Muitos ainda são
os debates em torno da natureza humana. As filosofias diversas ainda
não estão em comum acordo quanto à certeza de
que o homem seria naturalmente bom ou se o bem é aprendido
nas relações interpessoais que ele estabelece. Contudo,
para evitarmos tal polêmica, partiremos do que nos diz o Espiritismo.
Sendo assim, ele nos ensina que o bem enquanto valor está essencialmente
implantado no íntimo de nossa consciência (sede incorruptível
das Leis Divinas), em forma de gérmen a ser desenvolvido, mediante
processos inúmeros e complexos da reencarnação
como medida única de consolidação da conquista
de si mesmo.
No entanto, praticar o bem como decisão espiritual consciente
depende de processos reencarnatórios múltiplos que ativam,
paulatinamente, a nossa consciência como sede das Leis Divinas,
justamente pelo impacto que sentimos nos diversos relacionamentos
que travamos, com diversos outros espíritos, na condição
de familiares, amigos, colegas de trabalho, vizinhos, em suma, sociedade
em geral.
Tomando, portanto, o bem como um valor dedutível e lógico
pela programação interna que trazemos como seres da
Criação, dotados de inteligência e de moralidade,
mesmo que ainda pouco desenvolvidas, por que continua sendo a prática
do amor e da caridade um esforço, algo que parece transitar
na esfera da exceção e não a regra? Até
que ponto, o bem como prática seria uma utopia para alguns
e para outros o bem não-praticado resultaria da preguiça,
do pouco esforço?
Certamente, a inclinação para buscar agir de acordo
com as Leis de Deus é uma experiência irrestritamente
pessoal, íntima e a cargo da evolução de cada
um. O ambiente social no qual o espírito se insere, logicamente,
favorece para que uma série de fatores se conjuguem e contribuam
com a decisão do espírito de agir desta ou daquela maneira.
Contudo, cabe a cada um de nós pensar se o bem que praticamos
é suficiente ou se há em nós uma tendência
a reforçar uma autoimagem “viciada” no que já
somos, sem refletir na transitoriedade das dificuldades que nos acometem.
Somente nossas virtudes têm valor e status de permanentes,
ou seja, o bem construído dentro de nós não se
perde, logo, é a confirmação de que as leis de
Deus são imutáveis.
Devemos refletir sobre a distorção da imagem que fazemos
de nós mesmos, transformando características negativas
em fatores de determinação de quem somos. Obviamente,
nossos equívocos morais são desafios a serem superados,
mas não nos definem como seres divinos. Ao contrário,
nossos erros nos levam a pensar que, muitas vezes, insistimos em agir
de maneira lamentável, até conscientemente, pelo simples
fato de transformarmos a prática do bem num evento complexo,
em algo quase inatingível, tornando-o extraordinário,
quando, na verdade, ela está dentro de nós como ato
meramente dedutí vel e lógico, considerando que, pela
lei de amor, fomos criados para agir conforme esta lei.
Deveríamos refletir mais sobre o bem que já podemos
fazer e acabamos nos condicionando a acreditar que isso é muito
difícil. Concentrar nossas forças em nossas virtudes
e não ficar apenas “apagando incêndios”,
ou seja, criando paliativos para tentar resolver questões íntimas
e centrais que são adiadas pela nossa dificuldade de voltar
nossa atenção para nossas potências.
Na obra Instruções dos Espíritos, volume
II, sobre a lei de amor, os espíritos nos esclarecem que cada
um, ao se deparar com a possibilidade de fazer o bem, deve fazê-lo
sem complicar. Eles dizem: “Quando uma criatura age por si ou
numa instituição, de modo simples e natural, as coisas
andam.” (2016: 44). Mais a frente, eles esclarecem que o interesse
individualista emperra essa desenvoltura espontânea da prática
do bem e que muitos líderes ou influenciadores, de forma negativa,
levam as pessoas a agirem conforme seus sentimentos egoístas
e não conforme os próprios ideais.
Tomemos o exposto acima e reflitamos: o bem é uma prática
totalmente previsível e possível de ser praticada, sendo
desenvolvida conforme o espírito se esforce e queira se melhorar.
Por que não forcarmos nisso? Por que não nos determos
nessa capacidade e, a cada dia, buscar na vida de relação
uma oportunidade de ser útil, verdadeiro, colaborativo, promotor
de paz e de esperança.
Ainda como desdobramento, pensemos: somos assediados, diariamente,
por estímulos diversos que nos distraem da nossa essência
espiritual, sendo manobrados como joguetes a pensarmos na desesperança,
a desacreditar da nossa condição humana, mas, no entanto,
o Espiritismo está sempre nos sinalizando que a prática
do amor verdadeiro está ao nosso alcance, paulatinamente, sendo
expandida, a cada decisão feliz que tomamos na direção
de Deus. Aprendamos a focar em nossas virtudes, não no sentido
de nos envaidecermos, ao contrário, no sentido de nos apoiarmos
no desenvolvimento delas como porto seguro de superação
de nossas dores, de vitória sobre nossas dificuldades atuais
e certeza de que somos um projeto maravilhoso esculpido pelas mãos
de nosso Criador.