A espiritualidade é parte
constituinte de nosso ser, observa Marcelo Gleiser. Os cientistas
precisam ter mais humildade sobre o que ainda é “mera
especulação”, e muitos deles, ateus ou agnósticos,
não entram em combate contra a religião
Na opinião do físico
brasileiro Marcelo Gleiser, “ciência e fé são
aspectos complementares de como compreendemos o mundo e nosso
lugar nele, de como encontramos sentido em nossas vidas. Nenhum
corpo de conhecimento, por si só, pode dar conta da complexidade
da nossa existência”.
Na entrevista que concedeu à
IHU On-Line, por e-mail, ele afirmou que as ciências começam
a ir além do “tradicional método reducionista”,
que busca explicações dividindo o todo em partes.
“Muitos sistemas físicos e biológicos têm
de ser entendidos em toda a sua complexidade, o que gera novos
desafios para a ciência do século XXI. Como exemplo,
cito a origem e natureza da vida, a emergência e funcionamento
da mente humana, o clima”, explicou. Gleiser comenta, ainda,
a “retórica virulenta” dos novos ateístas
Dawkins, Dennet, Harris e Hitchens, que se valem do mesmo tipo
de fundamentalismo que buscam combater. Tal postura é um
equívoco, pois não leva a nada e é filosoficamente
ingênua, arremata. “O perigo é, de um lado,
o obscurantismo e, de outro, a prepotência”.
Marcelo Gleiser é graduado
em Física pela Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro – PUC-Rio, mestre em Física pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e doutor em
Física Teórica pelo King’s College, em Londres.
É pós-doutor pelo Fermilab e pela Universidade da
Califórnia, Santa Bárbara, nos Estados Unidos. Leciona
no Darthmouth College, em Hanover, nos Estados Unidos. Tem uma
vasta produção acadêmica, além de inúmeros
artigos e livros publicados, dentre os quais citamos Cartas a
um jovem cientista (Rio de Janeiro: Campus, 2007); Conversa sobre
fé e ciência (São Paulo: Agir, 2011), escrito
com Frei Betto; Criação imperfeita (Rio de Janeiro:
Record, 2010) e A dança do universo (Rio de Janeiro: Companhia
de bolso, 2006).
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Quais são
as novas gramáticas que emergem hoje das ciências?
Marcelo Gleiser – Se por “gramáticas”
entendemos novos modos de se pensar sobre o mundo, talvez a mudança
mais óbvia seja a extensão das ciências além
do tradicional método reducionista. Hoje, entendemos que
nem tudo pode ser entendido ao dividirmos o todo em pequenas partes;
muitos sistemas físicos e biológicos têm de
ser entendidos em toda a sua complexidade, o que gera novos desafios
para a ciência do século XXI. Como exemplo, cito a
origem e natureza da vida, a emergência e funcionamento da
mente humana, o clima. Mesmo a noção de que as leis
naturais que vêm da compreensão do comportamento das
entidades mais simples está sendo revisada; existem, também,
leis emergentes que não podem ser deduzidas ou previstas
daquelas obtidas através do método reducionista.
IHU On-Line – Acredita que pode haver um
diálogo autêntico entre ciência e fé?
Por quê?
Marcelo Gleiser – Sem dúvida. Ciência
e fé são aspectos complementares de como compreendemos
o mundo e nosso lugar nele, de como encontramos sentido em nossas
vidas. Nenhum corpo de conhecimento, por si só, pode dar
conta da complexidade da nossa existência. Porém, é
necessário evitar os excessos de ambas as partes. A religião
não pode ignorar os avanços da ciência; por
sua vez, a ciência não pode proclamar que sabe como
resolver questões que, ao menos no momento, estão
muito além de sua competência. O perigo é, de
um lado, o obscurantismo e, de outro, a prepotência.
IHU On-Line – Quais são os principais
avanços para a ciência a partir do diálogo com
a fé?
Marcelo Gleiser – Não vejo que a ciência
avance devido ao diálogo com a fé, ao menos nos tempos
modernos. Sem dúvida, historicamente alguns dos grandes nomes
da ciência eram também profundamente religiosos; Copérnico
, Galileu , Kepler , Newton. Para eles, a ciência engrandecia
a obra de Deus e era interligada com a fé. Hoje, existe uma
separação prática entre as duas. A religião
não faz parte do discurso científico, ao menos diretamente.
É perigoso para as duas buscar-se por estas ligações.
Ciência e fé devem coexistir e não insistir
numa relação de dependência mútua. Por
outro lado, se buscarmos por uma inspiração na ciência,
o que faz tantos homens e mulheres dedicarem suas vidas ao estudo
da Natureza, encontraremos, em muitos casos, uma relação
de profunda espiritualidade com o mundo, mesmo que, na maioria deles,
esta relação não inclua fatores sobrenaturais.
A espiritualidade é parte da nossa humanidade, e se manifesta
de formas diferentes em tempos diferentes. Hoje a encontramos na
relação entre o homem e a Terra, na compreensão
da nossa raridade e solidão cósmica, algo que ressaltei
em meu livro Criação imperfeita.
IHU On-Line – Qual é o seu ponto
de vista sobre o fundamentalismo ateísta, que tem em Richard
Dawkins e Daniel Dennett dois de seus maiores expoentes?
Marcelo Gleiser – Acho que Dawkins, Dennett
, Harris e Hitchens pecam pelo excesso, pelo uso da mesma retórica
virulenta que criticam nos extremistas religiosos. Todo fundamentalismo
é, por definição, exclusivista e destrutivo.
Mesmo que muita gente ache que eles representam a posição
da ciência, isso não é verdade. Existem muitos
cientistas que, mesmo sendo ateus ou agnósticos, não
adotam uma postura combativa em relação à fé.
Esse tipo de atitude não só não leva a nada
como é filosófica e extremamente ingênua. Basta
dar uma olhada mais cuidadosa na ciência e em como ela funciona
para entender que têm limitações essenciais,
questões que estão além do seu alcance. Isso
não significa que as pessoas de fé devam buscar Deus
nos limites da nossa compreensão científica, mas que
os cientistas precisam ter mais humildade em seus pronunciamentos
sobre o que a ciência já compreende e o que é
ainda mera especulação. Achar que todas as questões
podem ser reduzidas ao método científico é
privar a cultura humana de outros modos de compreensão. A
realidade é bem mais rica do que isso.
IHU On-Line – Qual é a relação
entre a existência da matéria e da antimatéria
com a existência de Deus?
Marcelo Gleiser – Nenhuma. Matéria
e antimatéria são aspectos complementares das partículas
que compõem a realidade física do cosmo. Buscar por
Deus nas brechas da ciência é uma estratégia
que leva inevitavelmente ao fracasso; a ciência avança
e esse Deus que “explicava” o que não se sabia
explicar torna-se desnecessário. Melhor guardar a fé
para questões de aspecto transcendente, que não são
necessariamente abordadas pela ciência e seus métodos:
qual o sentido da nossa existência, o que é o amor,
por que existe o mal, o que é verdade etc.