
Por
Anna Virginia Balloussier
Folha de São Paulo
Pesquisa revela Brasil cristão
que crê em espíritos e não descarta reencarnação
Medo de feitiço e
crença em forças do mal têm forte adesão
para além do pentecostalismo
Levantamento foi realizado por Iser/Quaest
com 15 mil entrevistados de 412 municípios
Algo que você dificilmente ouvirá numa
igreja cristã: pregação sobre vidas passadas.
Ainda assim, a fatia de brasileiros que acredita em
reencarnação não é descartável:
37%. Ainda maior é a parcela dos que creem em espíritos,
sejam eles bons ou maus: 68%. Isso num país onde 8 em cada
10 pessoas seguem uma das duas grandes correntes do cristianismo,
a católica (50% do povo) e a evangélica (29%).
Essa aparente contradição
talvez soasse estranha em outro país, mas vai de encontro à
tendência histórica de sincretismo religioso no Brasil.
Os dados, revelados por pesquisa feita em parceria por Iser
(Instituto de Estudos da Religião) e Quaest,
demonstram como o brasileiro pode transitar entre a identidade cristã
e conceitos tidos como heréticos por suas religiões
oficiais.
Levantamento foi realizado entre 14 de janeiro e 10 de fevereiro,
com 15 mil entrevistados de 16 anos ou mais, em 412 municípios.

O avanço dos sem religião
e a redução dos católicos permanecem
como as principais mudanças do cenário religioso

Religião também
varia por renda e raça: mais ricos são menos
religiosos, e pardos e pretos são mais evangélicos

Crenças dos Brasileiros


Praticas religiosas no Brasil

A maioria relata vivências intuitivas,
com 73% afirmando que já tiveram o pressentimento de que algo
ruim iria acontecer. O uso de folhas e ervas naturais para tratar
a saúde conta com a adesão de 58%.
Superstições populares
têm menos aderência. O costume de vestir roupa branca
no Ano Novo para trazer paz é praticado por 36% das pessoas,
enquanto fazer simpatias na virada do ano para atrair sorte é
hábito de 15% dos entrevistados. Já o gesto de bater
na madeira para evitar que algo ruim aconteça é adotado
por 31%.
O avanço dos sem religião e a redução
dos católicos permanecem como as principais mudanças
do cenário religioso
Espíritas e seguidores de religiões afrobrasileiras
aderem em maior escala a tudo isso. Entre os cristãos clássicos,
varia. A reencarnação é aceita por 2 em 10 evangélicos
e 4 em 10 católicos. A porção nos dois blocos
religiosos que declara crer em espíritos é a mesma,
68%, o que não necessariamente contradiz a doutrina cristã.
Não se fala apenas do pressuposto acolhido
por outras fés: almas humanas que, sem carne e osso, podem
ser contatadas por médiuns. "Você tem o Espírito
Santo e tem os espíritos maus. Então, não é
que a gente não acredite neles", diz o pastor Pedro Barreto,
da Comunidade Batista do Rio. Haveria nomenclatura melhor, segundo
ele: "Existe o que a gente poderia chamar de anjos e demônios".
Sobre a possibilidade de uma alma reencarnar
num novo corpo, o pastor é taxativo: isso não. Ele explica
sua visão religiosa com uma passagem da Epístola aos
Hebreus: "Aos homens está ordenado morrerem uma só
vez, vindo, depois disso, o juízo". Não tem por
que, então, vislumbrar algo diferente de "a gente viver
a vida aqui na Terra e depois continuar vivendo no céu",
diz.
A certeza de que existe céu ou
paraíso é compartilhada por 8 em 10 brasileiros. Concordam
com a premissa 92% dos evangélicos. Mesmo entre quem relata
não ter religião ela é pop: 64% a abraçam.
É sempre bom lembrar que esse grupo, 14%
da amostra, não é sinônimo de ateu ou agnóstico
(para quem não dá para provar nem que o divino existe,
nem que inexiste). Mesmo sem uma crença formal, 88% dessa turma
diz ter fé.
Essa convicção numa força
divina norteia o cotidiano da ampla maioria. Praticamente toda a população
(98%) acredita em Deus, e 73% dizem usar versículos bíblicos
como forma de ensinamentos para a vida.
O medo do mal-olhado assombra 2 em cada
3 entrevistados, enquanto 47% creem em feitiço, o que não
é incompatível com a fé cristã. Basta
pensar na ideia de batalha espiritual trabalhada em igrejas como a
Universal do Reino de Deus, que prega contra o que define como feitiçaria
e amarrações, associando problemas financeiros, familiares
ou de saúde a ações espirituais negativas.
O avanço dos sem religião
e a redução dos católicos permanecem
como as principais mudanças do cenário religioso

Apesar de 14% dizerem não
ter religião,
quase toda a população brasileira afirma ter fé

Mapa da religião
O levantamento também mapeia a
cartografia religiosa do país.
Dá para dividir a metade católica
do povo assim: 31% se dizem praticantes, 19%, não. O catolicismo
é mais forte no Nordeste, sobretudo no Piauí, onde 73%
professam essa fé. São também, em geral, pessoas
mais velhas (65% dos brasileiros com 60 anos ou mais).
Já evangélicos têm
maior concentração no Norte, com 4 em cada 10 locais,
sendo Amazonas o estado mais crente (45%). A presença é
forte também no Centro-Oeste (34%). Quanto mais jovem, maior
a probabilidade de declarar essa religião. O mesmo vale para
a população negra: 31% dos pretos e pardos são
evangélicos, índice que cai para 26% considerando apenas
os brancos.
As Assembleias de Deus abarcam 32% de
todos os fiéis, que são em grande parte pentecostais:
7 em cada 10. Os chamados desigrejados, que não se filiam a
um templo em particular, são 10%.
O vínculo com religiões
afro-brasileiras é maior entre os jovens

77% dos brasileiros não
tiveram outra religião anteriormente.
23% afirmam já ter mudado de religião

Entre quem mudou de religião,
86% dos pentecostais hoje foram
católicos. Entre religiões afro, 52% eram católicos
e 34% evangélicos

Para a antropóloga Lívia
Reis, do Iser, a pesquisa cumpre um valioso papel sociológico
ao organizar o pertencimento religioso em caixinhas, "principalmente
se consideramos a religião como um marcador social que deve
ser cruzado com outros para entender melhor o Brasil".
O levantamento, contudo, "bagunça
o seu próprio quadro classificatório" ao revelar
uma fluidez da religiosidade nacional. "Tivemos casos, por exemplo,
de uma pessoa autodeclarada católica praticante que frequentava
uma Assembleia de Deus e acreditava em reencarnação,
e quadros como esse são muito comuns quando falamos de Brasil."

PRÁTICAS RELIGIOSAS

A maioria dos brasileiros também
não costuma participar com
frequência de trabalhos voluntários nas suas igrejas
e centros

Para 49%, não faz diferença
o Brasil ser composto por pessoas de
muitas religiões. 25% acham que é bom, e 23% que é
ruim

A assessora de comunicação
Johanna Sinclair, 44, fiel de uma igreja batista em Campo Grande (MS),
que o diga. Converteu-se evangélica em 2008, mas não
exclui a hipótese da reencarnação. "Tenho
muita dificuldade de abrir mão dessa ideia, talvez porque tenha
sido criada nesse berço espírita, na verdade, sincrético,
né? Colégio de freira, kardecismo, umbanda também."
Tanto que às vezes vai a um centro espírita tomar passe,
conta. "Como boa brasileira, sou bem sincrética."
A experiência é outra para
a professora de matemática Thaís dos Santos, 33. Sua
mãe se converteu quando Thaís era bebê, então
foi uma vida toda como evangélica. Ela aponta não só
impacto espiritual, mas também social da sua fé. "Mais
do que discursos bonitos, é uma vivência real que alivia
a alma. Vi famílias que estavam sendo destruídas sendo
restauradas."
Para ela, o mundo espiritual é
real, e Jesus, "a fonte de água viva, quem bebe dela nunca
mais terá sede", diz Thaís, que frequenta em São
Paulo o Ministério Apostólico Jesus para as Nações.
"Quando ouvimos isso só como teoria, parece fanatismo.
Mas se bebemos dessa água, entendemos o que é vida de
verdade. Não dá para dizer que não gosta de abacaxi
sem nunca ter provado. Se você nunca provou dessa vida, não
sabe como é vivê-la de fato."
São relatos que, para Lívia
Reis, uma das coordenadoras da pesquisa, afastam a noção
dessa maioria cristã como uma massa homogênea.
O medo de feitiço e a crença
de 2 em cada 3 brasileiros em "demônio, diabo, inimigo,
besta-fera ou seja qual for o nome dado a essa figura do mal"
também chamam a atenção da antropóloga.
"Eles nos ajudam a entender por que a ideia de batalha espiritual
tem tanta adesão mesmo entre não pentecostais. Estamos
falando de um conjunto de crenças que, historicamente, foi
incorporado e compartilhado como um repertório cultural, não
apenas religioso."
Assim como a fé e a crença
em Deus, a Bíblia também está presente
na vida dos brasileiros como forma de ensinamento

Mais da metade, 54% da população
brasileira, se declara
como tradicional/conservador

> Vejam
abaixo o arquivo em pdf - com a pesquisa e outras tabelas