(...)
LAKATOS E OS PROGRAMAS DE PESQUISA CIENTÍFICA
Contrariando Popper, Lakatos defendeu a idéia de que “são
exatamente as teorias científicas mais admiradas que simplesmente
falham em proibir qualquer estado observável de coisas”,
ou seja, as teorias científicas seriam irrefutáveis.
Portanto o critério de refutabilidade seria no mínimo
insuficiente para determinar a cientificidade de uma teoria.
Lakatos afirma que um programa de pesquisa científica deve
ter um núcleo principal rígido com os princípios
da teoria, e um cinturão de hipóteses protetoras
que podem sofrer adaptações/ no decorrer do desenvolvimento
da ciência. Esse conjunto de preposições devem
ser coerentes entre si e devem poder prever fatos novos, além
de apresentar desenvolvimentos significativos no programa de pesquisa
e em suas teorias.
O núcleo rígido (hard core) de um programa e aquilo
que essencialmente o identifica e caracteriza, constituindo-se
de uma ou mais hipóteses teóricas. Eis alguns exemplos.
O núcleo rígido da cosmologia aristotélica
inclui, entre outras, as hipóteses da finitude e esfericidade
do Universo, a impossibilidade do vazio, os movimentos naturais,
a incorruptibilidade dos céus.
O núcleo da astronomia copernicaniana consiste das assunções
de que a Terra gira sobre si mesma em um dia e em torno do Sol
em um ano, e de que os demais planetas também orbitam o
Sol. O da mecânica newtoniana é formado das três
leis dinâmicas e da lei da gravitação universal.
O da teoria especial da relatividade, o principio da relatividade
e a constância da velocidade da luz; o da teoria da evolução
de Darwin-Wallace, o mecanismo da seleção natural.
Por "uma decisão metodológica de seus protagonistas"
(Lakatos 1970, p. 133), o núcleo rígido de um programa
de pesquisa é "decretado" não-refutável.
Possíveis discrepâncias com os resultados empíricos
são eliminadas pela modificação das hipóteses
do cinturão protetor.
Como podemos notar da citação acima, os modernos
conceitos de ciência, mais realistas, deixam transparecer
o caráter claramente humano da ciência, que passa
a ser então vista como um fruto das convicções
de um grupo social (que "decreta" que o núcleo
rígido de seu programa de pesquisa é não-refutável),
com todo o seu conteúdo de crenças e descrenças
e, portanto, de subjetivismo. Enfim, assume-se claramente a realidade
de que não existe um método 100% "objetivo
e seguro" de se fazer ciência.