O espiritismo não é
uma produção solitária de um grupo perdido
na capital francesa do século 19. O estudo dos fenômenos
espirituais e da vida após a morte também não
é uma produção burguesa, classe social adormecida
para os problemas do mundo e do que hoje se chama de pessoas em
situação de vulnerabilidade social. Allan Kardec
deu-lhe o status de reflexão sobre o mundo e de adversário
das vias materialistas para o futuro da humanidade.
Vemos alguns momentos distintos do trabalho
de Rivail. No primeiro, ele reagiu às notícias que
propunham a existência e interferência dos espíritos
dos chamados mortos em nossas vidas. Em seguida, pesquisador,
não se furtou de estudar os fenômenos espirituais,
considerando-os a priori como fruto de alguma força física,
como o magnetismo animal de Mesmer. Da observação
cuidadosa dos fatos, ele teorizou, encontrando diversas explicações
para o que via, mas sustentando a existência e comunicabilidade
dos espíritos.
Uma vez aceita a mediunidade,
começou a explorar e a checar as informações
oriundas dos médiuns de sua época, o que lhe permitiu
escrever uma opinião coletiva dos espíritos, através
de um artifício curioso: buscava ideias semelhantes, lógicas
e racionais, obtidas por médiuns diferentes, de preferência
desconhecidos entre si. Seu trabalho não foi apenas passivo.
Ele interrogou os espíritos comunicantes e, não
raro, procurou médiuns diferentes para fazer as mesmas
questões. A revisão de O livro dos Espíritos
para a publicação da segunda edição
é uma prova viva disto.
Obtidos resultados importantes
com as pesquisas, começou o trabalho de publicação
e divulgação de suas observações e
conclusões em diálogo com a espiritualidade. Fundou
seu próprio grupo de pesquisas, a Sociedade Parisiense
de Estudos Espíritas (SPEE), iniciou a publicação
dos livros da codificação, e iniciou a publicação
da Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos,
periódico mensal e denso, que o colocou em comunicação
à distância com o mundo leitor de sua época.
Na falta de um meio de comunicação
como a internet, Kardec começou a receber cartas da França,
de diversos países europeus, do norte da África
e da América. Embora ele negasse que a SPEE fosse a sede
de algum movimento federativo, situando-a como um grupo de estudos
e pesquisas, ele não se negava a responder as cartas e
a emitir sugestões e orientações a quem quer
que o pedisse com boas intenções e seriedade.
Em 1860, Kardec fez uma visita
a Lyon, e segundo Wallace Rodrigues foi recebido no Centro Espírita
de Broteaux, por Dijon e sua esposa, um casal operário.
No ano seguinte, volta à cidade dos mártires e encontra
novos grupos formados.
Fizemos esta introdução
para que possamos entender o livro que foi traduzido e publicado
pela Casa e Editora O Clarim e que se chama Viagem Espírita
em 1862*, de autoria de Allan Kardec.
Dois anos após sua primeira
viagem com finalidade espírita, Kardec realizou a “mais
extensa” de toda a sua vida. Esboçamos um pequeno
mapa que mostra em que cidades ele esteve pela França.
As informações sobre
a viagem impressionam. São vinte cidades e mais de cinquenta
reuniões. Imagino que o deslocamento se deu por algum veículo
de tração animal ou via férrea. O calçamento
das est/radas e vias seguramente não era nada igual ao
que temos hoje, e as despesas, como Allan Kardec fez questão
de deixar claro, correram por conta própria, ao contrário
do que acusaram seus adversários.
Os relatos da viagem foram publicados
sob a forma de livro para evitar a ocupação de um
grande espaço da Revista Espírita. Kardec deseja
mostrar não apenas o grande crescimento do movimento espírita
francês, mas igualmente levar ao grande público o
conteúdo de suas palestras.

São quatro os grandes temas tratados pelo conferencista:
Ele aborda os adversários
do espiritismo, agrupando-os em adversários naturais e
adversários entre os adeptos do espiritismo. Estes últimos
já haviam sido descritos em O livro dos médiuns:
os que apenas se interessam por fenômenos, os que entendem
haver uma moral decorrente do estudo do espiritismo, mas não
a praticam (espíritas experimentadores).
Kardec reafirma que ser espírita
não é apenas uma questão de crença,
mas de caráter também, embora reconheça que
aqueles que ele chama de espíritas-cristãos ou verdadeiros
espíritas, possam não conseguir viver em plenitude
a ética espírita, cometendo erros, mas fazem esforços
para torná-la cotidiana. Ele parafraseia sua própria
frase de efeito, explicando: “Fora da caridade não
há verdadeiros espíritas”.
Outro ponto alto do “recado”
de Kardec aos novos espíritas é uma espécie
de síntese dos princípios da moral espírita,
que transcrevemos aqui:
• Amai-vos uns aos outros.
• Perdoai os vossos inimigos.
• Retribuí o mal
com o bem.
• Não ter ira, rancor,
animosidade, inveja ou ciúme.
• Ser severos consigo mesmos
e indulgentes com os outros.
Kardec discute com seu público
sobre as animosidades no meio espírita. Essas são
sesquicentenárias, pelo visto, talvez porque façam
parte do espírito humano, que se encontra em processo de
educação no meio espírita, mas têm
impulsos de difícil controle.
Ele fala da mediunidade paga,
criticando-a pela grande propensão à fraude, e dá
uma alternativa: a cobrança de mensalidades para o funcionamento
das sociedades. Uma cobrança que não é imposta,
que respeita os que não podem pagar, e que possibilita
o exercício mediúnico (mas certamente não
remunerará nenhum médium por sua faculdade).

Um segundo problema, grave ainda nos dias de hoje, são
os que utilizam do espiritismo como um pedestal para se promoverem.
Não se trata da promoção do trabalho espírita
ou do pensamento espírita, mas da personalidade. Estes
o fazem sem interesses econômicos, mas como uma forma compensatória
para os insucessos da vida pessoal, profissional e mesmo social,
fora da esfera da comunidade espírita. Continua atualíssimo
e nos convidando à reflexão.
O codificador fala dos ciúmes
para com o sucesso de sua obra. Os estudiosos de história
do espiritismo já identificaram alguns dos atores sociais
que cabem dentro desta avaliação. Médiuns
que participaram dos grupos frequentados por Rivail, que tinham
sua centralidade aí e passaram a criticá-lo após
o sucesso de O Livro dos Espíritos, por exemplo.
Os médiuns fascinados por
espíritos (e por seu próprio ego), também
estão na pauta de discussões do conferencista francês.
Eles acreditam que tudo o que lhes sai da ponta da pena é
sublime e correto. No livro A obsessão,
Allan Kardec dialoga com um espírito fascinador de um médium
francês e lhe diz que irá tentar tirar “a venda
dos olhos” da vítima, ao que ele lhe responde: “...
não tereis resultado, porque farei tais coisas que ele
não vos acreditará.” Esta consideração
parece ter sido escrita ontem, e certamente continuará
útil no futuro.
Outro tema de agora são
as “suscetibilidades excessivas”, que costumamos tratar
como melindres. Eles faziam e ainda fazem “baixas”
nas sociedades espíritas.
Um “arquétipo”
da comunidade espírita, observado por Kardec são
os que entendem que se está agindo com muita lentidão.
Ao lado destes, seu oposto de mesmo efeito, os que acham que se
está agindo com muita rapidez. Kardec engloba os dois na
categoria dos descontentes.
Por fim, ele aponta os que fazem
pequenas calúnias nos grupos e na sociedade, que põem
pessoas em posições falsas e comprometedoras, espalhando
a descrença e a discórdia, até sem o perceber.
No segundo discurso, Allan Kardec
faz uma análise da propagação do espiritismo
e da oposição do materialismo e se. Aponta a mudança
de mentalidade de sua época, que não aceita mais
crenças sem justificativas e sem conhecimento. Ele se volta
contra a proposta materialista e a proposta individualista que
lhe decorre logicamente. Com o desenvolvimento do materialismo
no mundo e uma crítica do pensamento cristão, temos
visto algumas sociedades cada vez mais individualistas, que se
recusam a adotar políticas de bem-estar social e apostam
na prosperidade de cada um. O resultado é um grande número
de pessoas sem acesso à saúde, com acesso a uma
educação de segunda categoria, e o crescimento de
“moradores de rua”. Allan Kardec parece ter se antecipado
em pelo menos um século ao problema da fundamentação
da ética do materialismo.
O terceiro e último discurso
de Kardec trata da caridade. Não de uma caridade de esmolas,
de doações inconsequentes, nem apenas das virtudes
teologais, mas de uma atitude interior que deve presidir a consciência
do homem de bem. Wallace percebe que o codificador trata da benevolência,
da justiça e indulgência em relação
ao próximo, baseada no que queríamos que o próximo
nos fizesse.
É importante perceber que
Allan Kardec fez uma análise dos reformadores sociais de
sua época e que ele entende que visaram apenas a vida material,
o que não é suficiente para sustentar-se uma sociedade
que se estruture em laços de fraternidade, e não
em uma sociedade de sagazes, que divide as pessoas entre exploradores
e explorados. “O espiritismo, por sua poderosa revelação,
vem, pois, acelerar a reforma social” - afirmou.