Uma das primeiras frases lapidares
que ouvi ao entrar na universidade, no curso de arquitetura e urbanismo,
foi a de que arquitetura é 10 por cento inspiração
e 90 por cento transpiração. Sem entrar no mérito
desta proporção, se substituirmos aí a palavra
arquitetura por outra qualquer, poder-se-ia aplicar tal ideia a inúmeros
processos de produção intelectual, artística,
a qualquer decurso inventivo que envolva o ato de projetação,
algum procedimento criador, demiúrgico.
Essa afirmação ficou
gravada na memória e nem lembro qual o professor que a proferiu.
Soube depois que ela é atribuída ao grande inventor
norte-americano Thomas Edson. Mas há quem diga que o autor
da frase teria sido o físico alemão Einstein. Importa
mesmo ressaltar a verdade capital que ela encerra: o conhecimento
“não cai do céu”. Ele é imaginado,
pensado, construído, trabalhado. Todo e qualquer conhecimento
é sempre fruto da necessidade, da busca e do trabalho.
A inspiração, pura e
simples, não leva a lugar algum se não se materializar
mediante o labor, na criação, na produção.
O trabalho pelo trabalho pode levar a um processo inspirativo, podendo
nos animar, estimular e inspirar a prosseguir em determinado caminho
ou a adotar alguma alteração de rumo, estética,
conceitual, paradigmática. Já a inspiração
ensimesmada é infrutífera, apenas sonhadora, estéril,
se não se consubstanciar em um produto, algo palpável,
concreto, que tenha significado, que desfrute de uma dimensão
social.
Mesmo o conhecimento intuitivo tem uma base, uma origem quantitativa
contida na qualidade das ideias que surgem, como um insight,
uma “revelação”, cuja categorização
é sempre histórica, jamais divina, pois a suposta oposição
entre sagrado e profano é coisa dos séculos passados,
não tem mais sentido, não mais se sustenta. O que nos
conduz ao significado e sentido inverossímeis de qualquer informação
que venha “do alto”.
Toda revelação “divina” é uma mentira,
ilusão, uma falácia, tem um vício de origem,
sofre de um “pecado original”. Supõe-se divina
sem nunca ter sido. Supor que exista algo “divino” é
o mesmo que imaginar a existência do “sobrenatural”.
Nada há na natureza dos seres e das coisas que seja “divino”.
Jamais houve. O sagrado e o profano são convenções
culturais. O “divino” não morreu, simplesmente
porque nunca existiu, a não ser enquanto fato cultural, social,
existencial, evolutivo, ainda presente na mente das pessoas, da mesma
forma que nunca existiu algo “sobrenatural”. Admitir o
“divino” significa admitir o milagre. O milagre é
o nada. Nada há que seja “sobrenatural”, “milagroso”.
Isto posto, a ideia de que uma corrente
espiritualista, como a espírita, seja “dos espíritos”,
“divina”, tipo um fato metafísico, hipostático,
sobrenatural, não tem fundamento algum, a não ser que
consideremos essa corrente de pensamento como uma forma de manifestação
látrica, religiosa, sobrenatural, transcendental, o que seria
um equívoco, uma traição a sua epistemologia
primordial.
Por sua vez, ao sustentar que a elaboração
do pensamento espírita é humana, física, da alçada
dos seres humanos e não extrafísica, ou seja, dos espíritos
(que também são humanos), Allan Kardec demarca, circunscreve
o pensar espírita a uma dimensão histórica, social
e radicalmente fora do âmbito transcendental. Não que
suas proposições não tragam consigo uma certa
transcendência em sua formulação, em sua práxis.
Isso é evidente, principalmente na tenaz influência da
linguagem cristã, sem perder de vista sua imanência,
a íntima vinculação à concretude, à
natureza, ao social.
As ideias, a matéria-prima
informativa oriunda do diálogo com as mentes desencarnadas,
portanto humanas, foram o esteio das reflexões kardequianas,
no trabalho de elaboração, de estruturação
da filosofia espírita.
Os 10 por cento de inspiração,
no processo de factura kardequiana, veem acompanhados do amplo restante
na forma de trabalho personalizado, concentrado e centralizado que
Kardec, em sua extrema modéstia, dizia não ser dele,
mas dos espíritos. Tal ideia reducionista foi por ele revista,
repensada nos seus últimos escritos em Obras Póstumas.
A permanente “fonte de inspiração” extrafísica
(os 10 por cento) aliada aos 90 por cento de Rivail, desenham assim
a sua obra filosófica, científica, ética, literária:
a Kardequiana.
Afinal, quem realizou o trabalho informático,
quem criou a terminologia, preparou as questões, quem efetivou
as perguntas, com réplica, tréplica, enfim, através
do diálogo, num processo dialógico, maiêutico,
dialético, editorial e sintético? Foram os espíritos?
Não, foi Kardec, o espírito mais lúcido dentre
todos aqueles que (co)laboraram no quefazer doutrinário, em
um trabalho de parceria, de equipe, onde ele foi, ao mesmo tempo,
o compositor e o maestro, o arquiteto e o mestre-de-obras, o arco
e a flecha, o arqueiro.
Ouso pensar que se não
houvesse espíritos, ainda assim o Espiritismo ganharia forma,
seria estruturado, surgiria enquanto modo de pensar o homem e o mundo,
pois ele não é uma categoria de conhecimento que se
equipare às revelações religiosas. É um
conhecimento construído com muita transpiração,
em aberto, processual, no tempo e no espaço. Ele é histórico,
secular e nada, mas absolutamente nada tem de sagrado, de divino ou
de transcendental em sua origem e elaboração. Em qualquer
resultado oposto a essa origem, no seu desenvolvimento histórico-social,
entrar-se-ia no terreno da antropologia, da sociologia, da psicologia
social, da teologia, da filosofia da religião. E aí
adentraremos em outros campos do saber humano, em outras vias de análise...