Resumo
Para este trabalho realizou-se um
estudo de caso em uma creche visando a identificar novas categorias
de análise de cultura organizacional e motivação
de voluntários em organizações de Terceiro
Setor.
O Terceiro Setor é concebido como o conjunto de organizações
sem fins lucrativos, autogerenciadas, integrantes da sociedade civil,
com finalidade pública ou coletiva. Foram revistas as teorias
de motivação de Abraham Maslow, David McClelland e
Joseph Nuttin, a partir das quais se desenvolveu um modelo complexo
para o estudo deste fenômeno, que contempla necessidades fisiológicas,
tendências e schematas, além dos próprios motivos.
Os motivos são concebidos como projetos de ação
baseados em relações exigidas entre indivíduo
e ambiente. Após a revisão das teorias de cultura
organizacional de Hofstede, Schein e Fleury, adotou-se o modelo
de cultura organizacional de Fleury, acrescido da análise
de ethos e visão de mundo (oriundas dos trabalhos de Clifford
Geertz) de movimentos políticos, religiosos ou sociais subjacentes
à organização.
O estudo de caso contou com o recurso de triangulação
de dados, a partir de múltiplas técnicas de pesquisa:
observação participante, análise de documentos,
história de vida e descrição de atividades.
Na análise do movimento religioso subjacente à creche,
encontra-se uma proposta de ethos e visão de mundo do Espiritismo
depreendidos da leitura da obra de Allan Kardec e da revisão
bibliográfica de estudos antropológicos em organizações
espíritas brasileiras. A análise da história
da organização mostrou existir um conflito entre um
projeto de promoção social, idealizado pelo fundador,
e uma obra social preocupada com o desenvolvimento pessoal e a oportunidade
de realização de atividades humanitárias pelo
voluntário, própria do movimento espírita,
assim como convênio com o poder público municipal,
que descaracterizou as atividades de creche como espaço de
ação voluntária.
Observou-se que os voluntários de um dos territórios
da creche associam seus motivos não apenas às tendências
a estabelecer contatos interpessoais afetuosos como também
à consistência interna, com a construção
de uma auto-imagem mais valorizada, e justificada por muitos dos
schematas estudados. Observou-se também que o trabalho voluntário
é, paradoxalmente, fonte de prazer, de desligamento de problemas
oriundos de outros espaços de experiência e de sofrimento.
Há, ainda, o desenvolvimento de alguns mecanismos de defesa
individuais e coletivos para atenuar os efeitos desses aspectos
negativos.
O estudo corrobora a tese que advoga a necessidade de conhecimento
mais substancial da cultura das organizações de Terceiro
Setor, antes de se propor a adoção de técnicas
de gestão oriundas do meio empresarial.