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    05/12/2025

 

Os caminhos de Allan Kardec para consolidar o aspecto moral do espiritismo

Entrevista com Luciana Farias

 

O Novo Centro Espírita

 

Luciana Farias é uma pesquisadora espírita com formação em Ciência da Computação (Mestre em Sistemas e Computação). É a criadora do site: ttps://www.obrasdekardec.com.br que disponibiliza e-books gratuitos com a comparação de diferentes versões dos textos originais de Kardec, facilitando o estudo e a identificação de possíveis alterações (como no caso da 5ª edição de A Gênese). Frequentemente é coautora com Adair Ribeiro Júnior e Carlos Seth Bastos de diversos trabalhos com foco na investigação dos manuscritos e documentos históricos da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.

 

Entrevista por Eliana Haddad

Em parceria com Adair Ribeiro Júnior e Carlos Seth Bastos, a pesquisadora Luciana Farias realizou um estudo sobre a historiografia da escolha do título de O evangelho segundo o espiritismo, incluindo a mudança de planos e os bastidores da motivação de Allan Kardec ao longo da concepção da obra.

A análise, que foi um dos temas apresentados no 20º ENLIHPEEncontro Nacional da Liga de Pesquisadores do Espiritismo, realizado em agosto em Campinas, teve por base conteúdos descobertos recentemente, através de cartas trocadas entre Kardec e sua esposa Amélie Boudet.

Luciana Farias é mestre em ciências da computação pela Universidade Salvador, BA, e vem realizando um trabalho de comparação das diferentes versões dos textos das obras de Allan Kardec, cujo resultado tem sido disponibilizado como e-books gratuitos em seu site obrasdekardec.com.br.

Nesta entrevista, a pesquisadora explica aos leitores do Correio não somente como surgiu O evangelho segundo o espiritismo, mas os caminhos percorridos por Kardec até a publicação definitiva da obra. Acompanhe.


Como foi o processo de construção da obra O evangelho segundo o espiritismo?

Para a escrita de Imitação do evangelho segundo o espiritismo, título da primeira edição desta obra, Allan Kardec se isolou no Balneário de Sainte-Adresse, no norte da França, em meados de 1863.

Tivemos acesso a cartas trocadas entre ele e sua esposa Amélie, entre 6 e 21 de setembro de 1863, que contam alguns detalhes dessa história. Constatamos que Amélie acompanhou seu marido no início do retiro, retornando a Paris no início de setembro, e que o professor solicitou a ela que o médium D’Ambel, seu secretário na época, pedisse conselhos ao Espírito da Verdade, a Erasto ou a outro espírito bom sobre o andamento de seus trabalhos.

A elaboração da obra, que contém o detalhamento da moral espírita, foi iniciada bem antes desse retiro, por volta de 1862, logo após o lançamento de O livro dos médiuns.

O primeiro anúncio veio na contracapa da primeira edição de O espiritismo em sua mais simples expressão, sob o título As vozes do céu, e apresentava o plano inicial: “interpretações atuais sobre as diferentes partes do ensinamento moral dos espíritos”. Alguns meses depois, a obra foi anunciada como “no prelo”, sob o novo título de As vozes do mundo invisível, e assim seguiu sendo anunciada durante o ano seguinte.

Finalmente, em fevereiro de 1864, Kardec avisa, na Revista Espírita, que seu novo livro estaria disponível no mês seguinte e que o plano inicial havia sido radicalmente mudado. Pelas cartas, constatamos que foram as inspirações dos espíritos, favorecidas pelo período de recolhimento, que levaram Kardec a promover tais alterações.

 

O que levou Kardec se isolar para escrever O evangelho?

Kardec necessitava desse recolhimento e isso está muito bem explicado numa comunicação espiritual que recebeu, reproduzida na carta de 14 de setembro de 1863, publicada em Obras póstumas: “(...) minhas vozes íntimas se fazem ouvir em torno de ti e teu cérebro percebe as nossas inspirações, com uma facilidade de que nem tu mesmo suspeitas. Nossa ação, principalmente a do Espírito da Verdade, é constante ao teu derredor e tal que não a podes negar. Assim sendo, não entrarei em detalhes ociosos a respeito do plano de tua obra, plano que, segundo meus conselhos ocultos, modificaste tão ampla e completamente. Compreendes agora por que precisávamos ter-te sob as mãos, livre de toda preocupação outra, que não a da doutrina. Uma obra como a que elaboramos de comum acordo necessita de recolhimento e de insulamento sagrado.”

Correspondências de 11 e 15 de setembro de 1863 também atestam que a mudança temporária de residência promoveu melhorias na condição de saúde de Kardec, revelando que ele teve oportunidade de tomar “banhos medicinais” que o fortaleceram e eliminaram a fraqueza que vinha sentindo nas pernas há algum tempo.

 

Como pesquisadora, como você analisa o fato de a obra ter passado por títulos diferentes?

A obra teve quatro títulos propostos por Kardec e um proposto pelo Espírito da Verdade. Sabemos com segurança somente o motivo da troca de título da primeira para a segunda edição. Os demais, podemos apenas inferir.

Considerando que o plano inicial da obra era tratar dos ensinos morais dos espíritos, me parece que Kardec optou por um título que representasse a origem destes ensinamentos: primeiro, de forma metafórica, em As vozes do céu, e depois, de forma mais direta, em As vozes do mundo invisível.

A mudança no plano da obra para tratar, de forma central, dos ensinamentos morais de Jesus, a partir do Evangelho, tendo os ensinamentos dos espíritos um papel complementar de confirmação, me parece justificar a troca do título para Imitação do evangelho segundo o espiritismo.

O editor Didier só soube do título no momento da impressão e ficou desconfortável com o uso do termo “Imitação”, dada a coincidência com títulos de obras católicas à época, como: Imitação de Jesus Cristo e Imitação da Virgem Maria.

Em março de 1865, após consultar dr. Demeure e o Espírito da Verdade, Kardec optou por retirar “Imitação”, simplificando o título, definitivamente, para O evangelho segundo o espiritismo.

Penso que o título da primeira edição, incluindo a palavra “Imitação”, tinha o sentido de convidar os leitores à ‘prática’ do Evangelho à luz da doutrina espírita, enquanto o título definitivo poderia passar uma impressão equivocada de que o espiritismo teria escrito um ‘novo evangelho’.

 

Qual título foi sugerido pelo Espírito da Verdade e o que pode ter levado Kardec a não seguir sua sugestão?

Após concordar com Didier, de que o título da primeira edição deveria ser modificado, o Espírito da Verdade ofereceu como exemplo A moral do evangelho segundo o espiritismo. Ele considerou essa opção alinhada com o título sugerido para as obras que viriam na sequência, dando como exemplo Os milagres e as predições segundo o espiritismo (que futuramente incluiu o tema de a gênese).

Entendo que, inicialmente, Kardec cogitou seguir essa sugestão, pois na 6ª edição de O que é o espiritismo, publicado em 1865, vemos cinco referências à obra com o título proposto pelo Espírito da Verdade.

 

Kardec preferiu sua própria escolha. É isso?

O que podemos afirmar é que Kardec fez uma escolha diferente. E dois pontos aqui merecem destaque. Primeiro, esse é um exemplo claro do tipo de relacionamento mantido entre Kardec e os espíritos, em especial com o Espírito da Verdade, em que vemos, em comunicações, serem abordadas outras questões, além do ensinamento doutrinário. Inferimos, por essas e outras comunicações que estudamos, que era um trabalho de equipe, sendo frequente o diálogo entre Kardec e os espíritos. No caso de determinações, Kardec seguia o direcionamento da espiritualidade. Mas em se tratando de sugestões, a decisão final era sempre dele, por vezes acatando, outras não.

O segundo ponto é que nem sempre temos como saber as razões das escolhas de Kardec, uma vez que dependemos das informações documentadas em manuscritos ou nos impressos. Importante é não perder isso de vista e acabar caindo nos achismos.

 

Qual era, afinal, o propósito de Kardec com relação a O evangelho?

Desde a primeira edição, o objetivo da obra foi apresentado logo na seção 1 da introdução. No texto definitivo, atualizado na terceira edição, vemos que Kardec dividiu em cinco as matérias contidas no Evangelho, sendo a última o ensino moral, a única inatacável e por isso objeto de estudo daquele livro. Para ele, o código moral de Jesus era uma regra de conduta que abrangia todas as circunstâncias da vida pública e privada, “o princípio de todas as relações sociais que se fundam na mais rigorosa justiça. É, finalmente e acima de tudo, o roteiro infalível para a felicidade vindoura, o levantamento de uma ponta do véu que ocultava a vida futura”.

Informações úteis sobre cada obra sempre foram incluídas por Kardec em sua folha de rosto. Com essa obra não foi diferente. Infelizmente, esta é uma página que não costuma ser traduzida, ficando suas informações ocultas aos leitores brasileiros.

Na folha de rosto da segunda edição, logo após o título, Kardec incluiu “Parte moral”, uma espécie de subtítulo e uma síntese do conteúdo que viria a seguir. Estes dizeres foram suprimidos da edição atualizada e definitiva. Seriam esses dizeres uma forma de acomodar a referência à moral sugerida pelo Espírito da Verdade? Por que foram suprimidos? Não temos como saber.

A estrutura do livro também foi delineada por Kardec na folha de rosto. Logo abaixo do título consta: “contendo as máximas morais do Cristo, sua concordância com o espiritismo e sua aplicação às diversas situações da vida”. Nos capítulos, vemos essa mesma sequência: as citações bíblicas com as explicações dadas por Kardec, seguidas das instruções dos espíritos, estando as partes em concordância, oferecendo um complemento e um reforço no entendimento.

 

Há algo mais sobre essa obra que você gostaria de destacar?

Independentemente do título escolhido como definitivo, vemos na obra duas referências ao primeiro título inicialmente pensado – As vozes do céu – e uma referência ao título controverso da primeira edição.

No prefácio, uma comunicação do Espírito da Verdade usa esse termo: “[...] As grandes vozes do céu ressoam como sons de trombetas, e o cântico dos anjos se lhes associam” e na introdução, no final da apresentação dos objetivos do livro, Kardec escreveu que “as instruções dos espíritos eram verdadeiramente as vozes do céu que vêm esclarecer os homens e convidá-los à imitação do Evangelho”, compelindo a todos a colocar os ensinamentos em prática.

Convido a todos a lerem um dos capítulos do livro e a colocarem em prática, pelos próximos doze meses, os ensinamentos morais abordados. Sei que é um grande desafio, e afirmo, os ganhos vão fazer valer muito a pena.

 

Saiba mais

O artigo completo está no livro Justiça divina segundo o espiritismo, Ed. CCDPE-ECM.

Assista à apresentação de “Os títulos de O evangelho segundo o espiritismo: uma análise historiográfica”, realizada por Luciana Farias durante o módulo 2 do 20º Enlihpe:

 

 

 

>>> clique no link para assistir ao vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=eYsNDZBlUog

 

 

 

Fonte: https://correio.news/entrevista/genetica-e-mediunidade-pesquisa-abre-portas-para-novos-estudos

 

 

 

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