Espiritualidade e Sociedade





Alberto Pereira dos Santos

>   Geopolítica das igrejas e anarquia religiosa no Brasil. Por uma geoética de apoio mútuo

Artigos, teses e publicações

Alberto Pereira dos Santos
>   Geopolítica das igrejas e anarquia religiosa no Brasil. Por uma geoética de apoio mútuo

 

 

Tese apresentada ao Programa de
Pós-graduação em Geografia Humana, do
Departamento de Geografia, da Faculdade
de Filosofia Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo, para obtenção
do título de Doutor em Geografia Humana.

 

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RESUMO

 

Esta tese tem como objetivo analisar, de um lado, as relações entre geopolítica e igrejas e, de outro, as relações entre o termo grego anarquia e o crescimento da população crente sem religião no território brasileiro. A palavra igreja é utilizada de modo amplo e genérico (igreja, templo, centro espírita, etc), isto é, toda e qualquer instituição que se constitui como estrutura de poder religioso.

A pesquisa identifica principalmente as geopolíticas das igrejas católica e evangélicas, as rivalidades de poderes e influências políticas no território brasileiro que ocorrem através de diversos meios, estratégias ou ações das igrejas, como nas eleições de deputados federais e até de presidente da República como aconteceu em 2010, inclusive com a disputa através dos meios de comunicação, especialmente a televisão e o rádio e no espaço virtual. Revela-se também um processo histórico-cultural de anarquia religiosa, que se dá, por um lado, com o crescimento do contingente de população religiosa sem religião e, por outro, com a existência de populações religiosas não praticantes, católica e evangélica, bem como as desobediências às normas, às doutrinas e às autoridades religiosas. Esse fenômeno está disperso em todo o território brasileiro, abrangendo pessoas de todos os níveis intelectuais, faixas etárias e de todas as classes sociais.

Como compreender esta complexa metamorfose do espaço das populações religiosas e das igrejas no Brasil? Essa é a questão central desta tese, cuja análise se fundamenta numa geografia crítica pluralista que dialoga com o pensamento de geógrafos anarquistas, críticos pós-modernos e com a teoria da complexidade, propondo-se ao final deste trabalho uma reflexão sobre geoética.

 

TRECHOS

(...)

Na geografia do cotidiano brasileiro, no movimento pendular, no ir e vir de casa ao trabalho, qualquer cidadão pode constatar que as igrejas ocupam cada vez mais território, seja uma simples igreja no espaço da garagem de uma casa na periferia ou um luxuoso templo religioso no centro da cidade ou em áreas nobres. A religião, portanto, também contribui para (re)construir o espaço geográfico.

Nesse sentido, uma leitura da geografia sobre as religiões torna-se necessária na medida em que não poderemos compreender a totalidade e a complexidade do mundo em que vivemos sem analisarmos, também, o significado e a territorialidade das religiões, uma vez que ela é parte integrante da sociedade e do espaço geográfico.

(...)

Nas décadas de 1950/60 sociólogos da religião elaboraram a teoria da secularização, cuja idéia central era que a modernidade (progresso da ciência e da tecnologia) eliminaria a religião da sociedade, uma vez que a separação entre Estado e Igreja reduziu drasticamente a influência da religião na vida pública. Nesse sentido, a civilização ocidental que já estava diante do desencantamento do mundo passou a ser cada vez mais secularizada, laica, profana, não-religiosa (cf.PIERUCCI, 2003).

Peter Berger, professor de sociologia da religião na Universidade de Boston, foi um dos sociólogos da teoria da secularização. Contudo, passadas algumas décadas, este sociólogo norte-americano publicou, em 1999, a obra “A Dessecularização do Mundo” cuja ideia central é que a teoria da secularização era essencialmente falsa ou equivocada. Ou seja, Berger tenta corrigir a teoria da secularização com uma “nova” ideia, a teoria da dessecularização. Agora, segundo ele, o mundo é essencialmente religioso (BERGER, 2001).

O presente trabalho traz uma abordagem de cunho científico e geográfico, levando-se em conta o processo histórico das religiões no território brasileiro e seus aspectos sociológicos e antropológicos. Nesse sentido, pretende contribuir para que se compreenda a dinâmica das religiões na sociedade brasileira e no seu espaço. No primeiro capítulo, intitulado “Um olhar geopolítico sobre as religiões: o método” se discute as bases metodológicas desta pesquisa, bem como explicitaremos as proposições para o que estamos sugerindo como sinais de um processo de “anarquia religiosa no Brasil”. Também se apresentará sucintamente os fundamentos teóricos do pensamento geográfico para a construção da análise sobre geografia política das igrejas e das populações religiosas e sua importância, enquanto olhar geopolítico para a compreensão da dimensão política das igrejas e religiões no território brasileiro.

No segundo capítulo, “A Complexidade do Espaço das Religiões”, se discute a dinâmica, a formação e a pluralidade religiosa no Brasil. No cotidiano existe o senso comum que afirma “religião não se discute”. Mas essa afirmação não seria uma forma de escamotear os preconceitos religiosos? Não querer dialogar sobre as diversidades religiosas não seria um subterfúgio para negar ou se contrapor a um processo de construção da tolerância religiosa?

A diversidade religiosa brasileira é aprofundada no terceiro capítulo, “Geopolítica e Religião no Brasil”, onde explicitaremos as relações entre religião e poder, bem como os aspectos políticos das igrejas no território nacional.

Como entender o crescimento da população sem religião no Brasil? Aqui se abre a reflexão acerca do processo de metamorfose no território das religiões no país, na medida em que as populações religiosas (católicos, evangélicos, etc) – não somente os sem religião – se afastam das normas das igrejas e não obedecem as ordens das autoridades dessas instituições. Isso se constitui no que aqui se denomina anarquia religiosa. Na aparente desordem e na contramão das geopolíticas das igrejas, contata-se esse processo de anarquia religiosa que possibilita a ampliação do diálogo e da tolerância entre as pessoas das múltiplas crenças. Mais que isso, o processo de anarquia religiosa parece se configurar como a instituição imaginária do novo, de uma pacífica (r)evolução social: a emancipação espiritual do povo brasileiro.

E, no último capítulo, analisaremos as relações entre a Ciência, a Religião e a Política com ênfase na sociedade brasileira. Com o avanço da ciência, da invenção da clonagem de animais e de órgãos humanos, estaria o homem brincando de Deus? Haverá lugar para as religiões nesse contexto? Nesse último capítulo, “Por uma Geoética do Apoio Mútuo” refletiremos e defenderemos os argumentos acerca da importância da tolerância religiosa e enfatizaremos sua necessidade para conter – ou pelo menos amenizar – as “guerras antas”, os conflitos religiosos e, sobretudo, para o aperfeiçoamento da democracia e do diálogo como um dos meios de construção da utopia da sociedade na qual convivam seres humanos mais solidários, éticos e verdadeiramente democráticos.

É importante deixar claro que não se teve a menor pretensão de entrar no campo específico da fé, do foro íntimo. Esse campo, a nosso ver, é inviolável e, aliás, cada cidadão tem a liberdade de consciência garantida pela Constituição Federal Brasileira. Nesse sentido, o objeto de análise deste trabalho não é a (sentimento íntimo do ser humano), mas sim a igreja (estrutura de poder religioso, político e econômico) materializada no território e que exerce influência pública (cultural, política e econômica) na sociedade.

A proposta desta tese consiste em demonstrar a evidência ou realidade da geograficidade das religiões no Brasil. Nesse sentido, analisaremos os dados populacionais do IBGE, os aspectos culturais e principalmente políticos relacionados ao fenômeno religioso no território brasileiro, daí as relações entre Geopolítica e Religião.

 

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SANTOS, Alberto Pereira dos. Geopolítica das igrejas e anarquia religiosa no Brasil. Por uma geoética de apoio mútuo. 2011. Tese (Doutorado em Geografia Humana) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011. doi: 10.11606/T.8.2011.tde-13012012-092001.

Orientador: José William Vesentini

 

Fonte: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8136/tde-13012012-092001/pt-br.php

 

 

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