Espiritualidade e Sociedade





Bianca Cirilo

>   Aprendendo a olhar para o bem que podemos fazer

Artigos, teses e publicações

Bianca Cirilo
>   Aprendendo a olhar para o bem que podemos fazer: Um estímulo ao progresso espiritual

 

 

Muitos ainda são os debates em torno da natureza humana. As filosofias diversas ainda não estão em comum acordo quanto à certeza de que o homem seria naturalmente bom ou se o bem é aprendido nas relações interpessoais que ele estabelece. Contudo, para evitarmos tal polêmica, partiremos do que nos diz o Espiritismo. Sendo assim, ele nos ensina que o bem enquanto valor está essencialmente implantado no íntimo de nossa consciência (sede incorruptível das Leis Divinas), em forma de gérmen a ser desenvolvido, mediante processos inúmeros e complexos da reencarnação como medida única de consolidação da conquista de si mesmo.

No entanto, praticar o bem como decisão espiritual consciente depende de processos reencarnatórios múltiplos que ativam, paulatinamente, a nossa consciência como sede das Leis Divinas, justamente pelo impacto que sentimos nos diversos relacionamentos que travamos, com diversos outros espíritos, na condição de familiares, amigos, colegas de trabalho, vizinhos, em suma, sociedade em geral.

Tomando, portanto, o bem como um valor dedutível e lógico pela programação interna que trazemos como seres da Criação, dotados de inteligência e de moralidade, mesmo que ainda pouco desenvolvidas, por que continua sendo a prática do amor e da caridade um esforço, algo que parece transitar na esfera da exceção e não a regra? Até que ponto, o bem como prática seria uma utopia para alguns e para outros o bem não-praticado resultaria da preguiça, do pouco esforço?

Certamente, a inclinação para buscar agir de acordo com as Leis de Deus é uma experiência irrestritamente pessoal, íntima e a cargo da evolução de cada um. O ambiente social no qual o espírito se insere, logicamente, favorece para que uma série de fatores se conjuguem e contribuam com a decisão do espírito de agir desta ou daquela maneira. Contudo, cabe a cada um de nós pensar se o bem que praticamos é suficiente ou se há em nós uma tendência a reforçar uma autoimagem “viciada” no que já somos, sem refletir na transitoriedade das dificuldades que nos acometem. Somente nossas virtudes têm valor e status de permanentes, ou seja, o bem construído dentro de nós não se perde, logo, é a confirmação de que as leis de Deus são imutáveis.

Devemos refletir sobre a distorção da imagem que fazemos de nós mesmos, transformando características negativas em fatores de determinação de quem somos. Obviamente, nossos equívocos morais são desafios a serem superados, mas não nos definem como seres divinos. Ao contrário, nossos erros nos levam a pensar que, muitas vezes, insistimos em agir de maneira lamentável, até conscientemente, pelo simples fato de transformarmos a prática do bem num evento complexo, em algo quase inatingível, tornando-o extraordinário, quando, na verdade, ela está dentro de nós como ato meramente dedutí vel e lógico, considerando que, pela lei de amor, fomos criados para agir conforme esta lei.

Deveríamos refletir mais sobre o bem que já podemos fazer e acabamos nos condicionando a acreditar que isso é muito difícil. Concentrar nossas forças em nossas virtudes e não ficar apenas “apagando incêndios”, ou seja, criando paliativos para tentar resolver questões íntimas e centrais que são adiadas pela nossa dificuldade de voltar nossa atenção para nossas potências.

Na obra Instruções dos Espíritos, volume II, sobre a lei de amor, os espíritos nos esclarecem que cada um, ao se deparar com a possibilidade de fazer o bem, deve fazê-lo sem complicar. Eles dizem: “Quando uma criatura age por si ou numa instituição, de modo simples e natural, as coisas andam.” (2016: 44). Mais a frente, eles esclarecem que o interesse individualista emperra essa desenvoltura espontânea da prática do bem e que muitos líderes ou influenciadores, de forma negativa, levam as pessoas a agirem conforme seus sentimentos egoístas e não conforme os próprios ideais.

Tomemos o exposto acima e reflitamos: o bem é uma prática totalmente previsível e possível de ser praticada, sendo desenvolvida conforme o espírito se esforce e queira se melhorar. Por que não forcarmos nisso? Por que não nos determos nessa capacidade e, a cada dia, buscar na vida de relação uma oportunidade de ser útil, verdadeiro, colaborativo, promotor de paz e de esperança.

Ainda como desdobramento, pensemos: somos assediados, diariamente, por estímulos diversos que nos distraem da nossa essência espiritual, sendo manobrados como joguetes a pensarmos na desesperança, a desacreditar da nossa condição humana, mas, no entanto, o Espiritismo está sempre nos sinalizando que a prática do amor verdadeiro está ao nosso alcance, paulatinamente, sendo expandida, a cada decisão feliz que tomamos na direção de Deus. Aprendamos a focar em nossas virtudes, não no sentido de nos envaidecermos, ao contrário, no sentido de nos apoiarmos no desenvolvimento delas como porto seguro de superação de nossas dores, de vitória sobre nossas dificuldades atuais e certeza de que somos um projeto maravilhoso esculpido pelas mãos de nosso Criador.

 

Referências Bibliográficas
COELHO, Mário (org.). Instruções dos Espíritos. Vol. II. Cap. II.
Reunião 19. Lei de Amor. pp 43-45

 

Fonte: Revista CELD de Estudos Espíritas
https://celd.xyz/wp-content/uploads/09-Revista_CELD_Setembro-2018.pdf

 

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