A construção
de um mundo novo começa na interioridade. O que isso significa?
Na realidade, a vida íntima, campo principal onde o espírito
se enxerga, se visita, se revisita e se aprimora é um espaço
de extrema importância, onde são processadas todas as
experiências e os impactos relacionais entre a individualidade
espiritual e suas trocas com os diferentes meios de convivência.
Dito de outra maneira, é dentro de si mesmo que ao aprendizado
contínuo evolutivo acontece, em contextos, eras, países,
planetas, com as diversas criaturas encarnadas e desencarnados que
um espírito convive conforme a necessidade de progresso que
todos nós estamos submetidos.
Interiorizar significa decodificar a Lei de Deus dentro de nós,
ou seja, processar os ditames da consciência indefectível
que temos no íntimo e que violamos por medo de sermos felizes,
por medo e rebeldia perante o amor divino, almas massacradas pelas
escolhas equivocadas que fizemos, temos ainda muita dificuldade de
auscultar o sentido íntimo porque vamos nos acostumando a ser
menos do que realmente somos, a fazer aquém das nossas capacidades
e a viver tal qual como filho pródigo, arrastando por muitas
existências um fardo desnecessário, repetindo erros,
reafirmando lixo emocional e mental que intoxica nossa afetividade.
Sendo assim, educar nossos filhos é tarefa de extrema relevância,
uma vez que educar representa facilitar a expressão das potencialidades
da alma, como nos diz Pestalozzi; logo, educar é tarefa de
auxílio para que o espírito aprenda a trabalhar sua
interioridade, a desenvolver recursos emocionais para lidar com as
diferentes situa ções e exigências da vida social
e da condição de encarnado.
Como podemos empreender ações que levem nossos filhos
ao despertar gradativo de seu patrimônio espiritual e qual o
valor desta ação na construção de um mundo
novo e pareado ao amor do Cristo?
Primeiramente, estejamos atentos ao valor da ancestralidade e seu
papel fundamental de retaguarda espiritual. Nosso sistema familiar
se comunica pelos laços da consanguinidade e esse processo
carrega crenças, valores, ideias, ações que são,
muitas vezes, naturalizadas e eternizadas como padrões de conduta,
gerando comportamentos inconscientemente inadequados. Muitas gerações
sucessoras acabam carregando pesos das gerações anteriores
mediante doenças psicológicas, afetos desalinhados,
em nome do amor; traduzindo assim uma noção distorcida
do que seja amar. Isso quer dizer que muitos filhos e netos acabam
fazendo e agindo da mesma forma que seus pais e avós, para
agradar, para ser aceito na família, para se sentir pertencendo
e com isso, anulam o bem mais precioso que temos — nossa individualidade
— a marca registrada de que somos seres únicos e fadados
a autonomia através do autoamor.
Pais têm como missão primordial oferecer aos filhos as
condições primordiais para que eles sejam capazes de
se prover material e emocionalmente. Nutrir através do amor
a alma dos filhos para que eles aprendam a se amar e amar o outro,
sem subserviência, sem amarras e sem medo de serem rejeitados.
O Espiritismo retrata que a essência da missão da paternidade
está em dirigir os filhos para o caminho do bem, ou seja, educá-los
para que pratiquem as Leis Divinas. Como pais, precisamos compreender
que, em cada espírito, que recebemos como filho, encontramos
uma fonte de amor potencialmente preparada pelo Criador para ser desenvolvida.
Devemos respeitar nossos filhos, antes de qualquer coisa como espíritos
imortais que são assim como nós, espíritos que
pertencem a si mesmos, logo não são nossa propriedade,
não existem para compensar nossas frustrações,
são donos de si segundo determinação divina,
que estão temporariamente dependentes de nossos cuidados para
que, um dia, sigam seu voo, conforme seu livre-arbítrio e de
acordo com os desígnios de Deus.
A construção de um mundo novo deve obedecer às
recomendações espíritas contidas em A Gênese
sobre a nova geração. Uma geração mais
afeita ao que Deus nos ensina como parâmetro real de vida, a
saber: amar o outro como amamos a nós mesmos. Precisamos, portanto,
desenvolver bases seguras para a autoestima de nossos filhos, criá-los
como seres independentes e capazes de seguir, certamente, no futuro,
sem a nossa tutela. Deixar a marca do nosso amor em nossos filhos
significa compreender que eles são livres, espiritualmente,
são construtores das bases deste novo mundo onde o reino de
Jesus será uma constante. Contudo, para que isso se dê,
é preciso treinar o desapego. Desapegar, neste contexto, é
compreender que nossos filhos fizeram escolhas antes de reencarnarem,
escolhas que atendem à necessidade evolutiva deles e não
a nossa necessidade de controle, vaidade ou a insensatez do sentimento
de posse. Cada filho é um ser que deverá agir no mundo
e que mundo queremos construir? Somos a base, logo, devemos apoiar
e não prejudicar. Educar equivale a educar-se, sempre! Foi
assim que Jesus exemplificou; o Mestre só pregava o que fazia
e sentia, ele não foi uma fraude.
Observemos a maneira como educamos nossos filhos, ela está
condizente com o tipo de mundo que desejamos que se estabeleça?
Os valores que ensinamos ou despertamos em nossos filhos comungam
com a essência da nossa missão como pais, educadores,
em suma, facilitadores do progresso deles? Por que tivemos filhos,
para que os tivemos? Estamos plenamente conscientes da confiança
que Deus depositou em nós quando nos permitiu que nos tornássemos
pais?