José Herculano Pires

>   A Confluência

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José Herculano Pires
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A obra de Deus é tão vasta, tão rica, tão complexa que, não podendo abrangê-la em nossa curta visão, costumamos acusá-la de muitas e não raro violentas contradições. A dialética nos oferece uma chave para a superação dessa deficiência. Hegel mostrou-nos que as contradições não são mais do que as fases sucessivas do desenvolvimento dos processos criadores. Tese, antítese e síntese representam as etapas da evolução. Através dessa dinâmica espiritual a semente se transforma na plântula e esta afinal se faz planta, para nos devolver a semente multiplicada. O processo do Reino segue também esse caminho dialético, como já vimos no caso da lei da negação da negação.

Os atalhos do Reino parecem-nos contraditórios entre si e contrários aos caminhos do Reino. Por outro lado, parecem-nos contrários ao Reino. Mas a verdade é que todas essas estranhas manifestações do anseio do Reino no coração humano se entrosam num grande sistema. Não é fácil compreendermos essa ligação. As religiões se livram das dificuldades apelando para o mistério dos desígnios de Deus, insondáveis ao nosso próprio entendimento. Mas o mistério é apenas aquilo que não compreendemos. E só não compreendemos o que não conhecemos. Desde que penetremos a natureza de uma coisa, por mais misteriosa que ela nos pareça, o seu mistério desaparece.

O mistério do Reino nos mostra a sua face oculta quando conseguimos abrangê-lo numa visão de conjunto. Deixa de ser mistério para tornar-se a mais bela realidade. O Reino é o alvo do espírito. Todos avançamos para ele, através das existências sucessivas, na Terra e no espaço. Todos ansiamos por ele. Mas nem todos estamos em condições de percebê-lo na sua plena realidade. Uns o veem por um ângulo, outros por outros ângulos. As visões diferem e mais ainda as interpretações, em que a mente humana é tão fértil. Pitágoras já dizia que a Terra é a morada da opinião. Cada qual opina como entende e as divergências se acentuam. Há deturpações horrendas do Reino, como há deformações horrendas do Cristianismo. Mas em todas elas está presente a atração do Reino, que se exerce sobre todas as almas.

O Cristo dos maometanos é um profeta que nasceu no deserto, sob uma palmeira. O Alcorão nos dá um episódio árabe do Natal. O Deus antropomórfico dos brâmanes é muito diferente do Deus antropomórfico dos Católicos. O Jeová guerreiro e intrigante da Bíblia, alcoviteiro e partidário, é o contrário de Deus de amor do Novo Testamento. Mas em cada uma dessas ideias de Deus, quer o entendamos ou não, Deus está presente. E a presença de Deus em cada uma dessas concepções é relativa à capacidade de compreensão de determinadas etapas da evolução humana. Mas as etapas não se sucedem por gradação simples. É tão complexo, múltiplo e dinâmico o processo evolutivo, que a mais elevada concepção de Deus pode caber, em virtude de fatores diversos, numa etapa inferior, da mesma forma que a concepção mais primitiva pode enquadrar-se numa etapa superior.

Toda essa complexidade desnorteia os mais atilados observadores. É preciso muitas vezes que se dê o insight, o chamado estalo de Vieira, numa cabeça ilustrada e capaz, para que ela perceba essa complexidade e se liberte de certos preconceitos, de certos estereótipos mentais. Por isso brigam, não se entendem e acabam criando partidos. O Reino de Deus é um só e os seus caminhos correspondem precisamente aos seus princípios. Todo caminho de violência, de acomodação, de subterfúgio, não leva ao Reino, mas aos reinozinhos humanos, contraditórios e mesquinhos, quando não brutais. Os atalhos sectários e ideológicos variam de gradação na percepção do Reino, mas todos são atalhos. Por mais generosos que sejam nos seus princípios, os meios de que se servem são em geral contrários aos fins. Essa a tragédia religiosa e política em que nos perdemos.

Mas a visão de conjunto, a percepção gestáltica do problema do Reino, nos mostra a suprema inteligência que preside a todas essas manifestações. No final, todas essas correntes fluem para um delta comum. E há um momento de confluência em que as dissensões se apagam, as contradições se fundem numa síntese superior. É no tempo que se realiza a fusão. Por mais absurda que essa tese possa parecer, a verdade é que os processos gerais da natureza a comprovam. Basta vermos a sucessão de fases inferiores do embrião humano, no seu desenvolvimento; a sucessão das fases psicológicas do espírito humano, no processo da sua formação; as etapas do desenvolvimento de uma dada sociedade ou da própria Humanidade. Em todas essas fases encontramos divergências profundas, que podem parecer-nos insolúveis, mas que os especialistas nos mostram ligadas por uma unidade substancial, que as conduz ao mesmo objetivo.

O mensageiro do Reino me disse, nesta tarde, ao ver-me examinar esses problemas:

– Examine o caso de Ananias e Safira, no capítulo V do livro de Atos. E veja depois, no mesmo capítulo, o versículo 15. Veja se é possível conciliar a contradição aparente.

Corri ao livro de Atos e ali encontrei o tenebroso caso. Ananias e Safira queriam entrar para o Reino. Venderam sua propriedade, que era apenas um campo, mas só depuseram aos pés dos apóstolos uma parte do dinheiro, escondendo outra parte. Então primeiro Ananias entrou e foi Pedro quem o recebeu, admoestando-o imediatamente a respeito:

– Por ventura não te era lícito ficar com todo o dinheiro?

E Ananias, ouvindo a exprobração de Pedro, caiu morto aos seus pés. Os jovens presentes carregaram o corpo. Três horas depois veio Safira, que não sabia do ocorrido. Pedro a interpelou e ela confirmou a mentira do marido. Então Pedro respondeu com firmeza:

"Concertastes a mentira entre vós. Eis aí à porta os que levaram há pouco o corpo do teu marido e agora levarão o teu".

No mesmo instante Safira caiu morta e os jovens a levaram.

O versículo 15 nos diz que as virtudes dos apóstolos eram tais que os doentes eram expostos às ruas, deitados em leitos e enxergões, para que, ao passar por eles o apóstolo Pedro, sua sombra os curasse. Que estranhas virtudes emanavam de Pedro! Suas palavras matavam e sua sombra curava. A contradição aparente está aí. Pedro mata e cura em nome do Reino. E mata sem piedade, friamente, primeiro o marido, depois a mulher; somente porque haviam mentido e escondido, com receio de não dar certo a Tentativa do Reino, parte de suas economias. Não seria mais de acordo com o amor e a justiça do Reino que Pedro lhes devolvesse o dinheiro e lhes recusasse entrada na comunidade?

Sim, seria mais certo. Mas acontece que não foi Pedro que matou Ananias e Safira. O Apóstolo limitou-se a cumprir o seu dever, advertindo-os. Acontece que Ananias não suportou o choque provocado pela revelação de Pedro em sua consciência culposa. Ananias foi vítima de sua própria manobra. Mas no caso particular de Safira as coisas não parecem tão simples. Pedro declara que ela vai morrer, parece mesmo ameaçá-la, predispô-la à morte. O Apóstolo era dotado do que hoje chamamos cientificamente percepção extra-sensorial, possuía a mediunidade profética. Ao entrar a mulher de Ananias no recinto, ele viu o que ia acontecer. E em benefício da própria mulher preparou-a para o momento inevitável.

Entretanto, as duas ações de Pedro conduziam ao Reino. A cura despertava as consciências, tocava os corações, preparando-os para o Reino. A repreensão tinha por fim corrigir as imperfeições morais dos que não se encontravam em condições de entrar no Reino, embora o desejassem. A morte de Ananias e Safira, consequência natural de seus atos fraudulentos, parecia uma expulsão definitiva de ambos do portal do Reino. Mas só lhes acontecera o que vimos no caso do rico da parábola: Ananias e Safira não haviam deixado os seus fardos que não cabiam na portinhola estreita. O rico, em espírito, já morto para o mundo, precipitara-se no abismo. O casal fraudulento caíra em vida no abismo da morte. Mas assim como a queda do rico era uma lição de após morte, que o ajudaria a corrigir-se na próxima encarnação, assim a morte de Ananias e Safira lhes ensinava a buscar a sinceridade e a verdade no mundo espiritual.

Os que não acreditam ou não querem compreender que só podemos entrar no Reino pelo renascimento, não encontram explicação para as contradições que apontamos. Aplicam em defesa de Pedro o argumento de justiça. Mas onde fica o argumento do amor? Já vimos que o Reino não se constitui apenas de justiça, o que seria uma negação do amor de Deus. Não podemos, pois, compreender o Reino sem compreender a advertência do jovem Carpinteiro a Nicodemos: "É necessário nascer de novo". Como poderiam todos chegar ao Reino, se são tantos os que fazem como Ananias e Safira? E como agiria o amor do Reino em favor dos que não dispõem de tempo e oportunidade para se tornar aptos a habitá-lo?

É o princípio da reencarnação a chave do Reino. A grande maioria das criaturas humanas estaria impedida de entrar no Reino se Deus não lhes concedesse a oportunidade do reinício. Então o Reino não seria de todos, mas de alguns. Deus não seria o Pai do Evangelho mas o guerreiro da Bíblia. A balança da justiça tem dois pratos, mas um deles é do amor. A balança de Jeová tem o prato da justiça abaixado, pois é nela que o Deus Bíblico põe a sua força. A balança do Deus-Pai está sempre equilibrada, porque o seu amor se mede pela sua justiça e vice-versa. O Reino não está reservado a estes ne àqueles, mas abre sua pequena porta aos homens de todas as raças, de todas as nacionalidades, de todos os quadrantes da Terra.

E é graças a isso que os atalhos e os caminhos do Reino se encontram na confluência. Heresias e ideologias desempenham o seu papel no grande esquema do Reino. Preparam cada qual as criaturas colocadas em diversos planos evolutivos, de acordo com as sintonias de seus interesses e com os impulsos de suas tendências, para o momento supremo de compreensão gestáltica do Reino, que chegará normalmente para todos. Fanáticos religiosos e fanáticos políticos não perdem o seu tempo: são aprendizes de primeiro grau, exercitando-se para as virtudes do Reino, adestrando-se para amá-lo. Porque não é fácil amar o Reino. Os reinozinhos da Terra, esses pequenos e absorventes reinos dos homens, atraem poderosamente as almas inexperientes. Então o Reino se disfarça em estreitas concepções humanas e atrai aquelas almas que se perderiam nas atrações inferiores.

Deus sabe conduzir as almas para o Reino. Nós, os conduzidos, é que não sabemos ver e compreender o seu imenso trabalho. Por isso não o auxiliamos. Devemos aprender que Deus, nosso Pai, trata-nos como filhos. E em vez de guerrear os irmãos que procuram o Reino por atalhos ou caminhos diferentes dos nossos, devíamos ajudá-los. Todos os caminhos levam ao Pai. Isso, porém, não quer dizer que devamos esperar sentados o estabelecimento do Reino na Terra. Cada um de nós, em seu caminho ou seu atalho, tem a obrigação espiritual de trabalhar incessantemente pelo Reino, amando a todos, fazendo sempre justiça em todas as coisas, mas trabalhando sem cessar para despertar em todos a compreensão do Reino, que extinguirá do planeta o orgulho, a vaidade, o egoísmo e o ódio. A compreensão do Reino fará corar de vergonha os que hoje só pensam em conquistar para si mesmos. Os ricos do Reino serão os que ajuntam para todos.

 

 

Fonte: - no livro O Reino, cap. VII.

 



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