Por
Felipe Espinosa Wang
Deutsche Welle (DW)
O que diz o maior arquivo
de casos atribuídos à reencarnação

Pesquisadores sobre reencarnação
investigam as causas da mortes e o 'tempo de intervalo' entre uma
vida e outra -
Um novo estudo baseado no maior acervo
do mundo de supostas memórias de vidas passadas identificou
um padrão em relatos de crianças em meio a 1.678 casos
analisados. Os pesquisadores afirmam que os resultados não
comprovam a reencarnação, mas consideram que o fenômeno
merece investigação, já que não pôde
ser totalmente explicado por fatores culturais ou psicológicos.
É possível que a reencarnação
tenha pouco espaço na ciência atual, já que ainda
não se encontrou evidências de que ela realmente exista.
Mesmo assim, a ideia de nascer de novo está longe de ser estranha
para muitas formas de tentar compreender o mundo.
Para certas tradições
do hinduísmo e do budismo —ainda que encarem esse processo
de maneiras diferentes —, o ciclo de mortes e renascimentos
não é uma mera curiosidade sobre o que acontece após
a morte, mas sim um elemento central na concepção da
existência.
Arquivo sobre reencarnação
A falta de evidências não impediu que alguns pesquisadores
se aventurassem em um terreno pouco comum para a ciência.
Entre eles estava o psiquiatra Ian Stevenson (1918-2007), que já
na década de 1960 viajava por diversos países para investigar
testemunhos de supostas vidas passadas.
Seu trabalho está ligado à Universidade da Virgínia,
nos Estados Unidos, onde há mais de seis décadas são
compilados relatos tão inusitados quanto controversos: crianças
que, segundo os depoimentos, contam espontaneamente detalhes que parecem
corresponder à vida de pessoas já falecidas.
A Divisão de Estudos
Perceptivos, que vem compilando esses relatos desde a década
de 1960, formou assim o maior acervo do mundo dos chamados "casos
do tipo reencarnação". E uma recente análise,
publicada na revista Psychology of Consciousness: Theory, Research,
and Practice, identificou nesse acervo um padrão que fatores
culturais e psicológicos não conseguiram explicar completamente.
Para se ter uma ideia do tipo de depoimentos que esse arquivo reúne,
é preciso conhecer dois casos descritos pela revista Popular
Mechanics.
James, um menino do estado da Louisiana, tinha pesadelos com um avião
em chamas. Aos três anos, ele afirmou ter sido piloto durante
a Segunda Guerra Mundial e mencionou um porta-aviões chamado
Natoma Bay, além de um colega chamado Jack Larsen. Os pesquisadores
relacionaram suas declarações com a biografia de James
Huston Jr., um piloto cujo avião foi derrubado no Oceano Pacífico
em 1945.
Outro caso é o de Ryan, um menino de quatro anos do estado
de Oklahoma. Ao ver uma fotografia de Hollywood dos anos 1930, ele
afirmou se reconhecer em uma das pessoas, que nem sequer aparecia
nos créditos. O relato acabou sendo associado a Marty Martyn,
um agente de Hollywood já falecido. Dos detalhes que o menino
forneceu sobre sua suposta vida anterior, os pesquisadores conseguiram
confirmar 55 com a biografia de Martyn.
O que busca o novo estudo
O mais recente levantamento não se concentrou em determinar
se esses relatos são memórias autênticas de outras
vidas, mas sim investigar padrões entre os depoimentos. Para
isso, uma equipe da Universidade da Virgínia, liderada pela
pesquisadora em neurociência cognitiva Saeedeh Sadeghi, examinou
1.678 casos que tinham algo em comum: em todos eles, os pesquisadores
haviam identificado possíveis correspondências entre
o que uma criança contava e a biografia de uma pessoa já
falecida.
Uma das questões levantadas foi quanto tempo separava os dois
eventos: o falecimento da pessoa identificada e o nascimento da criança
— o que, nessa área, é conhecido como "tempo
de intervalo". Segundo a Popular Mechanics, havia informações
suficientes para calculá-lo em 1.319 casos: a média
foi de 16 meses, embora o intervalo mais longo registrado tenha chegado
a 150 anos.

Mortes inesperadas
e intervalos mais curtos
O que realmente chamou a atenção
foi a comparação das circunstâncias das mortes.
Quanto mais inesperado fosse o falecimento, menor tenderia a ser esse
intervalo. Nos casos de mortes completamente imprevistas, a média
era de 12 meses. Por outro lado, quando as mortes eram mais previsíveis,
esse intervalo chegava a 21 meses.
Ou seja, o intervalo entre a morte
e o suposto renascimento era aproximadamente 43% mais curto quando
o falecimento havia sido inesperado, de acordo com os dados coletados
pela publicação Science Alert.
O arquivo também apresenta
outra particularidade: entre os casos analisados, 57% das mortes foram
classificadas como não naturais e 68% como completamente inesperadas.
A idade média das pessoas falecidas era de apenas 30 anos,
números que traçam um perfil pouco comum. Segundo a
Popular Mechanics, a proporção de mortes não
naturais e inesperadas supera amplamente a registrada nas estatísticas
gerais de mortalidade.
Precedente de quase quatro décadas
A possível relação entre
uma morte violenta e um suposto renascimento mais rápido já
havia sido levantada décadas atrás. Em 1988, o psicólogo
N. K. Chadha e o psiquiatra Ian Stevenson analisaram 326 casos e observaram
uma tendência semelhante. No entanto, como lembra a publicação
IFL Science, a associação só atingiu significância
estatística na Índia e no conjunto dos casos estudados.
Justamente por causa dessas limitações,
a nova equipe quis verificar se o padrão persistia em uma amostra
muito maior e, sobretudo, se poderia ser explicado por fatores culturais
ou psicológicos.
Uma das objeções mais evidentes
é que as famílias que acreditam na reencarnação
poderiam favorecer esse tipo de relato. Para verificar se esse poderia
ser o caso, os pesquisadores examinaram possíveis fontes de
viés, como o contato entre as famílias, a confiabilidade
dos dados, as crenças religiosas e se as crianças poderiam
ter tomado conhecimento prévio das informações
que relatavam.
Mesmo após considerar esses
fatores, a associação permaneceu: "Para nossa surpresa,
a relação continuava existindo quando a analisamos em
um número muito maior de casos, e os fatores sociais e psicológicos
que examinamos não conseguiam explicá-la", observou
Sadeghi, de acordo com um comunicado da Universidade da Virgínia
(UVA Health).
Na verdade, o efeito era mais acentuado
entre famílias cujas religiões não aceitavam
a reencarnação: "Esses resultados não corroboram
a ideia de que as crenças sociais estejam determinando esse
padrão", afirmou o psicólogo social da UVA, Philip
Cozzolino.
As limitações da descoberta
Apesar do que foi observado no estudo, esses
resultados estão longe de comprovar a reencarnação.
A relação identificada é fraca: saber se uma
morte foi inesperada permite explicar estatisticamente apenas entre
2% e 3% das diferenças na duração dos intervalos
entre uns casos e outros. Além disso, por se basear em dados
observacionais, o estudo não permite estabelecer uma relação
de causa e efeito nem concluir que a consciência sobreviva à
morte.
Outras explicações também
não podem ser totalmente descartadas. Como aponta a IFL Science,
as informações podem circular entre famílias
e comunidades sem que os pesquisadores consigam reconstruir como elas
chegaram até a criança. Soma-se a isso a possibilidade
de identificar retrospectivamente uma pessoa falecida cujos dados
se encaixem em parte do relato. Até mesmo o maior impacto das
mortes violentas poderia influenciar os depoimentos coletados.

A capacidade
de prever os intervalos é limitada. Mesmo assim, chama a atenção
dos pesquisadores o fato de existir uma associação estatística
entre as circunstâncias de uma morte e o nascimento de uma criança
que supostamente se lembra dessa vida. Segundo os pesquisadores, ainda
não foi estabelecido nenhum mecanismo convencional que vincule
diretamente esses dois eventos.
A ideia também apresenta um
curioso paralelo com algumas crenças religiosas. Os pesquisadores
apontam que, em certas tradições hindus, budistas e
indígenas da América do Norte, uma morte repentina pode
estar associada a desejos, laços ou obrigações
que ficaram para ser resolvidos. Segundo sua interpretação,
essas questões pendentes poderiam favorecer um renascimento
mais rápido. No entanto, não se trata de uma crença
compartilhada por todas essas tradições nem de uma explicação
científica para o fenômeno.
Questão que continua em aberto
Por enquanto, o mistério permanece. Os
resultados não comprovam a existência da reencarnação,
algo que a própria Sadeghi faz questão de ressaltar:
"Isso é uma prova de algo metafísico? Os dados
são observacionais, e tomamos muito cuidado para manter uma
postura agnóstica em relação ao mecanismo",
afirma a pesquisadora.
No entanto, ela considera que a descoberta
merece atenção: "O que posso dizer é que
o padrão é real nos dados", ressalta, e isso constitui
um motivo "para continuar pesquisando, não para ignorar
o assunto".
Uma postura que é compartilhada pela pesquisadora
Marieta Pehlivanova, que, segundo a UVA Health, considera que a falta
de uma explicação clara oferece novos motivos para continuar
estudando esses padrões.
No fim das contas, o trabalho levanta
mais perguntas do que respostas. A correlação aparece
nos dados analisados, mas ainda não está claro quais
fatores a explicam. E enquanto não for encontrada uma explicação
convincente, a reencarnação continuará despertando
fascínio e curiosidade, mesmo que sua existência continue
sem contar com provas científicas sólidas. Ao menos
até agora.