Luís Jorge Lira Neto
Doutor em Ciências da Religião, UNICAP (Universidade
Católica de Pernambuco), Membro do Grupo de Pesquisa RID
— Religião, Identidades e Diálogos da UNICAP
e do NUESHE (Núcleo Estudos de História do Espiritismo)
da UNIVERSO (Universidade Salgado de Oliveira), ambos cadastrados
no CNPq. Membro do Observatório Transdisciplinar das Religiões
no Recife. Pesquisador do Núcleo de Estudos de História
do Espiritismo (NUESHE).
Este artigo foi escrito a partir dos textos
e das ideias desenvolvidas na tese de doutorado: “Espiritismo,
de Doutrina Filosófica à Religião do Livro,
entre controvérsias, livros e cânone”.
Defendida junto ao PPGCR da UNICAP (Universidade Católica
de Pernambuco), em 19 set. 2025.
(trecho inicial)
INTRODUÇÃO
O Espiritismo surgiu das pesquisas empreendidas por Allan Kardec,
pseudônimo do pedagogo francês Denisard Hippolyte Léon
Rivail (1804–1869), observando os fenômenos das “mesas
girantes”, em diálogos escritos com os “Espíritos”.
O resultado foi publicado primeiro em O Livro dos Espíritos
em 1857, reeditado com ajustes e ampliações em abril
de 1860. E depois, em 1861, com O Livro dos Médiuns,
concluindo a parte doutrinária com os princípios filosóficos
constitutivos da Doutrina Espírita registrada em livros,
sendo cinco considerados os principais.
Dando seguimento à publicação dos livros fundamentais
da Doutrina Espírita, em 1864 saiu a primeira edição
de O Evangelho Segundo o Espiritismo; em 1865, O Céu
e o Inferno ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo,
e, por último, em 1868, A Gênese, Os Milagres
e as Predições Segundo o Espiritismo, além
de vários outros opúsculos e escritos complementares,
contendo os princípios do Espiritismo. Assim resumidos, a
existência de Deus, a criação divina, a existência
e sobrevivência do Espírito, a evolução,
a reencarnação, a mediunidade, os mundos habitados,
as leis morais da vida, as penas e consolações.
Allan Kardec conceituou o Espiritismo
como uma ciência de observação e ao
mesmo tempo uma doutrina filosófica, conforme consta
no preâmbulo da 6ª edição do seu livro
O Que é o Espiritismo, de 1865 (Kardec, 2011a, p.
11). Explicou ser ciência por aplicar método científico
de observação nas pesquisas sobre os “fenômenos
espirituais” e é filosofia por conter consequências
morais decorrentes dessas relações com os “Espíritos”.
Allan Kardec concluiu afirmando que o Espiritismo aborda as mais
graves questões da Filosofia, da ordem social dos povos e
que abrange tanto o aspecto físico quanto o moral da humanidade
(KARDEC, 2009a, p. 37).
Essa definição evidencia a forma como seu autor considerou
o Espiritismo, com características no campo epistemológico
e metodológico da Ciência e da Filosofia, tendo como
objeto os “Espíritos” e suas relações
com o mundo corpóreo. Segundo o filósofo José
Herculano Pires (1974), ele colocou, no campo científico,
a pesquisa do relacionamento entre esses dois mundos existenciais
— a realidade terrena e a “espiritual”. Ambas
são passíveis de submissão ao método
de experimentação científica (PIRES, 1974).
No entanto, no livro A Gênese, Kardec apresentou
os princípios espíritas como Revelação
Divina (Religião), por ser originária da Providência
Divina, e como Revelação Humana (Ciência e Filosofia),
por ser produto do trabalho humano de observação e
pesquisa. Porque a Doutrina Espírita “não foi
ditada completa, nem imposta à crença cega”.
E sintetizou o caráter da revelação espírita
ao afirmar: “Em suma, caracterizando a revelação
espírita é o fato de ser divina a sua origem e da
iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração
fruto do trabalho do homem” (KARDEC, 2011b, p. 29).
Sendo assim, o Espiritismo, apresentado com o status de ciência
de observação e de experimentação científica,
deve apresentar um método de atualização e
de progressividade dos seus princípios, tal qual uma ciência,
com os meios da falseabilidade. Este texto irá demonstrar
que Kardec pensou no desenvolvimento de um método para atualização
dos princípios espíritas. Também abordará
uma outra progressividade, diferente da científica, essa
com base na caracterização do Espiritismo como um
fato social, na França e no Brasil.
CONDIÇÕES
DE ATUALIZAÇÃO DO ESPIRITISMO
Allan Kardec definiu os meios através dos quais a Doutrina
seria complementada e atualizada, com a capacidade de falseabilidade
das leis e dos princípios espíritas, dada sua característica
intrínseca progressiva. Era óbvio que a singularidade
do Espiritismo ao lidar com seres de vontade própria, os
“Espíritos”, necessitaria de algo mais específico
para sua atualização, então, formulou um esquema
com quatro fatores: 1º a capacitação de pessoas
especiais (os médiuns), 2º os procedimentos para obtenção
de comunicações (reuniões), 3º uma associação
de pesquisa e, 4º um veículo de publicização.
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