Terminamos no último domingo
a Semana de Chico Xavier, na TV Célia. Convidar pessoas próximas
ao Chico nos trouxe uma nova luz sobre o que ele fazia. Uma coisa
que percebemos dos expositores é o que podemos chamar de “o
Chico dos pobres”.
Na minha juventude ouvi os militantes
políticos na universidade criticarem a distribuição
de bens, como cestas básicas, para os pobres. Eles chamavam
essa prática de “amansar o cordeiro”, porque não
resolvia o problema de sua exclusão social. Era um discurso
raso, que não ia além da afirmação aparentemente
óbvia.
Na nossa casa, por exemplo, a distribuição
de cestas básicas tinha uma finalidade promocional. Ajudava
famílias que haviam migrado da roça para a periferia
de Belo Horizonte a se estabelecer. Muitas dessas famílias
chegavam na esperança de um novo futuro, mas sem emprego nem
bens. Algumas delas entravam em um ciclo negativo, cujas perdas contínuas
e a fome levavam o pai ao alcoolismo, à depressão e
ao afastamento do núcleo familiar. Uma cesta de alimentos nem
de longe atendia as necessidades desses núcleos, mas combatia
a fome e as reuniões mensais que fazíamos davam algum
alento. Mantido o núcleo familiar, aumentavam as chances de
adaptação à cidade grande.
No caso do Chico, o significado do
que ele fazia era completamente diferente. Ele se dedicou à
humanização dos miseráveis, ao estabelecimento
de laços de afeto com eles. Parece bobagem aos olhos de um
intelectual que deseja, justificadamente, a inclusão social
do excluído, a existência de direitos mínimos,
como o trabalho, a renda, a moradia, a saúde e a alimentação.
Mas não é.
Roberto e Marival contaram-nos de
uma tarefa na qual o Chico visitava as periferias de Uberaba. Lugares
sem luz nem água encanada. Lampião na mão, lá
ia um grupo de voluntários, visitar as periferias. Marival
surpreendia-se com a capacidade do Chico guardar os nomes das pessoas.
E o Chico lhe explicava que quem ama, lembra. Esse é um primeiro
ponto a se observar. Os pobres não eram “pessoas pobres”
para o Chico. Eram o seu Antônio, a dona Maria de João,
a Celestina, filha de Dica. Ele visitava a casa, e era uma visita
tão ilustre, que o filho de uma família fez poesia para
o Chico. A tarefa não era a distribuição do que
quer que levassem. A tarefa era a convivência. Acho que ninguém
entendeu direito o Chico.
Depois Juselma nos explicou a questão
da moedinha. Uma garrafa de água de dois litros, acho, cheia
de moedinhas de dez centavos, depois de vinte e cinco centavos, e
vai subindo o valor na medida em que o tempo e a inflação
corroíam a capacidade de compra do nosso dinheiro. Por que
isso? Qual o sentido? Perguntava-se a professora Juselma, perspicaz.
As moedas de pequeno valor de compra dificilmente fariam a diferença
na vida das pessoas, embora quem ganhe muito pouco dinheiro tenha
uma visão diferente de uma moeda de um real, por exemplo.
Mas não tinha nada a ver com
distribuição de renda. Tinha a ver com proximidade psicológica.
Com o aumento da fama do Chico, ele atraía espíritas
e interessados de todas as classes sociais. Seguramente, os das classes
superiores se insinuavam, se achavam no direito de serem recebidos,
e se aproximavam, às vezes de forma importuna e inoportuna,
o que também nos foi narrado. A moedinha era uma espécie
de reserva de tempo para que o pobre também pudesse se aproximar
do Chico. Ele se sentia no direito de pegar uma moedinha e de agradecer
ao Chico. Juselma nos disse que era um pequeno momento, o pobre beijava
a mão do Chico e o Chico beijava a mão do pobre, em
retribuição. Nesse pequeno instante, uma palavra, um
pedido, uma fala rápida. Tudo à sombra do abacateiro,
para receber até quem tivesse alguma resistência com
o espiritismo e os centros espíritas. Qualquer um poderia se
aproximar nessas horas e os pobres não ficavam “no fundo
do templo”, como percebia outro Francisco, o de Assis. O Chico
não cobrava a conversão dos pobres, que eles se tornassem
espíritas. Isso também nos foi contado pelo Marcel.
A mulher que elogiou abertamente o marido, mas se queixava dele não
ser espírita. O Chico teria dito:
- Se ele é tão bom assim,
não mexe em nada não. Deixa ele ser quem é.
Outra percepção do Marcel,
a do Chico diante da dor da perda. A mulher chegou desesperada com
a morte do filho. Chorando, perdida. Um terremoto abalou seu mundo.
E o que o Chico fez: abraçou-a e chorou com ela. Nem uma frase
pronta, nem uma percepção sobrenatural, nenhuma esperança,
nenhum “sermão espírita”, do tipo espírita
não age assim, ou “a vida não termina com a morte”;
apenas uma alma que sente a dor que sente a outra.
Por fim, um tema polêmico, o
dos aparelhos de ar condicionado, um dos motivos do afastamento do
Chico do Centro que ele fundou em Uberaba. Essa história se
espalhou no meio espírita, e há até quem advogue
que não se pode colocar ar condicionado na casa espírita,
porque “Chico dixit”.
Lembrei de uma fala do Chico, antiga,
replicada pelos que o conheceram. “O Centro Espírita
tem que ser um lugar simples o suficiente, de tal forma que um pobre
possa cuspir no chão se assim o quiser.”
O que entendi é que o problema
não é o ar condicionado, ou o chão de terra batida
do centro, mas o propósito de Chico Xavier, um propósito
claramente franciscano, de conviver com os pobres. Há de se
ter um lugar que os pobres possam frequentar sem se sentir “estrangeiros”
ou constrangidos. Que possam se sentir em casa, acolhidos, um lugar
que sintam que lhes pertence, sem qualquer constrangimento de serem
pobres. Esse era o trabalho dele, como lemos na narrativa escrita
por ele da rainha católica portuguesa que pede a ele que cuide
dos “filhos peninsulares” dela. Era o trabalho do Chico,
o que ele se propôs a fazer.
O grupo que o Chico frequenta precisa
ser simples o suficiente para que ele possa continuar fazendo seu
trabalho com os pobres: o de trocar uma palavra, ouvir uma aflição,
cumprimentar pelo nome, perguntar pelo filho... Em outras palavras,
humanizar a convivência e fazê-lo perceber que é
tão pessoa como um rico, ou como um poderoso, ou como uma pessoa
formada em nível superior.
Essa é apenas uma das conclusões
das palestras dessa semana. Foi uma experiência muito rica e
diferente do cotidiano. Espero que possamos, no futuro, fazer novos
recortes da vida e da produção do Chico, como nos mostrou
o Marcel Souto Maior.
Abaixo a entrevista/depoimento de Jader Sampaio com
Alexandre Caroli, realizada no dia 17/04/2021 - que fez parte da Semana
Chico Xavier