Para teorias da cosmologia moderna, há
vários "universos" e uma distinção
entre eles é essencial
Vejam só como uma questão
de ortografia esconde muito mais do que apenas escolhas estilísticas.
Basta pegar alguns livros de divulgação científica,
ou reportagens aqui mesmo na Folha, e o leitor se depara com a palavra
"universo" ora com letra minúscula, ora com maiúscula.
Existe algo nada sutil aqui, e que diz muito sobre como pensamos
sobre o Cosmo.
A posição mais comum,
e que considero a pior, é simplesmente adotar "universo"
indiscriminadamente. Mas que Universo é esse? Segundo teorias
da cosmologia moderna, temos de tomar cuidado com referências
ao Cosmo. Há vários "universos" e uma distinção
é essencial.
Ancorando a discussão no
que temos de mais sólido, nossas observações,
sabemos que podemos apenas "enxergar" -isso é,
obter informação- de uma parte limitada do Cosmo.
Isso, por dois motivos. Primeiro, nada viaja mais rápido
do que a luz, o que significa que a informação demora
para vir de longe até nós. Segundo, porque o Cosmo
tem uma existência finita, começando 13,7 bilhões
de anos atrás.
Juntando as duas coisas, vemos que
no máximo podemos saber sobre objetos que nos enviaram informação
(através de luz e outros tipos de radiação
eletromagnética) há 13,7 bilhões de anos. E,
como estrelas e galáxias só surgiram uns 200 milhões
de anos após o "bang" inicial, o limite que temos
é em torno de 13,5 bilhões de anos. O que existe além
dessa fronteira -chamada de horizonte- nos é inacessível.
Falamos, então, do "universo observável",
aquele que podemos medir. Este, prefiro chamar de Universo, já
que temos confiança na sua existência e somos parte
dela. Ele é tudo o que há no nosso horizonte e, considerando
o fato de o Cosmo estar em expansão, está a 42 bilhões
de anos-luz de distância. É a fronteira do conhecimento
astronômico.
Mas o Universo não termina
necessariamente no limite do que podemos ver. Muito provavelmente
se estende além da fronteira do mensurável. Meio como
o mar, que se estende além do horizonte que vemos da praia:
sabemos que existe mais mar além da linha do horizonte, mesmo
se não podemos enxergá-lo da nossa posição.
A essa continuação do Cosmo além do visível
e que, em princípio, não é tão diferente
do que podemos ver dentro do nosso horizonte, chamo de universo.
Não merece o "U" pois não sabemos ao certo
se está lá e o que existe por lá. Podemos especular
que as coisas além do horizonte não são muito
diferentes daqui, mais galáxias e estrelas, mas não
podemos ter certeza disso. Daí o "u". Porém,
o universo contêm o Universo.
Temos que continuar. Afinal, hoje
se especula que o Universo não é único, mas
parte de algo mais vasto, uma entidade que pode conter muitos universos
chamada de "multiverso". Claro, não sabemos se
o multiverso existe. Pior, parece ser impossível confirmar
sua existência, visto que sua extensão está
além do nosso Universo. No máximo, como calcularam
alguns colegas, podemos ter informação de colisões
de nosso Universo com universos vizinhos, caso tenham ocorrido no
passado. (Até agora, nada de muito conclusivo.) Mas saber
de um vizinho ou dois não é o mesmo do que saber de
um país inteiro. De concreto, temos apenas o nosso Universo,
já repleto de mistérios.