Marcus Vinícius de Azevedo Braga

>    Os desafios de uma fé raciocinada

Artigos, teses e publicações

Marcus Vinícius de Azevedo Braga
>    
Os desafios de uma fé raciocinada


Vou começar contando uma história que me contaram recentemente... Em uma juventude espírita, certo dia surgiu um jovem com alto grau de ceticismo, e, no meio do estudo, ele começou a questionar os pilares da doutrina – Deus, imortalidade, reencarnação, mediunidade – com argumentos sólidos e bem construídos, de quem sabia do que estava falando.

A dirigente da Juventude, em uma demonstração de sagacidade, ao invés de reprimir o jovem “quizumbeiro”, deixou o barco correr para ver como os jovens iam se portar. Os jovens titubearam, e na argumentação não lograram sustentar as suas convicções frente a tantos questionamentos de interlocutor tão assertivo.

Obviamente, o menino cético sumiu na semana seguinte e a dirigente aproveitou, pelo princípio da oportunidade, o ocorrido de forma construtiva e, na próxima aula, trouxe a temática da fé raciocinada, em rica discussão que provocou os jovens.

Parabenizando essa lúcida orientadora de juventude, temos que esse caso nos leva a uma profunda reflexão... Como estamos construindo a nossa fé raciocinada? Estamos nos pautando pela lógica, pela pesquisa, pela reflexão e pelo estudo? Estamos construindo uma fé sólida, que convive com a razão e com a dúvida, ou nos acomodamos na postura do que é assim porque está escrito na pergunta tal de O Livro dos Espíritos?

A via das simplificações, dos livros sagrados, da pasteurização, dos resumos e superficialidades não resiste a uma ventania mais forte, como no exemplo de Jesus da casa construída na areia, ou ainda, no exemplo concreto trazido aqui, que é uma replicação do que passamos todos os dias na rua, no trabalho, diante dos jornais, nos quais a nossa convicção é posta à prova, não em um sentido do “eu acredito”, mas sim do “eu faço”.

Kardec, ao falar n’ “O Evangelho segundo o Espiritismo” da fé raciocinada, traz um trecho magistral quando diz:

“A fé raciocinada, aquela que se apoia nos fatos e na lógica, é clara, não deixa atrás de si nenhuma dúvida. Acredita-se porque se tem a certeza, e só se tem a certeza quando se compreendeu. Eis por que não se dobra, pois somente é inabalável a fé que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade”.


Situação que ele exemplifica em vários momentos da origem do Espiritismo, em especial nos célebres debates com o cético e com o crítico, na obra “O que é o Espiritismo”, nos quais Kardec sustenta com argumentos e fatos suas convicções, situação que fazemos hoje em melhor posição, pois, no que tange à fenomenologia, por exemplo, avançou-se muito nos estudos sobre diversas situações que corroboram os postulados espíritas.

Note, estimado leitor, que não falamos aqui em se envolver em uma cruzada de tertúlias filosóficas na escola e no trabalho tentando angariar adeptos para as fileiras espíritas pela argumentação, em exercícios de maiêutica. Essa construção de convicção é para nós mesmos, para sustentar nossa fé e nossos exemplos, em especial nos momentos difíceis, e muito fáceis, que abalam a nossa fé, por ela confrontar a nossa conduta. Fé cega é uma faca amolada, já dizia o compositor Milton Nascimento!

E para construir essa convicção sólida, não vejo outro caminho que não o estudo disciplinado, a discussão em grupos, a luz de textos consistentes, em especial das chamadas obras básicas, ilustrado por outras obras respeitáveis, relacionando essas ideias ao cotidiano, por exemplos concretos, na articulação de teses e antíteses que constroem sínteses.

Um caminho longo, mas árduo, que sedimenta o conhecimento espírita, fugindo da sedução de visões simplistas, abordagens superficiais, resumos, palestras, romances, em conteúdos soltos e frágeis, que uma vontade mais determinada ou um problema mais sério derrubam como uma árvore podre na ventania.

A fé raciocinada é um grande desafio proposto pelo Espiritismo, e nos vacina de males antigos, como o fanatismo, o desânimo e a exploração religiosa. Ilumina a prática do bem, a ação mediúnica, sobrepondo a quantidade pela qualidade. Espíritas convictos, trabalhadores coerentes!

Fugir disso é o dogma, o conteudismo, o formalismo, e já assistimos a esse filme e já sabemos como ele vai terminar... Depois, nos restará o espanto diante de práticas estranhas, a importação de paradigmas, de causas, o assistencialismo, e as curiosas tentativas de se padronizar corações e mentes, ideias essas que ferem o cerne do Espiritismo.

A trinca de atividades – estudo-mediunidade-caridade – presente nas casas espíritas compreende todas as fontes de conhecimento, todos os estudos-ação, por causa da reflexão e da mudança de disposições íntimas que elas proporcionam. Tudo é estudo, em tudo se aprende! Mas o estudo tem a propriedade de fazer o “visgo” que relaciona no plano mental essas reflexões.

Como os jovens da história, terminamos pensativos sobre a fé raciocinada, nos perguntando em que base andam assentadas as nossas crenças, pois que devemos refletir sobre esse conceito trazido por Kardec, de uma fé adjetivada da luz da razão, que nos robustece em todas as épocas de existência como encarnados.


Fonte: http://www.oconsolador.com.br/ano9/424/marcus_braga.html

 


topo


Leiam outros textos de Marcus Vinícius de Azevedo Braga:
::

-> O aborto, o abandono e a roda dos séculos
-> Alvorada jovem
-> Anônimos
-> Arranjos produtivos da mediunidade
-> Bandeiras, pautas e lutas
-> Benefícios do sacrifício
-> Café, sustentabilidade e a governança das políticas públicas
-> Ganzá
-> Casa Espírita Amazonas Hércules: há 28 anos a serviço do próximo
-> Casa espírita roubou meu pai... (A)
-> O chamado
-> Com Kardec eu aprendi
-> Desenho Animado é coisa séria: o imaginário infantil e os conceitos espíritas
-> O Deus da Polinésia
-> As dores do mundo
-> Em 150 anos
-> Entre a pena e a vingança
-> O Fantasminha Camarada
-> Fazer chover
-> A Ferramenta do Bem
-> Os filhos da COMEERJ
-> Fortuna e glória
-> O fosso imaginário
-> A fraternidade esquecida
-> A frequência melhora a frequência
-> Graça, mérito e outros assuntos afetos ao amor divino
-> A hipótese insuperável de Kardec
-> Importação de paradigmas: a reflexão necessária
-> Infâncias armadas
-> Indivíduo com Necessidades Educacionais Especiais (Deficência Mental) e a Casa Espírita (O)
-> Internet, infância e juventude
-> Lá no sertão de Goiás
-> Lições da praia
-> Lucidez e genialidade
-> A magia da atitude
-> O martelo ainda ecoa, a chama ainda arde: a mediunidade e a caça às bruxas
-> O Melhor e o Adequado
-> As muitas faces da pena de morte
-> Música para ouvir e música para se cantar junto
-> Namoro Espírita
-> Nossa relação com a mediunidade
-> Painel de instrumentos
-> Para além da porteira
-> O paradigma cliente-fornecedor na Casa Espírita
-> Práticas salutares na condução de trabalhos espíritas
-> Predição do futuro causa polêmica em meio acadêmico
-> A primeira pedra
-> Pureza ou dureza doutrinária?
-> O que ensino às minhas filhas
-> Quo Vadis?
-> O real e o engenho
-> A rede do Cordeiro
-> Reflexões sobre a vida a dois
-> A semente do homem de bem
-> Sexualidade e responsabilidade
-> Sobre a série da Netflix “Vida após a morte”
-> Sobre homens e lobos
-> O superjovem
-> O tamanho das coisas
-> Teu sonho de moço
-> Tesouros da Juventude
-> O Titular da ação
-> Tolerância é uma palavra feia
-> Um dia de Buda

Marcus Vinícius de Azevedo Braga & Paulo de Tarso Lyra
-> A força do Espiritismo


topo

 

 

Acessem os Artigos, teses e publicações: ordem pelo sobrenome dos autores :
- A - B - C - D - E - F - G - H - I - J - K - L - M - N - O - P - Q - R - S - T - U - V - W - X - Y - Z 
  - Allan Kardec
   -   Special Page - Translated Titles
* lembrete - obras psicografadas entram pelo nome do autor espiritual :