Confrades solicitaram-me comentar
novamente sobre a tendência umbandista nas instituições
espíritas cristãs. Disseram-me que muitos centros
“espíritas”, localizados no planalto central,
possuem dirigentes, trabalhadores e frequentadores que ainda não
se desataviaram dos ritos umbandizantes. São frequentadores,
médiuns e doutrinadores que não conseguem se livrar
das entidades de “terreiro”. Como se não bastasse,
há os que elegem na instituição espírita
cristã “mentores ou mentoras” de espíritos
impregnados dos atavismos psicológicos de “vovós
sicranas” ou “vovôs beltranos”, ou veneram
“ex” “preto(as) velhos(as)” etc., como se
tais “entidades” fossem campeãs da humildade.
Nada mais inconsistente! E não se podem comparar tais “entes”
com os sensatos espíritos que se apresentaram como “ex-padres”
e “ex-freiras” na concepção da Codificação
Espírita.
A rigor, os cognominados “vós fulanas”, “vôs
fulanos”, “pretos(as) velhos(as)”, “índios”,
“caboclos” e semelhados, quando desencarnados, não
mais pertencem a quaisquer das distintas raças humanas terrenas.
No além-túmulo, o espírito não é
amarelo, nem vermelho, nem negro, nem branco, embora possa apresentar
em seu perispírito distinções de alguma raça,
idade, se ainda assim se sentir em face da limitação
moral e intelectual e ou assim se conceber, como sucedeu numa das
reuniões realizadas na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas,
em que Allan Kardec dialogou com um Espírito de um “velhinho”
(Pai César), episódio narrado na “Revista Espírita”
de junho de 1859.
A entidade disse a Kardec que havia desencarnado em 8 de fevereiro
de 1859, com 138 anos de idade. Tal fato [idade] chamou a atenção
do Codificador, que logo se interessou em obter, da Espiritualidade,
mais informações sobre o falecido. O “velhinho”
disse que havia nascido na África e tinha sido levado para
Louisiana [EUA] quando tinha apenas 15 anos. Desabafou, expondo
a todos as mágoas guardadas em seu coração,
fruto dos sofrimentos por que passara na Terra em função
do preconceito da época. E tamanhas eram as feridas que trazia
no peito que chegou a dizer a Kardec que não gostaria de
voltar à Terra novamente como negro.
Será que um “vovô”, uma “vovó”,
um(a) preto(a) velho(a), pode ser mentor(a) espiritual de uma casa
espírita cristã? Em que pese considerar estranhíssima
essa situação, talvez sim! Quem sabe possa uma dessas
entidades, através de suas palavras e atos, mostrar que é
digna desse título, se demonstrar conhecimentos doutrinários
superiores aos nossos a fim de nos orientar e manifesto amor para
nos exemplificar. Porém, não! se evidenciar insuficiente
cultura, pouca evolução espiritual e muito apego ainda
às sensações materiais (exigir os títulos
de “vovô”, “vovó”, preto(a)
velho(a), linguajar primário, argumentos infantis, raciocínio
vagaroso, etc.
A maioria absoluta das comunicações de pretos-velhos
como “mentores espirituais” de uma instituição
genuinamente espirita cristã é resultado da insipiente
sugestão mediúnica, do incabível animismo,
ou dos ardis psicológicos e das teimosas mistificações.
Pessoalmente não aprovo nem compreendo a manifestação
de um “Bezerra de Menezes” travestido de velhinho caquético
com voz de “defunto”. Creio que há animismo nesse
“transe” ou vício psicológico do “intermediário”.
Não desconhecemos que houve, seguramente, espíritos
bondosos que encarnaram entre os negros africanos para inspirar
aquele povo sofrido, de modo sábio e amoroso, durante o seu
cativeiro. Alguns deles, após a morte, certamente tenham
podido regressar à retaguarda terrena, por amor ao próprio
crescimento espiritual no serviço do bem. Mas não
foram numerosos tais espíritos “bonzinhos”, “humildezinhos”;
pela lógica, foram raros, porque quase a totalidade dos escravos
eram como nós: espíritos de mediana ou pouquíssima
evolução.
Há obsessores (e não são poucos) que fingem
essa aparência e linguajar (de entes de “terreiros”)
com o objetivo de iludir e manter sob hipnose os espíritas
ignorantes. Diante desses perspicazes seres do além (às
vezes tão-somente produto da mente do “médium”),
procuramos adverti-los, alertá-los para a responsabilidade
pelos seus atos. Se não acolherem nossas advertências
apelamos ao expediente da austeridade verbal e da segurança
moral para que se arredem do local, exorando, por nossa vez, o amparo
dos diretores espirituais da sessão.
Nas sessões mediúnicas que dirijo há 4 décadas,
se ocasionalmente há manifestação de tais espíritos
(“vós”, “vôs”, “pretos(as)
velhos(as)”, caboclos e correlatos), se for permitida pela
espiritualidade diretora da sessão, tais espíritos
são orientados adequadamente. Não permitimos qualquer
intolerância ou preconceito contra eles. Entretanto, analisamos
atentamente sua natureza e o conteúdo de suas comunicações,
como fazemos com qualquer espírito que se manifeste no grupo.
Tais espíritos, para se comunicarem mediunicamente, não
precisam e nem estimulamos o uso de linguajar bizarro, incompreensível
aos médiuns e aos participantes da reunião.
O bom senso recomenda que se um desses desencarnados insistir na
aparência ou linguajar momentaneamente de suas personagens
do passado e deseja evidenciar sua identidade, a manifestação
será admissível, se houver quem o possa identificar.
Caso contrário será uma comunicação
improdutiva. Se tais entidades se apresentam com atavismos da última
encarnação (ex-escravos “velhos ou novos”,
índios etc.) buscamos orientá-los, a fim de se libertarem
desse atavismo. Assim, buscamos esclarecê-los quanto à
sua real natureza de espíritos em evolução.
Na doutrinação nos esforçamos para advertir-lhes
que já reencarnaram diversas vezes em diferentes condições
e, portanto, têm patrimônio espiritual mais vasto que
um simples “velho” ou correlato de uma raça sofrida.
Deste modo, procuramos revelar-lhes que não precisam se fixar
no psiquismo da existência que concluíram, e que na
vida espiritual podem continuar progredindo em todos os aspectos,
até mesmo no modo de se vestir e falar. Há os que
usam sutis subterfúgios, dizendo que se apresentam assim
porque tal ou qual encarnação lhes foi muito grata
por lhes haver permitido adquirir “virtudes”, especialmente
a “humildade” e daí seu desejo em exemplificar.
Óbvio que esse argumento é astucioso, pois quem conquistou
a virtude da humildade não precisa trombetear e ou ostentar
trejeitos de falsas modéstias. Por essa razão orientamos
tais “velhinhos” que a humildade não consiste
em expressões verbais e aparências exteriores nem em
atitudes subservientes.
Muitas pessoas supõem que pretos-velhos, índios e
caboclos sejam serviçais para lhes atenderem aos pedidos.
Outras acreditam que eles tenham poderes misteriosos, capazes de
resolver de modo mágico os problemas dos consulentes. Parecem
também julgá-los subornáveis, já que
aceitariam agir em troca de algum “pagamento” ou compensação.
Em verdade, uma evocação por rituais específicos
convidam e condicionam certos espíritos a se apresentarem
como preto-velhos, índios ou caboclos. E alguns espíritos,
às vezes até os bonzinhos, adotam essa aparência
para que assim as pessoas do meio em que se vão manifestar
(“terreiro”) acolherão mais espontaneamente a
sua apresentação e recomendações.
Enfatizamos porém, que se não estimularmos esse condicionamento,
muitos espíritos deixarão de se apresentar como vermelhos,
pretos, brancos, velhos, novos etc. etc. etc., passando a se comunicar
em seu modo próprio e natural. Muitos entendem que os “vovôs”,
“vovós”, “caboclos” e “pretos-velhos”
são mais eficazes. Creem que as proteções que
os Espíritos normais não obtêm os tais mágicos
“velhinhos” e “índios” conseguem.
Nada mais bisonho!
Sobre o linguajar de tais entes, observamos que a fala de “pretos
velhos” não costuma corresponder aos legítimos
dialetos africanos ou aportuguesamento deles de épocas remotas.
É mais uma tagarelice, uma enrolação, uma confusão
de vozes sem significado ou ligação com o que os africanos
falavam. A isso classifico de mistificação. Sobre
os tais caboclos, é óbvio que índios brasileiros
não poderiam jamais se denominarem por exemplo “caboclos
7 flechas” (não tinham noção de número),
não se autodenominariam “flecha ligeira”, “nuvem
branca” etc., como o fazem os índios norte-americanos,
os quais as academias de hollywood popularizaram nos filme de “bang
bang”.
Em suma, somos espíritas cristãos, e como tais devemos
nos comportar e agir no dia a dia, especialmente nas sessões
mediúnicas. Em boa lógica, quem não acolha
ou não se encaixe nos conceitos e práticas espiritas
cristãs precisa procurar diferentes recintos afins, até
porque nenhuma pessoa é constrangida a ser espírita
cristã.
Leiam de Jorge Hessen
- visitem o blog do autor : - http://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com.br/
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