motivo terá muitas vezes para vir
confabular conosco, a menos que seja o nosso Espírito
familiar.” (item
269, grifos em negrito, meus).
Essas palavras de Kardec,
a primeira vista, fazem supor que seria imprescindível evocar
determinados Espíritos em uma reunião mediúnica.
Porém, um estudo mais atento do cap. XXV do LM, permite perceber
que a ideia não é bem essa. Ainda no item 269 Kardec
diz:
“Cada uma destas
duas maneiras de operar tem suas vantagens e
nenhuma desvantagem haveria, senão na exclusão
absoluta de uma delas.” (grifos
em negrito, meus).
Kardec, então, considera
que há “vantagens”, isto é, benefícios
nas duas formas de operar a reunião mediúnica: em
que há, e em que não há evocação.
E complementa dizendo que “nenhuma desvantagem haveria”
a menos que houvesse “exclusão absoluta
de uma delas” (grifamos), isto é, que se fizesse
reuniões onde não se faz nenhum tipo de evocação
ou, o contrário, onde se recebe, apenas, comunicações
de Espíritos evocados diretamente. Ainda neste item, Kardec
complementa:
“As comunicações
espontâneas inconveniente nenhum apresentam,
quando se está senhor dos Espíritos e certo
de não deixar que os maus tomem a dianteira. (...)
O exame escrupuloso, que temos aconselhado, é,
aliás, uma garantia contra as comunicações
más. Nas reuniões regulares,
naquelas, sobretudo, em que se faz um trabalho continuado,
há sempre Espíritos habituais que a elas comparecem,
sem que sejam chamados, por estarem prevenidos, em virtude mesmo
da regularidade das sessões.”
(grifos em negrito, meus).
Kardec deixa, então,
claro que quando seguimos a recomendação de fazer
um “exame escrupuloso”, isto é, uma
análise profunda das comunicações recebidas,
não há inconveniente algum em aguardar por comunicações
espontâneas numa reunião mediúnica. E acrescenta
que nas “reuniões regulares”, isto é,
naquelas que ocorrem com frequência regular, “Espíritos
habituais” estão sempre presentes.
Alguns companheiros têm usado esses comentários de
Kardec para criticar a forma como os centros espíritas, em
sua maioria, orientam e realizam as reuniões espíritas.
Alegam, respeitosamente, que fazer evocações nas reuniões
mediúnicas é exemplo de Kardec. Mas, será que
realmente as reuniões mediúnicas dos centros espíritas
estão ocorrendo de modo errado ou incompleto? Nosso propósito,
aqui, é mostrar que, na verdade, os centros espíritas
estão agindo corretamente e de acordo
com essas e outras orientações de Kardec e dos bons
Espíritos na Codificação. Para isso, analisemos,
as citações de Kardec, acima destacadas.
Primeiro: Kardec está certo quando diz que é
um erro não evocarmos os Espíritos em nossas reuniões
mediúnicas. Mas quem disse que a evocação
não é feita em todas as reuniões mediúnicas
comuns das casas espíritas? Quando um companheiro do
grupo mediúnico eleva o pensamento em preces para rogar ajuda,
inspiração e amparo dos bons Espíritos para
a reunião que se inicia, está fazendo uma evocação
direta aos bons Espíritos! Jesus não disse:
“onde quer que se encontrem duas ou três pessoas
reunidas em meu nome, eu com elas estarei.” (MATEUS,
XVIII, 20)? Se os membros do grupo estão
em sintonia com aquele que, em voz alta, faz a prece, então
Jesus será representado na reunião por bons Espíritos
(ver o item 5 do capítulo XXVIII
de O Evangelho Segundo o Espiritismo (ESE)(2)).
Não é necessário nem correto evocar essa ou
aquela entidade conhecida, pois sabemos que nem sempre um determinado
Espírito pode nos atender (Cap.
XXV do LM), e porque quando desejamos
a presença e assistência de bons Espíritos,
não importa o nome, nem a personalidade que foi conhecida
quando encarnado, mas sim se detém conhecimento e bondade
suficientes para nos conduzir ao progresso. Além disso, embora
não constitua uma evocação direta, quando,
em preces, rogamos ajuda para encarnados ou desencarnados, de certa
forma estamos fazendo um tipo de evocação, isto é,
estamos demonstrando em pensamento, e com respeito, que algumas
pessoas são importantes para nós e desejamos que elas
sejam ajudadas.
Segundo: Kardec está certo quando diz que a reunião
mediúnica ideal é aquela em que se combina evocação
com comunicações espontâneas. Quem disse que
isso não ocorre nas reuniões mediúnicas comuns
das casas espíritas? As evocações são
feitas no momento da prece e nas vibrações pelos necessitados,
enquanto que as comunicações espontâneas ocorrem
ao longo da reunião. Como explica Kardec no capítulo
XXV do LM, nem sempre os Espíritos com quem desejamos nos
comunicar tem condições de atender nosso chamado.
Logo, ao mesmo tempo que, em preces, rogamos ajuda para os Espíritos
que sabemos estarem necessitados, deixamos para os bons Espíritos
a escolha daqueles que estão em melhores condições
de receberem os benefícios da comunicação mediúnica
e do diálogo fraterno. Isso se chama organização
para melhor servir, o que é condição necessária
para a prática eficiente da caridade. No fundo, se analisarmos
bem, não se pode nem chamar isso de comunicações
espontâneas porque não será qualquer um
que irá se comunicar, mas só aqueles que os bons Espíritos
sabem que podem ser beneficiados através da reunião
mediúnica. Para nós encarnados, parece que as comunicações
são espontâneas, mas não o são na realidade.
Tudo atende a organização e preparo prévios
da espiritualidade.
Terceiro: as reuniões mediúnicas no movimento
espírita são periódicas, isto é, ocorrem
com frequência regular, geralmente semanal. Logo, nessas reuniões,
há a presença de bons Espíritos habituais.
Em quarto lugar, não há
com o que se preocupar com eventuais comunicações
espontâneas porque os bons grupos mediúnicos realizam
fidedignamente a recomendação espírita de realizar
um “exame escrupuloso” das comunicações
já que, segundo Kardec, essa é “uma garantia
contra as comunicações más”.
Portanto, o movimento espírita já segue as orientações
de Kardec no tocante às reuniões mediúnicas,
comunicações com os Espíritos e, inclusive,
evocações. É graças a essa conduta que
os centros espíritas podem oferecer ajuda eficiente na realização
de comunicações mediúnicas com Espíritos
maus. A esse respeito, no item 278 do LM, Kardec diz:
“Uma questão
importante se apresenta aqui, a de saber se há
ou não inconveniente em evocar maus Espíritos.
Isto depende do fim que se tenha em vista e do ascendente que
se possa exercer sobre eles. O inconveniente é
nulo, quando são chamados com um fim sério,
qual o de os instruir e melhorar; é, ao
contrário, muito grande, quando chamados por mera curiosidade
ou por divertimento, ou, ainda quando quem os chama se põe
na dependência deles, pedindo-lhes um serviço qualquer.”
(Grifos em negrito, meus).
Aqui vemos o quinto requisito
satisfeito pelos grupos mediúnicos dos centros espíritas
em todo o país. Os grupos mediúnicos de desobsessão
ocorrem com o fim único e sério de “instruir
e melhorar” os Espíritos necessitados de orientação,
equilíbrio e paz. A evocação, no caso dos grupos
de desobsessão, ocorre quando lembramos na prece inicial,
de pessoas que estejam sofrendo influências negativas de certos
Espíritos, de Espíritos que saibamos estarem sofrendo
e influenciando algumas pessoas, ou quando pedimos aos bons Espíritos
que sejamos úteis para ajudar aqueles Espíritos maus
que, na análise deles, estão em condições
de receberem ajuda através do grupo.
Com base nas explicações
acima, podemos entender a recomendação de Emanuel
na obra O Consolador (3), questão
369:
“369 – É
aconselhável a evocação direta de determinados
Espíritos?
- Não somos
dos que aconselham a evocação direta e pessoal,
em caso algum. Se essa evocação é
passível de êxito, sua exequibilidade somente pode
ser examinada no plano espiritual. Daí a necessidade de
sermos espontâneos, porquanto, no complexo dos fenômenos
espiríticos, a solução de muitas incógnitas
espera o avanço moral dos aprendizes sinceros da
Doutrina. O estudioso bem-intencionado, portanto, deve
pedir sem exigir, orar sem reclamar, observar sem pressa,
considerando que a esfera espiritual lhe conhece os méritos
e retribuirá os seus esforços de acordo com a necessidade
de sua posição evolutiva e segundo o merecimento
do seu coração. Podereis objetar que Allan Kardec
se interessou pela evocação direta, procedendo a
realizações dessa natureza, mas precisamos ponderar,
no seu esforço, a tarefa excepcional do Codificador, aliada
a necessidade de méritos ainda distantes da esfera
de atividade dos aprendizes comuns.” (Grifos
em negrito, meus).
Ninguém é proibido
de, em pensamento, pedir ajuda para determinado Espírito,
rogar notícias de algum familiar ou amigo desencarnado, ou
desejar orientação deste ou daquele mentor espiritual.
Mas, a Doutrina Espírita esclarece que: i) nem sempre os
Espíritos podem atender à evocação (questões
2, 3, 4 e 9 do item 282 do LM); ii) podem simplesmente não
desejar atendê-las (questões 10 e 22 do item 282 do
LM); e iii) outros Espíritos podem se fazer passar pelos
que foram evocados (questões 23 e 26 do item 282 e questão
36a do item 283 do LM). Assim, pensando nos nobres objetivos de
uma reunião mediúnica, a abstenção de
se evocar, exigir ou esperar pela comunicação de determinado
Espírito resguarda o grupo de possíveis mistificações.
Em nota à questão 36a do item 283 do LM, Kardec diz:
“Os Espíritos levianos se aproveitam sempre da
inexperiência dos interrogantes; guardam-se,
porém, de dirigir-se aos que eles sabem bastante esclarecidos
para lhes descobrir as imposturas e que não lhes dariam crédito
aos contos.” (Grifos em negrito,
meus). Isso mostra que a preocupação de Emanuel
é mais do que justa. Como o centro espírita contém
a presença de companheiros experientes na tarefa mediúnica,
as razões acima mostram, também, porque é mais
seguro que se pratique a mediunidade no ambiente das casas espíritas,
e não nos lares ou em outros locais.
Em conclusão, vemos que as reuniões mediúnicas
que ocorrem nos centros espíritas, estão em pleno
acordo com as orientações do Espiritismo. Se engana
quem pensa que não ocorrem evocações nas reuniões
mediúnicas ordinárias no movimento espírita.