O contato com as ideias espíritas, necessariamente,
produz mudanças no campo psicológico, cognitivo, afetivo
e social na vida de um indivíduo. Isso não quer dizer
que tais ideias apenas produzam impacto nestes campos, contudo, tais
pontos costumam ser os mais trabalhados na direção do
crescimento espiritual.
Quando o conceito de reencarnação, por exemplo, diretamente
ligado à compreensão da lei de Progresso, é estudado
por nós, há, neste ato reflexivo, uma ação
que impacta gradativamente nosso sistema de crenças e valores,
ou seja, uma vez que somos estimulados a raciocinar sobre a pluralidade
das existências somos levados a confrontar a lógica deste
conceito com o que até então pensávamos, antes
de conhecê-lo, e com isso, vamos encontrando apoio para melhoria
íntima.
Na verdade, o que acontece é uma tomada de consciência
paulatina, variando de pessoa para pessoa, sobre o que a revelação
deste conceito espírita (reencarnação) produz
na nossa vida, analisando, pois, qual a diferença que ele fará
daqui para frente, quais serão, portanto, os benefícios
trazidos assim como os desafios a serem enfrentados diante da realidade
factual das vidas sucessivas.
Seguindo nesta linha de raciocínio, a cada novo conceito doutrinário
conhecido pelo espírito, ocorre dentro dele um acionamento,
no tempo próprio de cada um, uma espécie de choque de
valores e de realidade que vai produzir algum tipo de “pressão”
interior na direção da mudança, contribuindo
para uma nova acomodação das ideias, a fim de dar sentido
a este novo que se apresenta.
Os conceitos espíritas ao fazerem isso, assim como qualquer
conteúdo novo que confronte o espírito com sua realidade
interna e com sua forma de agir e perceber o mundo, produzem a necessidade
de revisão de posturas, comportamentos e sentimentos, estimulando
o crescimento interior e a busca de novos patamares da consciência.
Isso quer dizer que, o estudo doutrinário, principalmente,
cria condições psicológicas tais que permitem
a expansão da sede das Leis Divinas, fazendo com que o espírito
vá vencendo suas limitações perceptivas e com
isso, vá criando para si mesmo uma nova vida, mais equilibrada
e mais de acordo com a proposta trazida pelas Leis de Deus.
No entanto, para que isso se dê, torna-se necessário
compreender como as mudanças acontecem em nossa vida. Toda
transformação incentivada pelo contato do indivíduo
com os conceitos espíritas não se dá de maneira
tranquila e fácil, comumente; na verdade, exige esforço.
Todo empreendimento na direção da superação
de si mesmo impõe, de início, o desenvolvimento da capacidade
de enfrentar problemas, aprendendo a transformá-los em pontes
resolutivas, ou seja, em experiências de autodescobrimento.
A resiliência é um dos principais conceitos despertado
pelo Espiritismo, pois alude exatamente à capacidade do indivíduo
de gerenciar problemas. Ela permite que façamos reenquadramentos,
isto é, que detenhamos nosso foco no que conseguimos fazer
e não no que não conseguimos e daí, a superação
vai sendo gradativa. Sobre a resiliência sabemos que ela seria
a “capacidade da dar a volta por cima”. Sendo isso, desenvolvido
desde a infância, criar-se-ia assim a base para um adulto saudável
e produtivo, prevenindo contra ansiedade e depressão. (ALEXANDER,
E SANDAHL, 2017)
O trecho acima se refere à análise da realidade
dinamarquesa pelas autoras acima citadas acerca da importância
de se desenvolver a resiliência desde a infância, através
de processos educativos específicos e avançados do ponto
de vista da preocupação com o desenvolvimento integral
da criança, visando a perspectiva futura quanto ao adulto que
se deseja que ela seja, ou seja, alguém capaz de ser autônomo,
íntegro e consciente da realidade interna e externa, aprendendo
a lidar com suas emoções, com as situações
em geral e com seus afetos e sentimentos frente às dores e
dificuldades comuns à existência.
Qual a relevância, portanto, desta discussão pareada
ao aspecto doutrinário? Sabemos que o Espiritismo é
uma Doutrina que, didaticamente, nos ensina a traduzir as Leis Divinas
tais como são, ou seja, ele nos leva a reflexões profundas
sobre quem nós somos e qual a nossa destinação,
mas essencialmente, nos direciona à prática consciente
destas leis, isto é, ele se propõe a incentivar que
aprendamos a agir conforme a nossa consciência e entender qual
o sentido disso em nossa vida. Para conseguirmos harmonizar nossa
vida a tal proposta, é preciso, evidentemente aprender a classificar
nossos problemas de outra forma, senão aquela que geralmente
fazemos, caindo no lugar comum da dor e da sensação
de não resolução. O Espiritismo traz a racionalidade
imprescindível para não entrarmos em desespero e isso
já é fundamental. Desta forma, aprendemos com ele a
ser e, assim, perceber de outra maneira as situações,
dando novos significados a tudo que nos acontece.
Considerando o exposto acima, podemos concluir, sem risco de errar,
que o Espiritismo promove as condições seguras e indiscutíveis
para o desenvolvimento da resiliência, na medida em que, ele
nos convida a “dar a volta por cima”, sem “colocar
panos quentes”, ou seja, ele apresenta, em seu corpo de ideias
e conceitos elevados do saber filosófico, científico
e religioso, a fé raciocinada como lógica consoladora
e inteligente para que resolvamos nossos conflitos, um dia, definitivamente.
ALEXANDER, J. J e SANDAHL, I. D. Crianças Dinamarquesas.
São Paulo: Fontanar, 2017.
KARDEC, A. Considerações sobre a Pluralidade das Existências.
Pergunta 222. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: CELD, 2004