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>  A epidemia de solidão e a importância dos lugares de encontro

 


    11/09/2026

 

 


Pesquisas mostram que pessoas solitárias são hipersensíveis a palavras sociais negativas,
como 'desprezado' ou 'rejeitado', e a rostos expressando emoções negativas
- JIALUN DENG/Jialun Deng/The New York Times



As pequenas interações que acontecem em ambientes públicos ajudam a combater o isolamento

Espaços de convivência transformam a cidade em uma ponte entre indivíduos



Estresse crônicos do dia-a-dia podem provocar tensão e ao aumento do isolamento social

 

No Brasil, 46,2% das mulheres e 35,3% dos homens se sentem sozinhos, segundo pesquisa feita pela ONG Family Talks, em parceria com a Market Analysis. A solidão contemporânea é agravada quando deixamos de circular pela cidade e frequentar lugares de encontro.

Diante desse cenário, praças e centros culturais de qualidade se tornam cada vez mais importantes para uma vida urbana menos isolada.

 

Como a solidão afeta o cérebro

A solidão crônica prejudica o bem-estar e a qualidade de vida. Tanto é que a OMS já a encara como uma questão de saúde pública. Pesquisas recentes indicam que a falta de conexão com outras pessoas pode até afetar o cérebro fisiologicamente, aumentando o risco de doenças neurodegenerativas.

O ser humano, bem como a maioria dos animais, não nasceu para ficar sozinho. Nos tempos das cavernas, a solidão reduzia as chances de sobrevivência. Por isso, pesquisadores acreditam que, do ponto de vista evolutivo, o mal-estar e o estresse causados pela solidão podem ter um papel fundamental: um alerta de que precisamos nos aproximar de outras pessoas em nome da própria continuidade da espécie.



O papel da cidade

A solidão não se combate apenas com grandes vínculos. Muitas vezes, ela vai se dissolvendo em pequenas interações: uma conversa rápida na fila, um olhar cúmplice, um comentário diante de uma obra em um museu. Esses contatos breves podem parecer insignificantes, mas contribuem para fortalecer o senso de comunidade e reduzir a percepção de isolamento que tantas pessoas experimentam hoje.

O desenho urbano é extremamente relevante para criar um ambiente favorável a essa convivência. Quando a vida acontece apenas entre casa, transporte e trabalho, as oportunidades de contato humano diminuem drasticamente. Já quando existem lugares que convidam as pessoas a permanecer, circular e compartilhar experiências, a cidade se transforma em uma ponte entre indivíduos.


Circulando a gente se encontra

Toda cidade precisa de espaços capazes de promover diferentes tipos de encontro — consigo mesmo, em momentos de contemplação, reflexão e pausa; com o outro, criando oportunidades para conversas, trocas e convivência; e com novas perspectivas de vida, por meio da cultura, da diversidade e do contato com pessoas e ideias diferentes.

É por isso que a arte, a arquitetura, os espaços de convivência e os equipamentos culturais desempenham um papel tão importante na saúde emocional coletiva.

Uma exposição pode ampliar nossa visão de mundo. Uma praça movimentada pode diminuir a sensação de invisibilidade. Um teatro, uma livraria ou um museu podem nos colocar em contato com visões capazes de inspirar mudanças, despertar curiosidade ou simplesmente nos fazer sentir compreendidos.

Para funcionar como lugar de encontro, um espaço precisa ser acolhedor. acolhedor. Isso envolve transporte público, acessibilidade, segurança, sombra, bancos, banheiros, atividades gratuitas e uma programação capaz de atrair pessoas de diferentes idades e origens.

Ambientes apenas bonitos, mas caros ou difíceis de alcançar tendem a permanecer vazios, ou a reproduzir as mesmas exclusões que alimentam o isolamento. Combater a solidão também envolve criar espaços nos quais mais pessoas possam sentir que pertencem.



Sair vale a pena

Com boa parte da vida acontecendo dentro de telas, sair de casa virou quase um exercício de resistência. Tanto porque exige deslocamento, tempo e disposição, quanto pelo desafio de se colocar no mundo: ver gente, ser visto, cruzar com o inesperado, se comunicar, etc. Mas o esforço compensa.

Ao sair e circular por ambientes compartilhados, reorganizamos nossos pensamentos, interrompemos os loops mentais que costumam se formar na solidão e ampliamos o repertório de estímulos. Recuperamos, ainda que por alguns instantes, a sensação de pertencimento e de cidadania. Passamos a nos perceber como parte de algo maior do que nossos problemas, preocupações e rotinas. Nenhum aplicativo entrega isso em casa.

Em um momento histórico em que a solidão é tratada como uma questão de saúde pública em diversos países, talvez uma das respostas esteja justamente em valorizar os lugares que nos colocam em contato uns com os outros

 

Entenda como a solidão crônica altera o cérebro

Sentir-se desconectado dos outros pode afetar a estrutura do órgão, aumentando o risco de doenças neurodegenerativas


Todo mundo se sente solitário de vez em quando — após, por exemplo, uma mudança para uma nova escola ou cidade, quando um filho vai para a faculdade, ou após a perda de um cônjuge.

Algumas pessoas, no entanto, experimentam solidão não apenas de forma transitória, mas cronicamente. Torna-se "um traço de personalidade, algo bastante persistente", explica Ellen Lee, professora associada de psiquiatria na Universidade da Califórnia, San Diego. Esses indivíduos parecem ter "essa emoção persistente que então molda seu comportamento".

Aumentam as pesquisas que mostram que esse tipo de solidão arraigada é prejudicial para nossa saúde e pode até mudar nossos cérebros, aumentando o risco de doenças neurodegenerativas. Aqui está o que os especialistas sabem sobre como a solidão crônica afeta o cérebro e algumas estratégias para lidar com isso.

 

Como a solidão altera o cérebro?

Os humanos evoluíram para serem criaturas sociais provavelmente porque, para nossos antepassados antigos, estar sozinho poderia ser perigoso e reduzir as chances de sobrevivência. Os especialistas pensam que a solidão pode ter surgido como um tipo único de sinal de estresse para nos incentivar a procurar companhia.

Com a solidão crônica, essa resposta ao estresse fica presa e se torna desvantajosa — de forma semelhante à maneira como a ansiedade pode transformar uma resposta útil ao medo em uma doença mental mal adaptativa.

"Pequenos episódios transitórios de solidão realmente motivam as pessoas a procurar conexão social", diz Anna Finley, pesquisadora pós-doutoral no Instituto de Envelhecimento da Universidade de Wisconsin-Madison.

"Mas em episódios crônicos de solidão, isso parece dar errado" porque as pessoas se tornam especialmente atentas a ameaças sociais ou sinais de exclusão, o que pode tornar assustador ou desagradável para elas interagir com os outros.

 

Pesquisas mostraram que pessoas solitárias são hipersensíveis a palavras sociais negativas, como "desprezado" ou "rejeitado", e a rostos expressando emoções negativas. Além disso, elas mostram uma resposta atenuada a imagens de estranhos em situações sociais agradáveis, sugerindo que até encontros positivos podem ser menos recompensadores para elas. No cérebro, a solidão crônica está associada a mudanças em áreas importantes para a cognição social, autoconsciência e processamento de emoções.

Como um sentimento subjetivo pode ter um efeito tão profundo na estrutura e funções do cérebro? Os cientistas não têm certeza, mas acham que quando a solidão desencadeia a resposta ao estresse, ela também ativa o sistema imunológico, aumentando os níveis de algumas substâncias inflamatórias. Quando experimentadas por longos períodos de tempo, o estresse e a inflamação podem ser prejudiciais para a saúde do cérebro, danificando neurônios e as conexões entre eles.


Como a solidão afeta a saúde cerebral a longo prazo?

Há anos, os cientistas sabem sobre uma conexão entre solidão e doença de Alzheimer e outros tipos de demência. Um estudo publicado no final do ano passado sugeriu que a solidão está associada à doença de Parkinson também.

"Até mesmo baixos níveis de solidão aumentam o risco, e níveis mais altos estão associados a um risco maior" de demência, afirma Nancy Donovan, diretora da divisão de psiquiatria geriátrica do Brigham and Women's Hospital.

Donovan mostrou que pessoas que pontuam mais alto em uma medida de solidão têm níveis mais altos das proteínas amiloide e tau — duas das marcas registradas da doença de Alzheimer— em seus cérebros mesmo antes de mostrarem sinais de declínio cognitivo.

Os cientistas pensam que o estresse e a inflamação causados pela solidão provavelmente contribuem para o início ou aceleração de doenças neurodegenerativas em adultos mais velhos. O ônus que a solidão impõe ao sistema cardiovascular, aumentando a pressão sanguínea e a frequência cardíaca, também pode ter um efeito prejudicial no cérebro e provavelmente desempenha um papel, diz Donovan.

A maneira mais geral pela qual a solidão afeta a saúde mental e física também pode contribuir para o declínio cognitivo. O sentimento está intimamente ligado à depressão, outra condição que aumenta o risco de demência. E pessoas solitárias são menos propensas a serem fisicamente ativas e mais propensas a fumar cigarros. "Todas essas coisas diferentes podem afetar como nossos cérebros envelhecem", afirma Lee. "Acho que existem muitos caminhos para chegar da solidão ao declínio cognitivo."

A maioria das pesquisas sobre solidão e neurodegeneração foi conduzida em adultos de meia-idade e mais velhos, então os especialistas não sabem se a solidão na infância ou na juventude carrega o mesmo risco. No entanto, Wendy Qiu, professora de psiquiatria e farmacologia experimental e terapêutica na Escola de Medicina da Universidade de Boston, descobriu que se as pessoas em meia-idade se sentirem solitárias apenas de forma transitória, não cronicamente, não há aumento do risco de demência. Com solidão transitória, o cérebro tem a "capacidade de se recuperar", diz Qiu. Mas se as pessoas "não têm ajuda para tirá-las da solidão, e por muito tempo se sentem sozinhas, isso será tóxico para o cérebro".


Como combater a solidão crônica?

Uma das recomendações mais comuns é um pouco óbvia: Tente fazer novos amigos. Seja por meio de aulas de arte, equipes esportivas, grupos de apoio ou oportunidades de voluntariado, o objetivo é se colocar em lugares onde as pessoas se reúnem.

Esses tipos de situações sociais planejadas têm resultados mistos. Lee diz que tendem a funcionar melhor se houver uma "identidade compartilhada" entre as pessoas envolvidas, como grupos especificamente para viúvas ou para pessoas com diabetes, para que tenham algo em comum.

O outro lado da equação é abordar as atitudes e padrões de pensamento de uma pessoa sobre interações sociais por meio da terapia cognitivo-comportamental. Essas abordagens tendem a ser um pouco mais eficazes, diz Lee, porque "vão à raiz" do problema, explorando o que torna difícil para uma pessoa interagir com os outros.

As estratégias podem parecer simples, mas são mais fáceis de dizer do que fazer. "É um problema espinhoso", diz Finley. "Caso contrário, eu não acho que teríamos o relatório do cirurgião geral dizendo que precisamos resolver isso."

 

 

Solidão na velhice aumenta em 31% o risco de desenvolver demência, diz estudo

Problema é questão de saúde pública, mas pode ser evitado

 

Sentir-se solitário na velhice aumenta em 31% o risco de desenvolver demências e eleva em 15% a probabilidade de comprometimento das funções cognitivas, caso da memória e da concentração. É o que mostra uma revisão de estudos que analisou autorrelatos de solidão e saúde neurológica de mais de 600 mil pessoas. Os resultados foram publicados em outubro na revista Nature Mental Health.

Cada vez mais, a solidão vem sendo estudada como um problema de saúde pública. Isso porque crescem as evidências de que a falta de conexão social está associada a várias doenças. Na nova pesquisa — liderada por cientistas da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual da Flórida, nos Estados Unidos — esse foi um fator de risco para demências por todas as causas, incluindo Alzheimer e demência vascular.

A associação persistiu mesmo quando foram feitos ajustes para controlar a depressão, o isolamento social e outros fatores de risco modificáveis para essas condições. "Esses resultados ressaltam a importância de examinar mais profundamente o tipo de solidão e os sintomas cognitivos para desenvolver intervenções eficazes que reduzam o risco de demência", escrevem os autores no artigo.


Solidão e isolamento social são coisas diferentes

O isolamento social acontece quando a pessoa não tem uma rede de suporte: mora sozinha, não tem família, não tem amigos, nem uma comunidade próxima com quem ela possa interagir e socializar. A solidão, por sua vez, é um sentimento que pode surgir mesmo que o indivíduo tenha uma convivência social.

"A pessoa pode viver em uma casa de repouso cheia de idosos e rodeada de profissionais, mas sentir solidão porque não está sendo amparada ou por entender que não recebe o suporte emocional de que precisa. Ou ela pode morar em uma casa com seus familiares, mas sentir solidão porque não recebe atenção", explica a geriatra Thaís Ioshimoto, do Hospital Israelita Albert Einstein.

Também existem diferenças entre comprometimento cognitivo e demência. Segundo Ioshimoto, o comprometimento cognitivo acontece quando uma pessoa passa a ter problemas envolvendo suas funções cerebrais: a memória começa a falhar, ela tem dificuldade de executar uma tarefa do dia a dia, não consegue lembrar palavras, tem problemas de linguagem ou compreensão.

"Com a idade, todos vão ter algum grau de comprometimento cognitivo, mas são comprometimentos leves e não devem impactar nas atividades do dia a dia", observa a médica.

Quando esse comprometimento começa a impactar nas atividades cotidianas, pode ser indício de um quadro de demência. Seria o caso, por exemplo, de uma pessoa que não consegue mais ir sozinha ao banco ou não se lembra de tomar seus remédios.

Segundo Ioshimoto, a interação social estimula diferentes regiões do cérebro. "Muito provavelmente, a solidão piora o comprometimento cognitivo devido à não interação com outras pessoas, além do sentimento de não se sentir amparada."


Cuidado e inclusão

A boa notícia é que esse é um fator de risco modificável e, por isso, existem várias ações que podem ser trabalhadas para reduzir o risco de demência. O mais importante é a velha fórmula conhecida: ter uma dieta saudável, praticar atividade física regularmente e manter interações sociais. Mas existem outros comportamentos que também são preventivos: reduzir a exposição à poluição, prevenir o déficit auditivo, ter escolarização e não fumar são alguns deles.

Na avaliação da geriatra do Einstein, os resultados do novo estudo são importantes porque a população mundial está envelhecendo e é preciso criar estratégias de cuidado e inclusão social das pessoas mais velhas como forma de evitar o etarismo (que é o preconceito baseado na idade de um indivíduo) e prevenir o desenvolvimento de demências.

"Muitas vezes, deixamos de interagir com as pessoas idosas porque é difícil, porque elas não ouvem direito, porque a compreensão está mais lenta, porque precisamos ter mais paciência. Muitas vezes, elas vão sentir mais solidão porque nós isolamos os idosos do convívio social", pontua Thaís Ioshimoto.

"Vivemos em uma sociedade que não valoriza o idoso e o deixa marginalizado. Precisamos trabalhar a cultura da inclusão."

 

Fontes:
> https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2026/09/a-epidemia-de-solidao-e-a-importancia-dos-lugares-de-encontro.shtml
> https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2024/05/entenda-como-a-solidao-cronica-altera-o-cerebro.shtml
> https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2024/11/solidao-na-velhice-aumenta-em-31-o-risco-de-desenvolver-demencia-diz-estudo.shtml

 

 

 

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