Traduzido do Francês
Dieu dans la nature
1866
Conteúdo resumido
Esta é uma das mais significativas obras clássicas
do Espiritismo e, sem dúvida, a obra-prima de Camille Flammarion.
O autor apóia-se em princípios da natureza para demonstrar
a existência de Deus. Entre os assuntos magnos, tratados com alta
visão, contam-se: ateísmo, força e matéria,
idéia inata e Deus, instinto e inteligência, leis do Universo
e origem dos seres. São estudos que transmitem conhecimentos
basilares aos espíritas.
Revelando profundo conhecimento científico, Flammarion utiliza,
na presente obra, os próprios argumentos científicos dos
materialistas (sobre Biologia, Fisiologia, Antropologia, Botânica,
etc.), para demonstrar a existência do Ser Soberano, criador e
sustentador do Universo. Por esse motivo, a obra poderia, perfeitamente,
ser também denominada “Deus na Ciência”.
Introdução
Destina-se esta obra a representar o estado atual dos
nossos conhecimentos precisos, sobre a Natureza e o homem.
A exposição dos últimos resultados a que atingiu
a inteligência humana no estudo da Criação é,
ao nosso ver, a verdadeira base sobre a qual se há de fundar
doravante toda a convicção filosófica e religiosa.
Em nome das leis da razão, tão solidamente justificadas
pelo progresso contemporâneo e por força dos inelutáveis
princípios constituintes da lógica e do método,
pareceu-nos que só através das ciências positivas
deveremos prosseguir na pesquisa da verdade.
Se temos, de fato, a ambição de chegar pessoalmente à
solução do maior dos problemas; se estamos sôfregos
de atingir, por nós mesmos, uma crença na qual encontremos
repouso e pábulo de vida; se nos anima, ao demais, o legítimo
desejo de transmitir ao próximo a consolação que
já encontramos; – não temamos nunca afirmá-lo
ser na ciência experimental que devemos procurar os elementos
de cognição, só com ela devendo marchar.
O cepticismo e a dúvida universal imperam no âmago de nossa
alma e nosso olhar escrutador, que nenhuma ilusão fascina, vigila
na cripta dos nossos pensamentos. Não nos despraz que assim seja.
Não lastimemos que Deus não nos houvesse tudo revelado
ao criar-nos, dando-nos contudo o direito de discutir. Essa prerrogativa
do nosso ser é ótima em si mesma, como condição
maior de progresso. Mas, se o cepticismo nos atalaia vigilante, também
a necessidade de crença nos atrai.
Podemos duvidar, certo, sem por isso nos isentarmos do insaciável
desejo de conhecer e saber. Uma crença torna-se-nos imprescindível.
Os espíritos que se vangloriam de não a possuírem
são os mais ameaçados de cair na superstição
ou de anular-se na indiferença.
O homem tem, por natureza, uma necessidade tão imperiosa de firmar-se
numa convicção –, particularmente quanto à
existência de um coordenador do mundo e da destinação
dos seres – que, quando não encontra uma fé satisfatória,
experimenta a necessidade de se demonstrar a si mesmo que esse Deus
não existe e busca, então, repousar o espírito
no ateísmo e no niilismo.
Diga-se, também, já não ser a questão que
ora nos apaixona, a de sabermos qual a forma do Criador, o caráter
da mediação, a influência da graça, nem discutir,
tampouco, o valor de argumentos teológicos. A verdadeira questão
é saber se Deus existe ou não.
Note-se que, em geral, a negativa é patrocinada pelos experimentalistas
da ciência positiva, enquanto a afirmativa se ampara nos indivíduos
estranhos ao movimento científico.
Qualquer observador atento pode, ao presente, apreciar no mundo pensante
duas tendências diametralmente opostas.
De um lado, químicos ocupados em tratar e triturar, nos seus
laboratórios, os fatos materiais da ciência moderna, por
lhes extrair a essência e quinta-essência, a declararem
que a presença de Deus jamais se manifesta em suas manipulações.
Doutro lado, teólogos acocorados entre poeirentos manuscritos
de bibliotecas góticas compulsando, folheando, interrogando,
traduzindo, compilando, citando e recitando versículos dogmáticos,
e declarando, com o anjo Rafael, que da pupila esquerda à pupila
direita do Padre-Eterno medeiam trinta mil léguas de um milhão
de varas, cada qual equivalente a quatro e meia vezes o comprimento
da mão.
Queremos crer que de ambos os lados haja boa fé, que os segundos,
como os primeiros, estejam animados do propósito de conhecer
a verdade. Pretendem os primeiros representar a Filosofia do século
20, enquanto os segundos guardam, respeitosos, a do século 15.
Os primeiros, passam por Deus sem O ver, como o aeronauta que sulca
o espaço celeste, enquanto os segundos focalizam um prisma que
retrai a imagem, colorindo-a.
O observador imparcial e independente que procura explicar-lhes suas
tendências contrárias, admira-se de os ver obstinados no
seu sistema particular e pergunta a si mesmo se será verdadeiramente
impossível interrogar, de um modo direto, este vasto Universo
e chegar a ver Deus na Natureza.
Por nós, isentos de qualquer sectarismo, sentimo-nos à
vontade em equacionar o problema. Diante do panorama da vida terrestre;
no âmbito da Natureza radiosa à luz do Sol, beirando mares
bravios ou fontes múrmuras; entre paisagens de Outono ou florações
de Abril; tanto quanto no silêncio das noites estreladas, temos
procurado Deus. A Natureza, interpretada com a Ciência, foi quem
no-lo demonstrou num caráter particular. De fato, Ele está
nela, visível, como a força íntima de todas as
coisas. Temos considerado na
Natureza as relações harmônicas que constituem a
beleza real do mundo e, na estética das coisas, encontramos a
manifestação gloriosa do pensamento supremo.
Nenhuma poesia humana se nos figurou comparável à verdade
natural, e o Verbo eterno nos falou com mais eloqüência nas
mais modestas obras da Natureza, do que o pudera fazer o homem com seus
cantos mais pomposos.
Seja qual for a oportunidade dos estudos que este trabalho objetiva,
não esperamos agradar a toda a gente, certo de haver muitos incapazes
de acordar do seu sono e outros tantos a quem longe estamos de lhes
corresponder aos pendores.
Acusa-se de indiferentismo a nossa época. A acusação
é merecida. Onde estão, com efeito, os corações
palpitantes de puro amor à verdade? Em que alma – perguntamos
– ainda reina a fé? Não diremos, já, a fé
cristã, mas uma crença sincera, seja no que for. Aonde
se vão os tempos em que as forças da Natureza, divinizadas,
recebiam homenagens universais?
Tempos nos quais o homem, contemplativo e deslumbrado, saudava com fervor
a potência eterna e manifesta na Criação?
Que é feito daqueles tempos em que os homens eram capazes de
derramar o sangue por um princípio, quando as repúblicas
tinham à sua testa um ideal e não uma ambição?
Quem se lembra dos tempos em que o gênio de um povo, esculpido
em Notre Dame ou em São Pedro de Roma, ajoelhava-se e pedia,
conchegado aos seus muros de pedra?
Que é feito da virtude patriótica dos nossos antepassados
abrindo as portas do Panteão para acolher as cinzas dos heróis
do pensamento, e relegando à noite do olvido a falsa glória
da ociosidade e das almas?
Não coremos de o confessar, já que temos a franqueza de
suportar um tal aviltamento: saturados de egoísmo, nossa alma
não alimenta outra ambição que a do interesse pessoal.
Riqueza cuja origem permanece equívoca, louros surpreendidos,
antes que conquistados, uma doce quietação, uma profunda
indiferença pelos princípios, quem não verá
nisso o nosso galardão?
À parte, contudo, fora do mundanismo empolgante e rumoroso, vivem
os que não se conformam em baixar a fronte diante da hipocrisia.
Esses trabalham na solidão e esquadrinham em silenciosa meditação
os abismos da Filosofia e, se se mantêm fortes, é porque
não se atrofiam ao contacto das sombras. Na verdade, é
um contraste penoso de assinalar, quando vemos que o progresso magnífico,
sem precedentes, das ciências positivas, que a conquista sucessiva
do homem sobre a Natureza, ao mesmo tempo em que tão alto nos
elevaram a inteligência, deixaram resvalar o sentimento a níveis
tão baixos. Doloroso sentir que, enquanto por um lado a inteligência
mais demonstra a sua capacidade, extingue-se por outro lado o sentimento,
e a vida íntima da alma mais se embota na geena da carne.
A causa da nossa decadência social (passageira, de vez que a História
não pode mentir a si mesma) deve-se à nossa falta de fé.
A primeira hora deste nosso século marcou o derradeiro alento
da religião de nossos pais. Baldos serão quaisquer esforços
de restauração e reconstrução. Tudo o que
se fizer não passará de simulacro, pois o que está
morto não pode ressurgir. O sopro de uma revolução
imensa passou sobre as nossas cabeças deitando por terra nossas
velhas crenças, mas, entretanto, fecundando um mundo novo.
Estamos, ao presente, atravessando a fase crítica que precede
a toda renovação. O mundo progride. É em vão
que homens políticos e homens eclesiásticos imaginam,
cada qual do seu lado, prosseguir na representação do
passado, num proscênio em ruínas. Impossível impedir
que o progresso nos conduza a todos para uma fé superior, que
ainda não possuímos, mas para a qual já caminhamos.
E essa fé não será outra que a convicção
científica da existência de Deus; numa escalada à
verdade pelo estudo da Criação.
É preciso ser cego, ou ter interesse em iludir-se a si e aos
outros (quantos neste caso se encontram!), para não ver e não
ajuizar a nossa atualidade pensante. Foi por ter a superstição
matado o culto religioso, que nós o menosprezamos e abandonamos.
E foi porque as características do verdadeiro se nos revelaram
mais claramente, que a nossa alma aspira a um culto mais puro. E não
foi senão por se haverem afirmado diante de nós os imperativos
da justiça, que hoje reprovamos institutos bárbaros, tais
como a guerra, que, ainda recentemente, recebia a homenagem dos homens.
É, enfim, porque o pensamento rompeu os grilhões que o
prendiam à gleba, que não mais admitimos, de boamente,
quaisquer tentativas que nos aproximem de qualquer espécie de
servilismo. Nada obstante, há em tudo, e sempre, um progresso.
Na incerteza, porém, em que ainda permanecemos, entre as perturbações
que nos agitam, a maior parte dos homens, ao perceberem que as suas
impressões e tendências esbarram fatalmente na inércia
do passado, ou se afastam silenciosos se lhes sobra força e coragem
de o fazerem, ou se deixam arrastar na corrente geral, pela atração
vigorosa da fortuna. É nas épocas críticas que
as lutas se intensificam, intermitentes, sobre os eternos problemas
cuja forma varia à feição dos tempos, a revestirem-se
de um aspecto característico.
Nesta nossa época de observação e experimentação,
os materialistas procuram apoiar-se em trabalhos científicos
e pretendem deduzir da ciência positiva o seu sistema.
Os espiritualistas, em geral, acreditam, ao invés, poderem pairar
acima da esfera experimental e assomar aos píncaros da razão
pura. Ao nosso ver, o espiritualismo para triunfar deve medir-se com
o adversário no mesmo terreno e com as mesmas armas deste. Ele
não perderá nada do seu caráter, condescendendo
em baixar à arena, e nada terá a recear nessa justa com
a ciência experimental.
As lutas empenhadas e os erros a combater longe estão de se tornarem
perigosos para a causa da verdade. Com o exigirem um exame mais rigoroso
das questões versadas, essas lutas nos ensejam a preparação
de uma vitória mais completa.
A Ciência não é materialista, nem pode servir ao
erro. Como e por que, pois, haveriam de temê-la o espiritualismo
e a verdadeira religião? Duas verdades não se podem opor
a uma terceira.
Se Deus existe, sua existência não poderia ser suspeitada
nem combatida pela Ciência.
Para nós, temos a convicção íntima de que,
muito pelo contrário, no estabelecimento de conhecimentos exatos
sobre a construção do Universo, sobre a vida e o pensamento,
propicia-se atualmente o único método eficiente ao aclaramento
do problema. Só assim poderemos saber se devemos admitir a soberania
da matéria universal ou se importa reconhecer uma inteligência
organizadora, um plano e um destino imanentes.
Tal, pelo menos, a forma por que o debate se nos apresenta e impõe
à mente, neste nosso trabalho.
Esperamos que esta tentativa de versar a existência de Deus pelo
método experimental aproveite ao progresso de nossa época,
por estar de acordo com as suas tendências características.
Ficaremos satisfeitos se a leitura deste livro deixar cair uma fagulha
luminosa nos espíritos indecisos. Mais ainda, se depois de haver
meditado fundo estes nossos estudos, alguma fronte se levantar cônscia
de sua legítima dignidade.
Se, regra geral, os ideólogos franceses não têm
aplicado o método científico aos problemas da filosofia
natural, em compensação alguns sábios trataram
o assunto do ponto de vista das relações gerais manifestadas
no mundo e que lhe constituem a unidade viva. Com prazer assinalamos,
entre as obras deste gênero, os diversos trabalhos do Sr. A. Langel,
aqui mesmo utilizados várias vezes.
Problemas da Natureza e problemas da vida não conduzem eles,
efetivamente, ao máximo problema?
Examinar as forças ativas no organismo universal não será
o mesmo que examinar as diversas modalidades da força essencial
e original?
As investigações que focalizam o estudo da Natureza podem
aproveitar à Filosofia com maior segurança, às
vezes, do que os tratados ou os ditirambos especialmente consagrados
à Metafísica. Os próprios escritos dos senhores
Moleschott e Büchner nos ofereceram elementos de refutação.
A circulação da vida, qual a expõe o primeiro,
mostra na vida uma força independente e transmissível,
dirigindo os átomos, mediante leis determinadas e conforme o
tipo das espécies. O exame da Força e da Matéria
estabelece, por outro lado, a soberania da Força e a inércia
da Matéria.
Sendo a Força e a extensão os primeiros princípios
do conhecimento, e sendo a Filosofia a ciência dos princípios,
poderia esta obra ser considerada antes como um estudo filosófico,
se não houvéssemos resolvido limitar-nos a uma discussão
puramente científica. Este, efetivamente, o seu fim precípuo
e que, por bem dizer, oferece mais atrativos, mau grado à aridez
aparente do trabalho.
Pensamos que o único meio eficaz de combater o negativismo contemporâneo
é voltar contra ele o materialismo científico e utilizar
as suas próprias armas para derrotá-lo.
Esse discrime compete antes à Ciência que à Filosofia.
A Ideologia, a Metafísica, a Teologia, mesmo a Psicologia, dele
se afastaram quanto possível.
Nós não razoamos com palavras, mas com fatos.
As verdades significativas da Astronomia, da Física e da Química,
como da Fisiologia, são, de si mesmas, as defensoras intrépidas
da realidade essencial do mundo.
Por mais difícil que à primeira vista pareça a
refutação científica do Materialismo contemporâneo,
nossa posição é belíssima, desde que nos
colocamos no mesmo plano dos nossos adversários.
E nesta guerra eminentemente pacífica, estamos, de antemão,
seguros da vitória.
Basta-nos, com efeito, de vez que o inimigo está em falsa posição,
descobrir a fraqueza dessa posição e desequilibrá-lo.
O método é simples e infalível, tão seguro
que não o escondemos: deslocado o centro de gravidade, sabe qualquer
mecânico que o individuo colhido de surpresa cai, imediatamente,
a procurá-lo no solo. Eis o quadro que se nos vai deparar. Críticos
houve que pretenderam ver em nosso método laivos de sorriso e
um tanto de ironia.
Não podemos ser juiz em causa própria, mas, ainda que
a acusação tivesse fundamento, não nos caberia
culpa alguma e sim, e só, aos acontecimentos, nos quais o grotesco
teria momentaneamente empanado o sério, graças aos adversários
tantas vezes arrastados às conseqüências mais curiosas.
Referindo-nos à forma, devemos pedir ao leitor acredite, que,
se por acaso tratarmos mais asperamente um que outro adversário,
não é a nós que a falta deve ser imputada, visto
não utilizarmos esses recursos extremos senão nos casos
(muito freqüentes talvez para eles) em que os adversários
se obstinam em não se deixarem vencer. Somos, então, bem
a nosso pesar, levados a feri-los com uma tática mais rude, forçando-os
a convir, pelos argumentos irresistíveis do mais forte, que são
eles de fato os mais fracos nesta guerra de princípios.
De resto, não há necessidade de acrescentar que são
sempre esses princípios que atacamos, e nunca a personalidade
dos que os advogam. Assim, considerando-se a índole mesma da
questão, exclusas ficam as pessoas do campo de batalha.
Além disso, em consciência, não acreditamos pratiquem
os adversários o materialismo absoluto – o dos seus interesses
e das paixões egoístas e, portanto, não temos outra
intenção que discutir as suas teorias.
Dividiremos nossa argumentação geral em cinco partes,
no intuito de demonstrar em cada uma a proposição diametralmente
contrária à sustentada pelos eminentes advogados do ateísmo.
Assim, na primeira, lidaremos por estabelecer, preliminarmente, pelo
movimento dos astros e depois pela observação do mundo
inorgânico terrestre, que a Força não é atributo
da Matéria, mas, ao contrário, a sua soberana, a sua causa
diretora.
Na segunda parte verificaremos, pelo estudo fisiológico dos seres,
que a vida não é propriedade fortuita das moléculas
que a compõem e sim uma força especial a governar átomos,
conforme o tipo das espécies. O estudo da origem e progressão
das espécies também aproveitará à nossa
doutrina.
Na terceira parte observaremos, examinando as relações
do pensamento com o cérebro, que há no homem algo mais
que a matéria e que as faculdades intelectuais distinguem-se
das afinidades químicas. A personalidade da alma afirmará
o seu caráter e a sua independência.
A quarta evidenciará na Natureza um plano, uma destinação
geral e particular, um sistema de combinações inteligentes,
no seio das quais o olhar desprevenido não pode deixar de admirar,
mediante sadia concepção das causas finais, o poder, a
sabedoria e a previdência que coordenam o Universo.
A quinta parte, enfim, como centro de convergência das vias precedentes,
nos colocará na posição científica mais
favorável para julgar simultaneamente a misteriosa grandeza do
Ente Supremo e a cegueira inconteste dos que fecham os olhos para se
convencerem de que Ele não existe.
O verdadeiro título desta obra deveria ser: – “A
contemplação de Deus através da Natureza”.
Há alguns anos que se anuncia, como estando no prelo, este trabalho
e nós lhe temos modificado várias vezes o título,
que, de início era puramente científico. (Da Força,
no Universo.)
Acabamos, finalmente, por nos fixarmos neste. Sem dúvida, um
título não tem essencial importância para que o
autor se explique tão formalmente a respeito. Mas, no caso vertente,
julgamos útil declarar desde logo que todos quantos vissem nas
quatro palavras da capa a expressão de uma doutrina, errariam
completamente.
Aqui não há panteísmo, nem dogma. Nosso objetivo
é expor uma filosofia positiva das ciências, que, em si
mesma, comporta uma refutação não teológica
do materialismo contemporâneo. É, talvez, imprudentíssima
ousadia o tentar assim uma senda isolada, entre os dois extremos, que
sempre aliciaram poderosos sufrágios; mas, de vez que nos sentimos
impelidos e sustentados por uma convicção particular,
tanto quanto por ardente amor a um novo aspecto da verdade, podemos,
porventura, resistir ao impulso interior que nos inspira?
Ao leitor compete examinar a obra e decidir se alguma ilusão
nos seduz e se nos oculta, sob o prestígio da verdade.
Não podemos, todavia, eximir-nos de confessar que, desde que
lemos em Augusto Comte que a Ciência aposentara o Pai da Natureza
e acabava de “reconduzir Deus às suas fronteiras, agradecendo
os seus serviços provisórios” – sentimo-nos
algo ofendidos com a vaidade do deus-Comte e nos deixamos empolgar pelo
prazer de discutir o fundo científico de semelhante pretensão.
Verificamos, então, que o ateísmo científico é
um erro e que a ilusão religiosa é outro erro. (De passagem
digamos, o Cristianismo nos parece ainda esotérico.) Nossos atuais
conhecimentos da Natureza e da vida nos representaram a idéia
de Deus sob um prisma cujo valor a teodicéia, como o ateísmo,
não podem menosprezar.
Aos nossos olhos, o homem que nega simplesmente a existência de
Deus e o que definiu esse Desconhecido e lhe debita em conta a explicação
embaraçante, são ambos criaturas ingênuas, equivalentes
na erronia.
Mas também não compete nos engajarmos aqui assim no método
antinômico e, sobretudo, não queremos revestir-nos de aparências
misteriosas.
Entremos, portanto, sem mais detença no âmago do assunto,
declarando que nos esforçamos por explanar com a mais sincera
independência o que acreditamos ser a verdade.
Possam estes estudos ajudar a escalada na trilha do conhecimento, a
quantos tomam a sério a sua passagem pela Terra e o progresso
da Humanidade.
Paris, Maio 1867
>
Deus na Natureza
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