Em entrevista dada pouco antes de morrer,
Vittorio Gassman (1922/2000) afirmou que a vida tinha de ser duas: uma
para ensaiar e outra para viver. É que nem sempre se tem tempo
de colocar em prática muitas das coisas aprendidas na vida, tão
curta ela é. Se depois do ensaio, a gente pudesse ter uma outra
existência, esta pra valer mesmo, por certo ela seria bem mais
fascinante e produtiva.
Não consta que o ator e diretor italiano tenha se preocupado
com a questão teórica de se a vida é única
ou se são muitas as existências da alma humana. Mas, ao
expressar seu desejo de uma vida-ensaio e de outra para concretizar
o que antes se ensaiou, Gassman aponta para uma angústia que
é de todos nós e que envolve a busca do verdadeiro sentido
da vida humana.
O significado da vida, mesmo que a maioria das pessoas não passe
se questionando a respeito disso, preocupadas que estão com as
exigências do aqui e agora, está intimamente ligado à
velha questão do destino do que chamamos alma. Sobre o tema,
em breve síntese, podemos identificar três alternativas:
Alternativa "a": é a que decorre da interpretação
materialista do universo. A alma, nesse caso, é, ela mesma, um
produto da matéria. Foi esta que gerou a consciência, que
movimentou a história, que produziu a cultura. Os chamados valores
espirituais do homem outra coisa não são que o resultado
final da lenta evolução da matéria. O universo
é, em última e definitiva interpretação,
matéria. A consciência dela depende e sem ela não
sobrevive.
A alternativa "b", ligada a crenças que forjaram nossa
cultura, admite duas substâncias fundamentais: o espírito
e a matéria. Ambas criações divinas. A primeira
imperecível. A segunda instrumento indispensável à
vida na Terra. Finda, aqui, a jornada da alma que com o corpo fora criada,
a matéria se extingue. Mas a alma ou espírito, sede da
consciência, parte em busca do que a fé denomina sobrenatural.
Nessa dimensão, a alma estará sujeita, alternativamente,
a duas sortes distintas: a primeira, reservada aos justos, será
de bem-aventurança; a segunda, castigo dos maus, é a do
eterno sofrimento. Em nenhuma das duas hipóteses há lugar
para uma ou mais chances de retorno à vida material para emendar
erros ou retificar caminho.
A alternativa "c" vê o espírito como o princípio
inteligente do universo.. A consciência, aí, é a
realidade fundamental. Forjado a partir do lento processo evolutivo,
o princípio inteligente atinge a condição hominal
no momento em que é iluminado pela razão. Embora imaterial
sua natureza essencial, a consciência ou espírito depende
da matéria para impulsionar-lhe a evolução. Valendo-se
dela para sua vida de relação, transmigra pelos diversos
estágios da substância energético/material, presente
nos diferenciados mundos que compõem o universo. A Terra é
apenas um dos mundos em que a alma experencia a vida, aperfeiçoando-a
e apreendendo-lhe com melhor precisão o verdadeiro sentido, na
medida em que avança em conhecimento e moralidade. Sede adequada
a um longo estágio do processo evolutivo da alma, a Terra é,
desta forma, sua casa planetária por sucessivas existências.
Um olhar assim sobre o fenômeno da vida desconsidera o sobrenatural.
A natureza e suas leis soberanas, emanadas de uma suprema inteligência,
tudo regulam, de forma natural e harmônica.
Das três alternativas, a última, malgrado sofrendo o preconceito
das ciências, ainda submetidas a um paradigma materialista (alternativa
"a"), e dos dogmas da religião (alternativa "b"),
pouco a pouco, se firma como a de mais crescente aceitação
entre nós. Não por outra razão, recente pesquisa
de opinião do Datafolha, sobre as crenças dos brasileiros,
apontou que só 3% deles se declaram ateus e materialistas. Mesmo
assim, o maior contingente (2% do universo pesquisado) diz não
descrer, mas apenas duvidar da existência dessa consciência
suprema, da qual emanam todas as consciências, e que chamamos
Deus. Restou o mirrado percentual de 1% para a posição
convictamente materialista do universo. Mais, e aí o dado definitivo
a confirmar a tendência à terceira alternativa: nada menos
de 44% dos declaradamente católicos (grupo majoritário
teoricamente situado na alternativa "b") declararam crer na
tese da reencarnação do espírito.
Ampliando o sonho de Vittorio Gassman, a vida, assim concebida, seria
bem mais que um ensaio para uma única representação.
Seus personagens são os verdadeiros artífices de uma realidade
universal, fundada nos valores do espírito, em permanente busca
do bem e do belo.
Milton Rubens Medran Moreira Ex-presidente
da CEPA (2000/2008) *Procurador de Justiça aposentado e jornalista
Fonte: http://aeradoespirito.sites.uol.com.br/
/ http://www.searadospobres.com.br/variasvidas.htm
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