Assisti a uma conferência na UFMG (Universidade
Federal de Minas Gerais) há muitos anos, na qual o prof. Chasin,
de filosofia, afirmava que “a ontologia antecede a epistemologia”.
Ontologia é a área da filosofia que estuda o ser. Epistemologia
é a área da filosofia que estuda o conhecimento científico.
Na época, eu não aceitava essa posição,
mas esbarrei em uma discussão que me fez repensar a posição
do professor em algumas circunstâncias.
No século 17, com a consolidação do chamado “velho
racionalismo” na teologia alemã, um autor chamado Reimarus
escreveu um livro sobre a vida de Jesus que gerou uma imensa polêmica.
Como racionalista, Reimarus questionou a divindade de Jesus e a crença
em narrativas sobrenaturais que se encontram na Bíblia e no
Novo Testamento. As curas de Jesus, os milagres, as aparições
espirituais, os anjos e demônios, tudo isso devia ser não
mais que a interpretação feita pelos evangelistas de
fatos naturais, fruto das crenças de sua época.
Albert Schweitzer afirmou que Reimarus foi um dos primeiros teólogos
e defender uma visão de Jesus humano (a teologia ortodoxa da
Igreja Católica o enxergava como ser divino) e a tentar interpretar
as chamadas escrituras de forma a dar sentido ao que viram os apóstolos
e, baseando-se nas crenças da época, como eles teriam
interpretado o que “realmente aconteceu”. Então,
Reimarus imagina o que teria acontecido, se Jesus fosse apenas um
“profeta apocalíptico judaico”, pregando o Reino
de Deus aos seus compatriotas. Isso ficou conhecido como o Jesus histórico.
A produção de Reimarus agregou um grupo de pensadores
que aceitavam a existência de Deus, um Deus que teria criado
as leis universais, mas colocaram em questão os evangelhos,
que passaram a ser vistos como uma espécie de compreensão
com base em uma visão distorcida de Jesus pelos apóstolos,
um homem cujo pensamento se ajustava às crenças apocalípticas
de sua época e que nada teria a ensinar aos homens do século
17. Estamos diante do que seria a religião natural e o deísmo,
que se tornariam comuns entre os pensadores europeus. Uma religião
sem influência da Igreja e dos protestantes, que não
deveriam orientar os homens modernos.

O entendimento de Chasin explica o que
aconteceu na teologia de Reimarus. Em vez de fazer pesquisas históricas,
como nos dias de hoje, baseadas em documentos existentes, descobertas
arqueológicas, conhecimentos de época e no conhecimento
das sociedades e culturas judaica, romana, grega e outras que conformam
o caldo de culturas onde o cristianismo nasceu, Reimarus começa
seu trabalho questionando as escrituras e a visão vigente de
Jesus, adotando uma posição naturalista e tentando acomodar
os textos evangélicos à sua cosmovisão. A visão
de um “profeta apocalíptico judeu”, supostamente
baseado em uma história da cultura e da sociedade, não
é decorrente de uma pesquisa histórica, mas uma visão
ontológica de Jesus, que vai, de alguma forma, orientar a interpretação
dos documentos cristãos e a seleção das evidências
históricas, dos documentos e dos artefatos arqueológicos.
Schweitzer percebe com clareza que Reimarus e diversos autores que
seguiram a ideia de um Jesus histórico, imaginaram narrativas
que considerassem como um erro de compreensão ou percepção
dos apóstolos o que era visto como sobrenatural, porque, afinal,
o sobrenatural não existe. O que era visto como sobrenatural
era apenas um artifício dos apóstolos para que Jesus
fosse visto como messias ou profeta pelos seus contemporâneos.
Uma das explicações bastante calcadas na imaginação
é a que explica, por exemplo, o aparecimento de Jesus após
a morte. Ele não teria morrido na cruz, mas estava aparentemente
morto. Foi levado ao sepulcro e recuperou os sentidos, aparecendo
depois aos discípulos, o que explicaria o toque nas mãos
de Tomé. Após mostrar-se a diversos personagens do Novo
Testamento, ele se foi para um lugar desconhecido, onde viveu o resto
da vida. Não há documento, lenda ou artefato que indique
que Jesus não houvesse morrido, nem que tivesse abandonado
seus discípulos e mudado para um lugar desconhecido. É
pura imaginação de Reimarus em busca de um sentido que
explicasse Jesus como um personagem de sua época, um homem
vulgar e, portanto, alguém que nada tem a ensinar aos homens
cujos conhecimentos progrediram. A visão de Jesus antecedeu
o emprego das informações históricas das quais
Reimarus lançou mão.
Allan Kardec estudou os ensinos de Jesus, usando uma versão
chamada de “Bíblia de Port Royal”, que é
uma tradução da Vulgata para o francês feita pelos
irmãos Antoine Le Maistre e Louis-Isaaac Lemaistre de Sacy.
O “Nouveau Testament de Mons” foi publicado em 1667 e
gerou uma enorme polêmica nesta época, mas se tornou
um dos mais lidos na França.
Além da leitura e interpretação, usando da razão
e do “bom senso” como guias, Kardec empregou também
comunicações dadas pelos Espíritos em sua época,
e as descobertas do espiritismo nos seus estudos sobre Jesus. Ele
não via Jesus como Deus, mas como um Espírito superior,
que ensinava uma moral digna de ser usada como referência quase
dois milênios depois da época vivida por seu autor.
Sua análise se dá em acordo com os conhecimentos espíritas
que desenvolveu e organizou. Ele abandona muitos dogmas cristãos,
e dá explicações de base espírita para
assuntos polêmicos como os milagres (A gênese, os
milagres e as predições segundo o espiritismo)
e as predições. Como as ideias espíritas fossem
fruto direto das observações de fenômenos espirituais
e decorrentes de um diálogo com os Espíritos, ele as
considera boas para a explicação de passagens de sentido
obscuro ou que seriam vistas como falsas narrativas por muitos colegas
filósofos de sua época.
Os milagres, por exemplo, são vistos por Kardec como fenômenos
espirituais semelhantes aos que ele observou no século 19 e
não narrativas sobrenaturais. Ele explica em “A gênese”
que a ciência de sua época não podia se gabar
de conhecer todas as leis naturais, que havia leis desconhecidas,
como as que explicariam os fenômenos espirituais que ele estudava.
Nem todas as narrativas evangélicas de milagres poderiam ser
explicadas com esse recurso, mas o que pudesse ser explicado, faria
parte da natureza, de uma natureza espiritual, sendo estudada, naquele
momento, pelo espiritismo.
Ele não é contrário aos estudos históricos
e os recomenda para uma compreensão mais correta dos Evangelhos.
Na introdução de O evangelho segundo o espiritismo
ele trata de aspectos históricos e remete seu leitor a esse
tipo de estudo. Ele também analisa o trabalho de Ernest Renan
na Revista Espírita, com base em críticas e
contribuições. Vale a pena o espírita observar
nesses textos a forma racional com que ele trata o livro que havia
sido recém-publicado.
No livro O evangelho segundo o espiritismo, Kardec valoriza
a moral cristã. Por moral cristã, ele não entende
uma submissão cega a tudo o que se acha prescrito nos diferentes
livros da Bíblia, mas uma forma de viver na qual princípios
cristãos, como a fraternidade entre as pessoas, a caridade
moral e material, e diversas outras, se tornem uma espécie
de imperativo ético capaz de ser compreendido a partir da razão,
e de critério para o autoconhecimento. Sua análise é
sempre contextualizada em sua época e busca a razão
como instrumento. Ele considera “cristãos-espíritas”
ou “verdadeiros espíritas”, aqueles que usam o
espiritismo como uma forma de se transformarem-se moralmente, ou seja,
vão além do espiritismo como uma teoria racional e empírica
de explicação de fenômenos espirituais.
Jesus, então, é “modelo e mestre” da humanidade,
como é publicado em O livro dos espíritos,
mas Kardec não advoga uma exclusividade do pensamento cristão
e uma intolerância contra outras tradições religiosas.
Pelo contrário, ele propõe respeito a outras doutrinas
religiosas, e, no início das suas publicações,
pensa em uma comunidade espírita composta de membros de diversas
religiões. Uma forma de entender essa proposta racionalmente,
repousa em uma identificação de pontos éticos
fundamentais comuns entre as várias religiões, o que
vem sendo desenvolvido por autores contemporâneos.
Para
concluir, é observável, principalmente nas redes sociais,
pessoas que se identificam como espíritas e que fazem uma espécie
de proselitismo do Jesus histórico. Vimos que por detrás
do Jesus histórico, há diversas teorias de base para
a história, inclusive materialistas, céticas, baseadas
em princípios até contraditórios com o espiritismo.
Li um dos autores que definiu Jesus como um “profeta apocalíptico”
no meio judaico. Essa forma de concepção reduz Jesus
e sua mensagem a um mero personagem de época. Não haveria
nem genialidade no que ele diz a seus conterrâneos, porque magister
dixit que ele precisa ser reduzido à sua época e contexto.
Outro diz que as ideologias que foram desenvolvidas a partir de seus
ensinos formaram uma superestrutura que escraviza o trabalho. Outra
afirma que Jesus quase conseguiu formar uma sociedade igualitária,
mas foi ingênuo, não propondo o controle dos meios de
produção, apenas a divisão do excedente. Outras
concepções querem encontrar uma comunidade de onde ele
tenha ido beber seus conhecimentos, aprender, então, vendo
alguma similitude dos ensinos cristãos com o modo de vida essênio,
já concluem apressadamente que talvez Jesus tenha sido essênio,
o que explica tudo o que ele ensinou. Mais uma versão do Jesus
histórico, embora muito minoritária, é a de que
ele nem existiu, é um mito, que não temos evidências
suficientes que assegurem sua existência histórica, e
o autor constrói sua narrativa analisando de forma cética
as diversas evidências e registros históricos da existência
de Jesus, visando a criar dúvida sobre os ensinos cristãos.
Esse tipo de compreensão é fundamental, antes que um
leitor desavisado adote as explicações “por serem
científicas”, portanto, reais, e saia por aí reescrevendo
ou colocando à larga o pensamento de Kardec. Esse projeto é
uma espécie de descaracterização do pensamento
espírita e de seus fundamentos. Essa expressão que associa
o adjetivo científico à conclusão de realidade
faz parte de uma posição que filósofos denominaram
como “realismo ingênuo”.
Como se pode ver, os historiadores começam seu trabalho de
narrativas diferentes, de visões de homem e cosmovisões
também influenciadas por teorias, como os antigos padres cristãos.
Se vamos conversar entre nós sobre quem é o Cristo,
saibamos quais são as visões de Jesus dos autores que
lemos, antes de fazer uma justaposição com pontos de
vista espíritas com ideias contraditórias.

Fontes Bibliográficas:
Kardec, Allan. O livro dos espíritos. 1ª ed. Comemorativa.
Rio de Janeiro, FEB, 2006. [Tradução de Evan
dro Noleto Bezerra].
Kardec, Allan. O evangelho segundo
o espiritismo. 131ª ed. (Histórica) Brasília: FEB,
2013. [Tradução de Guillon Ribeiro].
Kardec, Allan. A gênese,
os milagres e as predições segundo o espiritismo. 16ª
ed. Rio de Janeiro: FEB, 1973.
Schweitzer, A. The quest of
the historical Jesus ([edition unavailable]). Amazon Books. Retrieved
from
Kindle, 2014. (Original work published 2014).