"Com exceção das
denominações que priorizam o evangelismo de massas
e realizam cultos em grandes catedrais (...), as igrejas pentecostais
tendem a formar comunidades religiosas relativamente estáveis
e pequenas. Isto é, elas são compostas por congregações
e pequenos templos em que todos se conhecem, residem no mesmo bairro
e compartilham coletivamente crenças, saberes, práticas,
emoções, valores, os mesmos modos e estilos de vida,
moralidade e posição de classe. (...) São laços
gerados por meio do contato pessoal, de relações face
a face, estabelecidas em frequentes e sistemáticas reuniões
coletivas realizadas semanalmente, ano após ano. Eles tendem,
assim, a formar relações fraternais de amizade, de
confiança mútua e também de solidariedade com
os ‘irmãos necessitados’". A definição
é do sociólogo Ricardo Mariano. Na entrevista que
concedeu, por e-mail, à IHU On-Line, ele entende que "depois
de um século de presença no país, o pentecostalismo
prossegue crescendo majoritariamente na base da pirâmide social,
isto é, na pobreza". Na sua visão, o baixo prestígio
social do pentecostalismo deriva "de seu relativo sectarismo
e de sua crença na posse exclusiva do monopólio dos
bens de salvação ou da verdade divina. Modos de ser
e de pensar que se chocam com traços básicos da modernidade".
Ricardo Mariano é graduado
em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo,
onde também realizou o mestrado e doutorado em Sociologia.
Hoje, é professor na PUCRS. Entre suas obras citamos Neopentecostais:
Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (São Paulo:
Edições Loyola, 2005).
Confira a entrevista
IHU On-Line - Quais as principais transformações
que o pentecostalismo promoveu no cenário religioso e social
brasileiro?
Ricardo Mariano
- Ao longo dos últimos cem anos, a expansão pentecostal
no país contribuiu para transformar o campo religioso brasileiro,
para consolidar o pluralismo religioso e para constituir um mercado
religioso competitivo no país. O avanço pentecostal
no Brasil contribuiu para intensificar o declínio numérico
da Igreja Católica e da Umbanda e para "pentecostalizar"
parte do protestantismo histórico e do próprio catolicismo.
O chamado "avanço das seitas" pentecostais, nos termos
do papa João Paulo II, e a formação do pluralismo
religioso levaram a religião hegemônica a rever sua prédica
e suas estratégias institucionais e a reavaliar sua relação
com as demais religiões presentes em solo nacional, em detrimento
do ecumenismo. O crescente evangelismo eletrônico pentecostal
tem tido significativo impacto no mercado de comunicação
de massa, sobretudo em função das iniciativas empresariais
nessa área por parte da Igreja Universal e, em menor grau,
da Internacional da Graça de Deus e da Renascer em Cristo,
entre outras. Sua atuação tem se ampliado igualmente
nos mercados editorial e fonográfico. O ativismo pentecostal
na política partidária, por sua vez, tornou-se um elemento
constitutivo da democracia brasileira nas últimas três
décadas. A cada eleição, seus líderes
pastorais, com raras exceções, procuram transformar
seus rebanhos religiosos em rebanhos eleitorais, visando ampliar seu
poder político, defender valores cristãos tradicionalistas
e seus interesses institucionais na esfera pública stricto
sensu. Tratam, portanto, de instrumentalizar a política partidária,
justificando o ativismo político como recurso para defender
suas bandeiras religiosas e corporativas. Por consequência,
a cada eleição, esses religiosos se veem mais e mais
instrumentalizados eleitoralmente por partidos e candidatos de todas
as colorações ideológicas. Suas miríades
de templos e pequenas congregações passaram a integrar
o cenário urbano das cidades brasileiras, sobretudo de suas
periferias.
IHU On-Line - Quais os maiores limites
e desafios do pentecostalismo hoje, cem anos após seu surgimento
no país?
Ricardo Mariano - Depois de um século
de presença no país, o pentecostalismo prossegue crescendo
majoritariamente na base da pirâmide social, isto é,
na pobreza. Embora contenha um contingente de classe média,
recruta a maioria de seus adeptos entre os pobres das periferias urbanas.
Um de seus principais desafios, portanto, consiste em tornar-se atraente
para as classes médias e mais escolarizadas. Nesse terreno,
porém, enfrenta uma série de adversários religiosos
mais bem-sucedidos, uma vez que as preferências religiosas das
classes médias recaem sobre o catolicismo, o kardecismo, o
protestantismo histórico, o esoterismo, entre outras. Sua estreita
base social circunscrita às classes populares faz com que o
pentecostalismo, não obstante sua vertiginosa expansão
numérica e seu crescente poder político e midiático,
mantenha-se numa posição claramente subordinada no campo
religioso brasileiro. Seu baixo prestígio social deriva igualmente
de seu relativo sectarismo e de sua crença na posse exclusiva
do monopólio dos bens de salvação ou da verdade
divina. Modos de ser e de pensar que se chocam com traços básicos
da modernidade.
IHU On-Line - Qual é a igreja
que melhor representa hoje a proposta pentecostal?
Ricardo Mariano - O pentecostalismo
é um movimento religioso muito diversificado internamente,
marcado por grande pluralidade teológica, litúrgica,
estética, organizacional (modelos de governo eclesiástico
distintos) e comportamental. Pode-se afirmar que há, na verdade,
múltiplos pentecostalismos. Portanto, não há
uma igreja representativa de seu conjunto. Por outro lado, em termos
de sua amplitude demográfica, a Assembleia de Deus ocupa uma
posição privilegiada, uma vez que concentrava 47,5%
dos pentecostais brasileiros em 2000, segundo os dados do Censo Demográfico
do IBGE. Mas, dividida em duas grandes convenções nacionais,
a Assembleia de Deus apresenta grande variação interna
nos planos doutrinário, eclesiástico, dos usos e costumes,
da relação com os meios de comunicação
de massa e com a política partidária. Isso se deve,
em parte, à sua ampla distribuição geográfica
pelo país, à sua composição em diferentes
ministérios dotados de relativa autonomia e às idiossincrasias
de suas lideranças pastorais locais. Em suma, a própria
Assembleia de Deus contém enorme diversidade interna, variando
dos que se mantêm apegados aos velhos usos e costumes de santidade
pentecostal e se opõem à instrumentalização
política da igreja e dos fiéis aos novos defensores
da Teologia da Prosperidade, e daí por diante.
IHU On-Line - Como a Igreja Universal do Reino de
Deus se posiciona em relação ao pentecostalismo?
Ricardo Mariano
- Publicamente, os dirigentes da Universal classificam sua igreja
como uma denominação neopentecostal e enfatizam que
ela prega a Teologia da Prosperidade. Reconhecem, portanto, que a
Universal faz parte de uma determinada vertente pentecostal no país.
De modo geral, eles mantêm uma relação estritamente
concorrencial com as demais igrejas pentecostais. E criticam abertamente
as concorrentes por pregarem um "Evangelho água com açúcar".
O principal episódio de aproximação deliberada
por parte da cúpula da Universal com igrejas e líderes
pentecostais ocorreu imediatamente após a prisão de
Edir Macedo, em 1992. Temendo punições maiores por parte
da Justiça, a liderança da Universal e da Rede Record
abriu espaço da programação de sua tevê
para os pastores e televangelistas assembleianos Silas Malafaia e
Jabes de Alencar. E, em 1993, participou da criação
do Conselho Nacional de Pastores do Brasil (CNPB), comandado pelo
bispo Manoel Ferreira, líder da Convenção Nacional
das Assembleias de Deus no Brasil, que também ganhou um programa
de tevê na Record. Tal aproximação foi curta e,
de lado a lado, fortemente instrumental. Desde então, da parte
da Igreja Universal tende a prevalecer uma relação de
caráter concorrencial com as outras igrejas evangélicas.
IHU On-Line - Como a realidade social
brasileira contribui para o Brasil ter se tornado o maior país
pentecostal do mundo?
Ricardo Mariano
- Vários fenômenos têm contribuído, em maior
ou menor medida, para o crescimento pentecostal desde meados do século
passado. No plano jurídico, a separação entre
Estado e igreja e a garantia de liberdade religiosa permitiram a inserção
e criação de novos grupos religiosos no país,
bem como sua expansão e legitimação. O que, por
sua vez, possibilitou a formação e consolidação
do pluralismo e de um mercado religioso. Nos planos social e econômico,
a enorme desigualdade social, a explosão da violência
e da criminalidade urbana, as altas taxas de pobreza, a elevada proporção
de lares monoparentais, chefiados por mulheres pobres, a precariedade
da situação de grande parte dos trabalhadores no mercado
de trabalho, sobretudo no informal, favorecem uma religião
que tende a direcionar sua missão de salvação
aos sofredores e desprivilegiados. Não é à toa
que o lema proselitista da Igreja Universal é "Pare de
sofrer: Nós temos a solução". Nos planos
cultural e religioso, a disseminada religiosidade popular, marcada
por crenças e práticas de cunho mágico e taumatúrgico
de matriz cristã, o elevado contingente de católicos
não praticantes e a relativa fragilidade institucional da Igreja
Católica, caracterizada pelo baixo número de vocações
sacerdotais e de padres, facilitam o trânsito religioso e o
trabalho evangelístico dos pentecostais. E, no campo político,
os pentecostais têm sido demandados a participar da política
partidária e influir na esfera pública por candidatos,
partidos e governantes.
IHU On-Line - Como definir as redes
de sociabilidade tecidas pelas igrejas pentecostais?
Ricardo Mariano
- Com exceção das denominações que priorizam
o evangelismo de massas e realizam cultos em grandes catedrais, que
costumeiramente contam com a presença de clientelas flutuantes,
as igrejas pentecostais tendem a formar comunidades religiosas relativamente
estáveis e pequenas. Isto é, elas são compostas
por congregações e pequenos templos em que todos se
conhecem, residem no mesmo bairro e compartilham coletivamente crenças,
saberes, práticas, emoções, valores, os mesmos
modos e estilos de vida, moralidade e posição de classe.
Portanto, não se tratam de redes de sociabilidade virtuais
(que, aliás, estão crescendo nesse meio religioso com
a expansão de redes religiosas e de relacionamento na Internet)
nem compostas por laços impessoais, típicos das organizações
burocráticas. São laços gerados por meio do contato
pessoal, de relações face a face, estabelecidas em frequentes
e sistemáticas reuniões coletivas, realizadas semanalmente
ano após ano. Eles tendem, assim, a formar relações
fraternais de amizade, de confiança mútua e também
de solidariedade com os "irmãos necessitados". Isso
não significa a ausência de conflitos interpessoais,
disputas, fofocas. Pelo contrário, a intimidade também
gera suas tiranias e problemas, que podem ser desencadeados igualmente
por decisões arbitrárias de lideranças autoritárias.
IHU On-Line - Qual a contribuição
do pentecostalismo para o diálogo entre as religiões?
Ricardo Mariano
- Até o momento, pode-se afirmar que as igrejas pentecostais
brasileiras não prestaram serviços relevantes para ampliar
o diálogo religioso para além das fronteiras de seu
movimento religioso. De modo geral, o propósito sectário
de salvar os "ímpios" ou de evangelizar as pessoas
de outras religiões em nada contribui para o diálogo
inter-religioso. Nas últimas décadas, a demonização
pentecostal dos cultos afro-brasileiros tem redundado em diversas
manifestações de intolerância religiosa pelo país
afora. Além disso, seu proselitismo provavelmente é
um dos responsáveis pela queda numérica da Umbanda desde
a década de 80, o que contribui, em alguma medida, para a diminuição
da diversidade religiosa no país.
IHU On-Line - Quais os rumos que
as igrejas pentecostais tendem a tomar nos próximos anos?
Ricardo Mariano
- Sem incorrer em futurologia, pode-se afirmar que elas tendem a se
acomodar crescentemente ao "mundo" que, retoricamente, tanto
combatem, mas mantendo sempre certa defasagem, por conta de suas inclinações
sectárias ancoradas no velho literalismo bíblico e numa
moralidade sexual cristã de caráter tradicionalista.
Tal adaptação, aliás, vem ocorrendo de forma
acelerada desde os anos 50. Evidências disso existem aos montes,
tais como a adoção proselitista dos meios de comunicação
de massa, que antes eram considerados demoníacos, o paulatino
abandono dos usos e costumes de santidade (antes biblicamente fundamentados
e, por isso, sagrados), a incorporação dos ritmos e
estilos musicais da moda, o ingresso na política partidária
(proibido atualmente por poucas igrejas), a valorização
positiva dos bens e riquezas materiais, como demonstra soberbamente
a Teologia da Prosperidade, que vem se disseminando por boa parte
do campo evangélico. O aumento da escolaridade dos fiéis
e das novas lideranças pastorais, por exemplo, tenderá
a promover modificações nas relações entre
o rebanho e seus pastores, de modo a reduzir as distâncias hierárquicas,
e a incitar cada vez mais a busca por melhor formação
teológica. Um dos caminhos prováveis que várias
igrejas pentecostais deverão percorrer é o de diminuição
do fervor missionário em favor da qualificação
pastoral e de sua prédica, mais ao gosto das classes médias,
tendendo, com isso, a assemelhar-se, um pouco, com denominações
protestantes tradicionais. Tal opção, porém,
tende a gerar cismas diversas, justificadas com o propósito
de resgatar o fervor primitivo, romper com a erudição
teológica, ou com um Evangelho de "muito saber",
mas "frio" e de "pouco poder". Cismas que são
importantes para tentar manter seu extenso recrutamento entre os mais
pobres. Por várias razões, é provável
também que seu crescimento diminua nas próximas décadas.
Por enquanto, o terreno brasileiro para sua expansão é
dos mais férteis.
Instituto Humanitas Unisinos