Assistimos pelo youtube uma entrevista
de um médium espírita e ficamos estupidificados com
as suas declarações. Primeiro, pela maneira presunçosa
de como foram tratados os confrades que se posicionam contra a INDUSTRIALIZAÇÃO
DE EVENTOS “ESPÍRITAS”; depois, pela forma desdenhosa
de como se referiu aos espíritas de baixo salários e
os desempregados (pobres), dizendo que na instituição
que dirige são realizadas semanal e “gratuitamente”
4 (quatro) reuniões públicas doutrinárias, 8
(oito) reuniões mediúnicas, 8 (oito) módulos
de estudos espíritas, além de outros trabalhos de grande
relevância doutrinária. Todavia, muitos espíritas
simplesinho (pobres) não participam, porque não querem.
Contudo, referindo-se ao evento que será realizado no hotel
luxuoso sob sua coordenação, afirmou que quem não
pode pagar também não pode frequentar. Sabe por quê?
Porque os eventos são negociados através de “pacotes
fechados” entre a instituição que dirige e os
hotéis promotores. O médium esqueceu-se de que a lídima
divulgação não exclui pessoas, não impõe
condições, não faz peditórios, justamente
para fugirmos dos equívocos cometidos por outras religiões
e credos.
Martinho Lutero dizia que “não
são as boas obras que tornam o homem bom, o homem bom é
que faz as boas obras.”(1) O sistema
elitista e o assistencialismo cego assemelham-se à dança
em torno do bezerro dourado a que se entregou o povo hebreu, quando
a caminho do paraíso prometido.
Durante a entrevista, o médium
procurou relativizar a advertência de Jesus – “dai
de graça o que de graça recebeste”. Para ele,
o que importa é dar um ar de grandiosidade à divulgação
espírita, como se a importância da mensagem espírita
estivesse atrelada às exterioridades, a títulos, aos
locais elegantes onde ela é pronunciada.
A mediunidade com Jesus não
se relativiza. O "dai de graça ao que de graça
recebemos" não pode ser deformado. O Espiritismo é
a disseminação da palavra de consolo tal como Jesus
nos ensinou, tal como Ele pregava, tal como Kardec esperava, tal como
Chico Xavier exemplificou, para todos e ao alcance de todos. O entrevistado
enfatizou a palavra “colaboração” para justificar
o pagamento das taxas de ingresso, alegando que, se o interessado
declarar que é pobre, não é restringido o seu
acesso por causa do fator financeiro. Sabemos que isso não
é verdade! Ou pelo menos é meia verdade. (Ora! Será
que um espírita desempregado precisará apresentar atestado
de pobreza?).
E, para justificar seus arrazoados
na entrevista, sempre em intransigente defesa do comércio dos
eventos “espíritas”, classificou de puritanos(?!...)
os que discordam da cobrança de taxas para os eventos destinados
à divulgação do Espiritismo. Mas , os “puritanos”,
não podemos nos intimidar com os sofismas das sombras. Devemos
caminhar de olhos voltados para as coisas do firmamento, e mãos
operosas na Terra, lembrando que menos pesa na consciência o
epíteto de puritanos do que de vendilhões das coisas
santas!
O Cristianismo primitivo, pela simplicidade
dos primeiros núcleos cristãos, foi conquistando integralmente
a sociedade de sua época, mas, com o passar dos séculos,
desgastou-se doutrinariamente. Conspurcou-se por imposição
dos interesses políticos, institucionais e principalmente financeiros
(industrialização da cruz).
É bastante preocupante e gravíssimo
o ideal dos festivais de ofertas de pacotes para tour doutrinários.
Para quem desconhece o fato, informamos (de graça) que há
encontros “espíritas” realizados em instalações
de luxuosos hotéis 5 estrelas ao “irrisório”
preço de R$. 1.600,00 (em média). Se colocarmos na ponta
do lápis a arrecadação final, considerando a
participação de 300 pessoas (por baixo), chegaremos
ao montante de quase meio milhão de reais. Isso apenas para
um evento de três dias.
Fomos instados a procurar pela Internet
outros eventos “espíritas” para 2011. Encontramos
congressos, seminários, fóruns, cursos espíritas,
simpósios de profissionais “espíritas” etc,
todos eles com fichas de inscrição caracterizadas por
ENTRADAS NÃO GRATUITAS.
É evidente que essas práticas,
em nome de Kardec, têm fragilizado as bases da Doutrina dos
Espíritos, provocando rachaduras no edifício doutrinário.
Há desmesurada distância entre aqueles simples bancos
e cadeiras de madeira do Grupo Espírita da Prece de Uberaba
e os soberbos hotéis que servem de tablado para espetáculos
de oradores que, absortos em suas insânias dinásticas,
veiculam temas decorados apoiados nas suas memórias privilegiadas.
Na imprudência, disfarçada
por envernizada prática assistencialista, pregam "Espiritismo"
com rebuscadíssimos verbos e palavras, e ainda contam as moedas
douradas arrecadadas, de mãos unidas com "Mamon".
As extravagantes taxas cobradas nesses eventos evidenciam uma grave
metástase doutrinária, com fulminantes consequências
para o futuro do Espiritismo na Pátria do Evangelho.
Nem é necessário fazermos
um esforço descomunal para identificar o abismo existente entre
o "Espiritismo" e o "movimento espírita".
É lamentável que o movimento doutrinário atual
esteja navegando nas mesmas águas que transferiram o cristianismo
primitivo das casas de simples pescadores, lavadeiras, operários,
para a suntuosidade dos hotéis, centros de convenções
e outros grandes edifícios religiosos.
Os defensores da não gratuidade
dos eventos espíritas escudam-se na alegação
de que há confrades que frequentam o centro espírita
anos a fio e nem perguntam como contribuir com a conta de luz ou com
os gastos com o papel higiênico e ficam esperando receber sem
nada retribuir. Proclamam o argumento de que a comunidade espírita
é o segundo maior PIB entre os religiosos (de acordo com o
IBGE), perdendo apenas para os judeus, e os espíritas não
gostam de colocar a mão no próprio bolso para a obra
espírita. Será esse o real motivo para a cobrança
dos eventos doutrinários?
Infelizmente, o Espiritismo das origens,
tal como Chico pregava, parece não mais fazer sentido, mormente
para os mais afamados representantes do movimento. Assistimos ao sepultamento
da simplicidade da Terceira Revelação no jazigo dourado
da espetacularização da oratória, dos aplausos
provindos da massa entusiasta e inconsciente, das ovações
delirantes, dos elogios soberbos e extravagantes. Por essas e outras
razões disse o Mestre: “ouça quem tem ouvidos
de ouvir e veja quem tem olhos de ver”.(2)
Chico Xavier advertia há 30
anos "é preciso fugir da tendência à ‘elitização’
no seio do movimento espírita (...) o Espiritismo veio para
o povo. É indispensável que o estudemos junto com as
massas mais humildes, social e intelectualmente falando, e delas nos
aproximemos (...). Se não nos precavermos, daqui a pouco estaremos
em nossas Casas Espíritas, apenas, falando e explicando o Evangelho
de Cristo às pessoas laureadas por títulos acadêmicos
ou intelectuais (...).”(3)
Quando escrevemos o artigo “INDUSTRIALIZAÇÃO DE
EVENTOS ESPÍRITAS "GRANDIOSOS", o ex-reitor da Universidade
Federal de Juiz de Fora, e escritor espírita, José Passini,
afirmou: “Seu artigo, Jorge Hessen, deveria ser eternizado em
placa de bronze e distribuído às instituições
espíritas. Você acertou em cheio no monstro que desgraçadamente
cresce em nosso meio.”(4) Talvez a espiritualidade, consciente
dos despropósitos dos eventos pagos esteja de alguma forma
nos alertando para um tempo de profundas mudanças. Que seja
assim!
Jorge Hessen
Espírita há 40 anos, autor dos livros "Praeiro
Peregrino da Terra do Pantanal" e "Luz na Mente". Palestrante
e articulista com textos publicados em vários jornais e revistas,
tais como: Reformador, O Espírita, O Médium, Brasília
Espírita, Mato Grosso Espírita, Jornal União,
e 18 E-books em diversos sites espalhados pela internet.