
O livro Espiritismo Judaico,
publicado em 2018 pela Editora Labrador, foi escrito pela pesquisadora
Andréa Kogan
e analisa o encontro entre a tradição judaica e o espiritismo
kardecista na cidade de São Paulo
por Eliana
Haddad
Correio Fraterno
O diálogo
entre a tradição judaica e a prática espírita
em São Paulo
Doutora em ciência da religião pela
PUC-SP, a tradutora e escritora Andréa Kogan é referência
acadêmica no estudo da intersecção entre a tradição
judaica e a doutrina espírita no Brasil, especialmente na cidade
de São Paulo.
Seu livro Espiritismo judaico
(Ed. Labrador) traz sua pesquisa. É o resultado da sua tese
de doutorado que investigou como alguns judeus conseguem entrelaçar
as raízes ancestrais do judaísmo aos princípios
de Allan Kardec, realizando práticas espíritas em suas
casas.
Nesta entrevista ao Correio Fraterno, ela, que
é judia e estuda a doutrina espírita, compartilha sua
experiência de observação, por mais de seis anos,
de famílias judaicas paulistanas praticantes do espiritismo,
bem como os desafios e a riqueza desses encontros, que retratam não
apenas um recorte importante na sua vida acadêmica, mas o exemplo
da boa convivência nos diálogos inter-religiosos.

Andréa Kogan
Vejam a entrevista
Como
você define o “espiritismo judaico”? É um
movimento ou uma releitura do judaísmo sob a ótica kardecista?
Espiritismo judaico
foi um nome que eu dei para o meu livro, baseado no doutorado que
realizei em ciência da religião na PUC-SP, sob a orientação
do filósofo, escritor e professor Luiz Felipe Pondé.
Estudei famílias judias que praticam o espiritismo. O título
da tese – “Vivência espiritual judaica na metrópole
paulistana: judeus-espíritas na contemporaneidade”
– era muito longo para um livro. Conversando com os editores,
chegamos no Espiritismo judaico. Trata-se, portanto, do nome de um
livro, não de uma corrente ou de uma nova religião.
Lembramos que é importante desmistificar o judaísmo,
mostrando suas várias facetas.
O que é, afinal, o judaísmo?
O judaísmo não é
só religião. Pode ser uma cultura, uma nacionalidade,
uma identidade, um povo etc. No Brasil vemos uma variedade de “crenças,
espiritualidades, religiões”: uma pessoa vai à
missa de manhã e a um terreiro à noite, por exemplo.
No caso dos judeus, em determinados lugares, o espiritismo caminha
lado a lado com o judaísmo. E tais praticantes dizem mesmo
que são judeus e espíritas.
Você é judia e é espírita?
Não. Eu só estudei o
espiritismo e acho que ter uma só religião, o judaísmo,
já está ótimo para mim. Mas tenho muito interesse
no espiritismo. Sempre tive muita curiosidade de entender outras religiões.
Nasci e cresci no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, um bairro
de múltiplas culturas e religiões, sempre vi as pessoas
irem à missa, falarem de candomblé, de umbanda. Só
mais tarde é que fui me interessar por isso.
Qual a convergência do judaísmo
com o espiritismo?
O judaísmo é uma religião
monoteísta. Os judeus acreditam num Deus único. Podemos
entender que o judaísmo é considerado uma religião
nos termos modernos, mas ele é muito mais. O judeu pode ser
um judeu ateu, um judeu espírita, um judeu budista etc. É
possível ser judeu por questão cultural, por identidade,
e nem todos cumprem as normas da Torá. É um povo que
caminha junto, que tem certos hábitos. Um grande pesquisador
no começo do século 20, Mordecai Kaplan (1881-1983)
defendeu que o judaísmo é uma civilização.
O que faz um judeu se sentir à vontade
para praticar o espiritismo sem sentir que esteja rompendo com sua
tradição ancestral?
Os judeus com quem eu falei para elaborar
meu estudo têm essas práticas pessoais dentro das suas
casas e levam muito bem essa dualidade, porque já nasceram
em lares espíritas. Vejo que a questão mais delicada
é a mediunidade. Todos sabemos que a mediunidade não
é fenômeno exclusivo espírita. Porém, no
Brasil, quando se diz que a pessoa é médium, já
se vincula o fato ao espiritismo. Acredito que existam muitos judeus
médiuns, que se conectam ao espiritismo por essa questão
e acabam conhecendo as obras de Allan Kardec; e o contrário
também é verdadeiro. Outra questão é realmente
o interesse e o conforto que o espiritismo traz. No judaísmo,
não se tem informações tão concretas do
além quanto há no espiritismo. A alma depois da morte
está em um lugar, no Jardim do Éden. Digo isso porque,
até hoje, nesses momentos de dor, as pessoas vêm falar
comigo sobre a questão das comunicações. Todos
querem algo mais concreto, querem o conforto de saber se seu ente
querido que partiu está bem.
Mas não existe nada parecido na religião
judaica?
Não. Porque, inclusive, a convocação
dos mortos é a única coisa proibida pela Torá;
qualquer tipo de necromancia. Há relatos bíblicos sobre
isso, há literatura mística também, mas não
é algo natural e aceito por todos. Até conheci pessoas
judias não ortodoxas com mediunidade que chegaram a ir em reunião
espírita, mas disseram: “não é para mim,
porque a Torá me proíbe de fazer isso”. Estou
falando de uma população brasileira laica, secular,
judia, que tem o espiritismo como sua prática. E é bastante
gente.
Nunca vamos ter números. Temos no Brasil 120
mil judeus, o que é muito pouco; o número de judeus
no mundo é cerca de 15 a 16 milhões. E jamais vão
responder se têm outra religião aqui no Brasil. Esse
assunto acaba ficando restrito à família, na intimidade.
Como você descobriu esses judeus espíritas
e conseguiu participar de suas reuniões?
Sou filha de pais liberais em relação
a esses assuntos. Fui criada num ambiente judaico, escola judaica
e clube judaico, mas não num ambiente religioso fechado. Tudo
era falado às claras. Aos 13 anos, li o livro do Roberto Muszkat
[Quando se pretende falar da vida, GEEM]. Ele havia desencarnado
aos 19 anos. Tinha acabado de entrar na faculdade de medicina para
seguir a mesma carreira do pai. O doutor David Muszkat era amigo do
meu pai e deu-lhe um exemplar desse livro. Li e fiquei muito impressionada
com as 22 cartas do Roberto, psicografadas pelo Chico Xavier.
Cursei Letras, fui dar aula, segui
a vida acadêmica e, quando resolvi fazer o doutorado, quis voltar
ao assunto. Da minha cabeça de adolescente eu lembrava do fato
de o Chico psicografar uma estrela de David e em cada uma das seis
pontas colocar o nome do Roberto e dos seus outros cinco irmãos.
Como é que o Chico fez isso se não sabia o nome deles?
Também havia nessas cartas palavras em hebraico. Isso foi uma
coisa que ficou muito presente para mim e, quando fui escrever a tese,
serviu também de base, mesmo porque o Chico era respeitado
por todos, independentemente da religião.
Como a família Muszkat chegou até
o Chico?
Após voltar bem para casa,
depois de uma cirurgia simples de garganta para a retirada das amígdalas,
Roberto teve um choque anafilático ao usar um medicamento nasal
ao qual era alérgico e partiu. A família, em choque,
foi levada a Uberaba, MG, para falar com o Chico.
Você acredita que essas famílias
judaicas que aderiram à prática do espiritismo tenham
sido influenciadas por essas comunicações, essas cartas
do Chico?
Sim, mas acho que há mais coisas.
Há também toda uma vinculação com a doutrina,
com os livros, com o estudo, com a prática da caridade, com
o conforto que o espiritismo oferece.
E como a comunidade judaica mais ortodoxa
recebeu o seu trabalho?
A comunidade ortodoxa não vai
ler meu livro, pois é uma “literatura laica, secular”.
Ao fazer palestras em ambientes judaicos, algumas pessoas ficam talvez
mais incomodadas. Mas é assim mesmo em todas as religiões
e espiritualidades. Quando você trata destas questões
delicadas, há sempre incômodos.
Você acha que esse trabalho inédito
traz uma contribuição cultural para a sociedade?
Sim, porque falo da riqueza cultural,
da diversidade brasileira, e precisamos tratar disso. Faz parte do
brasileiro ter duplas ou múltiplas religiosidades. As pessoas
se sentem legitimadas quando há um livro falando sobre o que
elas vivem.
Você encontrou na obra de Kardec algum
ponto que fosse contraditório a essa prática do espiritismo
por pessoas de outras religiões?
Não. Kardec é muito aberto, sempre colocando que o
espiritismo é uma filosofia e uma ciência. O Brasil é
o único país que tem o espiritismo como religião
e é, como sabemos, muito ligado ao cristianismo. É claro
que, ao envolver questões sobre Jesus, isso pode causar um
estranhamento para quem não entende o contexto dos livros.
Os judeus com os quais conversei entendem que Jesus não é
Deus, mas um profundo profeta, uma grande alma, sem considerar que
ele seja o salvador, o messias, o filho de Deus.
Eles conhecem a resposta de
O livro dos espíritos de que Jesus foi o espírito
mais elevado que esteve entre nós?
Todos eram grandes leitores e conhecedores
da obra de Kardec, fizeram muitos cursos. Quando essa questão
surgia, havia respeito, sem discussão. São lares que
realizam o Evangelho no Lar como uma tradição
de muitos anos, iniciada com os avós, depois os pais, com pequenas
modificações ao longo do tempo. Há a meditação
ou a oração de início, o estudo de O
livro dos espíritos, O livro dos
médiuns, O evangelho;
às vezes, algum outro livro ou texto trazido por alguém.
E, se for permitido ter algum tipo de comunicação, ela
acontece. Pode ser dos mentores da casa, às vezes alguma ligação
de alguém que já partiu e que vem dar o seu recado.
São reuniões familiares, com amigos e conhecidos.
A que você atribui o fato desses grupos
terem surgido e se consolidado?
Eu acho que é a força
familiar, pelo menos nesses dois grupos que eu frequentei. Claro que
há outras pessoas judias praticando o espiritismo, mas o que
eu posso falar sobre as famílias que pesquisei é que
são muito parecidas. Uma família não conhece
a outra e em ambas o núcleo familiar que começou há
décadas permanece unido com aquelas práticas.
Há jovens dando continuidade nas
duas casas pesquisadas?
Em uma das casas, uma sobrinha, que
tem a questão mediúnica bastante intensa, foi para a
umbanda e abriu um terreiro; escolheu outra linha espiritual. Na outra,
não sei se vejo continuidade. Acho que é uma questão
de organização também da vida moderna. As pessoas
dizem não ter tempo, porque toda religião exige sacrifício,
comprometimento. Isso a gente vê hoje até no cuidado
com o vocabulário, quando preferem dizer que não têm
religião, que têm espiritualidade. Não querem
se comprometer. Isso é um fenômeno contemporâneo.

O Brasil é mesmo um país
de práticas religiosas híbridas. Ninguém escapa
disso. Este brilhante livro da jovem pesquisadora Andréa Kogan
revela, a partir de um percurso teórico e empírico,
o encontro entre o judaísmo e o espiritismo na cidade de São
Paulo.
Esses judeus espíritas são ashkenazim e provenientes,
prioritariamente, do Leste Europeu. Chegam ao Brasil a partir da Segunda
Guerra Mundial e, então, iniciam suas práticas de “evangelhos
no lar”, que se constituem em estudo e prática da tradição
espírita kardecista. A pesquisadora frequentou muitas dessas
reuniões a fim de construir sua fundamentação
empírica.
A obra se ocupa também de uma sólida discussão
acerca do que seriam essas duas identidades, a judaica e a espírita,
a partir do que há de mais contemporâneo e consistente
na fortuna crítica sobre ambas as religiões.
Trata-se, assim, de um exemplo do que há de melhor em estudos
de religião no Brasil nos últimos anos.
Luiz Felipe Pondé
Sobre a
ObraOrigem:
O livro surgiu da tese de doutorado da autora em Ciência da
Religião pela PUC-SP, orientada pelo professor Luiz Felipe
Pondé.
Pesquisa de campo: A autora acompanhou durante anos
reuniões de famílias judaicas em São Paulo
Público estudado: A obra foca em judeus ashkenazim (vindos
do Leste Europeu) que chegaram ao Brasil após a Segunda Guerra
Mundial.
[1] (https://editoralabrador.com.br/livro/espiritismo-judaico/),
[2] (https://glorinhacohen.com.br/?p=45337),
[3] (https://www.oconsolador.com.br/ano20/978/especial2.html)
Principais Temas
Hibridismo religioso:
Mostra como esses judeus unem as raízes ancestrais judaicas
aos ensinamentos de Allan Kardec.
Práticas no lar: Descreve a realização
do "evangelho no lar" e estudos espíritas dentro
de lares judaicos.
Busca por respostas: Discute por que algumas pessoas
buscam na doutrina espírita novos significados para complementar
sua identidade religiosa.
[1] (https://www.oconsolador.com.br/ano20/978/especial2.html),
[2] (https://editoralabrador.com.br/livro/espiritismo-judaico/), [3]
(https://glorinhacohen.com.br/?p=45337)
Dados Técnicos
Número de páginas:
160.
Ano de lançamento: 2018.
ISBN: 978-8593058707.
[1] (https://www.amazon.com.br/Espiritismo-Judaico-Andrea-Kogan/dp/8593058701)
Link
- para o pdf da tese da autora:
"Vivência espiritual judaica na metrópole paulistana:
judeus-espíritas na contemporaneidade"
> https://sapientia.pucsp.br/bitstream/handle/19181/2/Andr%c3%a9a%20Kogan.pdf