Esta tese tem como objetivo analisar, de um lado,
as relações entre geopolítica e igrejas
e, de outro, as relações entre o termo grego anarquia
e o crescimento da população crente sem religião
no território brasileiro. A palavra igreja é utilizada
de modo amplo e genérico (igreja, templo, centro espírita,
etc), isto é, toda e qualquer instituição que
se constitui como estrutura de poder religioso.
A pesquisa identifica principalmente as geopolíticas
das igrejas católica e evangélicas, as rivalidades de
poderes e influências políticas no território
brasileiro que ocorrem através de diversos meios, estratégias
ou ações das igrejas, como nas eleições
de deputados federais e até de presidente da República
como aconteceu em 2010, inclusive com a disputa através dos
meios de comunicação, especialmente a televisão
e o rádio e no espaço virtual. Revela-se também
um processo histórico-cultural de anarquia religiosa,
que se dá, por um lado, com o crescimento do contingente de
população religiosa sem religião e,
por outro, com a existência de populações religiosas
não praticantes, católica e evangélica,
bem como as desobediências às normas, às doutrinas
e às autoridades religiosas. Esse fenômeno está
disperso em todo o território brasileiro, abrangendo pessoas
de todos os níveis intelectuais, faixas etárias e de
todas as classes sociais.
Como compreender esta complexa metamorfose do espaço
das populações religiosas e das igrejas no Brasil? Essa
é a questão central desta tese, cuja análise
se fundamenta numa geografia crítica pluralista que dialoga
com o pensamento de geógrafos anarquistas, críticos
pós-modernos e com a teoria da complexidade, propondo-se ao
final deste trabalho uma reflexão sobre geoética.
TRECHOS
(...)
Na geografia do cotidiano brasileiro, no movimento pendular, no ir
e vir de casa ao trabalho, qualquer cidadão pode constatar
que as igrejas ocupam cada vez mais território, seja uma simples
igreja no espaço da garagem de uma casa na periferia ou um
luxuoso templo religioso no centro da cidade ou em áreas nobres.
A religião, portanto, também contribui para (re)construir
o espaço geográfico.
Nesse sentido, uma leitura da geografia sobre as religiões
torna-se necessária na medida em que não poderemos compreender
a totalidade e a complexidade do mundo em que vivemos sem analisarmos,
também, o significado e a territorialidade das religiões,
uma vez que ela é parte integrante da sociedade e do espaço
geográfico.
(...)
Nas décadas de 1950/60 sociólogos da
religião elaboraram a teoria da secularização,
cuja idéia central era que a modernidade (progresso da ciência
e da tecnologia) eliminaria a religião da sociedade, uma vez
que a separação entre Estado e Igreja reduziu drasticamente
a influência da religião na vida pública. Nesse
sentido, a civilização ocidental que já estava
diante do desencantamento do mundo passou a ser cada vez mais secularizada,
laica, profana, não-religiosa (cf.PIERUCCI, 2003).
Peter Berger, professor de sociologia da religião na Universidade
de Boston, foi um dos sociólogos da teoria da secularização.
Contudo, passadas algumas décadas, este sociólogo norte-americano
publicou, em 1999, a obra “A Dessecularização
do Mundo” cuja ideia central é que a teoria da secularização
era essencialmente falsa ou equivocada. Ou seja, Berger tenta corrigir
a teoria da secularização com uma “nova”
ideia, a teoria da dessecularização. Agora, segundo
ele, o mundo é essencialmente religioso (BERGER, 2001).
O presente trabalho traz uma abordagem de cunho científico
e geográfico, levando-se em conta o processo histórico
das religiões no território brasileiro e seus aspectos
sociológicos e antropológicos. Nesse sentido, pretende
contribuir para que se compreenda a dinâmica das religiões
na sociedade brasileira e no seu espaço. No primeiro capítulo,
intitulado “Um olhar geopolítico sobre as religiões:
o método” se discute as bases metodológicas
desta pesquisa, bem como explicitaremos as proposições
para o que estamos sugerindo como sinais de um processo de “anarquia
religiosa no Brasil”. Também se apresentará sucintamente
os fundamentos teóricos do pensamento geográfico para
a construção da análise sobre geografia política
das igrejas e das populações religiosas e sua importância,
enquanto olhar geopolítico para a compreensão da dimensão
política das igrejas e religiões no território
brasileiro.
No segundo capítulo, “A Complexidade do Espaço
das Religiões”, se discute a dinâmica,
a formação e a pluralidade religiosa no Brasil. No cotidiano
existe o senso comum que afirma “religião não
se discute”. Mas essa afirmação não seria
uma forma de escamotear os preconceitos religiosos? Não querer
dialogar sobre as diversidades religiosas não seria um subterfúgio
para negar ou se contrapor a um processo de construção
da tolerância religiosa?
A diversidade religiosa brasileira é aprofundada no terceiro
capítulo, “Geopolítica e Religião
no Brasil”, onde explicitaremos as relações
entre religião e poder, bem como os aspectos políticos
das igrejas no território nacional.
Como entender o crescimento da população sem religião
no Brasil? Aqui se abre a reflexão acerca do processo de metamorfose
no território das religiões no país, na medida
em que as populações religiosas (católicos, evangélicos,
etc) – não somente os sem religião – se
afastam das normas das igrejas e não obedecem as ordens das
autoridades dessas instituições. Isso se constitui no
que aqui se denomina anarquia religiosa. Na aparente desordem e na
contramão das geopolíticas das igrejas, contata-se esse
processo de anarquia religiosa que possibilita a ampliação
do diálogo e da tolerância entre as pessoas das múltiplas
crenças. Mais que isso, o processo de anarquia religiosa parece
se configurar como a instituição imaginária do
novo, de uma pacífica (r)evolução social: a emancipação
espiritual do povo brasileiro.
E, no último capítulo, analisaremos as relações
entre a Ciência, a Religião e a Política com ênfase
na sociedade brasileira. Com o avanço da ciência, da
invenção da clonagem de animais e de órgãos
humanos, estaria o homem brincando de Deus? Haverá lugar para
as religiões nesse contexto? Nesse último capítulo,
“Por uma Geoética do Apoio Mútuo”
refletiremos e defenderemos os argumentos acerca da importância
da tolerância religiosa e enfatizaremos sua necessidade para
conter – ou pelo menos amenizar – as “guerras antas”,
os conflitos religiosos e, sobretudo, para o aperfeiçoamento
da democracia e do diálogo como um dos meios de construção
da utopia da sociedade na qual convivam seres humanos mais solidários,
éticos e verdadeiramente democráticos.
É importante deixar claro que não se teve a menor pretensão
de entrar no campo específico da fé, do foro íntimo.
Esse campo, a nosso ver, é inviolável e, aliás,
cada cidadão tem a liberdade de consciência garantida
pela Constituição Federal Brasileira. Nesse sentido,
o objeto de análise deste trabalho não é a fé
(sentimento íntimo do ser humano), mas sim a igreja (estrutura
de poder religioso, político e econômico) materializada
no território e que exerce influência pública
(cultural, política e econômica) na sociedade.
A proposta desta tese consiste em demonstrar a evidência ou
realidade da geograficidade das religiões no Brasil. Nesse
sentido, analisaremos os dados populacionais do IBGE, os aspectos
culturais e principalmente políticos relacionados ao fenômeno
religioso no território brasileiro, daí as relações
entre Geopolítica e Religião.
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SANTOS, Alberto Pereira dos. Geopolítica das
igrejas e anarquia religiosa no Brasil. Por uma geoética de apoio
mútuo. 2011. Tese (Doutorado em Geografia Humana) - Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São
Paulo, São Paulo, 2011. doi: 10.11606/T.8.2011.tde-13012012-092001.
Orientador: José William Vesentini