Espiritualidade e Sociedade





Bianca Cirilo

>   Magoando-se demais? Aprenda a dar limites!

Artigos, teses e publicações

Bianca Cirilo
>   Magoando-se demais? Aprenda a dar limites!

 

 

 

 

As inúmeras confusões em torno do conceito de caridade fizeram com que associássemos a ele uma ideia de agradar, indiscriminadamente, a quem quer que fosse. Contudo, o que, de fato, seria isso? Antes do capitalismo, a sociedade considerava o morador de rua, por exemplo, como um ser divinizado cuja caridade pública tornava-se uma obrigação, promovendo, assim, uma forma de alívio da consciência do cristão. Essa visão estabeleceu uma lógica utilitarista entre o homem e Deus, ou seja, o bem passou a ser visto como uma barganha, uma oferta destituída de sentimento, um protocolo para livrar-se de um possível sentimento de culpa posterior ou uma decorrente punição pelo dever não cumprido.

Antes do Espiritismo, nossa relação com a liberdade era questionável, pois fazer o bem não partia de um ato espontâneo, representava “livrar a pele” de um efeito negativo advindo da ira divina. Com isso, passamos a adotar um comportamento demagogo, falseado, artificial, sem qualquer compromisso com a autenticidade tão bem fundamentada pela Doutrina Espírita.

Agradar a Deus é algo que vai, exatamente, na contramão de tudo isso, significa cumprir suas leis mediante uma escolha consciente da lei de amor, ou seja, fazer o bem é algo que é aceito pela via do sentimento sincero de querer realizar aquilo que nos traz paz e beneficia também nosso semelhante, através de um processo empático que Jesus nos ensinou, qual seja: o de aprender a se ver no outro e ver o outro em nós, no momento, de decidir por esta ou aquela ação.

No entanto, no meio espírita, vemos processos distorcidos de concepção do que seria ser autêntico, apesar da clareza dos conceitos doutrinários sobre individualidade. Vamos nos comportando como o levita e esquecendo a sabedoria do bom samaritano e, desta forma, continuamos a nos apegar aos adornos. Como desagradar e comprometer nossa imagem social? Esta indagação abre margem para sermos permissivos e confundirmos fazer o bem com uma postura de dizer amém, e sim para tudo.

O Espiritismo é um meio infalível de retomada da lucidez acerca do que é a Vida, o Homem, o Espírito, Deus, a Religião, a Ciência, etc. Ele lança luz sobre os velhos conceitos e produz reconstrução cognitiva e afetiva, isto é, ele depura o que estava distorcido, inacabado no sentido de revelar o que Jesus quis dizer em metáforas e parábolas, ele desvenda os mistérios, elucida a Lei Divina numa expressão lógica e condizente com a justiça e o amor do Pai Maior.

Esta atitude “agradadora” cria, por exemplo, falsas ideias de que não devemos dar limites para as pessoas, desculpar todo desrespeito e não nos magoar porque isso seria contrário à Lei de Deus. Certamente, não devemos alimentar sentimentos negativos, mas isso é bem diferente do que nos diz Hammed (2004), esclarecendo a forma como devemos lidar com a mágoa. Ele esclarece que toda mágoa deve ser admitida para, a partir disso, poder ser trabalhada, e neste processo, vamos desenvolvendo, gradativamente, uma distância mental e emocional dos eventos sofridos, na medida em que conseguimos lidar melhor com o ocorrido. Isso significa se respeitar, respeitar nosso tempo, nossa condição de alunos, em constante processo de evolução, evitando acumular ou recalcar afetos desfavoráveis cujo acúmulo nos fará mal de imediato ou posteriormente.

O autor espiritual prossegue, destacando que é impossível não nos magoarmos, considerando as rupturas afetivas, os preconceitos, os desencontros que vivemos neste estágio em que nos encontramos, logo, é previsto sentirmos mágoa, ainda. O grande problema está na forma como conduzimos esse sentimento, pois ele exige tempo para elaboração, como dissemos, desta maneira, toda banalização do afeto tanto em nós quanto no outro se faz inconveniente, pois não se pode exigir que uma pessoa magoada esqueça imediatamente a ofensa. (HAMMED, 2004.)

Ainda sob a referência deste mentor, ele destaca que quando muito nos magoamos é porque não estamos sabendo dar limites. Jesus nos demonstrou, através das anotações evangélicas, que é preciso aprender a se defender, diferente de se vingar, contudo, muitos espíritas acreditam que devam contemporizar o abuso afetivo, sob a alegação de que a caridade pede que esqueçamos. Hammed é claro ao dizer que não se pode esquecer de pronto uma ofensa, até porque, ainda, não estamos no estágio onde não nos sentimos ofendidos.

O perdão, segundo o autor espiritual citado, não significa esquecer o que nos ofendeu, significa compreender aquele que nos ofendeu. Seria lembrar sem dor, lembrar sem malquerença, mas para isso, é preciso aprender a dar limites, dizer não, não se tornar tão vulnerável ou suscetível. O amor por si mesmo depende desta capacidade de aprendizado. Diminuir o impacto das ações alheias sobre nós representa focar na nossa necessidade de recuperação da autoestima e de uma melhor escolha dos vínculos de amizade e relacionamento que fazemos. Todas as relações humanas obedecem à lei do magnetismo, da afinidade ou não com determinados valores e condutas, por isso é importante estarmos atentos ao que permitimos que nos chegue, pautando nossa conduta nos ensinamentos espíritas, logo, cristãos, mas sem distorcê-los!

 

 

Referências Bibliográficas
Hammed; Espírito Santo Neto, Francisco do. Mágoas. Um modo de entender, uma nova forma de viver. Pelo Espírito Hammed. Catanduva: Editora Boa Nova, 2004.

 

 

Fonte: Revista CELD de Estudos Espírita
> https://celd.xyz/wp-content/uploads/10-Revista_CELD_Outubro-2018.pdf


 

 

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