| Sérgio
Biagi Gregório
> Ciência e Espiritismo
SUMÁRIO:
1. Introdução.
2. Conceito:
2.1. Sentidos da Palavra Ciência;
2.2. Características da Ciência; 2.3. Algumas Definições.
3. Histórico.
4. Relação entre Ciência e Religião.
5. Ciência Espírita:
5.1. Ciência Natural e Ciência
Espírita; 5.2. Experimentadores Espíritas.
6. Cultivo da Ciência Espírita.
7. Conclusão.
8. bibliografia Consultada
1. INTRODUÇÃO
O objetivo deste estudo é mostrar que a teoria
espírita não parte de idéias preconcebidas
e imaginárias; é fruto de um árduo trabalho
de pesquisa das inter-relações entre matéria
e Espírito. Para tanto, procede da mesma forma que a ciência
natural. Para que possamos desenvolver as nossas idéias,
preparamos um pequeno roteiro: conceito, histórico, relação
entre ciência e religião, ciência espírita
e cultivo da ciência espírita.
2. CONCEITO
2.1. SENTIDOS DA PALAVRA CIÊNCIA
A palavra ciência é usada com diversas
significações. Em sentido amplo, ciência significa
simplesmente conhecimento, como na expressão tomar ciência
disto ou daquilo; em sentido restrito, ciência não
significa um conhecimento qualquer, e sim um conhecimento que não
só apreende ou registra fatos, mas os demonstra pelas suas
causas determinantes ou constitutivas. (Ruiz,
1979, p. 123)
2.2. CARACTERÍSTICAS DA CIÊNCIA
Cumpre observar que as definições
de ciência são numerosas. Seria mais coerente enumerar
algumas de suas características, ou seja:
2.2.1. Conhecimento pelas causas
Ao contrário do conhecimento vulgar, o conhecimento
científico implica em conhecer pelas causas. Se o cientista
observa a chuva, ele quer saber porque chove, dispensando a influência
dos deuses. Age da mesma forma com relação a um fato
político. Com respeito ao aparecimento de Napoleão
Bonaparte no quadro político internacional, o cientista não
dirá simplesmente que Napoleão fora um gênio
militar, mas procurará as causas políticas e econômicas
que o fizeram emergir no cenário mundial.
2.2.2. Profundidade e generalidade de suas
condições
O conhecimento pelas causas é o modo mais
íntimo e profundo de se atingir o real. A ciência não
se contenta em registrar fatos, quer também verificar a sua
regularidade, a sua coerência lógica, a sua previsão
etc. A ciência generaliza porque atinge a constituição
íntima e a causa comum a todos os fenômenos da mesma
espécie. A validade universal dos enunciados científicos
confere à ciência a prerrogativa de fazer prognósticos
seguros.
2.2.3. Objeto formal
A finalidade da ciência é manifestar
a evidência dos fatos e não das idéias. Procede
por via experimental, indutiva, objetiva; suas demonstrações
consistem na apresentação das causas físicas
determinantes ou constitutivas das realidades experimentalmente
controladas. Não se submete a argumentos de autoridade, mas
tão-somente à evidência dos fatos.
2.2.4. Controle dos fatos
Ao utilizar a observação, a experiência
e os testes estatísticos tenta dar um caráter de exatidão
aos fatos. Embora os enunciados científicos possam ser passíveis
de revisões pela sua natureza “tentativa”, no
seu estado atual de desenvolvimento, a ciência fixa degraus
sólidos na subida para o integral conhecimento da realidade.
(Ruiz, 1979, p. 124 a 126)
2.3. ALGUMAS DEFINIÇÕES
- Conhecimento certo do real pelas suas causas.
- Conjunto orgânico de conclusões certas e gerais metodicamente
demonstradas e relacionadas com objeto determinado.
- Atividade que se propõe demonstrar a verdade dos fatos
experimentais e suas aplicações práticas.
- Estudo de problemas solúveis, mediante método científico.
- Conjunto de conhecimentos organizados relativos a uma determinada
matéria, comprovados empiricamente. (Ruiz,
1979, p. 126)
3. HISTÓRICO
Garcia Morente, em Fundamentos
de Filosofia, ao analisar o conceito de filosofia através
dos tempos, conduz-nos à origem da ciência. Diz-nos
ele que todo o conhecimento desde a Antigüidade clássica
até a Idade Média era entendido como sendo filosófico.
Somente a partir do século XVII, o campo imenso da filosofia
começa a partir-se. Começam a sair do seio da filosofia
as ciências particulares, não somente porque essas
ciências vão se constituindo com seu objeto próprio,
seus métodos próprios e seus progressos próprios,
como também porque pouco a pouco os cultivadores vão
igualmente se especializando. (1970, p. 28)
Devemos deixar claro que as ciências, por
essa mesma razão se completam e uma necessita da outra.
Observe que a Astronomia, a primeira das ciências, só
atingiu a maioridade, depois que a Física veio revelar
a lei de forças dos agentes naturais.
O Espiritismo entra nesse processo histórico
dentro de uma característica sui generis, ou seja, enquanto
a ciência propicia a revolução material, o
Espiritismo deve propiciar a revolução moral. É
que Espiritismo e Ciência se completam reciprocamente; a
Ciência, sem o Espiritismo, se acha na impossibilidade de
explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria;
ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação.
O estudo das leis da matéria tinha que preceder o da espiritualidade,
porque a matéria é que primeiro fere os sentidos.
Se o Espiritismo tivesse vindo antes das descobertas científicas,
teria abortado, como tudo quanto surge antes do tempo. (Kardec,
1975, p. 21)
4. RELAÇÃO ENTRE CIÊNCIA
E RELIGIÃO
A estrutura do pensamento na Idade Média
estava condicionada à Escolástica, movimento filosófico
religioso, que submetia a razão à fé. Havia
tamanha ingerência da Igreja nas questões sociais,
políticas e econômicas, que por qualquer desvio da
ordem preestabelecida, muitos acabavam pagando com a própria
vida por tal heresia. Acontece que as coisas se modificam e a
verdade acaba por vencer os erros da ignorância.
Galileu, em 1609, constrói
o telescópio e, com isso, muda radicalmente a visão
do homem quanto ao Universo e à própria vida. Porém,
o Santo Ofício contrapunha: o telescópio poderia,
com efeito, revelar coisas inacessíveis à vista
desarmada. Mas revelava-as, no dizer dos críticos, por
mediação do demônio: era uma forma de magia
e, por isso, fundamentalmente uma ilusão. Copérnico,
Kepler e Galileu estavam a transformar o mundo visível
num jogo de sombras. O Sol não se movia, a Terra sim, o
céu tinha fantasmas escondidos. (Bronowski, 1988, p. 138)
Dizia Galileu acerca do uso de
citações bíblicas nos assuntos da Ciência:
“Parece-me que na discussão de problemas naturais,
não devemos começar pela autoridade de passagens
da Escritura, mas por experiências sensíveis e demonstrações
necessárias. Pois, quer a Sagrada Escritura, quer a natureza,
procedem ambas da Palavra Divina. (Bronowski,
1988, p. 140)
A consciência religiosa impregna-se de tal
maneira em nosso psiquismo que não somos capazes de mudá-la
a contento. Observe a perseguição que Calvino imputou
a Serveto, médico e cientista que vivia em França,
e que escreveu um livro atacando a doutrina ortodoxa da Trindade.
A fúria de Calvino foi a ponto de, sendo ele mesmo herético
da Igreja Católica, ter secretamente acusado Serveto de
heresia junto da Inquisição católica da França.
Embora o seu livro não tivesse sido escrito nem publicado
em Genebra, Calvino prendeu Serveto e queimou-o na Fogueira. (Bronowski,
1988, p. 110)
Essa divergência entre ciência e religião
continua ainda nos dias que correm. Contudo, de acordo com Allan
Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo, a Ciência e
a Religião não puderam se entender até hoje,
porque, cada uma examinando as coisas sob seu ponto de vista exclusivo,
se repeliam mutuamente. Seria preciso alguma coisa para preencher
o vazio que as separava, um traço de união que as
aproximasse; esse traço de união está no
conhecimento das leis que regem o mundo espiritual e suas relações
com o mundo corporal, leis tão imutáveis como as
que regem o movimento dos astros e a existência dos seres.
Essas relações, uma vez constatadas pela experiência,
uma luz nova se fez: a fé se dirigiu à razão
e a razão não tendo encontrado nada de ilógico
na fé, o materialismo foi vencido. (1984, p. 37)
5. CIÊNCIA ESPÍRITA
5.1. CIÊNCIA NATURAL E CIÊNCIA
ESPÍRITA
As Ciências Naturais, com o passar do tempo,
deixaram de ser dogmáticas para serem teóricas experimentais.
Elas tornam-se positivas, ou seja, baseiam-se em fatos. Uma determinada
teoria só existirá como lei se comprovada pelos
fatos. O Espiritismo não foge a essa regra e age da mesma
sorte. Assim:
Ciência Natural: o conhecimento
é fundamentado na observação e experiência.
Formulam-se HIPÓTESES baseadas na percepção
sensorial. Sobre as hipóteses estabelecem-se, dedutivamente
CONSEQÜÊNCIAS. As conseqüências
serão aceitas como verdadeiras, se confirmadas pela observação
e experiência — pela percepção sensorial.
Ciência Espírita:
o conhecimento é fundamentado na observação
e experiência mediúnicas. Formulam-se HIPÓTESES
baseadas na mediunidade. Sobre as hipóteses estabelecem-se,
dedutivamente CONSEQÜÊNCIAS. As conseqüências
serão aceitas como verdadeiras, se confirmadas pela observação
e experiência mediúnicas — pela mediunidade.
O procedimento é idêntico. A diferença
consiste na natureza das percepções consideradas.
Desde que fique certificado que as percepções sensoriais
e as percepções mediúnicas têm a mesma
validade, o conhecimento é igualmente válido. (Curti,
1981, p. 17)
5.2. EXPERIMENTADORES ESPÍRITAS
W. Crookes falecido em 1910 inicia
a era científica do Espiritismo com as suas célebres
experiências realizadas de 1870 a 1874, com os médiuns
Dunglas Home, Kate Fox e Florence Cook, tendo obtido a materialização
completa, integral, de um Espírito falecido numa recuada
época, Katie King, que Crookes estudou durante três
anos consecutivos, em colaboração com outros sábios
ingleses, fato que teve uma repercussão mundial. Empregou
método rigorosamente científico, inventando e adaptando
variados aparelhos registradores. (Freire,
1955, p. 95)
Gabriel Dellane em O
Fenômeno Espírita relata a criação
de vários aparelhos medidores da força psíquica.
A experiência de Robert Hare é sugestiva: “A
longa extremidade de uma prancha foi presa a uma balança
espiral, com um indicador fixo para marcar o peso. A mão
do médium foi colocada sobre a outra extremidade da prancha,
de modo que, qualquer pressão que houvesse, não
pudesse ser exercida para baixo; mas, pelo contrário, produzisse
efeito oposto, isto é, suspendesse a outra extremidade.
Com grande surpresa sua, esta extremidade desceu, aumentando assim
o peso de algumas libras na balança”. (1990,
p. 66)
Não são poucos os nomes ligados
à experimentação espírita. Cabe destacar
que a maioria deles foram ao fenômeno para desmascarar os
médiuns, chamados de embusteiros. Como eram cientistas
e valiam-se dos fatos, acabaram sendo convencidos pela verdade
mediúnica.
Os ingleses, por exemplo, tem um aparelho, baseado
nos eletroencefalogramas, destinado a medir as vibrações
dos neurônios cerebrais quando um indivíduo está
em transe, e verificar se se trata de fenômenos anímicos
ou da inteligência de uma outra mente.
6. CULTIVO DA CIÊNCIA ESPÍRITA
- A conquista dos segredos da natureza exige pesquisa paciente
e metódica. Ninguém pretenda alcançar o conhecimento
das leis naturais, agindo atabalhoadamente, sem um roteiro, sem
um sistema racional, sem um método.
- O método não significa exclusivamente ordem. Faz,
também, parte integrante dele a honestidade, o amor à
verdade, o equilíbrio emocional, a ausência de prejuízos
doutrinários e muitas outras atitudes positivas devem aureolar
o verdadeiro investigador.
- Lembremo-nos de que o maior inimigo do pesquisador espírita
é, sem dúvida, o seu emocional, carregado muitas vezes
do pensamento mágico.
- Toda experiência carece ser cuidadosamente planejada e
seus resultados submetidos a rigorosa análise. Ao legítimo
pesquisador não interessa seja confirmada este ou aquele
ponto vista, e sim revelado qual o que está certo. Para ele
só há um objetivo: a verdade.
- Toda experimentação precisa ser repetida um grande
número de vezes, e seus resultados convém anotados
cuidadosamente para posterior tratamento estatístico.
- O Pesquisador científico do Espiritismo deve ter conhecimento
das Ciências Naturais e da matemática. (Andrade,
1960, cap. II)
- Não se aprende a ciência espírita sem tempo
para reflexão. Por isso, nada de precipitação.
O correto é aplicar-se de maneira exaustiva, excluir toda
a influência material, e observar criteriosamente os fenômenos,
tanto os bons quanto os maus.
7. CONCLUSÃO
A ciência aumentou sobremaneira a capacidade
de instrumentalização do homem. Desenvolvendo tecnologias
avançadas, liberou a mão de obra para atuar na área
de serviços e pesquisas científicas. À medida
que a ciência avança, o indivíduo fica com
mais tempo livre. Os princípios espíritas auxiliam
não só a dar uma direção ao tempo
livre do homem como também na criação e na
utilização da nova tecnologia. Sem uma clara distinção
entre o bem e o mal, podemos enveredar todo o nosso progresso
científico para a destruição do nosso planeta.
O Espiritismo surgiu no momento oportuno, quando
as ciências já tinham desenvolvido o método
teórico-experimental, facilitando a sua aceitação
com mais naturalidade. Sabe-se que cada um deve progredir por
si mesmo, descobrindo as suas próprias verdades. Porém,
a presença de um professor diminui o tempo que levaríamos,
caso quiséssemos descobrir tudo por nós mesmos.
O Espiritismo é esse professor que nos estimula o pensamento
na busca da verdade e na prática da caridade como meio
de salvação de nossas almas.
8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
ANDRADE, H. G. Novos Rumos à Experimentação
Espirítica. São Paulo, Livraria Batuíra,1960.
BRONOWSKI, J. e MAZLICHE, ___. A Tradição
Intelectual do Ocidente. Lisboa, Edições 70, 1988.
CURTI, R. Espiritismo e Reforma Íntima. 3. ed.,
São Paulo, FEESP, 1981.
DELANNE, G. O Fenômeno Espírita. 5. ed.,
Rio de Janeiro, FEB, 1990.
FREIRE, J. Ciência e Espiritismo (Da Sabedoria
Antiga à Época Contemporânea). 2 ed., Rio de Janeiro,
FEB, 1955.
GARCIA MORENTE, M. Fundamentos de Filosofia - Lições
Preliminares. 4. ed., São Paulo, Mestre Jou, 1970.
KARDEC, A. A Gênese - Os Milagres e as Predições
Segundo o Espiritismo. 17. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1976.
KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed.,
São Paulo, IDE, 1984.
RUIZ, J. A. Metodologia Científica - Guia para
Eficiência nos Estudos. São Paulo, Atlas, 1979.
Fonte: http://www.ceismael.com.br/artigo/artigo037.htm
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