Mais recentemente, com o retorno da filosofia ao
ensino médio brasileiro e a ampla difusão das obras
de Allan Kardec, com iniciativas como as da FEB e do Instituto de
Pesquisas Espíritas Allan Kardec (IPEAK), têm surgido
novos debates com base em leituras, não apenas das obras
básicas do fundador, mas também da Revista Espírita,
no período em que ele era o editor (1858-1869), que contém
contribuições que deixam mais claros alguns pontos
do pensamento espírita.
Vi por esses dias um debate sobre os princípios a partir
dos quais o espiritismo foi elaborado. Na filosofia, esses princípios
podem ser ideias consideradas corretas (premissas ou postulados)
ou justificadas racionalmente. Já os dogmas, embora tenham
o sentido original de premissas de sistemas filosóficos na
antiguidade, acabaram por ser entendidos como pontos de vista indiscutíveis
sobre os quais se fundam as religiões, especialmente a partir
do cristianismo medieval.
Um ponto aparentemente óbvio, mas que foi e parece que continua
sendo fonte de debates, diz respeito à existência e
comunicabilidade dos espíritos. É uma premissa adotada
por Kardec como verdadeira e indiscutível (dogma) ou é
o resultado de uma cuidadosa observação de fatos?
Na Revista Espírita de abril de 1869, encontra-se um artigo
curioso, intitulado "Profissão de fé espírita
americana", onde possivelmente Allan Kardec comenta uma publicação
do jornal Salut, de New Orleans, de 1867, no qual se divulgam
os resultados de um congresso espiritualista norte americano. O
evento gerou uma "profissão de fé" dos espiritualistas
dos Estados Unidos, e Kardec destaca as muitas semelhanças
entre pontos de vista e as muito poucas diferenças. Como
foram movimentos desenvolvidos separadamente, Kardec argumenta como
um ponto favorável ao espiritismo.
Uma questão que ele destaca em seus comentários é
a da origem da proposição da comunicabilidade dos
Espíritos no espiritualismo e no espiritismo. Lê-se
abaixo:
"Essa crença não é mais
o resultado de um sistema preconcebido nesse país do que
o Espiritismo na França. Ninguém a imaginou; viu-se,
observou-se e tiraram-se conclusões. Lá, como aqui,
não se partiu da hipótese dos Espíritos
para explicar os fenômenos, mas dos fenômenos, como
efeito, chegou-se aos Espíritos como causa, pela observação.
Eis uma circunstância capital que os detratores se obstinam
em não levar em conta."
(Revista Espírita, abril de 1869, p. 99. Tradução
de Júlio Abreu Filho pela EDICEL)
Cabe lembrar também que não se trata
de crença ingênua, porque Allan Kardec examinou as
diferentes formas de explicação dos fenômenos
estudados, como se pode ler no capítulo IV da primeira parte
de O Livro dos Médiuns (Dos sistemas), verificando a capacidade
explicativa de cada um deles e delimitando os fenômenos que
só seriam devidamente explicados pelas comunicabilidade dos
Espíritos.
Camille Flammarion não ficou satisfeito com este trabalho
de Allan Kardec e continuou estudando empiricamente os fenômenos
atribuídos aos Espíritos de forma geral. Publicou
em 1865 o livro "As forças naturais desconhecidas",
no qual analisa e considera verdadeiros diversos fenômenos
estudados, mas ainda não conclui pela indubitabilidade da
comunicação dos espíritos. Essa conclusão
veio em 1922, quando publicou o terceiro livro de "A morte
e seu mistério".
Vê-se, portanto, que seria um erro entender que o Espiritismo
propõe a comunicabilidade dos Espíritos apenas como
ideia ou princípio metafísico, mas que se trata do
resultado de observações de fenômenos psicológicos
(ou parapsicológicos, como queira o leitor) e que não
nega a possibilidade de outras explicações, exigindo
do seu observador uma análise cuidadosa para não levar
"gato por lebre", ou seja, não confundir com as
produções do inconsciente, com a imaginação
ativa, com a fantasia, fraudes intencionais ou não e outras
explicações possíveis.
Fonte: https://espiritismocomentado.blogspot.com/2019/01/a-comunicabilidade-dos-espiritos-e-uma.html