Espiritualidade e Sociedade



Marcus Vinicius de Azevedo Braga


>      O superjovem

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Marcus Vinicius de Azevedo Braga
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Em relação à geração de jovens atual, a chamada por alguns estudiosos de geração “Y”, os ditos adultos guardam uma relação um tanto contraditória. Por um lado, endeusamos os jovens pelos seus prodígios na informática e pela sua habilidade de transitar no mundo da informação, trazendo em si a geração nova, que pelo mito da tecnologia transformará o mundo em um lugar próspero e justo.

Da mesma forma, no mundo louco e perigoso que nos encontramos, onde por força dessa mesma tecnologia não conseguimos nos esconder dos males ocorridos aqui ou na China, tutelamos essa mesma juventude, trocando sua autonomia por conforto, excluindo-os de processos decisórios, das tentativas de fazer e de ser sujeito, restringindo-os ao seu mundo virtual que não conseguimos entender, como uma esfinge a nos desafiar.

Assim, seguimos com jovens estimulados a não quererem crescer, ampliando os limites superiores e inferiores do que entendemos por juventude, ao mesmo tempo lastreados por adultos de um mundo que, pela sua estabilidade social e pela valorização do consumo, não permitiu rupturas, mantendo suas referências culturais e sociais nas décadas de 70 a 90, afastando novas referências criadas pelos jovens, em uma época de releituras e novas roupagens.

Esse curioso cenário, do endeusado e tutelado, tem seus reflexos em diversos campos da vivência da juventude, inclusive no ambiente religioso. A postura de enxergar o superjovem, mas ao mesmo tempo o jovem bibelô, que não pode fazer nada, mas que sabe tudo (ainda que superficialmente), nos leva a inibir o que de mais tenro tem a juventude, que é a sua capacidade de promover mudanças pelas suas próprias mãos.

A juventude na casa espírita é aquele grupo sonhador, que luta pela sua autonomia, no exercício da construção de espaços, no microcosmo que é uma mocidade espírita, que canta, estuda, trabalha dentro de seu mundo, para se preparar para ser no futuro o agente daquele mesmo mundo. Não é só fazer, a juventude espírita é um reinventar e experimentar fazer as mesmas coisas de novas maneiras, se afirmando e se construindo, como ator principal. 

Essa vivência protagonista da juventude de querer fazer e nesse processo errar e acertar é o que forja o espírita que aquele adulto será. As práticas na juventude espírita burilam valores, apontam ideais e constroem referências. E para isso, é preciso ousar, é preciso mudar e também aprender, equilibrando a sabedoria da tradição e os benefícios da inovação, em uma arte conhecida por poucos.

Entretanto, vivemos uma época de inovação da tecnologia, de vivência em mundos virtuais, e ainda de uma geração madura, hoje no papel de adultos, que construiu parte do mundo como é hoje e que se vê como protetora incondicional da nova geração, impedindo esta de fazer, errar, decidir e sofrer.

Do lado jovem, o consumo e o prazer suplantaram o ideal, substituído pelo desejo de criar uma empresa no fundo de quintal para vender programas inovadores e faturar um milhão. O chamamento do individualismo, a competitividade e o apego aos bens materiais apresenta-se ao jovem de forma ostensiva, abalando valores e crenças. Os rankings virtuais, os realities shows e o jogo de máscaras fazem da juventude um duelo de subterfúgios, no qual se cria uma fobia indescritível do processo de crescimento e de abominação do futuro.

Essa combinação explosiva, obviamente uma generalização que ignora experiências salutares encontradas no mundo concreto, nos alerta como membros da geração madura sobre se estamos realmente incentivando a geração mais nova a crescer. E crescer implica em limites, em desafios e até em lidar com as frustrações. Estaremos realmente preparando esses jovens para serem os trabalhadores de amanhã da casa espírita ou queremos que eles sejam o trabalhador que nós somos, herdeiros de nosso trabalho?

Essa reflexão é oportuna no nosso movimento. Já não lutamos mais contra o preconceito e para sermos aceitos na sociedade. Já não precisamos de livros impressos para obter o conhecimento espírita. A luta da implantação, da difusão, da relação com as questões sociais se faz apagada diante do livro novidade do mês, da palestra show e do show de música espírita. Ficamos padronizados em um mundo pasteurizado. E para o jovem, restou reproduzir aquele espaço, sob a tutela vigilante dos mais velhos, em um burocrático arranjo de tarefas no contexto da casa.

Criar, inovar, esse privilégio restou ao jovem apenas no ambiente virtual. Coube a ele esse santuário, onde ele muda de identidade, lança protestos e vive, fugindo das agruras de crescer e enfrentar esse desafio, vivendo à margem do mundo que o admira, mas o tolhe em suas potencialidades.

A verdade é que os jovens de hoje são tão jovens como nós fomos. Sem tirar nem pôr. Tem os mesmos sonhos, as mesmas necessidades, a mesma demanda por cavar seu lugar no mundo social, inclusive na casa espírita. Não façamos do jovem a mitificação que fazemos da tecnologia. Entretanto, esses mesmos jovens se veem segregados no gueto virtual, vendo seus sonhos deslocados para desejos individualistas, sem encontrar lugar para a vivência no coletivo.

Termino essa reflexão pensando o que queremos do movimento espírita daqui a 20 anos. Ficar se lamentando que o jovem não tem interesse ou formatá-lo pelo medo de errar são posturas que somente reforçam essa situação. É preciso enxergar o jovem como jovem, e ajudá-lo a encontrar o verdadeiro sentido da juventude, e de como o Espiritismo pode ser uma oficina-escola de crescimento, de inovação e de renovação.

 

Fonte: http://www.oconsolador.com.br/ano7/308/marcus_braga.html

 


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