
Pesquisas mostram que pessoas solitárias
são hipersensíveis a palavras sociais negativas,
como 'desprezado' ou 'rejeitado', e a rostos expressando emoções
negativas
- JIALUN DENG/Jialun Deng/The New York Times
As pequenas interações
que acontecem em ambientes públicos ajudam a combater o isolamento
Espaços de convivência transformam a cidade em uma
ponte entre indivíduos

Estresse crônicos do dia-a-dia podem
provocar tensão e ao aumento do isolamento social
No Brasil, 46,2% das mulheres e 35,3% dos
homens se sentem sozinhos, segundo pesquisa feita pela ONG Family Talks,
em parceria com a Market Analysis. A solidão contemporânea
é agravada quando deixamos de circular pela cidade e frequentar
lugares de encontro.
Diante desse cenário, praças e centros culturais de qualidade
se tornam cada vez mais importantes para uma vida urbana menos isolada.
Como a solidão afeta
o cérebro
A solidão crônica prejudica o bem-estar
e a qualidade de vida. Tanto é que a OMS já a encara como
uma questão de saúde pública. Pesquisas recentes
indicam que a falta de conexão com outras pessoas pode até
afetar o cérebro fisiologicamente, aumentando o risco de doenças
neurodegenerativas.
O ser humano, bem como a maioria dos animais, não nasceu para
ficar sozinho. Nos tempos das cavernas, a solidão reduzia as
chances de sobrevivência. Por isso, pesquisadores acreditam que,
do ponto de vista evolutivo, o mal-estar e o estresse causados pela
solidão podem ter um papel fundamental: um alerta de que precisamos
nos aproximar de outras pessoas em nome da própria continuidade
da espécie.
O papel da cidade
A solidão não se combate apenas com
grandes vínculos. Muitas vezes, ela vai se dissolvendo em pequenas
interações: uma conversa rápida na fila, um olhar
cúmplice, um comentário diante de uma obra em um museu.
Esses contatos breves podem parecer insignificantes, mas contribuem
para fortalecer o senso de comunidade e reduzir a percepção
de isolamento que tantas pessoas experimentam hoje.
O desenho urbano é extremamente relevante para criar um ambiente
favorável a essa convivência. Quando a vida acontece apenas
entre casa, transporte e trabalho, as oportunidades de contato humano
diminuem drasticamente. Já quando existem lugares que convidam
as pessoas a permanecer, circular e compartilhar experiências,
a cidade se transforma em uma ponte entre indivíduos.
Circulando a gente se encontra
Toda cidade precisa de espaços capazes
de promover diferentes tipos de encontro — consigo mesmo, em momentos
de contemplação, reflexão e pausa; com o outro,
criando oportunidades para conversas, trocas e convivência; e
com novas perspectivas de vida, por meio da cultura, da diversidade
e do contato com pessoas e ideias diferentes.
É por isso que a arte, a arquitetura, os espaços de convivência
e os equipamentos culturais desempenham um papel tão importante
na saúde emocional coletiva.
Uma exposição pode ampliar nossa visão de mundo.
Uma praça movimentada pode diminuir a sensação
de invisibilidade. Um teatro, uma livraria ou um museu podem nos colocar
em contato com visões capazes de inspirar mudanças, despertar
curiosidade ou simplesmente nos fazer sentir compreendidos.
Para funcionar como lugar de encontro, um espaço precisa ser
acolhedor. acolhedor. Isso envolve transporte público, acessibilidade,
segurança, sombra, bancos, banheiros, atividades gratuitas e
uma programação capaz de atrair pessoas de diferentes
idades e origens.
Ambientes apenas bonitos, mas caros ou difíceis de alcançar
tendem a permanecer vazios, ou a reproduzir as mesmas exclusões
que alimentam o isolamento. Combater a solidão também
envolve criar espaços nos quais mais pessoas possam sentir que
pertencem.
Sair vale a pena
Com boa parte da vida acontecendo dentro de telas,
sair de casa virou quase um exercício de resistência. Tanto
porque exige deslocamento, tempo e disposição, quanto
pelo desafio de se colocar no mundo: ver gente, ser visto, cruzar com
o inesperado, se comunicar, etc. Mas o esforço compensa.
Ao sair e circular por ambientes compartilhados, reorganizamos nossos
pensamentos, interrompemos os loops mentais que costumam se formar na
solidão e ampliamos o repertório de estímulos.
Recuperamos, ainda que por alguns instantes, a sensação
de pertencimento e de cidadania. Passamos a nos perceber como parte
de algo maior do que nossos problemas, preocupações e
rotinas. Nenhum aplicativo entrega isso em casa.
Em um momento histórico em que a solidão é tratada
como uma questão de saúde pública em diversos países,
talvez uma das respostas esteja justamente em valorizar os lugares que
nos colocam em contato uns com os outros
Entenda como
a solidão crônica altera o cérebro
Sentir-se desconectado dos outros pode
afetar a estrutura do órgão, aumentando o risco de doenças
neurodegenerativas
Todo mundo se sente solitário de vez em quando —
após, por exemplo, uma mudança para uma nova escola ou
cidade, quando um filho vai para a faculdade, ou após a perda
de um cônjuge.
Algumas pessoas, no entanto, experimentam
solidão não apenas de forma transitória, mas cronicamente.
Torna-se "um traço de personalidade, algo bastante persistente",
explica Ellen Lee, professora associada de psiquiatria na Universidade
da Califórnia, San Diego. Esses indivíduos parecem ter
"essa emoção persistente que então molda seu
comportamento".
Aumentam as pesquisas que mostram que
esse tipo de solidão arraigada é prejudicial para nossa
saúde e pode até mudar nossos cérebros, aumentando
o risco de doenças neurodegenerativas. Aqui está o que
os especialistas sabem sobre como a solidão crônica afeta
o cérebro e algumas estratégias para lidar com isso.
Como a solidão altera o
cérebro?
Os humanos evoluíram para serem
criaturas sociais provavelmente porque, para nossos antepassados antigos,
estar sozinho poderia ser perigoso e reduzir as chances de sobrevivência.
Os especialistas pensam que a solidão pode ter surgido como um
tipo único de sinal de estresse para nos incentivar a procurar
companhia.
Com a solidão crônica,
essa resposta ao estresse fica presa e se torna desvantajosa —
de forma semelhante à maneira como a ansiedade pode transformar
uma resposta útil ao medo em uma doença mental mal adaptativa.
"Pequenos episódios transitórios
de solidão realmente motivam as pessoas a procurar conexão
social", diz Anna Finley, pesquisadora pós-doutoral no
Instituto de Envelhecimento da Universidade de Wisconsin-Madison.
"Mas em episódios crônicos de solidão, isso
parece dar errado" porque as pessoas se tornam especialmente
atentas a ameaças sociais ou sinais de exclusão, o que
pode tornar assustador ou desagradável para elas interagir
com os outros.

Pesquisas mostraram que pessoas solitárias
são hipersensíveis a palavras sociais negativas, como
"desprezado" ou "rejeitado", e a rostos expressando
emoções negativas. Além disso, elas mostram uma
resposta atenuada a imagens de estranhos em situações
sociais agradáveis, sugerindo que até encontros positivos
podem ser menos recompensadores para elas. No cérebro, a solidão
crônica está associada a mudanças em áreas
importantes para a cognição social, autoconsciência
e processamento de emoções.
Como um sentimento subjetivo pode ter um efeito tão profundo
na estrutura e funções do cérebro? Os cientistas
não têm certeza, mas acham que quando a solidão
desencadeia a resposta ao estresse, ela também ativa o sistema
imunológico, aumentando os níveis de algumas substâncias
inflamatórias. Quando experimentadas por longos períodos
de tempo, o estresse e a inflamação podem ser prejudiciais
para a saúde do cérebro, danificando neurônios e
as conexões entre eles.
Como a solidão afeta a saúde
cerebral a longo prazo?
Há anos, os cientistas sabem
sobre uma conexão entre solidão e doença de Alzheimer
e outros tipos de demência. Um estudo publicado no final do ano
passado sugeriu que a solidão está associada à
doença de Parkinson também.
"Até mesmo baixos níveis
de solidão aumentam o risco, e níveis mais altos estão
associados a um risco maior" de demência, afirma Nancy
Donovan, diretora da divisão de psiquiatria geriátrica
do Brigham and Women's Hospital.
Donovan mostrou que pessoas que pontuam
mais alto em uma medida de solidão têm níveis mais
altos das proteínas amiloide e tau — duas das marcas registradas
da doença de Alzheimer— em seus cérebros mesmo antes
de mostrarem sinais de declínio cognitivo.
Os cientistas pensam
que o estresse e a inflamação causados pela solidão
provavelmente contribuem para o início ou aceleração
de doenças neurodegenerativas em adultos mais velhos. O ônus
que a solidão impõe ao sistema cardiovascular, aumentando
a pressão sanguínea e a frequência cardíaca,
também pode ter um efeito prejudicial no cérebro e provavelmente
desempenha um papel, diz Donovan.
A maneira mais geral pela qual a solidão
afeta a saúde mental e física também pode contribuir
para o declínio cognitivo. O sentimento está intimamente
ligado à depressão, outra condição que aumenta
o risco de demência. E pessoas solitárias são menos
propensas a serem fisicamente ativas e mais propensas a fumar cigarros.
"Todas essas coisas diferentes podem afetar como nossos cérebros
envelhecem", afirma Lee. "Acho que existem muitos caminhos
para chegar da solidão ao declínio cognitivo."
A maioria das pesquisas sobre solidão e neurodegeneração
foi conduzida em adultos de meia-idade e mais velhos, então os
especialistas não sabem se a solidão na infância
ou na juventude carrega o mesmo risco. No entanto, Wendy Qiu, professora
de psiquiatria e farmacologia experimental e terapêutica na Escola
de Medicina da Universidade de Boston, descobriu que se as pessoas em
meia-idade se sentirem solitárias apenas de forma transitória,
não cronicamente, não há aumento do risco de demência.
Com solidão transitória, o cérebro tem a "capacidade
de se recuperar", diz Qiu. Mas se as pessoas "não têm
ajuda para tirá-las da solidão, e por muito tempo se sentem
sozinhas, isso será tóxico para o cérebro".
Como combater a solidão crônica?
Uma das recomendações
mais comuns é um pouco óbvia: Tente fazer novos amigos.
Seja por meio de aulas de arte, equipes esportivas, grupos de apoio
ou oportunidades de voluntariado, o objetivo é se colocar em
lugares onde as pessoas se reúnem.
Esses tipos de situações sociais
planejadas têm resultados mistos. Lee diz que tendem a funcionar
melhor se houver uma "identidade compartilhada" entre as pessoas
envolvidas, como grupos especificamente para viúvas ou para pessoas
com diabetes, para que tenham algo em comum.
O outro lado da equação
é abordar as atitudes e padrões de pensamento de uma pessoa
sobre interações sociais por meio da terapia cognitivo-comportamental.
Essas abordagens tendem a ser um pouco mais eficazes, diz Lee, porque
"vão à raiz" do problema, explorando o que torna
difícil para uma pessoa interagir com os outros.
As estratégias podem parecer
simples, mas são mais fáceis de dizer do que fazer. "É
um problema espinhoso", diz Finley. "Caso contrário,
eu não acho que teríamos o relatório do cirurgião
geral dizendo que precisamos resolver isso."
Solidão na velhice aumenta
em 31% o risco de desenvolver demência, diz estudo
Problema é questão
de saúde pública, mas pode ser evitado

Sentir-se solitário
na velhice aumenta em 31% o risco de desenvolver demências e eleva
em 15% a probabilidade de comprometimento das funções
cognitivas, caso da memória e da concentração.
É o que mostra uma revisão de estudos que analisou autorrelatos
de solidão e saúde neurológica de mais de 600 mil
pessoas. Os resultados foram publicados em outubro na revista Nature
Mental Health.
Cada vez mais, a solidão vem sendo estudada como um problema
de saúde pública. Isso porque crescem as evidências
de que a falta de conexão social está associada a várias
doenças. Na nova pesquisa — liderada por cientistas da
Faculdade de Medicina da Universidade Estadual da Flórida, nos
Estados Unidos — esse foi um fator de risco para demências
por todas as causas, incluindo Alzheimer e demência vascular.
A associação persistiu mesmo quando foram feitos ajustes
para controlar a depressão, o isolamento social e outros fatores
de risco modificáveis para essas condições. "Esses
resultados ressaltam a importância de examinar mais profundamente
o tipo de solidão e os sintomas cognitivos para desenvolver intervenções
eficazes que reduzam o risco de demência", escrevem os autores
no artigo.
Solidão e isolamento social são
coisas diferentes
O isolamento social acontece quando a pessoa não tem uma rede
de suporte: mora sozinha, não tem família, não
tem amigos, nem uma comunidade próxima com quem ela possa interagir
e socializar. A solidão, por sua vez, é um sentimento
que pode surgir mesmo que o indivíduo tenha uma convivência
social.
"A pessoa
pode viver em uma casa de repouso cheia de idosos e rodeada de profissionais,
mas sentir solidão porque não está sendo amparada
ou por entender que não recebe o suporte emocional de que precisa.
Ou ela pode morar em uma casa com seus familiares, mas sentir solidão
porque não recebe atenção", explica a geriatra
Thaís Ioshimoto, do Hospital Israelita Albert Einstein.
Também existem
diferenças entre comprometimento cognitivo e demência.
Segundo Ioshimoto, o comprometimento cognitivo acontece quando uma pessoa
passa a ter problemas envolvendo suas funções cerebrais:
a memória começa a falhar, ela tem dificuldade de executar
uma tarefa do dia a dia, não consegue lembrar palavras, tem problemas
de linguagem ou compreensão.
"Com a idade, todos vão ter algum grau
de comprometimento cognitivo, mas são comprometimentos leves
e não devem impactar nas atividades do dia a dia", observa
a médica.
Quando esse comprometimento começa a impactar
nas atividades cotidianas, pode ser indício de um quadro de demência.
Seria o caso, por exemplo, de uma pessoa que não consegue mais
ir sozinha ao banco ou não se lembra de tomar seus remédios.
Segundo Ioshimoto, a interação social estimula diferentes
regiões do cérebro. "Muito provavelmente, a solidão
piora o comprometimento cognitivo devido à não interação
com outras pessoas, além do sentimento de não se sentir
amparada."
Cuidado e inclusão
A boa notícia é que esse é um fator de risco modificável
e, por isso, existem várias ações que podem ser
trabalhadas para reduzir o risco de demência. O mais importante
é a velha fórmula conhecida: ter uma dieta saudável,
praticar atividade física regularmente e manter interações
sociais. Mas existem outros comportamentos que também são
preventivos: reduzir a exposição à poluição,
prevenir o déficit auditivo, ter escolarização
e não fumar são alguns deles.
Na avaliação da geriatra do Einstein, os resultados do
novo estudo são importantes porque a população
mundial está envelhecendo e é preciso criar estratégias
de cuidado e inclusão social das pessoas mais velhas como forma
de evitar o etarismo (que é o preconceito baseado na idade de
um indivíduo) e prevenir o desenvolvimento de demências.
"Muitas vezes, deixamos de interagir com as pessoas
idosas porque é difícil, porque elas não ouvem
direito, porque a compreensão está mais lenta, porque
precisamos ter mais paciência. Muitas vezes, elas vão
sentir mais solidão porque nós isolamos os idosos do
convívio social", pontua Thaís Ioshimoto.
"Vivemos em uma sociedade que não valoriza o idoso e o
deixa marginalizado. Precisamos trabalhar a cultura da inclusão."
Fontes:
>
https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2026/09/a-epidemia-de-solidao-e-a-importancia-dos-lugares-de-encontro.shtml
> https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2024/05/entenda-como-a-solidao-cronica-altera-o-cerebro.shtml
> https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2024/11/solidao-na-velhice-aumenta-em-31-o-risco-de-desenvolver-demencia-diz-estudo.shtml
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