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18/01/2026

 

 

O jornal Estado de São Paulo publicou reportagem sobre a busca da felicidade no dia-a-dia


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por Ana Carolina Sacoman

 

Passei um mês em busca da felicidade. O que aprendi no caminho - e que você pode usar na sua vida

Ela pode ser confundida com euforia e não significa uma vida livre de tristezas, mas o que ‘dispara’ a felicidade na gente? Fui atrás de especialistas e de experiências para descobrir

 

O que é felicidade para você? Para alguns, ela significa uma vida livre de doenças e tristezas. Outros acham que basta um respiro no meio do dia para que ela chegue sem avisar. Há os que juram se tratar de uma questão de fé, outros de euforia contínua, e gente que acha que é tão somente uma imposição dos nossos tempos turbinada pelas redes sociais. Para mim, o conceito sempre esteve ligado a cachorros. Sim, cachorros.

Sempre achei incrível como eles são capazes de sumir com os aborrecimentos do dia a dia em segundos, encher uma casa de caos e alegria e, no meu caso, trazer uma espécie de serenidade que gosto de chamar de meu “mood zen”. Conversando com a Monja Coen sobre o assunto (ela tem cachorros também, mas o papo foi sobre felicidade), cheguei à conclusão de que é o mesmo sentimento que ela chama de “contentamento com a existência”. Profundo, né?


Dopamine Land, exposição imersiva em SP que tem como objetivo soltar a criança interior
que mora dentro de todo adulto Foto: Tiago Queiroz/Estadão

“A felicidade não é um estado permanente de euforia — as pessoas confundem euforia e alegria com felicidade. É um contentamento com a existência. Buda dizia: a pessoa que conhece o contentamento é feliz mesmo dormindo no chão. Quem não conhece o contentamento é infeliz num palácio celestial”, afirma ela e continua: “E o que é esse contentamento com a existência? Não significa que está tudo bem o tempo todo nem que as coisas e as pessoas são como eu imaginei que fossem, mas que sou capaz de lidar com aquilo que está acontecendo de forma mais sábia”.

Para isso, diz a Monja Coen, ajuda muito se você se conhecer. “Conhecer nossas emoções e nossos sentimentos é importante, não para controlá-los, mas para saber como eu respondo ao mundo. Se alguém fecha meu carro na rua, posso ficar muito brava, mostrar um dedo, xingar e buzinar. Mas também posso pensar: ‘O que será que aconteceu com essa pessoa?’ e ‘que bom que consegui desviar o carro, não bati’. Então, temos de saber como respondemos às provocações do mundo”, afirma.




Estado de bem-estar e felicidade inclui também o mal-estar e a tristeza, afirma a escritora e palestrante.

 

E nesse mundo caótico com constantes fechadas no trânsito, literais ou não, está bem claro que felicidade não é a ausência da tristeza — pelo contrário, ela faz parte do processo, ou seja, da vida. Quem explica direitinho é o historiador Leandro Karnal, colunista do Estadão.

“Impossível (uma vida livre de tristeza). Vamos começar por um absurdo: você atingiu, por um meio mágico, a imortalidade. Sua saúde e juventude serão eternas. Perfeito? Todos que você ama morrerão e você verá todas as pessoas ao seu redor decaindo. Você acaba de se tornar o homem mais rico do universo. Pode comprar tudo. Bom? O dinheiro sem dificuldade e compra sem restrição têm um limite de recompensa. Desaparece a alegria da conquista e você repete (Arthur) Schopenhauer (filósofo alemão): oscilação entre o desejo e o tédio por possuir. A felicidade diz respeito a lidar com a contingência e a falta. A alegria da happy hour existe pelo diálogo com as outras ‘hours’. O mesmo vale para férias, saúde, comida, sexo: a falta dimensiona a alegria da conquista.”

E por que, então, algumas pessoas parecem mais felizes do que outras? Há algumas explicações, especialmente na ciência, mas eu gostei de como Karnal definiu a coisa: “Há muitos fatores. Por vezes, história e geografia: é mais fácil ser feliz no Butão e na Dinamarca de 2025 do que na Faixa de Gaza. Por vezes, características psíquicas: há pessoas com depressão forte e isso foge ao controle delas. Tirando os casos extremos, a felicidade é uma espécie de bonsai de cultivo constante, e isso é mais complexo do que entregar-se à infelicidade. Existe um outro fator: quando alguém se diz mais feliz, especialmente nas redes, pode ser um narrador melhor do que outro, e não necessariamente alguém mais feliz. A pergunta parece indicar comparação, e comparar-se é o atalho mais eficaz para a infelicidade.”

Captou? Pare de se comparar, especialmente no mundo virtual, onde quase nada é o que parece.

 


Neurotransmissores

E a ciência nisso tudo? Bom, ela explica que a sensação de felicidade passa por um complexo sistema cerebral de sinapses químicas, que tem seus gatilhos em neurotransmissores não exatamente desconhecidos de todos nós. Dopamina, serotonina, endorfina e ocitocina atuam como guerreiros dentro do nosso corpo, prontos para disparar sinais de felicidade.

Entre os quatro, a dopamina talvez seja a mais conhecida. Associada à motivação e à satisfação, ela tem relação direta com a sensação de prazer e recompensa – é quem acende a expectativa antes de um objetivo ser alcançado. Nas palavras do neurocirurgião e neurocientista Fernando Gomes: um curinga.

“A dopamina tem essa questão do circuito de recompensa cerebral preponderante. Ela, de fato, tem relação direta com a motivação, de buscar algo que te traga perto da felicidade”, diz. Além disso, segundo o médico, ela está envolvida no rolê dos outros neurotransmissores. “Quando faço uma corrida de rua, com um tempo legal, ganho uma medalha, vem a dopamina junto com a endorfina. Ela está sempre envolvida.”

 


Nas relações interpessoais está a possibilidade de sentir e perceber a felicidade, diz Fernando Gomes.


Já que falamos da endorfina, a queridinha dos atletas é liberada durante a prática de atividades físicas e atua como um analgésico natural, diminuindo a percepção de dor e gerando, de novo, sensação de prazer e satisfação. “Por exemplo, um jogador de futebol, que joga a partida inteira, sofre uma lesão e continua jogando. O dito popular fala que ele está com o ‘corpo quente’, mas na verdade está com o circuito que tem relação com a nossa percepção de dor inundado de endorfina. É como se ele não sentisse a lesão”, afirma Gomes.

A serotonina, por sua vez, está ligada à estabilidade do humor. Em níveis baixos, pode ser associada a quadros de depressão e ansiedade. “Quando você está com a serotonina bem, estável, é mais fácil escolher a opção mais otimista, menos negativa, mas não menos realista, de uma situação”, diz o médico Fernando Gomes, que é também professor livre-docente da FMUSP. Dar boas risadas pode ser um caminho para aumentar a sua.

E a ocitocina? Essa tem a ver com afeto e interação social e é liberada em momentos de carinho. “O toque físico é algo que faz com que esse neurotransmissor tenha chance de ser liberado e usado como estimulante bioquímico da formação de vínculo”, afirma Gomes. Ela está relacionada também à maternidade.

 

Interação social é o caminho

Agora, sabe o que amarra tudo isso que falamos acima? Interação social. Estudo publicado em agosto deste ano na revista Social Psychological and Personality Science mostrou que as pessoas relataram ser mais felizes fazendo praticamente qualquer coisa com outros indivíduos do que sozinhas. Foram analisados 80 tipos diferentes de atividades, como fazer compras e correr, e os benefícios da coletividade foram verificados até mesmo naquelas que as pessoas costumam fazer sozinhas, como ler e fazer artesanato.

“Às vezes é chato mesmo a gente sair da nossa zona de conforto, ir até as pessoas e então se relacionar de uma forma mais aberta para permitir, através do toque, a (liberação da) ocitocina, da troca de presentes e da troca de presença, a liberação da dopamina. Talvez fazer uma coisa bacana junto, ver um filme ou dançar uma noite inteira, ter ali a endorfina sendo liberada. Ou até mesmo dar boas risadas e ter o nosso nível de serotonina elevado, para a gente ter a sensação de pertencimento”, pontua o médico Fernando Gomes.

E é possível construir a felicidade? Para Gustavo Arns, especialista no estudo da felicidade no Brasil e criador do Congresso Internacional da Felicidade, que acontece há 8 anos em Curitiba, a resposta é simples: sim. Ele recorre ao professor Tal Ben-Shahar, da Universidade Harvard, para explicar que ela pode ser uma combinação de bem-estar físico, emocional, intelectual, relacional e espiritual.

“Quando cuidamos de cada um desses componentes, fazemos a construção da felicidade. Para isso, hábitos e comportamentos podem ajudar, como a prática de exercícios físicos, cuidados com o sono, gerenciamento do estresse. São comportamentos muito importantes para a construção desse estado (de felicidade)”, afirma.

Dito isso, resolvi passar um mês procurando a felicidade nos lugares mais insuspeitos. Conto abaixo o que encontrei pelo caminho.

 

O mundo da dopamina

Se a dopamina é a “chefona” dos neurotransmissores, é por ela que vamos começar. Para isso, fui parar no Dopamine Land, uma exposição interativa que tem como objetivo soltar a criança interior que mora dentro de todo adulto e deixar as crianças de verdade enlouquecidas — e sem telas por perto.

A visita, de mais ou menos uma hora, segue um roteiro que começa com brincadeiras infantis, como rabiscar paredes ou perseguir balões em uma espécie de túnel de vento. Para os pequenos, salas como a Toca Tátil, que estimula a curiosidade multissensorial, são um convite para rolar pelo chão e se agarrar a paredes fofinhas que estão lá pra isso mesmo.

A energia sobe nas salas seguintes — são nove no total —, com destaque para a Laguna Pôr do Sol, uma piscina de bolinhas gigante e muito divertida, com cenário e iluminação que lembram uma praia no fim do dia. Prato cheio para um monte de selfies.

 

Dopamine Land


Sala impressiona com show de luz, espelhos e som na Dopamine Land,
exposição imersiva em SP Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Segundo Matheos Cunha Cyrino, gerente de projetos da Fever, que montou a exposição aqui no Brasil, a experiência foi pensada para que o nível de energia aumentasse ao longo do passeio, até atingir o ápice na Arena das Almofadas, minha sala preferida, onde gente séria vira criança fazendo guerra de travesseiros numa cama elástica gigante.

A partir daí, a ideia é começar a acalmar o visitante, com espaços pensados para o relaxamento, culminando na última sala, uma lindíssima experiência contemplativa de luz, espelhos e som. Como eu saí de lá? Com uma mistura de entusiasmo e encantamento.

Quer experimentar? A Dopamine Land está montada no Shopping Eldorado, do lado da praça de alimentação. Ela ficará aberta até agosto de 2026. Ingressos e informações:
https://dopaminelandexperience.com/sao-paulo/


Tênis no pé, medalha no peito, endorfina no corpo

Próxima experiência: colocar a endorfina para agir. Como ela é liberada durante a prática de atividades físicas, especialmente as aeróbicas, nada melhor do que uma corrida para ver a mágica acontecer.

Motivada pela reportagem, me inscrevi logo em três provas de rua em dez dias, em locais diferentes de São Paulo. Atletas experientes costumam reportar o fenômeno conhecido como “runner’s high”, ou o “barato do corredor”, um estado de prazer e clareza mental após percorrer longas distâncias e fazer muito esforço físico. É, em outras palavras, a endorfina agindo a milhão.

Não foi meu caso, já que o esforço foi moderado e na última corrida eu queria mesmo era desistir de tudo. Mas a sensação boa de dever cumprido está comigo toda vez que olho minhas medalhas penduradas em um lugar estratégico lá em casa.


Atletas experientes costumam reportar o fenômeno conhecido como 'runner’s high', ou o 'barato do corredor'.
Na foto, corrida da Mulher-Maravilha, no centro de SP Foto: Ana Carolina Sacoman/Estadão

As mil e uma utilidades da meditação
 
Todo mundo que eu ouvi para esta reportagem falou sem pestanejar: a meditação é importante nesse processo todo de modular o humor e equilibrar o cérebro. Nada mais natural, então, do que experimentar uma aula.

Procurei a Juliana Brescovici Carvalhaes, professora no Instituto Nacional de Meditação. Além de uma aula de meditação guiada maravilhosa, ela explicou o que acontece com a gente quando meditamos. Em resumo: ativamos o que presta e desativamos o que não agrega ao nosso cérebro.

“Na hora que você sai da meditação, o que está acontecendo? Atenção, foco, criatividade, memória, tudo está bombando. Quando você medita, ativa a serotonina, a dopamina, a ocitocina e a prolactina. É como se você mandasse uma cascata de informações para o seu sistema nervoso central, de que está tudo bem, que você está em segurança, por causa da prolactina; que está sentindo prazer, por causa da dopamina; que está feliz, por causa da serotonina; e que você está confortável, por causa da ocitocina”, conta Juliana. “O que era urgente deixou de ser. Estudos mostram que você reduz em 30% o cortisol, que é o ‘hormônio do estresse’, após a meditação.”

Então, quer dizer que você não vai se estressar mais? Não é bem assim, segundo ela. “Você ainda vai se estressar, mas, depois, vai voltar para o modo de equilíbrio. Você treina o seu cérebro para entrar no estresse e voltar para o repouso.”

Minha experiência? Foi relaxante, mas ficou claro que é uma atividade que precisa de alguma prática constante para ver resultados mais concretos. Ainda assim, vale a pena.
Quer experimentar? Vá lá em https://institutodemeditacao.com.br/ ou no Instagram: @meditacaoinm



Escolha o seu mantra
A advogada Andrea Sucupira (à dir.) faz aula de meditação com sua mentora, Juliana Brescovici Carvalhaes.
Foto: Daniel Teixeira/Estadão

 

E voltamos aos cachorrinhos

A ocitocina é liberada em momentos de carinho e afeto, o que para mim significa “amassar” alguns cãezinhos fofos. Com isso em mente, me inscrevi em uma aula de yoga com filhotes promovida pelo Instituto Animale, uma ONG que trabalha com resgate de animais.

No dia marcado, 12 fofuras de uns 60 dias e de duas ninhadas diferentes fizeram a alegria dos alunos. Teve até gente que, diante dos desafios impostos por movimentos como a “posição da árvore” ou a do “cachorro olhando para baixo”, preferiu usar os filhotinhos bagunceiros como desculpa para cabular a aula.

É uma bela tática para incentivar a adoção e arrecadar fundos para a ONG. No fim, todo mundo fica feliz. Ops, eu disse feliz? Sim! A soma de todas as experiências mudou alguma coisa em mim: sair da zona de conforto e experimentar coisas novas me deram um banho de otimismo necessário para este fim de ano.

E você, vai arriscar? Vai que encontra a felicidade no meio do caminho.

Quer experimentar? As aulas de yoga com filhotes são divulgadas no @instituto.animale, no Instagram, e outras ONGs de resgate de animais também fazem eventos do tipo periodicamente.

 


Aula de yoga com filhotes promovida pela ONG Instituto Animale: oportunidade para 'amassar' uns cachorrinhos
Foto: Ana Carolina Sacoman/Estadão

 

 

 

Fonte: https://www.estadao.com.br/150-anos/viver-em-transformacao/passei-um-mes-em-busca-da-felicidade-o-que-aprendi-no-caminho-e-que-voce-pode-usar-na-sua-vida/

 

 

 

 

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