*
texto completo disponível em pdf - clique
aqui para acessar
No início da missão
de Chico Xavier, em seu primeiro encontro com Emmanuel, este lhe deu
uma orientação básica para o trabalho que deveria
desempenhar: “- Está você realmente disposto a
trabalhar na mediunidade com o Evangelho de Jesus, perguntou Emmanuel?
- Sim, se os bons espíritos não me abandonarem... -
respondeu o Médium. - Não será você desamparado,
- disse-lhe Emmanuel - mas para isso é preciso que você
trabalhe, estude e se esforce no bem. - E o senhor acha que eu estou
em condições de aceitar o compromisso? - tornou o Chico.
- Perfeitamente, desde que você procure respeitar os três
pontos básicos para o serviço... Porque o protetor se
calasse, o rapaz perguntou: - Qual é o primeiro? A resposta
veio firme: - Disciplina. - E o segundo? - Disciplina. - E o terceiro?
- Disciplina”.(1)
Sabe-se que Chico Xavier, ao desencarnar, deixou uma obra literária
psicografada de centenas de livros. O Brasil conhece a dimensão
da tarefa desempenhada por ele. Agora nos perguntamos: se Emmanuel
recomendou por três vezes a virtude da disciplina a Chico Xavier,
Espírito que sabemos já bastante evoluído, será
que também precisaríamos de disciplina no desempenho
de nossas particulares missões?
Conta-se que durante uma apresentação de reunião
pública em casa espírita, o expositor lembrou a disciplina
como sendo importante virtude a ser exercitada nos trabalhos da instituição,
tanto quanto na condução da própria vida. Quase
que imediatamente, um dos ouvintes emitiu opinião de que centro
espírita não é quartel! Conversaram mais um pouco
sobre o tema, contudo, o participante se mostrou irredutível
em sua posição. Ah..., como é bom desfrutar de
uma doutrina que incentiva e permite a liberdade de opinião,
contudo, recordemos que respeitar o livre-arbítrio alheio não
quer dizer cooperar com a indisciplina.
Todavia, o que teria levado o participante a esta posição
tão extremada, quando se sabe que sem disciplina nada se conquista,
nada se consegue em longo prazo?
A literatura espírita é rica em chamamentos ao cultivo
desta virtude, veja-se, por exemplo, algumas citações
sob diversos aspectos nas referências (2345);
então qual a razão de tanta resistência por parte
do frequentador? – Teria ele recebido educação
muito repressora por parte de seus pais e agora via na virtude da
disciplina algo prejudicial à sua vida? – Teria ele talvez
incorporado este jeito nosso de viver aqui na Terra do Cruzeiro, onde
de modo geral, se presta pouca importância a esta virtude? –
Afinal, somos bastante indisciplinados no trânsito, no comer,
na compra de remédios sem receita, nos atendimentos aos horários
dos diversos compromissos da vida...
A disciplina verdadeira não é característica
de personalidade que exija invariavelmente rigor, austeridade, sisudez,
e nem tampouco é irmã do autoritarismo. Não é
incompatível com a alegria e a descontração,
nem tampouco com a liberdade de ação. O amor, virtude
maior que todos nós buscamos aprender, só será
plenamente desenvolvida, com muita disciplina. É claro que
o centro espírita não é um quartel, local este
onde a ordem e a disciplina, estas duas irmãs, filhas da obediência,
assumem traços de maior rigor, pois a organização
militar, de modo geral, assim o exige e impõe.
Podemos imaginar Jesus indisciplinado na vivência de seus postulados
de vida? – Podemos imaginar Mahatma Gandhi sem disciplina na
sua proposta de acabar com o domínio inglês sobre o seu
país usando apenas as “armas” da bondade e a prática
da não violência? – Podemos imaginar Chico Xavier
executar a sua grandiosa missão sem disciplina ao comer, ao
dormir, ao acordar, no uso equilibrado de seu tempo? – Podemos
esperar que um centro espírita atenda aos seus propósitos,
sem a disciplina do horário, da pontualidade, da constância,
da perseverança, da manutenção de suas reuniões,
ou de pelo menos parte delas, independentemente de férias ou
carnaval, entre outras tantas datas festivas, que nos convidam a fechar
as portas da casa?
Nesta hora, em que se fala de disciplina em centro espírita,
lembra-se o texto de Allan Kardec contido no capítulo XXIX,
item 333, em O Livro dos Médiuns: “A exigência
de pontualidade rigorosa é sinal de inferioridade, como tudo
o que seja pueril”. Entretanto, não se defende que exista
um relógio de precisão, na parede da casa, de modo que
a reunião só comece no exato instante em que o ponteiro
dos segundos alcance o dos minutos, na hora determinada, e termine
igualmente desta forma na hora de encerramento. Isto sim seria pueril.
Além disso, observa-se que esta frase foi escrita após
Kardec fazer menção a Espíritos de ordem verdadeiramente
superior, que não são meticulosos ao extremo, e também
que a frase se refere a apenas um dos aspectos na questão da
disciplina, quando Kardec aborda a questão da pontualidade
em reuniões para evocação de Espíritos.
Lembre-se mais que, de modo geral, as reuniões que ocorrem
em um centro, sejam elas quais forem, não são assistidas
por Espíritos Superiores propriamente ditos, ou seja, aqueles
que pertencem à segunda ordem e segunda classe, a que antecede
a dos Espíritos puros, conforme item 111 em O Livro dos
Espíritos. Além disso, os Espíritos desencarnados
que assistem aos trabalhos não estão à nossa
disposição, têm as suas particulares tarefas e
ocupações. Ademais, inspecionando um pouco mais o item
333, Allan Kardec diz que há Espíritos que comparecem
quando as reuniões se realizam em dias e horas fixos, existindo
mesmo aqueles que levam a pontualidade ao excesso, ofendendo-se com
um atraso de quinze minutos. Pelo sim, pelo não, no desconhecimento
do grau de evolução do Espírito evocado ou antecipadamente
aguardado, cremos que o melhor seria ser pontual. Podemos também
enxergar esta questão pelo outro lado: Qual seria a razão
de cultivarmos a impontualidade? Seria apenas para satisfazer o nosso
ego e podermos dizer que a reunião inicia quando desejamos?
Esta virtude deveria ser exercitada regularmente nos diversos trabalhos
da casa. Como entender que um frequentador entre regularmente ao final
de exposição pública apenas para tomar passe
sem qualquer justificativa! Que exemplo estamos dando e que ideia
se formará na mente deste assistido sobre o que é uma
casa espírita e o que é o Espiritismo? Se o frequentador
não entende que o mais importante seria assistir ao estudo,
pois este nos esclarece sobre as nossas dificuldades, representa a
vara de pescar não é apenas o peixe dado gratuitamente;
é nossa obrigação, seria mesmo um dever, orientá-lo
sobre a realidade e incentivá-lo a comparecer no horário
de início da reunião.
Gostamos de esperar uma pessoa que conosco agendou compromisso e não
aparece na hora? Se a resposta for não, então não
façamos aos outros - Espíritos desencarnados e encarnados
- o que não gostaríamos que nos fosse feito. Ademais,
os frequentadores da casa, que também possuem seus afazeres,
não ficam satisfeitos sabendo que a reunião não
tem hora para começar, tampouco para acabar.
A disciplina deve permanecer intrínseca em nossos atos e pensamentos
se desejamos conquistar algo maior e duradouro, ou seja, os tesouros
imortais que não são corroídos pela ferrugem
nem destruídos pelas traças. Disciplina é virtude,
contudo, é vista por muitos como um castigo. Esta virtude se
torna pesada, dolorosa, tirânica, pois ainda somos muito imperfeitos,
recomendável então que a pratiquemos exaustivamente,
para torná-la suave, natural, espontânea. A disciplina
visa educar e corrigir as nossas más tendências, por
isso, para o iniciante no cultivo desta virtude, lhe parece que está
vivendo em uma prisão.
Lembrando as prisões, por paradoxal que parece, a disciplina
liberta. Liberta de nossos caprichos, de nossas vaidades, de nosso
egoísmo, pois quando mantemos a indisciplina, mesmo cientes
de que não deveríamos, o que é mais grave, acreditando
que esta virtude é para os outros e não para nós
mesmos, estamos cedendo aos grilhões de nossos personalismos,
portanto aprisionando-nos.
O que é o vigiai e orai, senão uma proposta disciplinadora
do Espírito?
Quando em um centro espírita, falar-se da necessidade do cultivo
desta virtude, reflitamos um pouco mais, antes de reagir instintivamente
de modo contrário. Afinal, o entro espírita não
é de fato um quartel material, mas é uma fortaleza espiritual.
Fortim este onde aprendemos com a disciplina do amor e da tolerância,
através das palestras, dos trabalhos e dos estudos, à
luz dos ensinos da Doutrina Espírita, a confeccionar a nossa
farda moral; e através das nossas pequenas, constantes e disciplinadas
demonstrações de renúncia, humildade e bondade,
a nos armarmos das virtudes necessárias e imprescindíveis
a quem aspira servir Jesus incondicionalmente. E são exatamente
estas duas conquistas: a vestimenta moral e as armas das virtudes,
que nos permitirão travar o bom combate apregoado pelo apóstolo
Paulo, quando disse: “Combati o bom combate, acabei a carreira,
guardei a fé” - 2 Timóteo
4:7