Data: 25/07/2022
Acabo de ler um artigo de Léon Denis, publicado
na revista Le Spiritisme, de junho de 1889, no qual ele comenta
a proposta do Sr. Marius George de criar em meio ao espiritismo
um grupo positivista, que se apoiasse exclusivamente nos fatos e
abandonasse tudo o que pudesse pertencer ao domínio da hipótese.
A seguir, Marius afirma que a obra de Allan Kardec está manchada
com dogmatismo e misticismo e que por isso guardaria pouca relação
com os gostos e aspirações da época em que
eles viviam.
Acabo de ler um artigo de Léon
Denis, publicado na revista Le Spiritisme, de junho de 1889, no qual
ele comenta a proposta do Sr. Marius George de criar em meio ao espiritismo
um grupo positivista, que se apoiasse exclusivamente nos fatos e abandonasse
tudo o que pudesse pertencer “ao domínio da hipótese”.
Denis estava participando da organização
de um congresso organizado pela União Espírita Francesa,
e confirma ao seu correspondente que “sua forma de ver será
acolhida não só pelo congresso, mas de forma permanente
por todos os seus irmãos, com o respeito que é devido
às convicções sinceras e esclarecidas”
(p. 81)
A seguir, Marius afirma que a obra
de Allan Kardec “está manchada com dogmatismo e misticismo”
e que por isso guardaria pouca relação com “os
gostos e aspirações” da época em que eles
viviam.
Denis argumenta que Kardec agrupou e coordenou o ensino dos espíritos,
de forma a lhe dar um “corpo” de doutrina. Ele afirma
que isso levou o espiritismo à “idade adulta”.
Ele afirma que todos os que fugiram desse método, com teorias
pessoais, edificaram obras efêmeras. Ele se refere a Roustaing,
como exemplo, dizendo que ele merece o epíteto de místico
com mais justiça.
Analisando Kardec ele cita o combate, com rigor, dos dogmas católicos
em O evangelho segundo o espiritismo, O céu e
o inferno e A gênese. Mostra a diferença
do conceito de Deus entre os católicos, e penso que também
entre os deístas como Voltaire, porque fala do Deus-relojoeiro,
e faz uma imagem muito interessante, que já havia percebido
na leitura de O céu e o inferno, a substituição
de um Deus visto como imperador do universo (cercado por seus anjos-cavaleiros),
por uma “imensa república de mundos governada por leis
imutáveis, acima dos quais paira a Razão, Razão
consciente, que conhece a si mesma e que é dona de si, que
é Deus.” (p. 82)
Surpreendendo seu interlocutor, Denis afirma que a noção
de Deus nos escapa (ele está discutindo com Marius George o
misticismo da concepção de Deus) assim como as noções
positivistas de infinito e eternidade. Em outras palavras, ele aponta
uma contradição interna do positivismo: conceitos que
não surgem da observação de fatos, mas da razão.
O autor espírita francês continua dizendo que Kardec
entende “o sentimento religioso como uma força”
que pode ser utilizada para o bem da humanidade. Ele afirma que a
humanidade não tem menos necessidade do ideal que do real.
Para ele, “o ideal é essa intuição do melhor
que nos eleva acima do visível, do conhecido, do realizado,
em direção de concepções e de formas mais
perfeitas.” (p. 82) Nessa frase, Denis mostra a seu interlocutor
que uma visão exclusivamente positivista seria reducionista,
defendendo certo idealismo (escola filosófica).
Outra colocação genial de Denis foi reconhecer que o
sentimento religioso foi explorado por uma casta sacerdotal que produziu
abusos em seu nome, mas que “fortificado pela ciência
e pela Razão ele se tornará motivo de aperfeiçoamento
individual e de transformação social”. (p. 82)
O espírita de Tours faz um análise das religiões
e mostra que sua parte exclusivamente humana e material é a
“das definições, dos dogmas e de todo o aparato
dos cultos e dos mistérios”, da mesma forma que Kardec
havia discutido em seu artigo de 1868.
Ele afirma que as experiências espíritas dão uma
base sólida à crença na vida futura, retirando-a
do domínio das hipóteses e situando-a no domínio
dos fatos (ele estaria se referindo a uma teoria baseada em evidências,
como se diz hoje?). Também afirma que “seria uma grande
falta, deixar às igrejas o monopólio da ideia de Deus”.
Com uma frase contundente, Denis reafirma a insuficiência do
positivismo e o valor do sentimento religioso, quando escreve: “A
missão do espiritismo não é excluir o sentimento
religioso do coração humano e a noção
de Deus, mas sim secularizá-los, para para purificar, para
elevá-los, para apoiá-los na razão, a fim de
torná-lo o motivo de melhoria.” (p. 83)
O mais interessante do artigo é ver que mesmo se opondo claramente
à tese da redução do espiritismo aos limites
traçados pelo positivismo, Denis respeita seu interlocutor.
Ele conclui seu artigo dizendo:
“Mas qualquer que seja sua opinião sobre este assunto,
creia, meu amigo e irmão, que estamos de acordo em pontos suficientes
para que certas diferenças de opinião não nos
possam separar e que você vai me encontrar sempre disposto a
caminhar de mãos dadas na conquista de destinos melhores para
nós e para a humanidade.” (p. 83)
Um texto muito importante para refletirmos no meio espírita,
nos dias de hoje.