

Você é uma daquelas
pessoas que costuma dizer: não suporto esperar? Seria fácil
conciliar isso com a proposta espírita acerca da paciência?
Paciência seria esperar passivamente até que Deus resolva?
Já se perguntou o motivo pelo qual você não consegue
esperar? Esses são apenas alguns dos questionamentos que nortearão,
aqui, a nossa discussão acerca do problema da ansiedade e certos
desdobramentos no campo do espírito imortal que somos.
A alegação mais comum, hoje em dia:
“estou sem tempo
ou com pouco tempo”.
Será que nós mesmos não estamos
roubando o tempo de nós? Como assim? Dispendendo nossa disponibilidade
em absolutamente nada que acrescente e quando chega a demanda do que,
verdadeiramente, importa, não conseguimos atender aos propósitos
relevantes do nosso cotidiano. Estamos sempre correndo, vivenciando
tudo de forma tão rápida que não dá tempo
de sentir o gosto ou o sabor da vida.
Mas, será que a ansiedade é algo sempre negativo, desfavorável?
Ao nascermos, experimentamos a angústia da separação
do vínculo intrauterino e essa angústia vai sendo compensada
pelos cuidados e afeto que nossos pais nos dispensam. Nem sempre,
porém, essa interação se dá de forma satisfatória,
gerando padrões de insegurança, desamparo e desproteção
significativas que contribuem para uma propensão a ansiedade.
Além disso, considerando o tipo de sociedade em que estamos
vivendo, com as mudanças marcantes no campo da subjetividade,
ou seja, o ser humano vem sofrendo mediante uma crescente e lamentável
aceleração das experiências, onde várias
exigências de atendimento de necessidades fabricadas pela extravagância
e pelos excessos parecem cada vez mais inevitáveis. Hoje, somos
reféns do “tudo ao mesmo tempo”, sem querer perder
nada, como se precisássemos de tudo que nos é oferecido.
Isso gera uma espécie de doença da pressa, como se viver
fosse apenas experimentar, sem sentir, sem ter tempo para saborear
as coisas, as situações, os encontros favoráveis
e os estímulos.
Assistimos, assim, a uma sociedade, ainda, fugaz, imediatista, como
nos diz o sociólogo Zigmund Bauman (2007), acerca de um tipo
de interação social superficial e líquida, onde
tudo parece mais fugaz, passageiro a tal ponto de não dar tempo
de nada conhecer com profundidade, criando urgências angustiantes
que se notabilizam como condutas aprovadas, isto é, atualmente,
andar com pressa, dizer que não tem tempo virou sinônimo
de produtividade, de prosperidade, de busca de sucesso. Neste contexto,
o autor destaca a construção contínua de um processo
de incertezas cujo tempo para a criação de um projeto
individual parece encurtar-se.
A ansiedade vai sendo naturalizada como resposta inevitável
de quem muito trabalha, produz, “corre atrás”,
afinal, “é assim mesmo!” Isso poderia ser relacionado
ao que o economista, autor da obra “Pai Rico, Pai pobre”
analisa, de forma bem enriquecedora. Kiyosaki (2000) possui uma visão
muito interessante sobre nossa relação com o fator econômico;
ele diz que estamos vivendo uma espécie de corrida dos ratos,
onde o nível de competitividade chega aos extremos. Essa competitividade
desenfreada, sem dúvida, tem roubado nosso sono, nossa paz,
pois vamos atendendo a padrões, totalmente questionáveis,
sobre o que seria felicidade, sucesso, prazer e crescimento pessoal.
Cada vez mais, vai sendo empurrado um tipo de protótipo do
que seria o ser humano que adoece, que angustia e que cria mais fronteiras
entre nós do que aproximação. A disputa, neste
cenário, fica parecendo ser o único referencial de relacionamento
interpessoal e o medo de perder o próprio lugar engendra atitudes
desumanas, arrogantes, desconexas com a proposta divina que nosso
Mestre nos trouxe.
Logicamente, as causas da ansiedade são multifatoriais, assim
como sua conceituação não seria única,
contudo, em suma, trata-se de um estado de inquietação
que nasce na alma, por razões relacionadas à leitura
que cada um faz da sua vida e dos desafios existenciais vivenciados.
Por isso, podemos destacar aspectos mais comuns que costumam estar,
com frequência, presentes em quase toda a dinâmica deste
desconforto.
Vejamos: um deles seria a tendência que nós temos a nos
preocuparmos com o que não podemos mudar, em vez de investir
e focar SOMENTE naquilo que realmente podemos e depende de nós.
Muitas pessoas vivem aturdidas e assoberbadas com questões
alheias, querem controlar as pessoas, forçá-las a agir
até mesmo contra seus valores. Essa atitude em querer mudar
o que não se pode, essa necessidade de controle dos outros
e das situações faz com que a pessoa viva acelerada,
angustiada, manipulando as circunstâncias para que tudo saia
como ela acredita estar certo. Jesus foi claro, quando disse “a
cada um segundo as suas obras”, logo, muitos de nós se
poupariam desta preocupação em “consertar”
as coisas externas e/ou as pessoas, se atentássemos ao que
o Cristo nos disse, ou seja, cada um cuida de si porque cada um tem
sua consciência.
Ajudar não é impor nossa
verdade, é contagiar pelo
exemplo
É importante respeitar a vida alheia e as decisões
diferentes das nossas, por mais que discordemos delas. Nesse afã
de querer resolver e interferir de forma invasiva no contexto pessoal
de outras pessoas, vamos nos distraindo da nossa evolução;
aspecto esse que temos total possibilidade de mudança, aliás,
o único poder de transformação. Significa, assim,
que devemos aprofundar o ensinamento de Jesus sobre isso, aprender
a nos concentrar na nossa mudança moral e espiritual e rever
o conceito que temos de ajuda.
Com base em autores como Hammed (2000), podemos destacar que a ansiedade
muito se relaciona à imaginação de situações
catastróficas que, raramente, chegam a se concretizar. Há,
neste contexto, um foco demasiado no futuro e o indivíduo fica
imobilizado na preocupação improdutiva, esquecendo de
viver o presente. Aprendemos, com o nosso Mestre, que a cada dia basta
o seu mal, logo, somente podemos mudar nossa realidade estando concentrados
no presente; a ansiedade é uma ladra de energia que nos afasta
das metas importantes, transformando tudo em urgência. Neste
estado, ela vai inviabilizando nossos passos na direção
do que é inadiável, ou seja, aprender a lidar com as
possibilidades disponíveis e não com as que estejam
fora do nosso alcance.
Essa tendência a um estado de preocupação constante,
pensamentos trágicos e negativismo refletem, principalmente,
as crenças e valores que o espírito carrega dentro de
si, apegado a padrões emocionais e comportamentais que fazem
parte, geralmente, de um repertório traumático. De fato,
as vivências passadas, que deixam marcas desfavoráveis,
costumam ser de difícil resolução e a ansiedade
persistente é uma tentativa frustrada e ineficaz de dar conta
ou tentar controlar o que causa mal-estar. A imaginação
nociva ganha força na tragicidade mental e os quadros projetados
pelo pensamento excitado antecipam e criam cenários que viram
clara realidade no campo fluídico, comprometendo a paz interior,
consumindo energias que poderiam estar sendo utilizadas para o que
realmente importa. Distraído de si mesmo e da perspectiva evolutiva,
o espírito se demora em fatos que não dependem mais
de sua intervenção ou que nunca dependeram ou dependerão,
mas que são tomados por ele como relevantes.
Na obra “Conflitos Existenciais”, nossa querida Joanna
de Ângelis analisa a associação existente entre
ansiedade e o relacionamento com os pais, esclarecendo que a insegurança
vivenciada pelo indivíduo é reflexo da forma como o
espírito sentiu a maior ou menor proteção advinda
das figuras parentais. O cultivo do medo da punição,
quando se trata de pais muito severos e injustos, produz angustiante
sentimento de desamparo, gerando, assim, ansiedade contínua,
muitas vezes, sem que a pessoa perceba a relação direta
entre dependência emocional, infância e educação.
Ainda na obra acima citada, a mentora espiritual destaca que a ansiedade
também está muito ligada ao medo da doença, pois
alude ao desconhecido. Na verdade, a ansiedade, ainda, é, infelizmente,
um tipo de resposta emocional comum, diante daquilo que o espírito
acredita ser maior do que ele.
Hammed (2000) destaca que a preocupação excessiva com
a opinião dos outros sobre nós, também, constitui
fonte de ansiedade. Uma vez se negando ao autoconhecimento como hábito,
o espírito vai prosseguindo estranho a si mesmo, abrindo brechas
para entulhos mentais enraizados, como traumas passados, impondo-lhe
grandes desafios existenciais.
“(...) a ansiedade nasce
porque queremos burlar
as barreiras naturais do
universo (...)”
Por fim, ainda apoiando-nos em Hammed (2000), a ansiedade
nasce, porque queremos burlar as barreiras naturais do universo, atropelando
as coisas, interferindo nos resultados, tumultuando o curso natural
e sábio da obra divina.
Tendo em vista tudo o que foi exposto até então, ainda
nos apoiando em Joanna de Ângelis (2005), destacamos que a ansiedade
é fruto da falta de serenidade na leitura dos fatos que acometem
o indivíduo, devido ao que ele chama de grau de expectativa.
Muitos de nós estabelecem para si uma carga de cobranças
e desejos que mais inquietam do que fazem bem, vivendo grande turbulência
comportamental, produzindo efeitos que afetam também o corpo
físico, mediante perda do sono ou sono insatisfatório,
excesso de alimentação, dificuldade de concentração,
etc.
Evidentemente, a maneira como a ansiedade afeta cada um de nós
depende de muitos fatores, como já mencionamos; contudo, tomando
por base as orientações espíritas, no que tange
ao tratamento da mesma e aos antídotos para aprendermos a diminui-la
e até eliminá-la, podemos falar em unanimidade, uma
vez que a terapia proposta por Jesus é a mesma para qualquer
um de nós.
Sendo assim, é preciso que o espírito, num primeiro
momento, aceite que está sendo atingido pela ansiedade, para
gradativamente aceitar a terapia restauradora da sua paz interior.
Nem sempre, isso é fácil já que muitas pessoas
adotam um comportamento de fuga e negação, por orgulho
de admitir fraquezas, por preconceitos diante de terapias psicológicas
sérias e eficazes, por medo de se enfrentar e, desta forma,
vão postergando ajuda e resolução urgente de
suas questões. Com isso, continuam vivendo atormentadas, aparentando
uma calma que não conquistaram e comprometendo, cada vez mais,
sua capacidade de superação. Muitas vezes, por culpa
inconsciente, o espírito se sabota e não quer resolver-se,
adiando o enfrentamento sadio de si mesmo, através das ferramentas
que Deus nos disponibiliza pela Ciência e pelo Espiritismo,
por exemplo, dentre tantos outros recursos divinos.
“Uma pessoa ansiosa e
preocupada em excesso
reflete uma clara dificuldade
de cultivar a fé em Deus e
nas suas leis."
Não adianta o desejo de cessação
do sofrimento, se não quisermos adotar, na prática,
seu remédio. Deus estabeleceu leis seguras e claras para que
pudéssemos aprender a seguir, conforme nosso avanço
evolutivo, dentre elas, as leis morais que orientam nossos sentimentos,
nos consolam diante de nossas quedas e fracassos, estabelecendo direção
incorruptível para o recomeço. Frente à ansiedade,
destacaremos algumas orientações, segundo a Doutrina
Espírita, que muito nos ajudam a aprofundar essa problemática
e a nos estimular a prosseguir na construção da própria
felicidade.
O Espiritismo reforça que a fé transporta montanhas,
como já nos ensinou Jesus. Uma pessoa ansiosa e preocupada
em excesso reflete uma clara dificuldade de cultivar a fé em
Deus e nas suas leis. Nossa fé se torna pequena pela alienação
de si. O que seria isso? Estamos reforçando o hábito
de nos olharmos, apenas, como pessoas no mundo, e esquecemos de criar
a disciplina mental de potencialização de nossos talentos.
Como assim? Se aceitarmos que a eclosão de nossas potencialidades
depende de nosso investimento diário e contínuo, frente
ao desenvolvimento de nossa autoestima, de nosso valor pessoal e espiritual
para Deus, vamos aprendendo a confiar plenamente nas decisões
que não dependem de nós e, desta forma, vamos focando,
mais claramente, na nossa parte na obra da Criação.
Na verdade, a dificuldade e a falta de fé, sinalizadas pelo
nosso Mestre, refletem que queremos, mesmo sem perceber, ser mais
do que Deus, pois duvidamos do poder da Inteligência Suprema
e colocamos a ansiedade no lugar, como se ela fosse dar conta de uma
situação. A fé plena em Deus dispensa qualquer
preocupação, porque passamos a ter certeza de que, SEMPRE,
sem exceção, o Pai permite que aquilo que nos alcança
represente o melhor para nós, dentro de um contexto. A falta
de fé cega nossa visão, para que analisemos absolutamente
tudo que nos atinge com os olhos de ver, mencionados pelo Cristo.
Sendo Deus o pai amoroso, justo, bom e misericordioso, jamais permitiria
que o que nos afeta fosse para o nosso mal, até a dor, essa
principalmente. O problema está no fato de ficarmos paralisados
nas circunstâncias, nos fatos em si, e nos recusarmos a ver
para além deles. A fé permite que consigamos fazer isso,
enxergar para além das aparências.
Outro aspecto que muito nos auxilia a combater nossa ansiedade, como
nos dizem os Espíritos superiores, é a paciência.
Já paramos para nos perguntar o motivo pelo qual a paciência
é trazida por eles como sendo a virtude por excelência?
Excelente é a qualidade daquilo que é muito superior,
que equivale a algo muito grandioso. A paciência é a
faculdade de discernir entre o que depende de nós e o que não
depende, ou seja, é virtude do sábio; ela sabe esperar
diferenciando como se deve esperar, analisando contextos, verificando
possibilidades, trazendo calma para resolver conflitos. A paciência,
ao ser cultivada, nos ajuda a não mais permitir que o externo
defina nossas ações e sentimentos; aprendemos, através
dela, a não mais nos apavorar, a respirar fundo, a pensar antes
de agir, logo, ela combate a doença da pressa – a ansiedade
– pois nos dá condições de separar prioridade
de urgência. Isso tudo porque quem tem fé em Deus, consequentemente,
terá paciência para esperar o tempo Dele, sem se eximir
de fazer a sua parte e deixar que o Criador faça a Dele. Ela
dilui nossa ilusão de que a natureza mudaria seu curso, como
nos diz Hammed (2000), só porque estamos com pressa. Neste
contexto, a pressa alia-se à prepotência de achar que
podemos controlar as coisas com nossa ansiedade, acreditando que tudo
deva se dar como nós consideramos certo.
Outro fator profilático e, também, curativo da ansiedade
é o otimismo. Joanna de Ângelis (2005) destaca a força
que esse sentimento possui, quando nos dispomos a abrir nosso coração
para alegria de ter certeza de que tudo ficará bem, completamente,
um dia. Devemos começar pela mudança da forma como encaramos
nossos problemas. Todos eles têm uma função de
recado, de alerta; eles não servem para alimentar ansiedades,
ao contrário, eles sinalizam que devemos mudar a forma de caminhar,
para evitar angústias desnecessárias.
“(...) as nossas escolhas que
determinam nosso
próprio destino."
Por fim, nossa mentora fala do equilíbrio nas
escolhas. Trata-se de um fator muito importante, já que são
as nossas escolhas que determinam nosso próprio destino. Mesmo
não admitindo, mesmo parecendo ser aleatório a nós,
escolhemos a ansiedade, porque, ainda, resistimos ao jugo suave a
ao fardo leve do Cristo. Deixar-se conduzir pelo amor de Deus significa
caminhar em paz, renovando a esperança como certeza e não
como possibilidade, aprendendo a focar no que depende de nós,
certos de que nossa existência não acontece ao acaso
e que Deus não é um apostador do futuro, Deus é
o sentido maior que torna toda a vida possível e magnífica.
Lembremos de que, à frente vai aquele que nos ama por amor
a Deus, vai aquele que diz que tudo muda, tudo passa, tudo melhora,
em suma, tudo retorna Àquele que nos deu origem. Portanto,
que acalmemos nossos corações e mentes!