Um influente estudo publicado pela revista científica
The Lancet em 2001 apontava que um em cada
dez pacientes que sofrem parada cardíaca volta à vida
com uma nova memória profunda. Essa chamada "experiência
de quase morte" (EQM) é tão vívida e convincente
que muitas vezes reformula a visão do paciente sobre o mundo,
a vida após a morte e sua própria identidade.
Ao contrário das experiências fragmentadas ou desorganizadas
observadas em alucinações ou delírios, as narrativas
de EQMs são caracterizadas por um alto grau de clareza e persistência.
Quando questionados pelos pesquisadores, muitos pacientes identificaram
a EQM como o momento mais importante de suas vidas.
Apesar de décadas de pesquisa acadêmica sobre essas experiências,
pouco sobre as EQMs foi incorporado ao currículo das faculdades
de medicina. Os pesquisadores de EQMs Marieta Pehlivanova e Bruce
Greyson realizaram uma pesquisa com 215 médicos da Universidade
da Virgínia em 2024. Embora muito poucos deles tivessem visões
patologizantes ou desdenhosas sobre as EQMs, esta pesquisa mostrou
que a principal barreira para aceitá-las era o conhecimento.
Consequentemente, a maioria dos médicos consultados expressou
o desejo de aprender mais sobre elas.
Esse desafio não era desconhecido. De muitas maneiras, ele
ecoava experiências de trabalho na área dos psicodélicos,
outro domínio que envolve experiências profundas e muitas
vezes transformadoras que continuam sendo mal compreendidas na medicina
convencional.
Apesar do uso generalizado e do crescente interesse científico
pelos psicodélicos, o Laboratório de Ecologias e Estilos
de Vida Saudáveis (HEAL) da Universidade Simon Fraser constatou
a falta de orientações claras e baseadas em evidências
sobre o tema, tanto para o público quanto para os profissionais
de saúde. Em resposta, o HEAL Lab desenvolveu um guia de saúde
pública para o uso de baixo risco de psilocibina e está
atualmente desenvolvendo orientações baseadas em evidências
para a terapia assistida por psicodélicos de transtornos de
saúde mental e de uso de substâncias.
Para abordar uma lacuna semelhante nas orientações baseadas
em evidências no campo das experiências de quase morte,
havia a necessidade de reunir a literatura científica disponível
e fornecer guias práticos para médicos e outros profissionais
que buscam entender melhor essas experiências.
Meu artigo "Cinco coisas a saber sobre:
Experiências de quase morte", publicado
no periódico Canadian Medical Association Journal (CMAJ),
oferece orientações sucintas sobre o que são
as EQMs e o que fazer a respeito delas. Talvez o ponto mais relevante
do artigo seja que essas experiências não devem ser vistas
como um comprometimento ou distúrbio mental, pois muitas vezes
resultam em mudanças positivas na saúde mental.
Também reconheci o elefante na sala: as EQMs frequentemente
apresentam narrativas do que os pacientes percebem como uma vida após
a morte. Elas também podem descrever experiências extracorpóreas,
que podem ou não ser verificáveis. No entanto, estruturas
centradas no paciente e baseadas em evidências sugerem que os
profissionais de saúde devem validar e explorar essas experiências
com abertura e sem julgamentos.
O que é uma experiência de quase
morte?
A principal característica da EQM é
um forte sentimento de pertencimento ou de estar "de volta ao
lar", o que muitas vezes se traduz em uma profunda sensação
de fusão com tudo. Os pesquisadores se referem a esse fenômeno
como dissolução do ego.
É difícil estabelecer uma cronologia específica
das EQMs, pois as pessoas muitas vezes não conseguem sentir
a passagem do tempo. Elas diriam que o tempo parou ou que não
havia tempo. É nesse contexto que surgem imagens vívidas
de memórias. Não se trata de memórias comuns,
mas de versões intensificadas, pois evocam não apenas
os sentimentos do paciente, mas também os de outras pessoas
que compartilharam cada momento com ele. Muitos chegam a um ponto
sem volta, como um túnel ou uma ponte. O estudo AWAreness
during REsuscitation II (AWARE
II) inclui uma descrição temática abrangente
das EQMs em seu material suplementar.
As EQMs são frequentemente avaliadas por meio da Escala de EQM de Greyson,
ou de um instrumento semelhante que avalia a intensidade desses diferentes
aspectos. Usando esse método, pesquisadores identificaram uma
afinidade entre as EQMs e outros estados alterados de consciência,
particularmente aqueles produzidos por psicodélicos como a
dimetiltriptamina
(DMT). Compreender essa afinidade é útil porque estudos
subsequentes sugerem que experiências com psicodélicos
podem alterar significativamente traços psicológicos
que são considerados os componentes da nossa personalidade.
Pensar nas EQMs como uma experiência psicodélica ajuda
a entender por que os médicos precisam estar preparados para "conter"
um paciente que retorna da beira da morte. Em outras palavras, para
garantir a segurança psicológica do paciente e a integração
adequada da EQM. Estudos clínicos mostram consistentemente
que os efeitos positivos duradouros
dos psicodélicos (sobre depressão, Transtorno de Estresse
Pós-Traumático, ansiedade e traços de personalidade
como a abertura) estão fortemente associados ao que acontece
antes, durante e após a sessão. Nesse contexto, atitudes
desdenhosas podem
ser traumatizantes para os pacientes.
Além disso, as EQMs frequentemente resultam em mudanças
positivas gerais, com os pacientes muitas vezes encontrando um maior
senso de significado, um medo reduzido da morte e maior prosocialidade.
Essas características colocam as experiências de quase
morte fora do perfil dos distúrbios psiquiátricos.
Verificação
de percepções anômalas
Experiências extracorpóreas são às vezes
relatadas durante as EQMs, com as pessoas descrevendo a sensação
de estar fora de seu próprio corpo e capazes de observar o
que está acontecendo ao seu redor. Um subconjunto de experiências
extracorpóreas envolve percepções verificáveis.
Em outras palavras, o paciente se lembra de ter percebido algo que
não deveria ter percebido enquanto estava inconsciente (além
da simples reconstrução da memória).
A Associação Internacional de Estudos sobre Experiências
de Quase Morte publicou uma compilação
de mais de 100 casos na segunda edição de The Self
Does Not Die em 2023. Isso inclui descrições de
objetos em locais que estavam fora do alcance das pessoas na sala,
mesmo que elas estivessem tentando olhar. Por exemplo, "uma moeda
de 25 centavos de 1985 caída no canto direito do monitor cardíaco
de 2,4 metros de altura", que um médico encontrou ao subir
em uma escada. Outro exemplo é um número de série
de 12 dígitos no topo de um respirador de 2,1 metros, mencionado
por um paciente com transtorno obsessivo-compulsivo. Nesse caso, o
número de série foi confirmado por um técnico.
Discuti meu relato favorito em um episódio de podcast produzido
pela CMAJ. Nesse caso, o paciente parece ter passado pelo teto para
uma sala adjacente.
A maioria dos exemplos do livro provém de profissionais de
saúde que escreveram ou falaram sobre eles, já que a
definição de caso exigia um testemunho em terceira pessoa.
Embora a precisão desse tipo de relato seja frequentemente
contestada, estudos clínicos prospectivos também encontraram
alguns casos de percepção verídica, o que significa
que o paciente foi capaz de fornecer observações verificáveis
e precisas enquanto estava inconsciente. Os autores do estudo AWAreness during
Resuscitation (AWARE), por exemplo, escreveram:
"Nosso caso verificado de consciência
visual quando a função cerebral está normalmente
ausente ou, na melhor das hipóteses, gravemente comprometida,
é desconcertante? nossas descobertas não sugerem que
a consciência visual durante a parada cardíaca seja provavelmente
alucinatória ou ilusória, uma vez que as lembranças
corresponderam a eventos reais verificados."
O estudo da percepção verídica em experiências
de quase morte apresenta desafios metodológicos para os cientistas.
Os pesquisadores do estudo AWARE, por exemplo, colocaram mais de 1.000
placas em cinco hospitais a alturas elevadas, voltadas para o teto
(um ponto de observação visível apenas próximo
ao teto). Apesar de acompanharem mais de 2.000 pacientes com parada
cardíaca, apenas um número muito pequeno sobreviveu
e foi entrevistado. Dentre eles, dois relataram experiências
extracorpóreas, e nenhuma ocorreu onde os pesquisadores haviam
colocado as placas.
Uma inovação recente na área envolve a criação
de uma escala de veracidade de EQM
que os médicos podem aplicar para quantificar a precisão
das percepções e a capacidade perceptiva do paciente
naquele momento. Isso permite uma abordagem colaborativa para a coleta
de dados, com maior probabilidade de gerar resultados cumulativos
a longo prazo.
Embora o estudo da veracidade dos relatos de experiências extracorpóreas
seja cientificamente atraente, os médicos devem priorizar o
cuidado com o paciente. Em vez de interromper a conversa, eles devem
normalizá-la perguntando se o paciente se lembra de algo do
momento em que esteve ausente. Se for relatada uma experiência
de quase morte, eles devem informar ao paciente que isso é
comum e permitir que ele compreenda sua própria experiência.
Além disso, podem encaminhar o paciente a grupos de apoio que
desenvolveram recursos adequados para ajudá-lo a processar
sua experiência.
Em última análise, promover uma forte aliança
terapêutica é essencial tanto para apoiar pacientes que
consideram a experiência angustiante quanto para facilitar uma
investigação científica significativa.
* Jorge Andrés Delgado-Ron é analista
de dados sênior da Faculdade de Ciências da Saúde
da Simon Fraser University
> https://theconversation.com/profiles/jorge-andres-delgado-ron-2693619