À medida que o ego se faz
consciente dos valores ínsitos no Self,
torna-se factível uma programação saudável
para o comportamento
“Reconhece-se o verdadeiro
espírita pela sua transformação moral e pelos
esforços que emprega para domar suas inclinações
más”. -
Allan Kardec [1]
Estudando a história dos povos,
não ficará difícil concluir que a gênese
dos instintos agressivos - à solta nos dias atuais - se mescla
à gênese do próprio homem, portanto, perde-se
na noite dos tempos!... Na frase em epígrafe, observemos que
Kardec usou o verbo “domar”. E ele estava,
(como sempre!), coberto de razão, porque para revertermos os
instintos agressivos em “atitudes educadas”,
há que se empregar ingentes esforços de autodomesticação.
E caso não venhamos a tomar a iniciativa por nós mesmos,
os mecanismos divinos passarão a agir tal como ensina Lázaro
ao nos admoestar [2]:“(...) ai
do espírito preguiçoso, ai daquele que cerra o seu entendimento!
Pois nós, que somos os guias da humanidade em marcha, lhe aplicaremos
o látego e lhe submeteremos a vontade rebelde, por meio da
dupla ação do freio e da espora”.
A psicoterapia ante os instintos
agressivos
Joanna de Ângelis [3]
leva-nos a uma viagem às abissais e ignotas profundezas do
“Self”, onde estão firmemente implantadas
as raízes dos instintos agressivos, mostrando-nos como extirpá-los.
Segundo a nobre Mentora, “uma psicoterapia eficiente libera
o paciente não só dos conflitos, mas também das
paixões primitivas, que passam a ser direcionadas com equilíbrio,
transformando os impulsos inferiores em emoções
de harmonia. As imagens arquetípicas que emergem do inconsciente
pessoal, heranças algumas dos instintos agressivos
que predominam em a natureza humana, resultantes do processo antropossociopsicológico,
tornam-se diluídas pela razão, em um trabalho de conscientização
das suas inclinações más e imediata
superação, conforme acentua Allan Kardec, o ínclito
Codificador do Espiritismo.
Essas inclinações más ou tendências
para atitudes primitivas, rebeldes, perturbadoras do equilíbrio
emocional e moral, são heranças e atavismos insculpidos
no Self, em razão da larga trajetória evolutiva,
em cujo curso experienciou o primarismo das formas ancestrais, mais
instinto que razão, caracterizadas pelos impulsos automáticos
do que pela lógica do discernimento. Impregnando o ego com
a sua carga de paixões asselvajadas, necessitam ser trabalhadas
com afinco, a fim de que abandonem os alicerces do inconsciente, no
qual se encontram, e possam ser dissolvidas, substituídas pelos
mecanismos dos sentimentos de amor, de compaixão, de solidariedade...
(...) À medida que o ego se faz consciente dos valores ínsitos
no Self, torna-se factível uma programação saudável
para o comportamento, trabalhando cada dificuldade, todo desafio,
mediante a reconciliação com a sua realidade eterna.
Os fenômenos que parecem obstar o processo de maturação
psicológica, cedem lugar aos estímulos pelas conquistas
que se operam, emulando a novas realizações edificantes
que enriquecem de alegria os relacionamentos familiares, sociais e
humanos em geral. É uma forma de o paciente desencarcerar-se
dos impulsos perniciosos, que somente contribuem para asselvajar-lhe
os sentimentos
(...) A necessidade de trabalhar as tendências primárias,
os instintos dominantes e primitivos, torna-se imprescindível
em todos os indivíduos. Todo esse patrimônio psicológico
ancestral que nele permanece, constitui-lhe patamar inicial do processo
para a aquisição da consciência, que não
pode ser violentado, sem graves prejuízos, no que diz respeito
a outras manifestações que fazem parte da realidade
dos próprios instintos. Essa batalha íntima se faz possível
graças aos estímulos que decorrem dos primeiros resultados,
quando são vencidas as etapas iniciais da luta interna que
se processa com naturalidade. Como não se podem preencher espaços
ocupados, faz-se imperioso substituir cada impulso perturbador por
um sentimento enobrecido, ampliando a área de compreensão
da vida e disputando a harmonia no cometimento da saúde.
Deixando de lado os impulsos instintivos...
Merece seja evocada, novamente aqui,
a já analisada sábia proposta de Krishna ao discípulo
Arjuna, conforme narrada no Baghavad Gita, quando o primeiro
lhe refere que, na sua condição de príncipe pândava,
terá que lutar com destemor contra os familiares do
grupo kuru, mesmo que esses sejam numericamente maiores.
Não obstante o jovem candidato à plenitude desejasse
a paz, foi tomado de temor por considerar que lhe seria impossível
combater os demais membros da sua família, gerando
uma tragédia de grande porte.
Ademais, ignorava onde seria essa batalha vigorosa. Mas o mestre,
compassivo e sábio, admoestou-o, informando que se tratava
de familiares, sim, porque procedentes da mesma raiz, mas
que os pândavas eram as virtudes enquanto os kurus
eram os vícios, nesse inter-relacionamento que se estreitava
na causalidade dos fenômenos, mas que a vitória, sem
dúvida, seria daqueles valores nobres enquanto que a luta teria
que ser travada no campo da consciência... Esse momento do despertar
da consciência para a realidade do Si, também
significa a alegria de reconhecer a necessidade de libertar-se das
paixões dissolventes, geradoras de tormentos.
Indubitavelmente, o passado programou no ser as necessidades da sua
evolução, apontando-lhe uma finalidade, um objetivo
que deve ser alcançado mediante todo o empenho da sua
inteligência e do seu discernimento. Deixando de lado os impulsos
meramente instintivos que o vêm guiando através dos milênios,
agora desperta para a razão, descobrindo a essencialidade da
vida, que nele próprio se encontra como tendência inapelável
— o seu destino — que é a harmonia, a plenitude
ambicionada... É inevitável que, durante essa trajetória,
repontem as dificuldades, hoje ameaçadoras, que fizeram parte
das conquistas pretéritas, e, no seu momento, foram os mecanismos
de sobrevivência e de vitória do ser em relação
ao meio hostil e aos semelhantes primitivos que o buscavam dizimar.
Vencendo as impressões que permanecem do ontem, o seu vir-a-ser
desenha-se atraente e enriquecedor, por propiciar-lhe metas idealistas
que irão desenvolver os sentimentos e a inteligência,
encarregados de selecionar os recursos que o podem impulsionar para
a conquista da saúde integral e do equilíbrio social”.
O que hoje se entende por inteligência
Nosso confrade psicólogo, Adenáuer
Novais, nos oferece [4] ricos subsídios
para o trabalho íntimo de erradicação dos instintos
agressivos, e o segredo está no desenvolvimento da nossa Inteligência
Emocional. Segundo Novaes, existem vários tipos de inteligência.
A partir do conteúdo da questão número vinte
e quatro de “O Livro dos Espíritos”, na
qual os Benfeitores Espirituais afirmam que “a inteligência
é um atributo essencial do Espírito”, o autor
revela que a pobreza de nossa compreensão e da linguagem não
nos permite maiores descortinos acerca da essência do Espírito,
mostrando que o mesmo acontece com o conceito da palavra “inteligência”.
Sobre a inteligência, explica Novaes [4]:
“(...) Por muito tempo se considerou a inteligência como
o atributo principal para designar o máximo da capacidade do
ser humano em face do mundo e seus desafios. A palavra resumia tudo
que se queria afirmar a respeito da capacidade de cada ser humano
no que diz respeito às suas aptidões intelectuais. Mas,
em absoluto, ela não consegue resumir todas as qualidades nem
a diversidade da natureza humana. As capacidades intelectivas humanas
não mais podem se resumir à palavra inteligência.
Ela encerra apenas o domínio lógico-matemático
e linguístico-verbal da mente humana. O Espírito, na
riqueza de sua evolução e na complexidade de suas potencialidades
tem mais do que a inteligência, como muito bem colocaram os
Espíritos na Codificação ao afirmarem que ela
é apenas um dos atributos do Espírito. Como a ciência
da época não valorizava outras formas de manifestação
das capacidades psíquicas do ser humano confundia-se o Espírito
com a inteligência. Mas hoje, após estudos e novas formas
de percepção e valorização das capacidades
humanas, podemos afirmar que a inteligência em todas as suas
manifestações é apenas um dos muitos atributos
do Espírito. O domínio das inteligências, pertencente
ao Espírito, ainda se encontra de tal forma concebido como
um caráter cerebral que não se avança na percepção
da totalidade e da realidade psíquica da pessoa. A ciência
teima em atribuir ao cérebro os potenciais que pertencem ao
Espírito, que se utiliza daquilo que sua estrutura física
possibilita manifestar.
A denominação de inteligência obedece a uma época
em que faltavam termos para se definir as capacidades do Espírito.
Talvez ainda faltem, porém é fundamental entender que
a falta não se deve à linguagem, mas ao aprisionamento
a paradigmas mecanicistas e estritamente vinculados a uma concepção
materialista e utilitarista de enxergar o ser humano. As inteligências
definidas pela ciência como capacidades intelectivas, longe
de serem meros campos de avaliação do saber, se aproximam,
embora que de forma acanhada, das faculdades do Espírito.
Poderíamos redefinir inteligência como uma aptidão
do Espírito, que resume grande número de funções
independentes, tais como: imaginação, memória,
atenção, conceituação e raciocínio,
dentre outras... Ela resulta da aprendizagem através da formação
de hábitos oriundos dos condicionamentos reflexos bem como
da livre expressão do Espírito na utilização
do seu livre-arbítrio. É uma função complexa
de adaptação ao mundo onde a consciência se torna
cada vez mais capaz de compreender, criticar e decidir sobre uma nova
situação. Inteligência é a capacidade de
ordenar, organizar e utilizar os pensamentos e emoções
em proveito próprio; é a capacidade de reunir procedimentos
adequados para fazer coisas; é a capacidade de resolver problemas
ou de criar situações que sejam valorizadas dentro de
um ou mais cenários culturais.
Desviando a concepção de inteligência como algo
ligado ao raciocínio e ao conhecimento intelectual, Gandhi
dizia que ‘‘os únicos demônios deste
mundo são os que circulam em nossos corações.
É aí que a batalha deve ser travada”. Na
mesma esteira de Gandhi, Antoine de Saint-Exupéry, em
O Pequeno Príncipe, afirma que “é
com o coração que se vê corretamente; o essencial
é invisível aos olhos”. Um e outro procuram
colocar que existe algo mais além do que a inteligência
quer significar. Há capacidades emocionais que fogem do domínio
daquilo que se conhece com o nome de inteligência”.
Conceito de Inteligência Emocional
Os famosos testes QI, em razão do amplo leque das potencialidades
humanas, se mostram inócuos, uma vez que não podem abranger
toda essa superlativa gama de potencialidades; portanto, são
ineficazes para medir a inteligência e as aptidões do
Espírito.
Segundo ainda o psicólogo Adenáuer, os testes de QI
abrangem parcialmente apenas duas inteligências: a inteligência
linguística ou verbal (do domínio da fala) e a inteligência
lógico-matemática (do cálculo, da percepção
algébrica). Mas existem outras inteligências, além
dessas duas, como por exemplo: a inteligência musical, a inteligência
corporal-cinestésica, a inteligência espacial, a inteligência
intrapessoal, a inteligência interpessoal, a inteligência
intuitiva e a Inteligência Emocional. Nesta última, está
a nossa grande aliada para a domesticação dos instintos
agressivos. Aprendamos com Adenáuer [4]
o que é, afinal, a Inteligência Emocional, que é
a capacidade de reconhecer sentimentos, e aplicá-los eficazmente
como uma energia em favor da sobrevivência, adaptação
e crescimento pessoal. É a capacidade de sentir, entender e
aplicar eficazmente o poder e a perspicácia das emoções
como uma fonte de energia, informação, conexão
e influência humanas.
Mahatma Gandhi dizia, demonstrando ter integrado seus defeitos e chegado
ao equilíbrio e à harmonia espiritual desejável
a qualquer ser humano: “sou um homem mediano com uma capacidade
menos que mediana. Admito que não sou intelectualmente brilhante.
Mas não me importo. Existe um limite para o desenvolvimento
do intelecto, mas nenhum para o do coração”.
O desenvolvimento da inteligência emocional se dá com
o aparecimento da empatia, que é a capacidade de se identificar
com o outro, sentindo o que ele sente. Isso pressupõe: compreensão,
tolerância e paciência. A Inteligência Emocional
compreende: autoconhecimento, administração de humores,
automotivação, educação do impulso e sociabilidade”.
Para melhorar a nossa Inteligência Emocional e despertar
os potenciais criativos interiores que a fortalecem, devemos, segundo
ainda o nosso confrade Adenáuer, tomar as seguintes atitudes
[4]: não nos aborrecer com coisas
pequenas; cultivar otimismo e entusiasmo, que significa ter Deus dentro
de si; cultivar a persistência objetiva; desenvolver a própria
singularidade (estilo pessoal) e a simplicidade; sempre reconhecer
os erros; saber ouvir e escutar o outro; aprender a fazer distinção
entre os atos e a pessoa que os pratica; olhar nos olhos da pessoa
com quem falar; acreditar naquilo que disser; reconhecer e sentir
a emoção, não negá-la ou minimizá-la;
cultivar a amorosidade, a humanização e a compaixão...
A Inteligência Emocional no
processo evolutivo
Para tornar realidade a nossa Inteligência
Emocional, devemos considerar que qualquer derrota é aprendizado
importante tanto quanto a vitória. Persistir em busca de alternativas
diferentes para os problemas aparentemente insolúveis, sem
se atribuir incompetência. Além dos objetivos imediatos
e mais próximos, devemos desenvolver internamente a crença
num objetivo global para a vida como um presente de Deus. Considerar
importante planejar, organizar e responsabilizar-se por tudo que ocorre
na própria vida. Aprender a guiar-se pela razão e pelos
sentimentos, buscando alternativas que conciliem essas possibilidades.
Estimular em si mesmo, no próprio caráter, os aspectos
mais puros e nobres que possui. Amar a simplicidade, as pessoas, a
si mesmo e a vida. Para tornar realidade a nossa Inteligência
Emocional, devemos considerar que qualquer derrota é aprendizado
importante tanto quanto a vitória. Persistir em busca de alternativas
diferentes para os problemas aparentemente insolúveis, sem
se atribuir incompetência. Além dos objetivos imediatos
e mais próximos, devemos desenvolver internamente a crença
num objetivo global para a vida como um presente de Deus. Considerar
importante planejar, organizar e responsabilizar-se por tudo que ocorre
na própria vida. Aprender a guiar-se pela razão e pelos
sentimentos, buscando alternativas que conciliem essas possibilidades.
Estimular em si mesmo, no próprio caráter, os aspectos
mais puros e nobres que possui. Amar a simplicidade, as pessoas, a
si mesmo e a vida.
Fundamental é desenvolver a autoestima. Para tanto não
é preciso nada de excepcional na personalidade. É suficiente
considerar-se filho de Deus e, portanto, detentor de habilidades mínimas
para o desempenho adequado na arte de viver; cultivar a segurança
física, valorizando adequadamente o corpo, não se sentindo
intimidado ou com medo da vida; ter sua crença pessoal sobre
a própria origem divina; ter a certeza de que a própria
vida tem significado e uma direção definida; buscar
não se perturbar com pequenas derrotas, consciente de que melhorará
o próprio desempenho na próxima vez; não permitir
que a própria ansiedade atrapalhe o preparo para enfrentar
novas provas; enfim, cultivar a simpatia.
(...) As emoções são reconfigurações
do Espírito. O uso da inteligência não deve se
limitar a conhecer os objetos ou mesmo servir para lhes caracterizar
com nomes ou utilidades. Ela representa aquisição superior
do Espírito e deve ser colocada a serviço do amor, sem
o qual se torna ferramenta inútil e perigosa.
A Inteligência Emocional, ou a capacidade de administrar afetos,
emoções e sentimentos, é o fator mais importante
da evolução do Espírito, em seu atual estágio
no planeta. Essa aquisição possibilitará a percepção
de leis transcendentes que o capacitarão a alcançar
limites fora do sistema solar”.
[2] - Idem, ibidem, cap. IX, item 8, § 2º.
[3] - FRANCO, Divaldo. Triunfo Pessoal. Pelo Espírito
Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2002.
[4] - NOVAES, Adenáuer. Psicologia do espírito.
Salvador: FLH, 2000, cap. “inteligência”.
Funcionário aposentado do Banco
do Brasil e formado em Jornalismo pela Faminas. Converteu-se ao Espiritismo
em 1978, marcando, desde então, sua presença em vários
periódicos espíritas. Já realizou seminários
e conferências em várias cidades brasileiras.
Participou do Congresso Espírita Mundial, em Portugal, com a
tese “III Milênio, Finalmente a Fronteira”, e no II
Congresso Espírita Espanhol, em Madri, com o trabalho “Materialistas
e Incrédulos, como abordá-los?”. Participou ainda
da fundação de várias casas espíritas na
Zona da Mata mineira.
Além de “O Tear do destino”, Rogério também
é autor de “Princípios Básicos do Espiritismo”,
“Médiuns, Mediunidades e Reuniões Mediúnicas”,
“Passes”, “Sentimentos e Conflitos”, “Ontem
e Hoje com Kardec, Sempre Atual”, “O Fenômeno Mediúnico”,
“O Lenitivo da Fé”, “Ele nos Chama”,
“Visão Espírita do Evangelho”, “Espiritismo:
Antigos Conceitos, Novo Entendimento”, “E Depois da Morte?
O Que Acontece?”, “Desvendando os Milagres” e “Notáveis
Defesas de Kardec”.