RESUMO
O ser vivo é um sistema
dinâmico complexo, formado pela interação
dos componentes materiais (o corpo físico e o períspirito
ou corpo espiritual) com o espírito, este último
como força organizadora e princípio inteligente.
Este processo de interação é o que chamamos
de vida e ele não se interrompe com a morte do corpo físico.
Inicialmente simples, ao surgir nas formas mais primitivas de
vida, esse processo ganha complexidade ao longo do tempo, levando
o princípio inteligente a se individualizar, desenvolver
consciência de si mesmo e do que o rodeia. O princípio
inteligente individualizado e consciente de si mesmo é
o que denominamos “Espírito”. O Espírito
é o agente dos fenômenos espíritas.
1. INTRODUÇÃO
Allan Kardec, na questão 23ª,
no O livro dos Espíritos (O.L.E.) pergunta sobre a natureza
intima do espírito e obtém a seguinte resposta “Não
é fácil analisar o espírito com os conceitos
e palavras que temos hoje na vossa linguagem” (Kardec 1982).
O espírito não é
algo palpável para nós, mas, isso também ocorre
com a matéria quando nos aproximamos das dimensões do
mundo subatômico. Nessas dimensões, as partículas
elementares se comportam como processos dinâmicos, descritas
por equações de ondas que interagem entre si (Capra
1988, Rovelli 2021). A visão científica sobre a natureza
da matéria vem se transformando ao longo do tempo (Einstein
and Infeld 1980) e nos permite uma compreensão melhor da realidade
física em que estamos inseridos.
A Natureza do Espírito é
algo intrigante e a chave do conhecimento da vida, pois explica o
objetivo de se viver. Segundo (Charon 1990) “o problema
da natureza e dos mecanismos do Espírito é, com efeito,
sem nenhuma dúvida, o problema central de toda a Metafísica,
da qual derivam todos os outros objetos de reflexão (o Conhecimento,
a vida, a morte, a Matéria, Deus…)”.
2. IMPORTÂNCIA DA DISCUSSÃO
SOBRE A NATUREZA DO ESPÍRITO
A discussão sobre a natureza do Espírito
leva a um entendimento melhor de como os fenômenos espíritas
ocorrem, principalmente ao aperfeiçoamento das hipóteses
sobre seus mecanismos e consequentemente melhoria nos experimentos
realizados para validá-las.
Também, um entendimento melhor
sobre a natureza do Espírito é fundamental para que
os resultados destes experimentos sejam corretamente registrados,
avaliados e interpretados.
Por exemplo, um ponto muito destacado por Allan
Kardec (vide KARDEC 2008) é que os fenômenos espíritas
podem se apresentar das mais diversas formas e gradações,
dependendo das características dos Espíritos que se
manifestam, da existência de pessoas aptas a servirem de intermediários
para a realização dos fenômenos (médiuns)
e de condições ambientais e espirituais que favoreçam
a ocorrência.
Essa diversidade é mais facilmente
entendida quando se considera que o Espírito não é
um ente abstrato, de natureza totalmente separada da matéria,
mas sim um ente real, agente de fenômenos em que estão
envolvidos diferentes níveis de interação entre
o elemento espiritual e o material, que atua sobre o Espírito
e o períspirito do médium e, com o auxílio deste,
sobre a matéria que afeta os nossos sentidos.
Historicamente, os primeiros fenômenos
estudados foram os físicos, em que sons ou batidas eram percebidas
em objetos materiais. Por serem os mais fáceis de serem constatados
e investigados, foram o ponto inicial da ciência espírita.
Mas, não são os únicos e nem os mais significativos.
Particularmente a psicografia, a escrita
por meio de um médium, é o fenômeno que tem permitido
grandes avanços no conhecimento espírita. Estudada desde
a época de Allan Kardec, é muito conhecida do público
brasileiro em razão do aparecimento em nosso país de
médiuns como Francisco Cândido Xavier e Yvonne A. Pereira.
Uma obra bastante instrutiva para
quem se interessa pelo estudo da psicografia, especialmente quem tenha
alguma dúvida sobre sua realidade, é o livro “A
Psicografia ante os Tribunais” de Miguel Timponi (TIMPONI 1999).
Esta obra analisa os vários aspectos do fenômeno, em
razão de um célebre caso da justiça brasileira
em que a família de um escritor desencarnado pleiteou seus
direitos autorais.
3. DUALIDADE ESPÍRITO-MATÉRIA
Em artigo anterior (Bernardo 2021),
foi abordada a possibilidade de que o Espírito represente na
realidade uma das forças fundamentais que agem sobre a matéria,
atuando sobre os processos dinâmicos que lhe constituem a natureza,
organizando-os e moldando-os. Na questão 22 de O Livro dos
Espíritos os espíritos esclarecem que “a matéria
existe em estados que vos são desconhecidos. Pode ser, por
exemplo, tão etérea e sutil que nenhuma impressão
vos cause aos sentidos. Contudo, é sempre matéria, embora
para vós não o seja“ e na 22ª, definem
“a matéria é o laço que prende o espírito;
é o instrumento do qual este se serve e sobre o qual, ao mesmo
tempo, exerce sua ação”.
A dualidade da matéria-espírito foi descrita por Jean
E. Charon ao estudar as partículas elementares em Física.
O físico e filósofo concluiu que algumas delas encerram
um espaço e tempo do Espírito. Assim, o espaço-tempo
considerado apenas como “simples”, é na realidade
“duplo”, existindo um espaço-tempo do Espírito
ao lado do espaço-tempo da Matéria (tradicional) (Charon
1990).
4. DEFINIÇÃO DE
VIDA
O conjunto espírito e matéria
forma um sistema dinâmico e o processo de interações
entre eles é o que chamamos de vida.
A vida pode ser definida como a rede
de interações, em diversos níveis de organização,
que dentro de padrões de autorregulação e aprendizado,
mantém a identidade do ser ao longo do tempo. Capra and Luisi
2014 mostram como este processo dinâmico é o que realmente
diferencia um organismo vivo da matéria inerte.
A autorregulação é a inteligência que mantem
a estabilidade e a identidade do ser vivo, por mais que suas partes
se modifiquem e sejam substituídas ao longo dos processos que
ocorrem em seu interior ou pelas trocas de matéria e energia
com o ambiente externo. No corpo físico, por exemplo, temos
células, tecidos e órgãos que interagem dinamicamente
entre si e tornam possível nos percebermos como um ser individualizado
e único ao longo do tempo.
5. VIDA ALÉM DO CORPO FÍSICO
Na visão espírita, as
fronteiras entre a matéria e o espírito não são
absolutas. Os fenômenos espíritas demonstraram que além
do corpo físico, há um corpo espiritual, o períspirito,
que não é destruído pela morte do corpo físico.
Este corpo é ainda formado de matéria, porém
mais sutil, com natureza intermediária entre o espírito
e a matéria conhecida da nossa ciência.
A morte (desencarnação)
corresponde ao desligamento da parte constituída pelo corpo
físico. O nascimento (reencarnação) é
o fenômeno inverso, onde há a ligação do
Espírito, através do seu períspirito, a um corpo
físico.
Dessa forma, quando o ser vivo está
encarnado ele apresenta três componentes (corpo físico,
períspirito e Espírito). Livre da matéria física
(desencarnado) mantém dois elementos (perispírito e
Espírito).
6. CONTINUIDADE DA INDIVIDUALIDADE
Os estudos sobre a reencarnação
demonstram que a continuidade da individualidade do ser é um
fato experimental (vide, por exemplo, Andrade 1988). Ela não
se perde com as mudanças nos corpos de que se reveste, apenas
se transforma. Tal qual a termodinâmica tem a lei da conservação
da energia, que em um sistema fechado não se perde jamais,
apenas se transforma, podemos falar de uma lei da conservação
da individualidade do Espírito.
Inicialmente simples e ignorante (O.L.E. questão 115) a individualidade
formada no processo dinâmico espírito-matéria,
ganha complexidade, aprende a perceber a si mesma e adquire conhecimento
do que está ao seu redor.
As fases de ligação com a matéria grosseira,
o encadeamento de nascimentos e mortes, é um dos mecanismos
que tornam possível essa evolução. Plantas, animais
e seres humanos são estágios diferentes dessa caminhada.
Delanne, 1995 denomina esta caminhada de “Evolução
Anímica”.
À medida que o Espírito se desenvolve, se aperfeiçoa
e ganha sabedoria, chega-se a um ponto onde a passagem pelas existências
materiais deixa de ser necessária e mesmo o períspirito
vai se tornando de natureza cada vez mais sutil. Pode-se conceber,
pela imaginação, o estado do Espírito puro, em
que ele está completamente desligado da matéria.
De fato, não sabemos ainda nem como, nem quando, esse processo
tem início, mas sabemos que a individuação ocorre
ao longo do tempo e que cada ser percorre ao seu próprio ritmo
o caminho da evolução (O.L.E. questão 79).
Um conceito sobre a continuidade da individualidade do ser, muito
similar ao processo discutido aqui, existe no Budismo. Steven 1982
e Harvey 2004 discutem em detalhe a ideia budista de anatta –
a (não) + Atta (entidade eterna e imutável) –
analisando como a continuidade da individualidade do ser ocorre por
meio de um processo dinâmico envolvendo consciência (espírito)
e forma (matéria), sem o suporte de uma substância eterna
e imutável (chamada na filosofia oriental de atta ou atma).
7. O ESPÍRITO
É importa frisar aqui que diferentes
palavras, como espírito, mente, alma, psique, self, etc são
utilizadas em contextos e campos distintos do saber para expressar
ideias específicas sobre a essência do ser humano ou
da sede de seus pensamentos, emoções e senso de identidade.
Seguindo a mesma convenção de Allan Kardec (KARDEC 1982),
utilizamos a palavra espírito para designar o princípio
inteligente do Universo, que em interação com o princípio
material, forma os seres vivos. Neste contexto, inteligência,
mente, psique, self são propriedades, características
ou funções que surgem a partir dessa interação.
Por esta mesma convenção, empregamos a mesma palavra,
“Espírito”, com a letra inicial maiúscula,
para designar o princípio inteligente que atingiu o nível
de consciência de si mesmo e de seus atos, que caracteriza os
seres humanos. A palavra alma, quando usada, será empregada
com o mesmo sentido de Espírito encarnado.
8. REENCARNAÇÃO E DESENCARNAÇÃO
A reencarnação e a desencarnação
são processos complexos de transformações no
corpo físico e no períspirito que criam ou desfazem
os laços entre eles (Xavier(Médium) and Luiz 1997).
O processo de transformação na desencarnação
pode ser analisado principalmente nos trechos de estudos casos de
desencarnação relatados nas obras de André Luiz
(Nobre 2000).
Durante a gravidez, o períspirito funciona como um campo organizador
biológico sobre o qual a multiplicação das células
se dá e que permite que as informações codificadas
no DNA se desenvolvam corretamente na formação dos tecidos
e órgãos. Ao longo da vida, é ainda o molde que
comanda a substituição e regeneração das
células, bem como o intermediário entre o estado do
espírito e o estado do corpo, permitindo que um aja sobre o
outro.
Andrade 1984 trata em detalhes o papel do modelo organizador biológico
na formação do corpo físico. Em Xavier (Médium)
e Luiz 1997 esse papel pode ser observado na descrição
do processo de reencarnação. Em Pereira 2009 são
mostradas situações de reencarnação onde
o períspirito está em desequilíbrio e as consequências
resultantes.
9. AGENTE DO FENÔMENO ESPÍRITA
A experiência mostra que o Espírito,
que continua a existir como ser vivo após o desligamento do
corpo físico, consegue, por meio do seu períspirito,
interagir com os seres que permanecem encarnados e, por meio dessa
interação, é o agente causador dos fenômenos
espíritas.
Não há, portanto, nada de sobrenatural ou miraculoso
por detrás dos fenômenos espíritas. São
parte da natureza de um Universo que ainda estamos começando
a entender e que podem ser investigados cientificamente como quaisquer
outros.
Apenas, por se tratar de uma ordem
de fenômenos que envolvem além da matéria, também
o Espírito, devem ser abordados com paradigma, teorias e métodos
apropriados.
Andrade, H. G. (1984). Espírito,
Perispírito e Alma. São Paulo, Editora Pensamento.
Andrade, H. G. (1988). Reencarnação
no Brasil. Matão, Casa Editora O Clarim
Bernardo, C. A. I. (2021, 26/11/2021).
“Empecilho para o Estudo dos Fenômenos Espíritas
(Malhelpo por la Studo de Spiritaj Fenomenoj).” https://www.geae.net.br/publicacoes/artigos-gerais/1228-empecilho.
Capra, F. (1988). The TAO of physics.
New Yok, Bantam Books.
Capra, F. ; P. L. Luisi (2014). A visão
sistêmica da vida. São Paulo, Cultrix.
Charon, J. E. (1990). O espírito,
este desconhecido. São Paulo, Melhoramentos.
Delanne, G. (1995). A Evolução
Anímica. Rio de Janeiro, FEB
Einstein, A. ; L. Infeld (1980). A evolução
da física. Rio de Janeiro, Zahar Editores.
Harvey, P. (2004). The selfless mind.
London, RoutledgeCurzon.
Kardec, A. (1982). O livro dos espíritos.
São Paulo, Edicel.
Kardec, A. (2008). O livro dos médiuns.
Brasília, FEB.
Nobre, M. (2000). Nossa vida no além.
São Paulo, Editora FE.
Pereira, Y. A. C. C. B. E. (2009). Memórias
de um suicída. Rio de Janeiro, FEB.
Rovelli, C. (2021). Helgoland. New York,
Riverhead Books.
Steven, C. (1982). Selfless persons. Cambridge,
Cambridge University Press.
Xavier(Médium), F. C. ; André
Luiz(Espírito) (1997). Missionários da luz. Rio de Janeiro,
FEB.