Uma das providências de Deus
para nos ajudar a bem conduzir as reencarnações é
o conhecido provisório esquecimento do passado. Cientes
desta dádiva de Deus, deveríamos aceitar esta determinação,
e com as informações doutrinárias à nossa
disposição, entregarmos ao tempo o trabalho de nos tranquilizar
diante desta ou daquela dificuldade inata que não encontramos
imediata explicação. Infelizmente, este parece não
ser o caso. Vemos com frequência, questionamentos sobre este
esquecimento, dentro do meio espírita, justificando deste modo,
segundo alguns, a busca por qualquer proposta sinalizando a recuperação
de nosso equilíbrio psíquico, através da recordação
destas vidas.
Entre estas propostas temos a Terapia de Vivências Passadas
- TVP. A técnica viabiliza um mergulho do Espírito quando
reencarnado, em seu passado distante, na tentativa de recolher informações
para explicar as razões do porque se apresentam os atuais conflitos.
Munidos destas respostas, e caso sejam aceitas, acredita-se poder
superá-los. Entretanto, cabe a lembrança de que os envolvidos
no fato passado que ocasionou e inibição de agora, serão
conhecidos. Como sabemos que as famílias, de modo geral, são
constituídas de Espíritos que se relacionaram no passado,
imaginemos as consequências descobrindo nossos familiares e
amigos mais íntimos envolvidos diretamente na causa de nosso
infortúnio presente?
Acreditamos seja prudente conduzir as nossas observações
considerando os postulados básicos do Espiritismo, não
discutindo também os sucessos, os insucessos e os conhecidos
inconvenientes desta prática.
O descortinamento do passado não foi incentivado pelo Espiritismo,
embora tenha sido prevista a sua possibilidade, pois se a Doutrina
se esmera em, e alcança plenamente este objetivo, demonstrar
a utilidade e a necessidade do esquecimento do passado, qual seria
a razão de apresentar ou sugerir métodos para se recuperar
a memória de vidas anteriores? Seria um contrassenso! Relendo
O Livro dos Espíritos: (1)
“Não pode o homem, nem deve, saber tudo. Deus assim o
quer em Sua sabedoria”. Esta afirmação seria suficiente
para nos aquietarmos. E mais, se a posição doutrinária
era esta em 1857, data da publicação deste livro, já
teria mudado neste século e meio? A Humanidade terrena avançou
tanto assim para desconsiderar esta sábia diretriz divina?
Adquirimos segurança íntima para nos vermos face a face
com o nosso conturbado passado? Lembre-se de que a Terra é
um mundo de Provas e Expiações, assim, não estão
aqui geralmente encarnados Espíritos de escol.
A Doutrina nos orienta a tranquilizarmo-nos diante da dificuldade
íntima, aguardando para, em futuro próximo, obter o
total esclarecimento da situação. Todavia, tudo indica
ser a posição espírita insuficiente, pois cada
vez mais o tema é trazido à baila dentro das Casas espíritas,
como se fosse dever do Centro prestar esclarecimentos profundos sobre
esta técnica não espírita. Há mesmo quem
defenda o exercício da terapia dentro do Centro, pois a Doutrina
é reencarnacionista e a terapia trabalha com as nossas muitas
vidas. Pelo fato da Doutrina ensinar o princípio da reencarnação,
consequência necessária da lei de progresso, como concluir
que deveria também abrigar o trabalho de terapeutas para tentar
desvendar estas vidas? Indicação inequívoca de
ser ainda o Espiritismo desconhecido para muitos. Vigiemos com muito
cuidado as modernas propostas inovadoras.
Mudemos o nosso foco de reflexão para o argumento de que ninguém
é obrigado a sofrer, deste modo seria lícito procurar
qualquer recurso para se livrar da causa do problema. Paulo já
advertiu: “tudo me é permitido, mas nem tudo convém
(1 Coríntios 6:12)”. Somos
livres, senhores de nosso livre-arbítrio, mas, cientes estamos:
a semeadura de agora determinará a colheita futura. E mais,
na esteira do raciocínio de que ninguém é obrigado
a continuar sofrendo, pode se esconder a tese da eutanásia
e dos defensores do suicídio, ambos graves atentados contra
o bem maior: A vida.
Seria oportuno indagar qual a razão de se contestar a lei de
Deus sobre o esquecimento do passado? Afinal, em última instância,
é a realidade a se apresentar, ou seja: temos uma limitação
psicológica ou física, uma inibição, um
trauma, um medo inato, entre tantos outros exemplos a citar, e entendemos
estar a raiz do problema em vidas passadas; por outro lado, embora
aceitando o esquecimento como lei divina, como um postulado doutrinário,
desejamos uma resposta e solução para o nosso incômodo
agora! Seria razoável esta posição espírita?
Afinal, e a nossa crença? Seria a nossa fé raciocinada
insuficiente para nos tranquilizar? O aprendizado da Doutrina não
é capaz de trazer a alegria às nossas vidas permitindo
conviver com, ou mesmo superar os nossos conflitos interiores? Se
o corpo de ideias do Espiritismo não basta para trazer solução
a esta questão, precisamos refletir cuidadosamente sobre a
nossa opção espírita.
Conforme ensina a Doutrina dos Espíritos, muitos de nós
pedimos, antes de reencarnar, plenamente cônscios de que não
nos recordaríamos claramente desta escolha, esta ou aquela
limitação, para o nosso próprio bem, após
um demorado trabalho de preparação e após discussões
com Espíritos mais evoluídos encarregados do nosso processo
reencarnatório. Lançamos mão, deste modo, de
uma das formas de se quitar graves deslizes passados, entretanto,
surpresos estaremos ao cabo de nossa jornada, descobrindo que não
aceitamos mais as inibições, e através da TVP,
em muitos casos por mera curiosidade, quebramos o compromisso assumido,
feito por nós mesmos e com aqueles que nos ajudaram a decidir
e definir a nossa vida, antes de aqui retornarmos. Ao solicitarmos,
percebemos que precisávamos deste testemunho, não pedimos
sem motivo, por outro lado, se nos foi imposto antes de reencarnar,
tem o mesmo efeito, estou sendo rebelde às determinações
divinas, sempre educativas, jamais punitivas. Ademais, o espírita
está plenamente informado sobre a inexistência do acaso,
portanto, não há sofrimento sem causa justa, pode ser
uma expiação, uma prova, ou ambos.
Quando o Espírito falha, parcial ou totalmente, em sua expiação
ou prova, de modo geral será preciso refazê-la, retomar
do ponto onde foi interrompida, assim, não nos parece razoável
tentar modificar o curso de situações talvez plenamente
acertadas no plano espiritual, através de buscas por informações
passadas. Na dúvida: Vigilância e Oração.
Se esta técnica fosse absolutamente necessária para
bem viver, como fizeram os antigos, quando superaram as suas limitações
e daqui saíram vitoriosos diante de si mesmos? A Humanidade
e os Espíritos, de modo geral são os mesmos, se alcançamos
vitórias no passado, sem a TVP, qual a razão de não
podermos repetir a receita de sucesso empregada anteriormente? Estaríamos
deixando-nos levar pelos modernismos e talvez esquecidos dos Espíritos
protetores, dos Espíritos familiares? Pela prática da
oração, estarão sempre ao nosso lado para nos
tranquilizar com uma sugestão, uma intuição,
para nos fortalecer a paciência, a convicção e
a fé na justiça do Criador.
A Divina providência sugere: leitura em momentos de crise de
uma mensagem destes livros espíritas tão bem escritos
com todo o carinho, dedicação e amor, é como
o refrigério da alma, da alma em sofrimento, talvez dilacerada
pelas dúvidas e agonias atrozes, mas sempre capaz de se superar
e vislumbrar novos horizontes; uma conversa mental sincera com os
guias espirituais, é opção válida para
trazer paz e tranquilidade em momentos de suprema revolta ou desânimo;
o esquecimento de nós mesmos em contato com o sofrimento alheio,
muita valia possui, pois quando nos ocupamos da dor do próximo,
a nossa pode diminuir ou mesmo desaparecer, por encanto. Temos ainda
a voz da consciência, para nos advertir e nos guiar.
Se Deus determina o esquecimento das vidas passadas, também
nos dá recursos variados para superar as consequências
deste passado, permitindo-nos continuar com a alegria de viver apesar
dos espinhos carregados, e quem não os tem? Se não fosse
assim, Deus desejaria o nosso sofrimento, pois nos faz esquecer a
causa de nosso infortúnio e nega recursos na vida presente
para bem suportá-lo.
Alguns, todavia, têm recordações espontâneas
de sua(s) vida(s), entretanto, este fato é uma condição
de exceção, com um fim útil, talvez previamente
acertado no plano espiritual, permitido por Deus, jamais representando
a regra geral. Ademais, muitas vezes são fragmentos de vidas,
raramente são longos trechos de lembranças. Regressão
de memória para confirmar a lei da reencarnação
é técnica válida, usada há bom tempo,
mas com fins terapêuticos, avaliemos com muito cuidado, usemos
o nosso bom senso, antes de optar por descortinar um passado que não
sabemos se seremos capazes de enfrentar e conviver.
Lembremo-nos da bondade de Deus, dos recursos por Ele oferecidos.
Podemos superar ou conviver com as nossas barreiras ou limitações,
sejam elas quais forem, pois Deus não dá fardo maior
para se carregar do que podemos suportar.
Experimentemos de hoje em diante esta variante: Trabalho,
Vigilância e Paciência
- TVP, quem sabe reencontraremos a nossa paz interior tão almejada.