1. INTRODUÇÃO
O objetivo deste trabalho é buscar as origens
do Espiritismo no Brasil e sua trajetória através
do tempo. O roteiro para este estudo é o seguinte: cenário
internacional, primeiros passos do Espiritismo no Brasil, a fundação
da FEB e alguns aspectos do movimento espírita na atualidade.
2. CENÁRIO INTERNACIONAL
2.1. O FENÔMENO DE HYDESVILLE
O livro de Arthur Conan Doyle, The History of Spiritualism,
traduzido como A História do Espiritismo, relata a seqüência
dos fenômenos mediúnicos ocorridos entre o Século
XVIII e meados do Século XX.
Diz-nos que os espíritas tomaram oficialmente
a data de 31 de março de 1848 — Fenômeno de Hydesville,
em que duas crianças conversaram, através de pancadas,
com um Espírito já desencarnado — como começo
das coisas psíquicas, porque o movimento foi iniciado naquela
data. Entretanto não há época na história
do mundo em que não se encontrem traços de interferências
preternaturais e o seu tardio reconhecimento pela humanidade"
(Doyle, s. d. p., p. 33).
Uma data deve ser fixada para início da narrativa
e, talvez, nenhuma melhor que a da história do grande vidente
sueco Emmanuel Swedenborg (1688-1772), uma grande autoridade em
Física e em Astronomia, autor de importantes trabalhos sobre
marés e sobre a determinação das latitudes.
Era zoologista e anatomista. Financista e político, antecipou-se
às conclusões de Adam Smith. Finalmente, era um profundo
estudioso da Bíblia. Dizia que "todas as afirmações
em matéria de teologia são, como sempre foram, arraigadas
no cérebro e dificilmente podem ser removidas; e enquanto
aí estiverem, a verdade genuína não encontrará
lugar". (Doyle, s. d. p., cap. I)
A história de Edward Irving (1792-1834),
ministro presbiteriano, e sua experiência entre 1830 e 1833,
é de grande interesse para a construção do
pilar histórico do Espiritismo. Edward Irving, embora pertencesse
àquela mais pobre classe de trabalhadores braçais
escoceses, pregou carismas e dons miraculosos (curas e línguas
estranhas) junto à Igreja à qual pertencia. Fato este
que o tornou famoso. (Doyle, s. d. p., cap.
II)
Andrew Jacson Davis (1826-1910), profeta da nova
revelação, com sua clarividência acurada, antecipou
o famoso episódio de Hydesville. (Doyle,
s. d. p., cap. III)
2.2. AS MESAS GIRANTES
O fato mediúnico marcante, após o
episódio de Hydesville, é o fenômeno das mesas
girantes, que assolou os Estados Unidos e a Europa, servindo de
brincadeiras de salão, quando as mesas dançavam, escreviam
batiam o pé e até falavam. É dentro desse contexto
que surge a Doutrina Espírita.
2.3. CODIFICAÇÃO DO ESPIRITISMO POR ALLAN KARDEC
Das brincadeiras de salão, surge Hypollyte
Leon Denizard Rivail — Allan Kardec—, um estudioso do
magnetismo e do método teórico experimental em ciência.
O magnetismo já vinha sendo estudado há algum tempo.
Historicamente, Mesmer descobre, em 1779, o magnetismo animal, Puysegur,
em 1787, o sonambulismo e Braid, em 1841, o hipnotismo.
Havendo uma disseminação muito grande
dos fenômenos das mesas girantes, Kardec, ainda Hipollyte,
foi convidado para assistir a uma dessas sessões, pois o
seu amigo Fortier, magnetizador, dissera que além da mesa
mover-se ela também falava. É aí que entra
o gênio inquiridor do pesquisador teórico experimental.
Assim, retruca: só se ela tiver cérebro para pensar
e nervos para sentir e que possa tornar-se sonâmbula. A partir
daí, começa a freqüentar essas sessões,
culminando, mais tarde, com a publicação de O Livro
dos Espíritos, em 18/04/1857
3. PRIMEIROS PASSOS DO ESPIRITISMO NO BRASIL
3.1. PUBLICAÇÃO NA IMPRENSA
DA ÉPOCA
Zêus Wantuil, em seu livro As Mesas Girantes
e o Espiritismo, busca dados na imprensa da época, ou seja,
no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, no Diário
de Pernambuco e no Cearense relatos sobre os acontecimentos das
"mesas girantes" na Europa e no Brasil.
No dia 14/06/1853 é publicado, na seção
exterior do Jornal do Comercio do Rio de Janeiro, notícias
sobre as "mesas girantes", fatos que estão empolgando
principalmente os Estados Unidos e Europa. (1957,
p.125)
No dia 02/07/1853, o Diário de Pernambuco,
em sua seção "Exterior", de notícia
procedente de Paris, e datada de 20 de maio, contava o correspondente
que "não se pode por o pé em um salão,
sem ver toda a sociedade em torno de uma mesa redonda, tendo cada
um o dedo mínimo apoiado no do vizinho, e esperando todos
em silêncio que a tábula queira voltear". (1957,
p.127)
No dia 15/07/1853, o jornal O Cearense transcreve
a primeira notícia sobre as mesas girantes, nos seguintes
termos: "Apareceu agora em França um fato que despertou
sumamente a curiosidade pública: quero falar-lhes das tábulas
volteantes (tables tornantes) que embora tenham sido inventadas
na América inglesa, os franceses deram carta de naturalização..."
(1957, p. 134).
3.2. 1.ª SESSÃO ESPÍRITA
Em 17/09/1865 —Salvador, Bahia —, é
instalado o "Grupo Familiar do Espiritismo", o primeiro
Centro Espírita do Brasil e, às 20h30min, Luís
Olímpio Teles de Menezes preside a uma sessão mediúnica,
onde se recebe a primeira página psicografada e assinada
por "Anjo Brasil".
Em julho de 1869, para melhor defender e propagar
o Espiritismo, duramente atacado pelo clero e imprensa de Salvador,
Luís Olímpio Teles de Menezes publica "O Echo
D’Além-Tumulo" — Monitor Do Espiritismo
no Brasil, o primeiro jornal espírita do Brasil. (Barbosa,
1987, p. 70 e 71)
3.3. GRUPO CONFÚCIO
Funda-se em 02/08/1873, por inspiração
do Espírito Ismael, a "Sociedade de Estudos Espíritas
— Grupo Confúcio", que pelo seu regulamento deveria
seguir os princípios e as formalidades expostas em O Livro
dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns. Sua divisa
era: "Sem caridade não há salvação;
sem caridade não há verdadeiro espírita".
Extingue-se em 1876.
Composto de neo-espiritualistas, este grupo tinha
a incumbência de:
1 - traduzir as obras de Allan Kardec;
2 - divulgar a homeopatia;
3 - escolher o protetor espiritual do Brasil.
Joaquim Carlos Travassos faz parte desse grupo.
Traduz O Livro dos Espíritos para o português e passa-o
a Adolfo Bezerra de Menezes, que lendo-o pela primeira vez, pareceu-lhe
que já lhe era familiar o conteúdo deste livro. (Barbosa,
1987, p.73 e 74)
3.4 HOMEOPATIA E PASSES MAGNÉTICOS
Por volta de 1840, ao influxo das falanges de Ismael,
chegavam dois médicos humanitários ao Brasil. Eram
Bento Mure e Vicente Martins, que fariam da medicina homeopática
verdadeiro apostolado. Muito antes da codificação
kardeciana, conheciam ambos os transes mediúnicos e o elevado
alcance da aplicação do magnetismo espiritual. (Xavier,
1977)
Por que essa relação entre Homeopatia
e Espiritismo?
A ligação entre a Homeopatia e o Espiritismo
pode ser vista da seguinte forma: na Homeopatia a ação
dos medicamentos não é de natureza material, química,
mas sim de ordem dinâmica, fluídica; no Espiritismo
consideramos a trindade universal – Deus, Espírito
e Matéria – e acrescentamos o períspirito, transformação
do fluido universal, a fim de se poder unir o Espírito à
matéria. Como o Perispírito está ligado átomo
a átomo, célula a célula ao corpo físico,
tudo o que passa num, repercute imediatamente no outro. Nesse sentido,
o equilíbrio funcional do perispírito pode ser perturbado
por agentes fluídicos, da mesma natureza portanto que ele,
e essa perturbação, repercutindo no corpo físico,
torna-o também enfermo. Do mesmo modo, pela ação
de elementos também fluídicos, porém, salutares,
pode normalizar-se o perispírito e, consequentemente, o organismo
material, intimamente ligado a ele, volve ao seu normal funcionamento.
(Thiago, 1983, p. 11 a 13)
4. FUNDAÇÃO DA FEB
4.1. A MISSÃO DE BEZERRA DE MENEZES
Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti (1831-1900)
nasceu na Freguesia do Riacho do Sangue – Ceará –
com a missão precípua de unificar o Espiritismo nas
terras do Cruzeiro.
Para tanto, torna-se presidente da FEB por duas
gestões: 1889 e 1895 a 1900.
A sua missão é relatada pelo Espírito
Humberto de Campos em Brasil, Coração do Mundo, Pátria
do Evangelho nos seguintes termos: "Descerás às
lutas terrestres com o objetivo de concentrar as nossas energias
no país do Cruzeiro, dirigindo-as para o alvo sagrado dos
nossos esforços. Arregimentarás todos os elementos
dispersos, com as dedicações do teu espírito,
a fim de que possamos criar o nosso núcleo de atividades
espirituais, dentro dos elevados propósitos de reforma e
regeneração". (Xavier, 1977, p.179)
4.2. UNIFICAÇÃO DO ESPIRITISMO
Depois que o Grupo Confúcio foi extinto,
em 1876, o movimento espírita entrou numa fase de muita dissidência,
pois cada dirigente queria dar ênfase a um único aspecto
da Doutrina Espírita. Assim, uns defendiam exclusivamente
o estudo do Evangelho, outros diziam-se Roustanguistas; uns arvoraram-se
em científicos, outros diziam-se puros. Como conseqüência,
a separação, a desunião, a luta. Foi justamente
nesse estado de coisas que surgiu Bezerra de Menezes, a fim de equilibrar
o movimento espírita, tornando-o forte, coeso e seguro, no
sentido de criar condições para que o Brasil pudesse
cumprir a sua missão de fornecedora do Evangelho ao mundo.
4.3. FUNDAÇÃO DA FEB
Para congregar tantas forças dispersas, o
Sr. Elias da Silva reuniu em sua casa um grupo de dirigentes e fundou,
no dia 1º de janeiro de 1884, a Federação Espírita
Brasileira, tendo como primeiro presidente o Sr. Ewerton Quadros,
e como órgão oficial a revista O Reformador ("órgão
evolucionista"), fundada também pelo Sr. Elias da Silva,
no dia 21 de janeiro de 1883. Mesmo assim não foi fácil
o trabalho de unificação. Adolfo Bezerra de Menezes,
que começou a sua atuação nestes anos, teve
muita dificuldade para entender os espíritas. (Barbosa,
1987, p. 79 a 82)
5. MOVIMENTO ESPÍRITA NA ATUALIDADE
Cairbar Schutel (1868-1938), cognominado de bandeirante
do Espiritismo, sendo um homem de fibra e de coragem, é colocado
como um dos baluartes do Espiritismo. Dizia que sua tarefa estava
limitada à divulgação da missão kardecista.
Assim, inspirado na figura de Paulo de Tarso, empreendeu uma luta
contra os dogmas da Igreja.
Eurípedes Barsanulfo (1880-1918), famoso
pelos seus desdobramentos, contribuiu eficazmente para a causa espírita.
Não mediu esforços para a divulgação
do Espiritismo, inclusive com ameaça de morte por parte de
seus adversários.
Francisco Cândido Xavier é, talvez,
o mais eminente divulgador da Doutrina Espírita. Nasceu,
no dia 02 de abril de 1910, na cidade de Pedro Leopoldo, em Minas
Gerais. Aos 5 anos de idade, já conversava com o Espírito
de sua mãe (desencarnada). Com mais de 400 livros psicografados
(muitos dos quais, hoje, traduzidos e editados em várias
línguas), presume-se que o autor tenha ficado mais de 11
anos em transe mediúnico. O Espírito Emmanuel (que
já reencarnou como Públio Lêntulus, senador
romano da antigüidade, e como Padre Manoel da Nóbrega),
é o seu guia protetor.
Além desses nomes podemos citar J. H. Pires,
Yvone A. Pereira, Divaldo Pereira Franco e outros.
6. CONCLUSÃO
Estamos mundialmente entrelaçados: o que
acontece num país, o outro fica logo sabendo. Muitas vezes
descobre-se algo num país, mas é em outro que vemos
o seu desenvolvimento. O Espiritismo é um exemplo prático.
Nascido em França, teve o seu florescimento em nossa pátria.
Hoje, não são poucos os adeptos brasileiros desta
doutrina esclarecedora do mundo invisível.
7. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
BARBOSA, P. F. Espiritismo Básico. 3. ed.,
Rio de Janeiro, FEB, 1987.
DOYLE, A. C. História do Espiritismo. São Paulo, Pensamento,
s. d. p.
THIAGO, L. S. Homeopatia e Espiritismo. 2. ed., Rio de Janeiro,
FEB, 1983.
WANTUIL, Z. As Mesas Girantes e o Espiritismo. Rio de Janeiro, FEB,
1957.
XAVIER, F. C. Brasil, Coração do
Mundo, Pátria do Evangelho. 11. ed., Rio de Janeiro, FEB,
1977.