Um estudo que já pode ser considerado
antigo, mas que tem resultados importantes foi publicado por Michael
Dixon no Journal of the Royal Society of Medicine em 1988. O autor
preocupou-se com o sentimento de desalento (hopelessness) que atinge
pacientes com doenças crônicas, a partir dos quais
havia relatos que ao passar por um curador espiritual (healer),
o desalento havia diminuído. Contudo, ficava uma questão:
as melhoras aconteceriam por causa do efeito placebo? As causas
seriam puramente psicológicas?
Os efeitos já descritos por outros três
trabalhos foram citados por Dixon e se resumem em:
- Peregrinos retornando de Lourdes relatavam redução
de ansiedade e depressão por mais de dez meses.
- O estresse psicológico parece reduzir a cicatrização
de feridas, e as intervenções religiosas que reduzem
ansiedade e depressão diminuíam a mortalidade.
Outra questão que o interessava
eram as células NK (natural killer), “célula
linfoide com atividade contra vírus, bactéria e tumores
primários e secundários” (p. 183). Havia um
estudo da psiconeuroimunologia que apontava que as células
NK podiam estar associadas à depressão e ao estresse.
Dixon pesquisou em um distrito rural
da cidade de Devon, Inglaterra), 57 pacientes que tinham doenças
há pelo menos seis meses e que não tivessem respondido
a tratamentos prévios, convencionais ou não. Eles
deviam ter mais de 18 anos e estar dispostos a procurar um curador
(healer).
Os pacientes receberam a visita
dos curadores por doze semanas (5 pacientes por vez) e escolheram-se
pacientes sem tratamento, de perfil semelhante, para comparação.
Eram sessões de 45 minutos, semanais. As doenças dos
pacientes eram artrite, dores no pescoço/costas, depressão,
psoríase, enxaqueca/dores de cabeça, dores nos membros,
doença de Crohn/colite ulcerativa, eczema, estresse, dor
abdominal, pacientes recuperando-se de acidente vascular cerebral
e outros. Na divisão dos grupos experimental (tratado com
curador) e controle (sem tratamento), foram distribuídos
pacientes com doenças semelhantes de forma equivalente. Se
no grupo experimental houvesse dois pacientes com enxaqueca, no
outro também haveria. Em um segundo momento do estudo metade
dos pacientes receberam visitas por mais doze semanas.
Foram feitas avaliações
no início do estudo, após três meses e após
seis meses (dos que participaram até este período).
Os pacientes avaliaram seus sintomas em uma escala de zero (sem
sintomas) a dez (sintomas insuportáveis). Ansiedade e depressão
foram medidas pelos pacientes em uma escala chamada HAD (Hospital
Ansiety and Depression). A capacidade de funcionamento geral foi
avaliada pelo perfil de habilidade funcional de Nottingham. O percentual
de células NK foi avaliada por exames laboratoriais, junto
com a medida de células brancas e linfócitos.
Resultados
Depressão e ansiedade
Nos três primeiros meses o grupo de pacientes em tratamento
espiritual teve uma melhora significativa com relação
ao grupo controle (sem tratamento) (ansiedade p < 0,01 e depressão
p < 0,05))
Função geral
O grupo que sofreu tratamento teve uma melhora significativa com
relação ao grupo controle (p < 0,01). Aos seis
meses, o grupo que manteve o tratamento não teve diferença
significativa com relação ao grupo controle.
Mudanças Imunológicas
O percentual de células NK (do tipo CD 56 e CD 16) não
alterou significativamente em nenhum dos dois grupos
Consultas e medicação
Os pacientes do grupo experimental tiveram uma maior redução
de medicamentos que os do grupo controle (p < 0,05), embora só
tenha atingido 9 dos 27 pacientes, enquanto apenas 2 dos 24 pacientes
do grupo sem tratamento também tenham tido redução
de medicamentos.
Discussão
Os autores consideram sua pesquisa como sendo a
primeira a estudar o efeito de um curador em um estudo controlado.
“52% dos pacientes se sentiram substantivamente melhor após
o tratamento espiritual, não tendo apresentado resposta a
tratamentos prévios, além disso nenhum se sentiu pior.”
Não houve mudanças na resposta imunológica,
e as primeiras impressões de que o tratamento espiritual
reduziria a quantidade de consultas por ano não se confirmou.
Dixon sugere que haja novos estudos sobre a redução
da taxa de medicamentos.
Ele reconhece que como é um trabalho com
um número pequeno de pessoas, o estudo é apenas exploratório
(gerador de hipóteses) e não explicativo (de teste
de hipóteses). Além disso, ele tem a limitação
de não alocar os pacientes aleatoriamente (a amostra era
heterogênea, então se usou um quase-pareamento de pacientes).
Ele recomenda que nos novos estudos se avalie a
efetividade do custo do tratamento espiritual (incluindo custos
da terapia, mudanças na medicação corrente,
taxas de consulta e dias afastado do trabalho) como uma forma de
verificar se vale a pena o Serviço Nacional de Saúde
inglês custear o tratamento por healing.
As recomendações do autor foram parcialmente
ouvidas, como se pode ler em outros estudos recentes, e ele foi
citado por muitos autores posteriores. A questão das células
NK também foi abordada futuramente.
E os passes espíritas?
Como nós, espíritas, fazemos aplicação
gratuita de passes, as questões financeiras se reduzem ao
deslocamento dos pacientes para os centros espíritas, ou
das equipes de passistas para a residência dos pacientes crônicos,
quando eles estiverem impossibilitados de fazê-lo.
Há uma diferença marcante do tempo
das sessões estudadas para o tempo que geralmente é
destinado aos passes nos centros espíritas (cerca de uma
hora de participação em estudos e cinco minutos de
aplicação de passes), mas esta questão foi
tratada em um estudo mais recente no Brasil, que encontrou efetividade
no tratamento em um grupo que fazia os pacientes passarem por trinta
minutos de relaxamento com música seguido de passes de curto
tempo de duração.
Dixon, Michael. Does “healing” benefit
patients with chronic symptoms? A quasi-randomized trial in general
practice, Journal of the royal society of medicine, v. 91, abr.
1998, pág. 183-188. Impact Factor - 2,185 (2016)
Acesso (aparentemente gratuito) através de:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1296636/