O jornal Estado de São Paulo publicou reportagem
sobre a busca da felicidade no dia-a-dia
Passei um mês em busca da felicidade. O que
aprendi no caminho - e que você pode usar na sua vida
Ela pode ser confundida com euforia e não
significa uma vida livre de tristezas, mas o que ‘dispara’
a felicidade na gente? Fui atrás de especialistas e de experiências
para descobrir
O que é felicidade para você?
Para alguns, ela significa uma vida livre de doenças e tristezas.
Outros acham que basta um respiro no meio do dia para que ela chegue
sem avisar. Há os que juram se tratar de uma questão
de fé, outros de euforia contínua, e gente que acha
que é tão somente uma imposição dos nossos
tempos turbinada pelas redes sociais. Para mim, o conceito sempre
esteve ligado a cachorros. Sim, cachorros.
Sempre achei incrível como eles são
capazes de sumir com os aborrecimentos do dia a dia em segundos, encher
uma casa de caos e alegria e, no meu caso, trazer uma espécie
de serenidade que gosto de chamar de meu “mood zen”. Conversando
com a Monja Coen sobre o assunto (ela tem cachorros também,
mas o papo foi sobre felicidade), cheguei à conclusão
de que é o mesmo sentimento que ela chama de “contentamento
com a existência”. Profundo, né?

Dopamine Land, exposição imersiva
em SP que tem como objetivo soltar a criança interior
que mora dentro de todo adulto Foto: Tiago Queiroz/Estadão
“A felicidade não é um estado
permanente de euforia — as pessoas confundem euforia e alegria
com felicidade. É um contentamento com a existência.
Buda dizia: a pessoa que conhece o contentamento é feliz
mesmo dormindo no chão. Quem não conhece o contentamento
é infeliz num palácio celestial”, afirma ela
e continua: “E o que é esse contentamento com a existência?
Não significa que está tudo bem o tempo todo nem que
as coisas e as pessoas são como eu imaginei que fossem, mas
que sou capaz de lidar com aquilo que está acontecendo de
forma mais sábia”.
Para isso, diz a Monja Coen,
ajuda muito se você se conhecer. “Conhecer nossas emoções
e nossos sentimentos é importante, não para controlá-los,
mas para saber como eu respondo ao mundo. Se alguém fecha meu
carro na rua, posso ficar muito brava, mostrar um dedo, xingar e buzinar.
Mas também posso pensar: ‘O que será que aconteceu
com essa pessoa?’ e ‘que bom que consegui desviar o carro,
não bati’. Então, temos de saber como respondemos
às provocações do mundo”, afirma.
Estado de bem-estar e felicidade inclui também
o mal-estar e a tristeza, afirma a escritora e palestrante.
E nesse mundo caótico com constantes
fechadas no trânsito, literais ou não, está bem
claro que felicidade não é a ausência da tristeza
— pelo contrário, ela faz parte do processo, ou seja,
da vida. Quem explica direitinho é o historiador Leandro Karnal,
colunista do Estadão.
“Impossível (uma vida
livre de tristeza). Vamos começar por um absurdo: você
atingiu, por um meio mágico, a imortalidade. Sua saúde
e juventude serão eternas. Perfeito? Todos que você
ama morrerão e você verá todas as pessoas ao
seu redor decaindo. Você acaba de se tornar o homem mais rico
do universo. Pode comprar tudo. Bom? O dinheiro sem dificuldade
e compra sem restrição têm um limite de recompensa.
Desaparece a alegria da conquista e você repete (Arthur) Schopenhauer
(filósofo alemão): oscilação entre o
desejo e o tédio por possuir. A felicidade diz respeito a
lidar com a contingência e a falta. A alegria da happy hour
existe pelo diálogo com as outras ‘hours’. O
mesmo vale para férias, saúde, comida, sexo: a falta
dimensiona a alegria da conquista.”
E por que, então, algumas pessoas
parecem mais felizes do que outras? Há algumas explicações,
especialmente na ciência, mas eu gostei de como Karnal definiu
a coisa: “Há muitos fatores. Por vezes, história
e geografia: é mais fácil ser feliz no Butão
e na Dinamarca de 2025 do que na Faixa de Gaza. Por vezes, características
psíquicas: há pessoas com depressão forte e isso
foge ao controle delas. Tirando os casos extremos, a felicidade é
uma espécie de bonsai de cultivo constante, e isso é
mais complexo do que entregar-se à infelicidade. Existe um
outro fator: quando alguém se diz mais feliz, especialmente
nas redes, pode ser um narrador melhor do que outro, e não
necessariamente alguém mais feliz. A pergunta parece indicar
comparação, e comparar-se é o atalho mais eficaz
para a infelicidade.”
Captou? Pare de se comparar, especialmente no mundo virtual, onde
quase nada é o que parece.
Neurotransmissores
E a ciência nisso tudo? Bom, ela explica que a sensação
de felicidade passa por um complexo sistema cerebral de sinapses químicas,
que tem seus gatilhos em neurotransmissores não exatamente
desconhecidos de todos nós. Dopamina, serotonina, endorfina
e ocitocina atuam como guerreiros dentro do nosso corpo, prontos para
disparar sinais de felicidade.
Entre os quatro, a dopamina talvez seja a mais conhecida. Associada
à motivação e à satisfação,
ela tem relação direta com a sensação
de prazer e recompensa – é quem acende a expectativa
antes de um objetivo ser alcançado. Nas palavras do neurocirurgião
e neurocientista Fernando Gomes: um curinga.
“A dopamina tem essa questão
do circuito de recompensa cerebral preponderante. Ela, de fato,
tem relação direta com a motivação,
de buscar algo que te traga perto da felicidade”, diz. Além
disso, segundo o médico, ela está envolvida no rolê
dos outros neurotransmissores. “Quando faço uma corrida
de rua, com um tempo legal, ganho uma medalha, vem a dopamina junto
com a endorfina. Ela está sempre envolvida.”

Nas relações interpessoais está
a possibilidade de sentir e perceber a felicidade, diz Fernando
Gomes.
Já que falamos da endorfina, a queridinha dos atletas é
liberada durante a prática de atividades físicas e atua
como um analgésico natural, diminuindo a percepção
de dor e gerando, de novo, sensação de prazer e satisfação.
“Por exemplo, um jogador de futebol, que joga a partida inteira,
sofre uma lesão e continua jogando. O dito popular fala que
ele está com o ‘corpo quente’, mas na verdade está
com o circuito que tem relação com a nossa percepção
de dor inundado de endorfina. É como se ele não sentisse
a lesão”, afirma Gomes.
A serotonina, por sua vez, está ligada à estabilidade
do humor. Em níveis baixos, pode ser associada a quadros de
depressão e ansiedade. “Quando você está
com a serotonina bem, estável, é mais fácil escolher
a opção mais otimista, menos negativa, mas não
menos realista, de uma situação”, diz o médico
Fernando Gomes, que é também professor livre-docente
da FMUSP. Dar boas risadas pode ser um caminho para aumentar a sua.
E a ocitocina? Essa tem a ver com afeto e interação
social e é liberada em momentos de carinho. “O toque
físico é algo que faz com que esse neurotransmissor
tenha chance de ser liberado e usado como estimulante bioquímico
da formação de vínculo”, afirma Gomes.
Ela está relacionada também à maternidade.
Interação social é
o caminho
Agora, sabe o que amarra tudo isso
que falamos acima? Interação social. Estudo publicado
em agosto deste ano na revista Social Psychological and Personality
Science mostrou que as pessoas relataram ser mais felizes fazendo
praticamente qualquer coisa com outros indivíduos do que sozinhas.
Foram analisados 80 tipos diferentes de atividades, como fazer compras
e correr, e os benefícios da coletividade foram verificados
até mesmo naquelas que as pessoas costumam fazer sozinhas,
como ler e fazer artesanato.
“Às vezes é chato
mesmo a gente sair da nossa zona de conforto, ir até as pessoas
e então se relacionar de uma forma mais aberta para permitir,
através do toque, a (liberação da)
ocitocina, da troca de presentes e da troca de presença,
a liberação da dopamina. Talvez fazer uma coisa bacana
junto, ver um filme ou dançar uma noite inteira, ter ali
a endorfina sendo liberada. Ou até mesmo dar boas risadas
e ter o nosso nível de serotonina elevado, para a gente ter
a sensação de pertencimento”, pontua o médico
Fernando Gomes.
E é possível construir
a felicidade? Para Gustavo Arns, especialista no estudo da felicidade
no Brasil e criador do Congresso Internacional da Felicidade, que
acontece há 8 anos em Curitiba, a resposta é simples:
sim. Ele recorre ao professor Tal Ben-Shahar, da Universidade Harvard,
para explicar que ela pode ser uma combinação de bem-estar
físico, emocional, intelectual, relacional e espiritual.
“Quando cuidamos de cada um
desses componentes, fazemos a construção da felicidade.
Para isso, hábitos e comportamentos podem ajudar, como a prática
de exercícios físicos, cuidados com o sono, gerenciamento
do estresse. São comportamentos muito importantes para a construção
desse estado (de felicidade)”, afirma.
Dito isso, resolvi passar um mês
procurando a felicidade nos lugares mais insuspeitos. Conto abaixo
o que encontrei pelo caminho.
O mundo
da dopamina
Se a dopamina é a “chefona”
dos neurotransmissores, é por ela que vamos começar.
Para isso, fui parar no Dopamine Land, uma exposição
interativa que tem como objetivo soltar a criança interior
que mora dentro de todo adulto e deixar as crianças de verdade
enlouquecidas — e sem telas por perto.
A visita, de mais ou menos uma hora, segue um roteiro que começa
com brincadeiras infantis, como rabiscar paredes ou perseguir balões
em uma espécie de túnel de vento. Para os pequenos,
salas como a Toca Tátil, que estimula a curiosidade multissensorial,
são um convite para rolar pelo chão e se agarrar a paredes
fofinhas que estão lá pra isso mesmo.
A energia sobe nas salas seguintes — são
nove no total —, com destaque para a Laguna Pôr do Sol,
uma piscina de bolinhas gigante e muito divertida, com cenário
e iluminação que lembram uma praia no fim do dia. Prato
cheio para um monte de selfies.
Dopamine Land

Sala impressiona com show de luz, espelhos e
som na Dopamine Land,
exposição imersiva em SP Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Segundo Matheos Cunha Cyrino, gerente
de projetos da Fever, que montou a exposição aqui no
Brasil, a experiência foi pensada para que o nível de
energia aumentasse ao longo do passeio, até atingir o ápice
na Arena das Almofadas, minha sala preferida, onde gente séria
vira criança fazendo guerra de travesseiros numa cama elástica
gigante.
A partir daí, a ideia é começar a acalmar o visitante,
com espaços pensados para o relaxamento, culminando na última
sala, uma lindíssima experiência contemplativa de luz,
espelhos e som. Como eu saí de lá? Com uma mistura de
entusiasmo e encantamento.
Quer experimentar? A Dopamine Land está montada no Shopping
Eldorado, do lado da praça de alimentação. Ela
ficará aberta até agosto de 2026. Ingressos e informações:
https://dopaminelandexperience.com/sao-paulo/
Tênis no pé, medalha no peito,
endorfina no corpo
Próxima experiência: colocar a endorfina
para agir. Como ela é liberada durante a prática de
atividades físicas, especialmente as aeróbicas, nada
melhor do que uma corrida para ver a mágica acontecer.
Motivada pela reportagem, me inscrevi
logo em três provas de rua em dez dias, em locais diferentes
de São Paulo. Atletas experientes costumam reportar o fenômeno
conhecido como “runner’s high”, ou o “barato
do corredor”, um estado de prazer e clareza mental após
percorrer longas distâncias e fazer muito esforço físico.
É, em outras palavras, a endorfina agindo a milhão.
Não foi meu caso, já que o esforço foi moderado
e na última corrida eu queria mesmo era desistir de tudo. Mas
a sensação boa de dever cumprido está comigo
toda vez que olho minhas medalhas penduradas em um lugar estratégico
lá em casa.
Atletas experientes costumam reportar o fenômeno
conhecido como 'runner’s high', ou o 'barato do corredor'.
Na foto, corrida da Mulher-Maravilha, no centro de SP Foto: Ana Carolina
Sacoman/Estadão
As mil e
uma utilidades da meditação
Todo mundo que eu ouvi para esta reportagem
falou sem pestanejar: a meditação é importante
nesse processo todo de modular o humor e equilibrar o cérebro.
Nada mais natural, então, do que experimentar uma aula.
Procurei a Juliana Brescovici Carvalhaes,
professora no Instituto Nacional de Meditação. Além
de uma aula de meditação guiada maravilhosa, ela explicou
o que acontece com a gente quando meditamos. Em resumo: ativamos o
que presta e desativamos o que não agrega ao nosso cérebro.
“Na hora que você sai
da meditação, o que está acontecendo? Atenção,
foco, criatividade, memória, tudo está bombando. Quando
você medita, ativa a serotonina, a dopamina, a ocitocina e
a prolactina. É como se você mandasse uma cascata de
informações para o seu sistema nervoso central, de
que está tudo bem, que você está em segurança,
por causa da prolactina; que está sentindo prazer, por causa
da dopamina; que está feliz, por causa da serotonina; e que
você está confortável, por causa da ocitocina”,
conta Juliana. “O que era urgente deixou de ser. Estudos mostram
que você reduz em 30% o cortisol, que é o ‘hormônio
do estresse’, após a meditação.”
Então, quer dizer que você
não vai se estressar mais? Não é bem assim, segundo
ela. “Você ainda vai se estressar, mas, depois, vai voltar
para o modo de equilíbrio. Você treina o seu cérebro
para entrar no estresse e voltar para o repouso.”
Minha experiência? Foi relaxante, mas ficou claro que é
uma atividade que precisa de alguma prática constante para
ver resultados mais concretos. Ainda assim, vale a pena.
Quer experimentar? Vá lá em https://institutodemeditacao.com.br/
ou no Instagram: @meditacaoinm

Escolha o seu mantra
A advogada Andrea Sucupira (à dir.) faz aula de meditação
com sua mentora, Juliana Brescovici Carvalhaes.
Foto: Daniel Teixeira/Estadão
E voltamos
aos cachorrinhos
A ocitocina é liberada em momentos de
carinho e afeto, o que para mim significa “amassar” alguns
cãezinhos fofos. Com isso em mente, me inscrevi em uma aula
de yoga com filhotes promovida pelo Instituto Animale, uma ONG que
trabalha com resgate de animais.
No dia marcado, 12 fofuras de uns 60 dias e de duas
ninhadas diferentes fizeram a alegria dos alunos. Teve até
gente que, diante dos desafios impostos por movimentos como a “posição
da árvore” ou a do “cachorro olhando para baixo”,
preferiu usar os filhotinhos bagunceiros como desculpa para cabular
a aula.
É uma bela tática para incentivar a adoção
e arrecadar fundos para a ONG. No fim, todo mundo fica feliz. Ops,
eu disse feliz? Sim! A soma de todas as experiências mudou alguma
coisa em mim: sair da zona de conforto e experimentar coisas novas
me deram um banho de otimismo necessário para este fim de ano.
E você, vai arriscar? Vai que encontra a felicidade no meio
do caminho.
Quer experimentar? As aulas de yoga com filhotes são divulgadas
no @instituto.animale, no Instagram, e outras ONGs de resgate de animais
também fazem eventos do tipo periodicamente.

Aula de yoga com filhotes promovida pela ONG
Instituto Animale: oportunidade para 'amassar' uns cachorrinhos
Foto: Ana Carolina Sacoman/Estadão