
As inúmeras confusões
em torno do conceito de caridade fizeram com que associássemos
a ele uma ideia de agradar, indiscriminadamente, a quem quer que fosse.
Contudo, o que, de fato, seria isso? Antes do capitalismo, a sociedade
considerava o morador de rua, por exemplo, como um ser divinizado
cuja caridade pública tornava-se uma obrigação,
promovendo, assim, uma forma de alívio da consciência
do cristão. Essa visão estabeleceu uma lógica
utilitarista entre o homem e Deus, ou seja, o bem passou a ser visto
como uma barganha, uma oferta destituída de sentimento, um
protocolo para livrar-se de um possível sentimento de culpa
posterior ou uma decorrente punição pelo dever não
cumprido.
Antes do Espiritismo, nossa relação com a liberdade
era questionável, pois fazer o bem não partia de um
ato espontâneo, representava “livrar a pele” de
um efeito negativo advindo da ira divina. Com isso, passamos a adotar
um comportamento demagogo, falseado, artificial, sem qualquer compromisso
com a autenticidade tão bem fundamentada pela Doutrina Espírita.
Agradar a Deus é algo que vai, exatamente, na contramão
de tudo isso, significa cumprir suas leis mediante uma escolha consciente
da lei de amor, ou seja, fazer o bem é algo que é aceito
pela via do sentimento sincero de querer realizar aquilo que nos traz
paz e beneficia também nosso semelhante, através de
um processo empático que Jesus nos ensinou, qual seja: o de
aprender a se ver no outro e ver o outro em nós, no momento,
de decidir por esta ou aquela ação.
No entanto, no meio espírita, vemos processos distorcidos de
concepção do que seria ser autêntico, apesar da
clareza dos conceitos doutrinários sobre individualidade. Vamos
nos comportando como o levita e esquecendo a sabedoria do bom samaritano
e, desta forma, continuamos a nos apegar aos adornos. Como desagradar
e comprometer nossa imagem social? Esta indagação abre
margem para sermos permissivos e confundirmos fazer o bem com uma
postura de dizer amém, e sim para tudo.
O Espiritismo é um meio infalível de retomada da lucidez
acerca do que é a Vida, o Homem, o Espírito, Deus, a
Religião, a Ciência, etc. Ele lança luz sobre
os velhos conceitos e produz reconstrução cognitiva
e afetiva, isto é, ele depura o que estava distorcido, inacabado
no sentido de revelar o que Jesus quis dizer em metáforas e
parábolas, ele desvenda os mistérios, elucida a Lei
Divina numa expressão lógica e condizente com a justiça
e o amor do Pai Maior.
Esta atitude “agradadora” cria, por exemplo, falsas ideias
de que não devemos dar limites para as pessoas, desculpar todo
desrespeito e não nos magoar porque isso seria contrário
à Lei de Deus. Certamente, não devemos alimentar sentimentos
negativos, mas isso é bem diferente do que nos diz Hammed (2004),
esclarecendo a forma como devemos lidar com a mágoa. Ele esclarece
que toda mágoa deve ser admitida para, a partir disso, poder
ser trabalhada, e neste processo, vamos desenvolvendo, gradativamente,
uma distância mental e emocional dos eventos sofridos, na medida
em que conseguimos lidar melhor com o ocorrido. Isso significa se
respeitar, respeitar nosso tempo, nossa condição de
alunos, em constante processo de evolução, evitando
acumular ou recalcar afetos desfavoráveis cujo acúmulo
nos fará mal de imediato ou posteriormente.
O autor espiritual prossegue, destacando que é impossível
não nos magoarmos, considerando as rupturas afetivas, os preconceitos,
os desencontros que vivemos neste estágio em que nos encontramos,
logo, é previsto sentirmos mágoa, ainda. O grande problema
está na forma como conduzimos esse sentimento, pois ele exige
tempo para elaboração, como dissemos, desta maneira,
toda banalização do afeto tanto em nós quanto
no outro se faz inconveniente, pois não se pode exigir que
uma pessoa magoada esqueça imediatamente a ofensa. (HAMMED,
2004.)
Ainda sob a referência deste mentor, ele destaca que quando
muito nos magoamos é porque não estamos sabendo dar
limites. Jesus nos demonstrou, através das anotações
evangélicas, que é preciso aprender a se defender, diferente
de se vingar, contudo, muitos espíritas acreditam que devam
contemporizar o abuso afetivo, sob a alegação de que
a caridade pede que esqueçamos. Hammed é claro ao dizer
que não se pode esquecer de pronto uma ofensa, até porque,
ainda, não estamos no estágio onde não nos sentimos
ofendidos.
O perdão, segundo o autor espiritual citado, não significa
esquecer o que nos ofendeu, significa compreender aquele que nos ofendeu.
Seria lembrar sem dor, lembrar sem malquerença, mas para isso,
é preciso aprender a dar limites, dizer não, não
se tornar tão vulnerável ou suscetível. O amor
por si mesmo depende desta capacidade de aprendizado. Diminuir o impacto
das ações alheias sobre nós representa focar
na nossa necessidade de recuperação da autoestima e
de uma melhor escolha dos vínculos de amizade e relacionamento
que fazemos. Todas as relações humanas obedecem à
lei do magnetismo, da afinidade ou não com determinados valores
e condutas, por isso é importante estarmos atentos ao que permitimos
que nos chegue, pautando nossa conduta nos ensinamentos espíritas,
logo, cristãos, mas sem distorcê-los!