A obra de Deus é tão
vasta, tão rica, tão complexa que, não podendo
abrangê-la em nossa curta visão, costumamos acusá-la
de muitas e não raro violentas contradições.
A dialética nos oferece uma chave para a superação
dessa deficiência. Hegel mostrou-nos que as contradições
não são mais do que as fases sucessivas do desenvolvimento
dos processos criadores. Tese, antítese e síntese representam
as etapas da evolução. Através dessa dinâmica
espiritual a semente se transforma na plântula e esta afinal
se faz planta, para nos devolver a semente multiplicada. O processo
do Reino segue também esse caminho dialético, como já
vimos no caso da lei da negação da negação.
Os atalhos do Reino parecem-nos contraditórios entre si e contrários
aos caminhos do Reino. Por outro lado, parecem-nos contrários
ao Reino. Mas a verdade é que todas essas estranhas manifestações
do anseio do Reino no coração humano se entrosam num
grande sistema. Não é fácil compreendermos essa
ligação. As religiões se livram das dificuldades
apelando para o mistério dos desígnios de Deus, insondáveis
ao nosso próprio entendimento. Mas o mistério é
apenas aquilo que não compreendemos. E só não
compreendemos o que não conhecemos. Desde que penetremos a
natureza de uma coisa, por mais misteriosa que ela nos pareça,
o seu mistério desaparece.
O mistério do Reino nos mostra a sua face oculta quando conseguimos
abrangê-lo numa visão de conjunto. Deixa de ser mistério
para tornar-se a mais bela realidade. O Reino é o alvo do espírito.
Todos avançamos para ele, através das existências
sucessivas, na Terra e no espaço. Todos ansiamos por ele. Mas
nem todos estamos em condições de percebê-lo na
sua plena realidade. Uns o veem por um ângulo, outros por outros
ângulos. As visões diferem e mais ainda as interpretações,
em que a mente humana é tão fértil. Pitágoras
já dizia que a Terra é a morada da opinião. Cada
qual opina como entende e as divergências se acentuam. Há
deturpações horrendas do Reino, como há deformações
horrendas do Cristianismo. Mas em todas elas está presente
a atração do Reino, que se exerce sobre todas as almas.
O Cristo dos maometanos é um profeta que nasceu no deserto,
sob uma palmeira. O Alcorão nos dá um episódio
árabe do Natal. O Deus antropomórfico dos brâmanes
é muito diferente do Deus antropomórfico dos Católicos.
O Jeová guerreiro e intrigante da Bíblia, alcoviteiro
e partidário, é o contrário de Deus de amor do
Novo Testamento. Mas em cada uma dessas ideias de Deus, quer o entendamos
ou não, Deus está presente. E a presença de Deus
em cada uma dessas concepções é relativa à
capacidade de compreensão de determinadas etapas da evolução
humana. Mas as etapas não se sucedem por gradação
simples. É tão complexo, múltiplo e dinâmico
o processo evolutivo, que a mais elevada concepção de
Deus pode caber, em virtude de fatores diversos, numa etapa inferior,
da mesma forma que a concepção mais primitiva pode enquadrar-se
numa etapa superior.
Toda essa complexidade desnorteia os mais atilados observadores. É
preciso muitas vezes que se dê o insight, o chamado
estalo de Vieira, numa cabeça ilustrada e capaz, para
que ela perceba essa complexidade e se liberte de certos preconceitos,
de certos estereótipos mentais. Por isso brigam, não
se entendem e acabam criando partidos. O Reino de Deus é um
só e os seus caminhos correspondem precisamente aos seus princípios.
Todo caminho de violência, de acomodação, de subterfúgio,
não leva ao Reino, mas aos reinozinhos humanos, contraditórios
e mesquinhos, quando não brutais. Os atalhos sectários
e ideológicos variam de gradação na percepção
do Reino, mas todos são atalhos. Por mais generosos que sejam
nos seus princípios, os meios de que se servem são em
geral contrários aos fins. Essa a tragédia religiosa
e política em que nos perdemos.
Mas a visão de conjunto, a percepção gestáltica
do problema do Reino, nos mostra a suprema inteligência que
preside a todas essas manifestações. No final, todas
essas correntes fluem para um delta comum. E há um momento
de confluência em que as dissensões se apagam, as contradições
se fundem numa síntese superior. É no tempo que se realiza
a fusão. Por mais absurda que essa tese possa parecer, a verdade
é que os processos gerais da natureza a comprovam. Basta vermos
a sucessão de fases inferiores do embrião humano, no
seu desenvolvimento; a sucessão das fases psicológicas
do espírito humano, no processo da sua formação;
as etapas do desenvolvimento de uma dada sociedade ou da própria
Humanidade. Em todas essas fases encontramos divergências profundas,
que podem parecer-nos insolúveis, mas que os especialistas
nos mostram ligadas por uma unidade substancial, que as conduz ao
mesmo objetivo.
O mensageiro do Reino me disse, nesta tarde, ao ver-me examinar esses
problemas:
– Examine o caso de Ananias e Safira, no capítulo V do
livro de Atos. E veja depois, no mesmo capítulo, o versículo
15. Veja se é possível conciliar a contradição
aparente.
Corri ao livro de Atos e ali encontrei o tenebroso caso. Ananias e
Safira queriam entrar para o Reino. Venderam sua propriedade, que
era apenas um campo, mas só depuseram aos pés dos apóstolos
uma parte do dinheiro, escondendo outra parte. Então primeiro
Ananias entrou e foi Pedro quem o recebeu, admoestando-o imediatamente
a respeito:
– Por ventura não te era lícito ficar com todo
o dinheiro?
E Ananias, ouvindo a exprobração de Pedro, caiu morto
aos seus pés. Os jovens presentes carregaram o corpo. Três
horas depois veio Safira, que não sabia do ocorrido. Pedro
a interpelou e ela confirmou a mentira do marido. Então Pedro
respondeu com firmeza:
"Concertastes a mentira entre vós. Eis aí à
porta os que levaram há pouco o corpo do teu marido e agora
levarão o teu".
No mesmo instante Safira caiu morta e os jovens a levaram.
O versículo 15 nos diz que as virtudes dos apóstolos
eram tais que os doentes eram expostos às ruas, deitados em
leitos e enxergões, para que, ao passar por eles o apóstolo
Pedro, sua sombra os curasse. Que estranhas virtudes emanavam de Pedro!
Suas palavras matavam e sua sombra curava. A contradição
aparente está aí. Pedro mata e cura em nome do Reino.
E mata sem piedade, friamente, primeiro o marido, depois a mulher;
somente porque haviam mentido e escondido, com receio de não
dar certo a Tentativa do Reino, parte de suas economias. Não
seria mais de acordo com o amor e a justiça do Reino que Pedro
lhes devolvesse o dinheiro e lhes recusasse entrada na comunidade?
Sim, seria mais certo. Mas acontece que não foi Pedro que matou
Ananias e Safira. O Apóstolo limitou-se a cumprir o seu dever,
advertindo-os. Acontece que Ananias não suportou o choque provocado
pela revelação de Pedro em sua consciência culposa.
Ananias foi vítima de sua própria manobra. Mas no caso
particular de Safira as coisas não parecem tão simples.
Pedro declara que ela vai morrer, parece mesmo ameaçá-la,
predispô-la à morte. O Apóstolo era dotado do
que hoje chamamos cientificamente percepção extra-sensorial,
possuía a mediunidade profética. Ao entrar a mulher
de Ananias no recinto, ele viu o que ia acontecer. E em benefício
da própria mulher preparou-a para o momento inevitável.
Entretanto, as duas ações de Pedro conduziam ao Reino.
A cura despertava as consciências, tocava os corações,
preparando-os para o Reino. A repreensão tinha por fim corrigir
as imperfeições morais dos que não se encontravam
em condições de entrar no Reino, embora o desejassem.
A morte de Ananias e Safira, consequência natural de seus atos
fraudulentos, parecia uma expulsão definitiva de ambos do portal
do Reino. Mas só lhes acontecera o que vimos no caso do rico
da parábola: Ananias e Safira não haviam deixado os
seus fardos que não cabiam na portinhola estreita. O rico,
em espírito, já morto para o mundo, precipitara-se no
abismo. O casal fraudulento caíra em vida no abismo da morte.
Mas assim como a queda do rico era uma lição de após
morte, que o ajudaria a corrigir-se na próxima encarnação,
assim a morte de Ananias e Safira lhes ensinava a buscar a sinceridade
e a verdade no mundo espiritual.
Os que não acreditam ou não querem compreender que só
podemos entrar no Reino pelo renascimento, não encontram explicação
para as contradições que apontamos. Aplicam em defesa
de Pedro o argumento de justiça. Mas onde fica o argumento
do amor? Já vimos que o Reino não se constitui apenas
de justiça, o que seria uma negação do amor de
Deus. Não podemos, pois, compreender o Reino sem compreender
a advertência do jovem Carpinteiro a Nicodemos: "É
necessário nascer de novo". Como poderiam todos chegar
ao Reino, se são tantos os que fazem como Ananias e Safira?
E como agiria o amor do Reino em favor dos que não dispõem
de tempo e oportunidade para se tornar aptos a habitá-lo?
É o princípio da reencarnação a chave
do Reino. A grande maioria das criaturas humanas estaria impedida
de entrar no Reino se Deus não lhes concedesse a oportunidade
do reinício. Então o Reino não seria de todos,
mas de alguns. Deus não seria o Pai do Evangelho mas o guerreiro
da Bíblia. A balança da justiça tem dois pratos,
mas um deles é do amor. A balança de Jeová tem
o prato da justiça abaixado, pois é nela que o Deus
Bíblico põe a sua força. A balança do
Deus-Pai está sempre equilibrada, porque o seu amor se mede
pela sua justiça e vice-versa. O Reino não está
reservado a estes ne àqueles, mas abre sua pequena porta aos
homens de todas as raças, de todas as nacionalidades, de todos
os quadrantes da Terra.
E é graças a isso que os atalhos e os caminhos do Reino
se encontram na confluência. Heresias e ideologias desempenham
o seu papel no grande esquema do Reino. Preparam cada qual as criaturas
colocadas em diversos planos evolutivos, de acordo com as sintonias
de seus interesses e com os impulsos de suas tendências, para
o momento supremo de compreensão gestáltica do Reino,
que chegará normalmente para todos. Fanáticos religiosos
e fanáticos políticos não perdem o seu tempo:
são aprendizes de primeiro grau, exercitando-se para as virtudes
do Reino, adestrando-se para amá-lo. Porque não é
fácil amar o Reino. Os reinozinhos da Terra, esses pequenos
e absorventes reinos dos homens, atraem poderosamente as almas inexperientes.
Então o Reino se disfarça em estreitas concepções
humanas e atrai aquelas almas que se perderiam nas atrações
inferiores.
Deus sabe conduzir as almas para o Reino. Nós, os conduzidos,
é que não sabemos ver e compreender o seu imenso trabalho.
Por isso não o auxiliamos. Devemos aprender que Deus, nosso
Pai, trata-nos como filhos. E em vez de guerrear os irmãos
que procuram o Reino por atalhos ou caminhos diferentes dos nossos,
devíamos ajudá-los. Todos os caminhos levam ao Pai.
Isso, porém, não quer dizer que devamos esperar sentados
o estabelecimento do Reino na Terra. Cada um de nós, em seu
caminho ou seu atalho, tem a obrigação espiritual de
trabalhar incessantemente pelo Reino, amando a todos, fazendo sempre
justiça em todas as coisas, mas trabalhando sem cessar para
despertar em todos a compreensão do Reino, que extinguirá
do planeta o orgulho, a vaidade, o egoísmo e o ódio.
A compreensão do Reino fará corar de vergonha os que
hoje só pensam em conquistar para si mesmos. Os ricos do Reino
serão os que ajuntam para todos.